sábado, 1 de novembro de 2008

Crise? Pergunte à mamãe




Seattle - Querem ler mais uma história sobre crise? Em 1929, meu avó, cujo nome eu herdei, era fazendeiro de café às margens do rio que, na década de 60, viria a se tornar o lago de Furnas, no Sul de Minas. Com a derrocada das bolsas, o café perdeu o preço e ele foi obrigado a dar a fazenda para um banco da região. Ele pegou a mulher e seis filhos e foi para a cidade, Fama, onde tornou-se comissário de café - ocupação com a qual sobreviveria até morrer. Pessoas que presenciaram aquela época, como minha mãe, morrem de saudade do que perderam e, mais ainda, do que viria a seguir.
Das histórias contadas de gerações em gerações, a imagem que fica é a de uma fazenda colonial, cheia de jardins (obra da minha avó), caixas d'água (obras do meu avô), cafezais a perder de vista, uma linha de trem que passava semanalmente entre o rio e a casa, naquela época a única ligação com aquele mundo desglobalizado, leite no pé da vaca, pães de queijo, pintinhos enfraquecidos perto do fogão de lenha, peru que morria na véspera e um casal de cachorros, Ramona e Caruso.
Ramona, alegre e festeira, recebia os visitantes com estardalhaço, latindo, pulando em cima das crianças e sujando os ternos de algodao dos visitantes. Caruso, um pouco atrás, como o príncipe consorte seguindo a futura rainha, tinha o paz do silêncio. Mas quando resolvia abrir a boca mordia cruelmente quem tivesse pela frente.
Os cães, que hoje deduzo serem representantes da raça Fila brasileiro, eram a proteção contra tudo: viajantes indesejados, cobradores, familiares aborrecidos, prenúncios de tempestades e tudo o mais. Além de alarme contra ladroes, matavam gambás, perseguiam gatos, ajudavam manusear o gado e, se não tivessem valia alguma, davam vida a fazenda.
Meu tio, por exemplo, relembra que, todos os dias, levava os dois cachorros para tocar o gado. Lá no pasto, bastava gritar Ramona, Caruso, para os animais, em fila indiana, voltarem para o retiro de leite. Um dia - "eu era apenas um menino" - ele se esqueceu de chamar os cachorros, foi sozinho até o pasto e gritou: Ramona, Caruso... e as vacas, sem pestanejar, voltaram na hora para o retiro. Talvez esta tenha sido a maior mentira que já escutei, mas como somos mineiros, todos nós a recontamos com orgulho.
Fazendeiros, como meu avós, são apegados à terra, e a tem como o bem maior, o mais sólido e o mais perene dos investimentos. Com o crack da bolsa, um espirro comparado às intrincadas e globalizadas crises de hoje, abandonaram tudo que tinham, fizeram as malas e foram para a, na época, importante (e estrategicamente localizada) Fama. Um dia, de tardinha, minha avó estava com as crianças (entre as quais a minha mãe) no alpendre e, lá longe, viu dois cachorros cansados, suados, no fim da rua. Vinham correndo, ofegantes, com a língua de fora, com a força que so a saudade traz. Minha avó sentou-se no chão, chamou a vizinhança e começou a chorar copiosamente. Eram Ramona e Caruso.

P.S. O banco ficou com a fazenda, mas a represa de Furnas colocou-a debaixo d'àgua para sempre.
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