segunda-feira, 6 de outubro de 2014

CONTEÚDO QUE TRANSFORMA

Reproduzido do Valor Econômico, 19/9/2014

Por Pedro Augusto Leite Costa, de Seattle.

Ainda não é imprensa do povo, pelo povo ou para o povo, como o presidente americano Abraham Lincoln se referiu à democracia no discurso de Gettysburg, ante um país destroçado pela Guerra Civil. Ou nem tão radical quanto o mundo idealizado por Karl Marx, para quem a primeira liberdade de imprensa consiste em não ser uma indústria. Mas o “ProPublica”, jornal eletrônico sem fins lucrativos que dá poder (e dinheiro) a duas dúzias de repórteres, não só incomoda governos, corporações e lobistas, como também revigora a própria mídia.
Desde 2008, quando começou a operar em Nova York com uma dotação inicial de US$ 10 milhões da Sandler Foundation, já ganhou dezenas de prêmios, inclusive dois Pulitzers, fez os leitores se arrepiarem com as histórias do furacão Katrina, estancou a prática de corromper médicos com presentes na indústria farmacêutica e pôs gente na cadeia com revelações sobre Wall Street. Foram os primeiros prêmios dessa importância a ser dados a um jornal que, como se diz aqui, não corta árvores para informar pessoas. Recentemente, o “ProPublica” anunciou que chegou a 90 parcerias na imprensa tradicional, a começar pelo maior de todos os jornais, o “New York Times”.
Segredo do sucesso? “Dar poder aos repórteres para decidir quanto tempo [e outros recursos] será necessário para investigar uma boa história”, diz Stephen Engelberg, o editor-chefe que fez carreira como repórter investigativo do “Times” (veja entrevista na pág. 26). “Mas o fundamental é que os nossos parâmetros de sucesso não são medidos pela audiência ou pela lucratividade e, sim, pelas transformações na sociedade que ajudamos a promover por meio da informação”, ressalta.
A onda do chamado conteúdo transformador, ou consequente, como se dizia nos anos 70, longe das celebridades e outras aberrações, já atinge pelo menos 170 jornais sem fins lucrativos nos Estados Unidos, geralmente financiados por organizações que não querem deixar o jornalismo morrer: o Centro Knight para o Jornalismo nas Américas, a MacArthur Foundation, o Pew Research Center, a Ford Foundation e a Carnegie Corporation of New York, entre outras. “Não somos a solução para o futuro do jornalismo tradicional, que está sobre um tremendo estresse, mas apenas uma parte do que se tornará esse setor no futuro”, afirma Engelberg.
Explosão de negócios
Organizações sem fins lucrativos na mídia americana remontam a 1846, quando foi fundada uma das maiores agências de notícias do mundo, a Associated Press, hoje com 3 mil jornalistas e 243 escritórios em 96 países. Há também outros exemplos de sucesso, como um dos melhores jornais americanos, “The Christian Science Monitor” ou a revista “Consumer Reports”, a bíblia da defesa do consumidor, o jornal de esquerda “Mother Jones” ou a PBS ou a NPR, as emissoras públicas de TV e rádio dos Estados Unidos, que funcionam basicamente com as doações da audiência. Apesar de sucesso, o jornalismo filantrópico ainda representa apenas 1% do faturamento da mídia no país.
O que se discute agora, no entanto, é se esse formato acabará se tornando majoritário no jornalismo americano, em que a publicidade caiu 49% nos últimos cinco anos, o que motivou a demissão de boa parte dos quase 100 mil jornalistas que atuavam no país, segundo a Newspaper Association of America. Um levantamento do Pew Research Center analisou as finanças, o tráfego on-line e a audiência entre 18 jornais sem fins lucrativos e descobriu que o faturamento está aumentando, os modelos de negócio estão se diversificando e a audiência está começando a crescer.
A receita com a publicidade nos jornais americanos é apenas 46% do que era há sete anos (embora o faturamento on-line esteja aumentando exponencialmente, com ênfase em mobilidade), os 150 mil jornalistas americanos foram reduzidos a 53 mil – o menor nível desde 1978 – e, segundo o Pew, os jornais estão perdendo leitores não somente por causa das redes sociais, mas pela baixa qualidade. A publicidade é ainda a grande fonte de receita (69%), enquanto crescem os meios pagos pela própria audiência (24%) e os meios filantrópicos ou investimentos de capitalistas de risco (1%).
Mais de 15% dos adultos americanos hoje consultam mídia sociais para se informar sobre praticamente tudo. E, mais ainda, segundo o American Press Institute, 69% acessam notícias em celular ou tablet. Ou seja, a solução (até agora, pois pode ainda mudar) é misturar a geração de notícias, mídias sociais e mobilidade em uma só plataforma, como tenta o jornal “The New York Times” em seu novo serviço, o NYT Now. Como compara o articulista da revista “Wired” Frank Rose, os smartphones estão trazendo uma era dourada para o jornalismo. “Se você andasse de metrô em Nova York há alguns anos, veria que os passageiros competiam na arte de dobrar os jornais várias vezes, de forma que não incomodassem outros passageiros. O jornal ficava do tamanho de um tablet – é o que estamos vendo hoje com a leitura de notícias nos celulares.”
