segunda-feira, 21 de maio de 2007

Para que servem as tragédias

Todo negócio tem seu risco, mas quando um Boeing 737, de 70 toneladas, irrompe pela janela como uma bola de fogo matando 66 de um total de 171 funcionários, você só pode lamentar as perdas, emitir um comunicado ao mercado e recolher-se à tristeza de ver sua empresa ser varrida do mapa em questão de segundos. Na manhã de 11 de setembro de 2001, Jimmy Dunne III, então com 45 anos, um dos sócios da Sandler O'Neill & Partners, estava participando de um torneio de golfe para amadores quando soube da tragédia ocorrida no escritório no 104º andar do World Trade Center, que também matou seus outros dois sócios. Embora poucos acreditassem que Jimmy faria qualquer coisa a não ser encaçapar mais uma bola de golfe, o sócio remanescente nem esperou a fumaça se dissipar para avisar às famílias das vítimas que a firma de investimentos, criada em 1988, iria cuidar de todos eles, de uma forma ou de outra e para sempre. Ele não só continuou a pagar salários, bônus e comissões como se eles estivessem vivos, como ainda criou uma fundação, a SandlerO'Neill Family, para pagar pela educação de todos os filhos dos empregados mortos no WTC. Mais ainda, conseguiu assistência psicológica para todos os familiares dos mortos. Quando viram a generosidade da Sandler O'Neill, antigos e novos clientes despejaram novos negócios na firma. Mesmo a concorrência deu uma mãozinha. Os empregados (inclusive os 17 que conseguiram escapar pelas escadas do prédio) se sentiram energizados e motivados. Hoje, a firma de investimentos está fazendo mais sucesso do que nunca. A história de Jimmy Dunne III é um dos exemplos de liderança citados pelo ítalo-americano Lee Iacocca, o homem que lançou o Ford Mustang, salvou a Chrysler, reformou a Estátua da Liberdade e hoje, com seus milhões de dólares, tenta descobrir a cura do diabetes. Iacocca, um dos maiores ícones empresariais americanos, octogenário e fumante de charutos cubanos, novamente está provocando polêmica com Where Have All The Leaders Gone, hoje na lista dos mais vendidos do The New York Times. O livro, que a exemplo de sua biografia (sete milhões de exemplares vendidos) é simples, direto e gostoso de ler, não é nada mais do que a indagação para onde foram todos os líderes. Fica difícil concluir, como na história do ovo e da galinha, se líderes são forjados na adversidade ou se nascem por aí num belo dia de sol, quando tudo parece torcer para que a gente faça sucesso. O próprio Iacocca é tido como o homem que recuperou a indústria automobilística norte-americana ante a ameaça dos carros japoneses na década de 80, fato que agora parece se repetir como a Toyota passando a General Motors como maior fabricante de automóveis do mundo. Seu amigo Rudy Giuliani, que estava mal nas pesquisas de opinião quando entregou a prefeitura de Nova York ao também republicano Michael Bloomberg, tornou-se um dos líderes mais populares dos Estados Unidos quando chamou a si a responsabilidade pela reconstrução da cidade, a ponto de torná-lo o principal candidato republicano à sucessão de George W. Bush. Em seu primeiro mandato, Bush chegou a improváveis 94% de aprovação nos dias que se seguiram aos 11 de Setembro, tornando-se depois um homem angustiado e obcecado pela defesa do país contra novos ataques terroristas, inventando guerras e rasgando a Constituição, especialmente na proteção da privacidade dos cidadãos. Como o povo tem memória curta, sua popularidade hoje é a menor que um presidente norte-americano obteve no pós-guerra, só inferior ao humilhado democrata Jimmy Carter ao final do seu governo no início dos anos 80. O livro de Iacocca é um convite à reação, mas quando a economia norte-americana bate recordes sucessivos de expansão, apesar da dívida de US$ 8,8 trilhões e dos empregos estarem migrando para a China, Vietnã e Índia, fica difícil sair da zona de conforto, tornar-se um líder e ir à luta. É próprio do ser humano. Infelizmente, e na maioria das vezes, é preciso de uma tragédia para detonar o espírito de liderança que existe em cada um de nós.
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