segunda-feira, 9 de março de 2015

NO MEIO DO DESERTO, UM OASIS VIRTUAL




Bem-vindos a Ephrata - população 7.663 habitantes,  uma cidade no meio do deserto norte-americano que navega na internet mais rápida do mundo a 44 dólares mensais.

Por Pedro Augusto Leite Costa, de Ephrata (originalmente publicado no Valor Econômico)
A última vez, e talvez a única, que o mundo percebeu que Ephrata existia foi quando um aposentado da Boeing chamado Jim Mccullar ganhou o segundo maior prêmio da loteria nos dos Estados Unidos: 380 milhões de dólares, em 2011, depois de comprar um tíquete no Safeway, na Basin Street, a única rua movimentada aqui. De lá para cá, esta modorrenta cidade, encravada no deserto que vai da Cordilheira do Pacífico até o Estado de Idaho, basicamente proporciona duas alegrias aos visitantes: quando eles chegam e quando eles saem.
Mas agora Ephrata, cujo nome é sinônimo de oásis, está virando celebridade. Segundo uma pesquisa da Gizmodo, os habitantes de Ephrata tem a internet mais rápida do mundo, 101,6 mbps, enquanto o resto dos Estados Unidos se conforma com 18.2 mbps, em média. Orgulhosa do seu clima seco e frio, além da proximidade do rio Columbia, que proporciona energia barata, qualidades essenciais para refrigeração de servidores, a cidade está abrigando datacenters gigantes (mais de nove), entre eles da Microsoft, Yahoo e Intuit e, acima, de tudo, a alegria da internet veloz para seus felizardos moradores e empresários.
É um mundo diferente, onde a vida passa devagar nas poucas ruas da cidade, mas incrivelmente rápida dentro das casas e escritórios. Os filmes são baixados instantaneamente no Netflix, os e-mails chegam e saem em centésimos de segundos, games são jogados sem interrupções e os canais a cabo deixam de fazer sentido. Segundo a pesquisa, Ephrata chega a ser mais rápida que a celebrada internet do Google, o Google Fiber, já em operação em Kansas City, Missouri, e outras cidades norte-americanas.  “Não era nossa intenção de termos a internet mais rápida dos Estados Unidos”, diz Chuck Allen, do Grant County Public Utilitity District, uma espécie de Eletropaulo privada da região, “apenas oferecer honestamente uma internet rápida para moradores e pequenas empresas daqui”.
Ephrata, assim, está fazendo história num país onde os cidadãos são vítimas da quase monopolização de provedores de internet. Basicamente, apenas os gigantes Comcast e Time Warner Cable provêm conexões decentes da chamada broadband, mas é um serviço caro e recordista de reclamações, além de sofrer críticas constantes do presidente Barack Obama por não levar a rede aos grotões norte-americanos.
A situação faz com que o país fique atrás de lugares com Singapura, Hong Kong e Coreia do Sul, que por algum tempo detiveram o título de internet mais rápida do mundo. Em lugares remotos no Arizona, onde há grande população indígena, a velocidade média da internet chega a ridículos 1,5 mbps, ainda pior do que o Brasil (velocidade média de 2,9 mbps).
Mas Ephrata, que tem seis escolas, uma estação de trem e um matutino, o Grant County Journal, é um oásis no mundo virtual. Aproveitando uma lei estadual que em 2.000 liberava os distribuidores de eletricidade a distribuírem também conexão rápida, a Eletropaulo do condado começou a construir por conta própria uma infra-estrutura ao custo de US$ 147 milhões.
O projeto, que exigiu dos usuários de eletricidade uma suplementação única de 100 dólares na conta mensal, gerou brigas e ranger de dentes, mas quando os internautas da cidade descobriram as maravilhas da internet de fibra ótica, esqueceram-se da antiga conexão discada, DSL, uma modalidade com velocidade de tartaruga que não deixará saudade entre os orgulhosos habitantes daqui.
O provedor de internet turbinada do condado, a iFiber, tem apenas 12 funcionários e oferece um serviço melhor do que gigantes como AT&T e Century Link e mais 14 outras que também disputam o mesmo mercado de conexões, mas com velocidade inferior. O mais antigo funcionário da IFiber, Alan Troupe, que já atravessou os 60 anos, é uma espécie de ligação entre Ephrata e o mundo. Além de ser o embaixador do Internet Service Provider (ISP), como eles chamam aqui, Troupe é também o porta voz do que acontece na cidade, coisa que, digamos, não absorve muito o seu tempo.
INTERNET É TUDO - Ainda não se avaliou cientificamente o efeito de uma internet super rápida em Ephrata (que custa 44 dólares por mês), mas basta dar uma chegada na cidade para constatar como a conexão turbinada trouxe melhor educação, melhores empregos e melhor renda.  Além da explosão de datacenters,  a região da cidade, o condado de Grant, foi também escolhida pela SGL (que faz peças de fibra de carbono para a BMW), a Red Silicon e muitas outras empresas cansadas de pagar pela ineficiência das empresas de internet.
Tal desenvolvimento, que espera-se não tire a paz do município, levou os empresários locais a investir no Porto (seco) de Ephrata, uma espécie de parque industrial junto ao campo de aviação da cidade, uma imensa área que foi utilizada pela Força Aérea como centro de treinamento durante a Segunda Guerra.  Guardadas as proporções, é o mesmo conceito do aerotrópolis, o aeroporto industrial para exportação concebido em países como Singapura e os Emirados Árabes, e agora em construção em Belo Horizonte.
