segunda-feira, 17 de setembro de 2007

AS AVENTURAS DE STEPHEN FOSSETT

Até sexta-feira passada, quando escrevi este artigo, não sabíamos se tínhamos perdido ou não o maior aventureiro de todos os tempos, James Stephen Fossett, 63 anos, o milionário norte-americano que no ar, na água ou na terra estabeleceu 116 recordes mundiais, 76 deles ainda não batidos por ninguém.
Fossett, que já rodou o mundo num balão, atravessou o Canal da Mancha nadando, subiu seis dos mais altos picos da Terra e fez fortuna com a firma de investimentos Marathon Securities, simplesmente barberou no comando do seu avião, o Bellanca Citabria Super Decathlon, e, presumivelmente, espatifou-se nas montanhas do deserto de Nevada, no sudoeste norte-americano, no dia três de setembro.
Por ser famoso, e rico, mais de 17 aviões e helicópteros (e praticamente todas as redes de TV) procuraram por Fossett por mais de duas semanas por cerca de 26 mil quilômetros quadrados, algo semelhante, segundo um piloto, a localizar um pedaço de lata na Quinta Avenida do alto do Empire Estate Buiding, em Nova York.
Pelo mesmo motivo, e pela primeira vez que se tem notícia, os dois maiores líderes de buscas na Internet, Google e Yahoo, se dispuseram a utilizar seu rastreamento via satélite para, lá de cima, ajudarem a localizar Fossett e seu monoplano.
Coincidentemente, Fossett criou raízes em S. Louis, Missouri, onde há quase um século um grupo de investidores bancou o monoplano The Spirit of St. Louis, do herói Charles Lindbergh, que fez o primeiro vôo intercontinental em 1927 e depois teve seu filho seqüestrado e morto.
O mundo começou a prestar atenção em Fossett recentemente, quando depois de seis tentativas tornou-se o primeiro ser humano a viajar ao redor do mundo num balão. Ultrapassando Sir David Niven, do filme A Volta do Mundo em 80 Dias, demorou apenas 13 dias, 8 horas e 33 minutos.
Casado e sem filhos, Fossett é um dos poucos terrestres que podem ostentar a Medalha de Ouro da Federação Aeronáutica Internacional, FAI. Depois deste recorde, e não satisfeito, associou-se ao bilionário britânico Richard Branson para rodar novamente o mundo, desta vez dentro do Virgin Atlantic GlobalFlyer e em 67 horas. Como comandante, em 2004, deu a volta à Terra no catamarã Cheyenne em 58 dias e nove horas.
Boa parte das reportagens sobre Fossett, que nasceu numa pequena cidade do Tennessee, destacam dois aspectos: (1) o que faz um homem que depois de se aposentar dá uma de Deus, não sossega e bate 167 recordes mundiais? (2) como um aventureiro multifacetário como Fossett, capaz de subir os 9 mil metros do Himalaia ou atravessar do Canal da Mancha (34 quilômetros de Dover até o Cabo Griz-Nez) erra ao pilotar um avião que, como o Cessna, é considerado o Fusquinha dos ares?
Fossett desapareceu sem responder a estas perguntas, mas lendo sua autobiografia, “Chasing de Wind”, escrita em parceria com Will Hasley, lançada pela Virgin Publishing, surge um homem arredio, pouco afeto à mídia, escoteiro de alma e coração, que desde os 12 anos, quando nem sabia o que fazer da vida, já subia as mais altas montanhas da Califórnia. Uma personalidade bastante parecida com um dos poucos heróis que o Brasil tem, Amyr Klynk, o solitário paulistano que veio remando da África até a Bahia nos anos 80.
Fossett, como Klynk, ou o próprio Lindbergh, era, mais do aventureiro, um planejador nato, capaz de, como um jogo de xadrez ou no dia-a-dia de Wall Street, prever minuciosamente cada item de suas aventuras: preparo físico, técnica, equipamentos e mantimentos. Planejar, como muita gente sabe, é antecipar problemas, mas na manhã daquele três de setembro, Fossett, ao que parece, estava de folga e nem plano de vôo fez.
O avião decolou às 8:45 do campo de pouso conhecido como
Flying-M-Ranch, do também milionário Barron Hilton, dos Hotéis Hilton, em Nevada. Segundo a CNN, ele estava procurando por um lago adequado para bater outro recorde de velocidade.
As buscas começaram seis horas depois, já que Fossett não deu sinal de vida e sua aeronave tem apenas cinco horas de autonomia de vôo. O interessante é que não foram acionados os dispositivos de emergência para a localização do avião, que automaticamente são ligados quando o avião cai e bate no solo ou na água. Um mistério total.
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