quinta-feira, 5 de abril de 2007

Além da morte e dos impostos

Além da morte e dos impostos, outra certeza que os americanos têm é a importância do respeito pela vida em sociedade, cujo palco cotidiano é o trânsito. Aqui, como atestam alguns manuais, o motorista nada mais é do que um ser humano vestido, temporariamente, de algumas latas que andam sobre rodas.
A placa de “pare” por exemplo, existe para o carro parar, e não para diminuir a marcha e olhar para o lado à procura de um carro inimigo que vai nos obrigar a, realmente, parar. Outro polêmico sinal, o amarelo, inventado em 1912 pelos próprios americanos e que até hoje não entendemos direito no Brasil, foi instituído para o condutor diminuir a velocidade e... parar. Não é para dar uma buzinadinha e acelerar, rezando para ninguém (incluindo o guarda) te ver.
Mas o território mais civilizado que existe é a faixa de pedestres, aquelas grossas linhas brancas feitas para quem deseja atravessar as ruas. Nos Estados Unidos, nós, bípedes, ali reinamos, como se tivéssemos um escudo invisível a nos proteger de outros bípedes vestido de imensas armaduras. Se você a atravessa, o carro espera. Você tem o direito de passagem, como se diz por aqui.
Foi por não me lembrar de que pedestre é ser humano, com mais direitos do que deveres, é que tomei bomba no exame de motorista logo que cheguei aos Estados Unidos. Nervoso, apreensivo, aflito, embora dirigisse desde que comecei a andar, fui derrotado fatalmente por uma pergunta boba, fundamental, mas rasteira e fulminante:
• Questão 9 – Se você está dirigindo, o sinal está aberto para você e um pedestre inicia a travessia pela faixa de pedestres, de quem é a preferência? Teclei a resposta no computador: EU. Afinal, o sinal abriu para mim e o pedestre tem de esperar pacientemente pela sua vez, certo? Errado.
O computador começou a apitar, ao mesmo tempo em que uma modorrenta instrutora se virou para mim com olhar de decepção, talvez me perdoando pelo fato de ser brasileiro, morar numa árvore no meio da floresta amazônica, comer com as mãos, “como é injusto esse mundo”, ainda desconhecer os princípios básicos de civilidade.
Fiquei duas semanas me lamentando, precisei pagar mais de US$20,00 e, por insistência da família, voltei de cabeça erguida para fazer o exame. Desta vez, embora tenha errado umas cinco questões e não ter conseguido fazer a baliza corretamente, saí vitorioso com a minha driver’s license – uma carteirinha branca, com foto, tipo sangüíneo e declaração de doação de órgãos, o que está para os americanos como, na biologia, o gene está para o DNA.
Quando os fatos mudam, dizia John Maynard Keynes, sua cabeça também precisa mudar. Nos Estados Unidos, considero-me o último bastião do respeito às leis de trânsito. Ser parado numa rodovia e abordado por um guarda, como se vê nos filmes, seria a suprema humilhação. Ser multado, então, e por qualquer razão, seria o fim.
Paro no sinal vermelho, espero pacientemente pelos pedestres atravessarem a rua (em qualquer situação), não saio cantando pneus ou tento dividir os espaços que não existem com outros carros.
Incrível, todo mundo aqui é assim. As pessoas não saem de casa para travar guerras no trânsito, descontar desejos reprimidos da infância nos outros motoristas, assustar com buzinas quem não reparou que você é uma pessoa ocupada, cheia de preocupações, repleta de tarefas, que não tem mesmo tempo a perder. Como naquele filme “Um dia de fúria”, com o excelente Michael Douglas.
Ainda não cheguei ao ponto de criar um ONG na área de trânsito, ou de ser um voluntário do Detran aqui. No entanto, hoje entendo que defender os pedestres é defender a si mesmo. Pode parecer uma preocupação exagerada de quem ainda tem tantos sinais verdes e vermelhos pela vida, mas o trânsito das cidades é a representação da nossa esquecida civilidade.
Dar passagem, seja a um pedestre ou a um outro carro apressadinho, faz bem. E é coisa que não custa nada. Contribui para a felicidade do mundo. Melhora o clima da sociedade. Deixa a gente mais feliz.

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