sexta-feira, 1 de agosto de 2008

CONVERSA ANTES DA DECOLAGEM

Seattle - Não sei se tenho cara de confessionário, mas basta um ser humano sentar-se ao meu lado para a história começar. A última foi num banco do aeroporto de Atlanta, o maior do mundo, quando esperava a conexão para Seattle. Uma mulher na casa dos 50 anos, vestida de preto, chapéu de caubói e sapatos de lã, me disse que, num intervalo de seis meses, teve de mandar a filha autista para um hospício em Utah, perdeu 65 quilos, separou-se do marido depois que ele revelou que era gay e, como se não bastasse, começou a perder a força nas pernas, a ponto de não poder mais andar sem a ajuda de um andador.

Antes que tentasse balbuciar algum comentário ("escutar é um ato de amor", diz o ditado), emendou: “adoro mudanças (e como, pensei eu), mas o fato de não poder mais andar está surpreendendo não só a mim como aos médicos”. "Fiz testes de sangue, ressonância, cutucaram minha coluna e não descobriram nada". Mórmon (“da sétima geração”), filha de professores que rodavam o mundo ensinando inglês, a mulher não citou Deus nem o destino para explicar os mistérios que a estavam rondando. Pele pálida, cabelos desarranjados, olhos reluzentes, estava encantada, isto sim, com mistérios da medicina.

Antes da chamada para o embarque, ela retirou da bolsa um laptop e continuou falando. "Ganho a vida escrevendo (é redatora de publicidade) e ensinando os outros a escrever - meu último livro, não sei se você leu, chama-se "Como Escrever num Mundo Onde Ninguém Lê". Balancei a cabeça e coloquei a mão no queixo em sinal de concordância. "É um livro fácil de se ler porque é extremamente pequeno (imagino), tem poucas páginas (não diga) e letras extremamente grandes (melhor assim)".

Continuei em silêncio quando revelou que, apesar de norte-americana, era nascida no Irã, criada na Rússia, crescida no Afeganistão e, ainda adolescente, mudou-se para a Birmânia (ou outro país distante) junto com os pais e seis irmãos. Já em Seattle, apaixonou-se com um professor que dava aulas em Atlanta, para onde se mudou. Agora, estava voltando para Seattle, pois fora chamada para trabalhar num projeto legal.

Em Atlanta, teve dois filhos, o mais velho faixa preta de caratê, especialista em explosivos e que trabalha como double de cinema. A outra filha foi diagnosticada aos três meses de idade com autismo. "Não há nenhuma relação entre autismo e vacinas, como se diz por aí, tampouco que o autismo esteja crescendo como uma epidemia", diz ela. "O que está crescendo é a percepção entre as pessoas sobre a doença que ataca as ligações entre os neurônios do cérebro - entre dois e 3% da população do mundo é autista", explica.

Antes da decolagem, vi de longe a mulher ser acomodada no primeiro assento do avião. Num espaço de seis meses a vida tinha lhe dado diferentes e estupendas pancadas. O marido, a filha, o trabalho, a perda de 65 quilos e, agora as pernas. Durante o nosso encontro, e na única vez que falei, ousei perguntar-lhe se o problema nas pernas não seria uma somatizaçao de tudo que ela está passando. "Não existe relação", argumentou com voz forte e um pouco brava. "Amo meus filhos, adoro meu ex-marido, apesar de separados, adoro viver e sou extremamente feliz".

*Dirige a Cia. da Informação em Seattle, Estados Unidos (pedro@theinformationcompany.net)


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