Como indústria, a produção de notícias nos Estados Unidos gera US$ 65 bilhões por ano, segundo uma pesquisa do Pew Research Center. O mesmo instituto chama a atenção para a escala: só o Google, que afetou boa parte indústria jornalística com o Google News, gera US$ 58 bilhões ao ano. O setor tecnológico hoje tem tanto dinheiro que praticamente está transformando o meio (tablets, celulares e games, por exemplo) em mensagem. Daí a explosão de negócios, como a compra do “Washington Post” pelo bilionário Jeff Bezos, da Amazon, ou dos investimentos de outro bilionário, Pierre Omidyar, fundador da Ebay, no First Look Media, ou ainda a compra do “News Republic” por um terceiro bilionário, Chris Hughes, cofundador do Facebook.
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Os melhores serão os escolhidos
Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista com Stephen Engelberg, editor-chefe do “ProPublica”, jornal eletrônico sem fins lucrativos.
Qual é o segredo para ganhar tantos prêmios em tão poucos anos de vida?
Stephen Engelberg – Dar tempo, dinheiro e poder aos repórteres para decidir sobre os assuntos que querem investigar. Sabemos que boas reportagens exigem tempo de investigação, e isso pode demorar dias, meses ou anos. Um dos nossos Pulitzers foi ganho com a reportagem de Sheri Fink, que, também sendo médica com Ph.D., utilizou seus conhecimentos e contatos durante mais de um ano para investigar a história [“Escolhas mortais no Hospital Memorial”, sobre as decisões que muitos médicos tiveram que tomar sobre quem viveria ou não durante o furacão Katrina em 2009].
Qual é o salário dos seus jornalistas?
S.E. –Temos diferentes níveis, desde US$ 40 mil, US$ 50 mil por ano, até US$ 180 mil, US$ 190 mil para os profissionais mais experientes.
Como funciona o modelo de negócio?
S.E. –Basicamente, temos cerca de três mil doadores, que pagam desde US$ 5 até milhões de dólares anualmente. No início, recebemos US$ 10 milhões anuais da Sandler Foundation, mas agora estamos diminuindo essa dependência. Arrecadar dinheiro demanda muito tempo e muito esforço, mas o nosso sucesso ajuda nessa arrecadação. Temos também de tomar cuidado com as doações, pois não aceitamos que os doadores interfiram no nosso conteúdo. O certo é que gastamos US$ 0,85 do que recebemos naquilo que interessa: jornalismo de qualidade. Empresas tradicionais de mídia gastam somente US$ 0,15 em jornalismo.
O jornalismo do futuro será uma atividade sem fins lucrativos?
S.E. –Acho que estamos caminhando para um futuro no qual haverá uma mistura de jornalismo pago pela publicidade, e nesse ponto espero que o “The New York Times” continue fazendo o sucesso que sempre fez, e modelos como o nosso e ainda muitos outros. A competição é muito maior hoje do que quando comecei no jornalismo. E isso é ótimo. Vencerá quem tiver o melhor conteúdo.
Mas as redes sociais não estão matando o jornalismo?
S.E. –Veja o exemplo do Buzz Feed, que está fazendo um tremendo sucesso com a sua audiência on-line e está utilizando este dinheiro para investir em reportagens investigativas. Veja também o exemplo da Al-Jazeera, que está investindo milhões de dólares para conquistar a audiência americana. O futuro vai ser um pouco disso tudo, e isso é ótimo para a nossa democracia.
Como o senhor mede o sucesso do “ProPublica”?
S.E. –Sem dúvida não é pelo dinheiro que ganhamos ou pelo tamanho da nossa audiência, mas sim pelas mudanças que ajudamos a promover na sociedade. É o chamado jornalismo comprometido com as mudanças. No entanto, não fazemos campanhas, apenas reportagens. Temos leitores de todos os tipos, mas principalmente gente educada que exige maior nível de aprofundamento nas questões que levantamos.
Qual é a sua reportagem favorita no “ProPublica”?
S.E. –Não tenho favoritismo entre os filhos gerados aqui, mas tenho orgulho que muitos deles ajudaram a corrigir falhas no sistema americano de saúde, como nos casos de pagamentos das empresas farmacêuticas aos médicos ou na reportagem sobre os riscos associados ao remédio Tylenol.
Parte do sucesso de vocês se deve à intensa utilização de bancos de dados.
S.E. –Sim, utilizamos parte da nossa equipe para coletar dados que hoje em dia estão disponíveis na internet, mas pouca gente tem paciência de coletá-los e ordená-los em uma forma que seja palatável para o grande público.
Vocês estariam reinventando o jornalismo?
S.E. –Não temos a pretensão de reinventar o jornalismo, mas humildemente dizemos que, sem dúvida, somos parte dessa resposta.
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Pedro Augusto Leite Costa, para Valor Econômico, em Seattle
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