A cidade, que agora está se acostumando a ser celebridade,  tornou-se também o pivô de uma antiga discussão entre democratas e republicanos nos Estados Unidos: deveria a internet ser provida e administrada pelas corporações, ou a rede mundial deveria ser uma utilidade pública, como água, esgoto e eletricidade, a exemplo do que a candidata Marta Suplicy apostou em sua reeleição para prefeita de São Paulo?
Para o vereador Kevin Danby, que também é do grupo de pressão Fiberactive, que tenta mostrar e defender os benefícios da internet rápida, a razão do sucesso de Ephrata é a união da comunidade em torno do projeto e, melhor ainda, a não interferência do governo.  “Aqui não existe almoço grátis, todos se uniram em torno do projeto e pagam pela conexão - a última coisa que precisamos aqui é o governo cuidando da internet”,  disse ele ao Valor.
O ex-professor Wes Crago, o administrador da cidade (sim, o prefeito eleito "terceirizou" a prefeitura),  diz já estar se habituando a ser o centro do noticiário. O povo de Ephrata, diz ele, já enfrentou com sucesso outras experiências semelhantes para resolver seus próprios problemas, como por exemplo da construção da Coulee Dam nos anos 30, a maior barragem americana, no rio Columbia (uma espécie de São Francisco dos Estados Unidos) que hoje fornece eletricidade e água para irrigação de mais de 2.700 quilômetros.
Do ponto de vista do governo, comenta Wes (diminutivo de Wesley), "tivemos grande ganhos de produtividade. Trabalhamos mais rápido, transferindo arquivos gigantescos e nos comunicando instantaneamente com vários departamentos, dentro dos nossos próprios servidores. O melhor foi a redução de funcionários públicos aqui na Prefeitura, já que nos tornamos mais eficientes. No futuro, certamente não seremos um novo Vale do Silício, mas estamos plantando as bases para que possamos atrair mais negócios"
Continua Wes: Parece que o mundo está caminhando hoje para a interconexão, e as cidades que não se ajustarem à esta nova realidade ficarão para trás. É mesmo fenômeno que a região viu nos anos 30 com a distribuição de eletricidade. "Uma das coisas que mais me chama a atenção é que a internet rápida proporciona a criação de negócios que jamais teríamos aqui, como a produção de noticiário local distribuído pela internet, diz ele.
Foi o que fez Kelly Ryan, que junto 64 pequenos investidores locais criou a Ifiber. Para aproveitar a capacidade instalada ("um dia vamos chegar a milhares de mbps", promete), Ryan criou nada menos do que um canal de televisão, o Channel 1, que já tem 230 mil telespectadores na TV e na Internet. "Falamos basicamente do que acontece aqui: pequenos crimes, esportes - minha paixão - e previsão do tempo", explica.
Ryan, que além de presidente e CEO é uma espécie de pau para toda obra na Ifiber, quer ficar longe de governo e, principalmente, dos reguladores. Seu inimigo número 1 é a Comcast, a maior empresa de broadband dos Estados Unidos, que utiliza as antigos fios de cobre da telefonia para levar internet e, ainda,  faz intenso lobby do Congresso para evitar que empresas com a Ifiber - que utilizam fibra ótica - proliferarem e, pela excelência da transmissão, tornem-se concorrentes.
Ephrata é o melhor exemplo do que a Federal Communications Agency, a agência reguladora dos Estados Unidos, quer proporcionar nos Estados Unidos: uma internet semelhante à rede elétrica, ou à rede de água e esgotos, que chega igualmente a todos os cidadãos, independentemente da utilização final. Foi o que declarou esta semana seu presidente, Tom Wheeler, que tem uma visão semelhante à de Casa Branca de Barak Obama.
INTERNET TURBINADA É TUDO DE BOM
A chegada da super internet à Ephrata High School, no início do milênio, transformou esta escola pública de 743 alunos em uma das melhores escolas públicas dos Estados Unidos. Este colégio de segundo grau de cidade já era famoso no futebol norte-americano, através Tigers, mas a conexão rápida mudou a vida de administradores, professores e principalmente dos alunos, que já chegam a utilizar 20% do tempo em frente ao computador.
Bem administrada, a escola acaba de comprar 457 chromebooks, o laptop de baixo custo (e sem disco rígido) para tornar o trabalho mais rápido. O fenômeno proporcionou aulas mais eficientes, deveres de casa mais rápidos e, principalmente, a experiência da colaboração. Através de aplicativos de trabalho conjunto, como o Google Docs, os alunos dividem as tarefas, fazem redações com dezenas de sugestões e, acima de tudo, aprendem a colaborar, diz a professora Sheila Massey, Teacher-Librarian/Media Specialist.
O trabalho mais difícil, segundo o diretor da escola, Daniel Martell, é fazer os alunos ficarem cientes do perigo dos cyber attacks e dos predadores e, mais ainda, aprenderem que a tecnologia foi criada para colaborar, e não apenas para proveito próprio, ‘assim como de resto todas as atividades da sociedade."
O que a internet rápida proporciona, denota o professor de Tecnologia Dane Lewman, é a agilidade de fazer as tarefas instantaneamente e ainda poder fazer a avaliação dos estudantes da mesma forma. Lewman, que deixou de ser diretor de uma startup para lecionar, diz que a Ephrata Hight School funciona na velocidade da iniciativa privada: "O caminho entre uma idéia e o resultado desta idéia, tanto na parte da aplicativos como na área de games, é cada vez mais curto", explica.
“O mais engraçado é que os estudantes não notam que a internet é fantástica, diz ele. Eles já nasceram com ela”



