quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Nada a temer, senão o próprio medo


Quando o democrata Franklin Delano Roosevelt, o FDR, o maior presidente americano, assumiu a Casa Branca em 1933, devolveu aos americanos a vontade de reagir e dar a volta por cima depois que o furacão de 1929 roubou 13 milhões de empregos, reduziu a produção industrial à metade, derrubou os preços das residências em 80% e ainda provocou a falência de cinco mil bancos.
Vendo o documentário FDR, que a TV pública americana (PBS ) acaba de distribuir gratuitamente pelo Itunes, dá para antever o que ocorrerá conosco nos próximos anos. Na crise de 29, no entanto, o maior problema não era a falta de emprego, a destruição de valor, a inflação ou a fome, mas sim a apatia. O povo estava cansado, desiludido, debilitado, sem forcas para reagir. No primeiro dia, na famosa Conversa ao Pé do Rádio, e com apenas um discurso, FDR trouxe a esperança de volta aos norte-americanos. "Não temos nada a temer, senão o próprio medo", disse.
O problema é que esperança não enchia e nem enche barriga. A depressão econômica durou ainda boa parte dos 12 anos dos quatro mandatos de Roosevelt, e só iria acabar depois que o governo despejasse meio trilhão de dólares em dezenas de programas sociais, regulasse a economia de tudo quanto é jeito, empregasse diretamente oito milhões de pessoas e, finalmente, entrasse na Segunda Guerra Mundial, mesmo contra a vontade da população e dos políticos.
Roosevelt teve que dobrar o Congresso para acabar com as seguidas moções que defendiam a neutralidade norte-americana. Sabia que nada melhor que guerras, conflitos ou batalhas para fomentar a economia, e bastou que a Marinha americana fosse destruída em Pearl Harbor para que convencesse a indústria do pais a produzir aviões, metralhadoras e granadas.
O esforço de guerra, que arrancou cerca de US$ 360 bilhões dos contribuintes, foi a coisa mais notável que se viu até então. As forças armadas americanas, dizem os historiadores, eram menores do que as da Suécia. Em apenas um ano, 1943, os Estados Unidos produziram cerca de 120 mil aviões de combate. A união em torno de um objetivo comum, acabar com Hitler, uniu de vez o país e construiu as bases do que viria a ser a maior potência militar (e econômica) do mundo.
Vitima da poliomielite e entrevado em cadeiras de rodas, condição que escondeu do povo durante todos os anos da Casa Branca, FDR é criticado até hoje por ter intervido na economia com mão de ferro. Keynesiano de carteirinha, sabia o custo da não intervenção. Mesmo nascido em berço de ouro, e extremamente à vontade na vida besta da alta sociedade de Nova York, era um esquerdista para os padrões norte-americanos. Governo-patrão, força para os sindicatos, salário mínimo e outras garantias para o povo trabalhador. Só não avançou mais ainda porque resistiu como pôde às exigências da mulher Eleonor Roosevelt, uma espécie de Lula que acreditava que o Estado, e não o mercado, resolve as diferenças sociais.
O legado de FDR, como as Nações Unidas e o Seguro Social norte-americano, persiste até hoje. Mesmo aleijado, mas dono de um irrefreável otimismo, simpatia e vigor politico, tirou os Estados Unidos da recessão, ganhou a Segunda Guerra e elevou o país à condição de superpotência. Ano passado, seu biógrafo Jean Eduard Smith escreveu: "FDR levantou-se da cadeira de rodas para erguer uma nação de joelhos".
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