segunda-feira, 16 de julho de 2007

México: decifra-me ou te devoro

Atravessar a fronteira do Rio Grande e chegar ao México é como entrar, aos poucos, num filme de Zorro. Não temos mais Don Diego de La Vega se travestindo de cavaleiro vingador e tantos outros personagens que revelavam, ainda no século 19, uma Alta Califórnia quente, modorrenta, desértica, cristã e ao mesmo tempo cheia de injustiças – algo que os ricos irmãos de norte utilizavam como antítese do que não queriam ser - tanto que acabaram incorporando à força este território aos Estados Unidos.
O México continua sendo pobre por estar tão perto dos Estados Unidos e tão longe de Deus, como diz a lenda, mas o que o país está fazendo, mesmo sendo viciado em petróleo, turismo e remessas dos emigrantes mexicanos que pularam a cerca e foram morar acima do Rio Grande – itens que perfazem mais de 60% da renda nacional– é de dar inveja a países que competem com a maior nação de língua espanhola do mundo no comércio internacional.
Mesmo mergulhado na corrupção, num sistema político arcaico, frágil e ineficiente e nas origens do seu povo (a maioria da população é mestiça entre os usurpadores espanhóis e os resignados índios), o PIB chegou a US$ 1,1 trilhão ano passado (12º no mundo em poder de compra), a renda per capta a US$ 11,2 mil (duas vezes a brasileira), e seus habitantes (109 milhões no último senso) vivem, segundo a ONU, um pouquinho pior do que nós no índice de desenvolvimento humano.
A música é, na maioria das vezes, insuportável (uma espécie de torneio de cornetas histriônicas), a comida é uma mistura de qualquer coisa com tortilhas e pimenta, e a área de serviços não tem pressa nenhuma em atender os fregueses, algo muito parecido com os nossos baianos, que segundo se diz só entram em pânico no dia seguinte.
É um povo melancólico, acomodado, de pouco riso, que só demonstra o orgulho nacional quando a seleção, que não fez feio na Copa América, está jogando. Mas, em compensação, tirando a máfia do narcotráfico e os coiotes da fronteira, não é violento, não seqüestra os filhos da classe média e trata bem o turista, pelo menos os estrangeiros.
O México faliu em 1994 (como o Brasil, foi socorrido na última hora por então presidente americano Bill Clinton), e por isto mesmo foi obrigado a fazer a lição de casa. Hoje, é uma economia moderna e diversificada que fez o óbvio para estar onde está: abriu os portos a mais de 40 nações, principalmente com os Estados Unidos e Canadá (destino de 90% do seu comércio), Europa, Japão, Israel e países vizinhos da América Central. Praticamente todo o seu comércio externo se faz debaixo do guarda-chuva de acordos internacionais.
Ao abrir os portos, reduziu a chamada pobreza extrema de 24,2% para 17,6% de 2000 a 2004, cresceu a uma taxa média de 5,1% de 1995 a 2002 e, como nós, manteve a inflação em níveis civilizados, algo em torno de 3,3%, reduzindo o débito externo a 20% do PIB. Hoje, o México divide com o Chile a melhor classificação de crédito entre todos os países da América Latina.
Mas o que impressiona mesmo é o desempenho do presidente Felipe Calderón. Quase impossibilitado de assumir o poder exatamente há um ano diante dos protestos do candidato de esquerda, Andrés Manuel López Obrador, Calderón aproveita sua popularidade (65%) para trabalhar: em apenas duas semanas, conseguiu a aprovação da reforma da previdência do país e agora aprovará a reforma fiscal, fazendo com que os mexicanos que trabalham debaixo do pano venham à luz. Calcula-se que a reforma vai aumentar a coleta dos impostos em pelo menos 3% do Produto Interno Bruto.
Calderón fez da guerra contra o crime e o tráfego de drogas o centro da sua administração. Logo que assumiu o poder mandou 24 mil soldados para as regiões produtoras de drogas para manter a paz. A tacada tornou-se bastante popular, o que lhe possibilitou limpar a polícia federal mexicana e dar cursos de treinamento para mais de 1 mil oficiais. O que fez mais sucesso, no entanto, foi a obrigação de revistar as mochilas dos alunos quando entram e saem das escolas.
O México descobriu há tempo que o comércio internacional é uma espécie de panacéia para os males que afligiram esta nação desde que foi fundada. Modesta e consistentemente, sem falso nacionalismo, xenofobia ou as chamadas perdas internacionais (como dizia Leonel Brizola), está trabalhando para conquistar seu lugar ao sol.
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