TÃO ESSENCIAL QUANTO O AR QUE RESPIRAMOS
A experiência de Ephrata mostra que a internet não chega a ser tão essencial quanto o oxigênio, mas está quase lá. Além do crescimento econômico e da geração de empregos, conexões rápidas permitem, por exemplo, que os sistemas de saúde transmitam instantaneamente imagens complexas, liguem pacientes e médicos via skype e, assim, remova barreiras geográficas para onde a medicina pode chegar.
Mas é na educação, o maior nivelador de oportunidades para todos que já existiu, é que a internet rápida multiplica infinitamente as possibilidades de aprendizado da população do século 21, desde o jardim de infância à pós graduação. É uma espécie de socialismo eletrônico. Hoje, milhões de estudantes norte-americanos em diferentes níveis estudam boa parte do tempo longe do campus das universidades. Unir professores e alunos em experiências cada vez mais virtuais exigirá a banda larga que cresça exponencialmente.
As pessoas hoje vivem cada vez mais. A internet também é fundamental para os aposentados terem uma vida independente, estando sempre em contato com médicos e familiares. Eliminando a necessidade de deslocamentos, a banda larga também tem um impacto tremendo no gasto de energia e na proteção do meio ambiente, pois as pessoas deixam de utilizar carros ou transportes públicos para trabalhar.
Nos Estados Unidos, a grande sensação da banda larga é o governo eletrônico e a participação cívica. Prefeituras de Nova York e San Francisco, por exemplo, estão fazendo sucesso com os serviços 311, especialmente via web, de contato direto com a população. Haverá um dia em que a democracia vai se tornar totalmente eletrônica, extinguindo-se o voto tradicional como conhecemos hoje e indo em direção a um “like” do Facebook.

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