sexta-feira, 3 de abril de 2015

Uma Viagem Fantástica

Solitário e excêntrico, o bilionário Paul Allen, co-fundador da Microsoft, está gastando meio bilhão de dólares para descobrir como a mente humana funciona.

Por Pedro Augusto Leite Costa, de Seattle



Semana que vem fará 15 anos que Paul Allen, o 51︒ homem mais rico do mundo, reuniu em seu mega-iate Octoplus, aqui na região de Seattle, a fina-flor dos cientistas especializados no cérebro humano, como James Watson, Steven Pinker e David Anderson.
Allen, que há 30 anos sofre do linfoma de não-Hodgkin's, viu sua mãe sucumbir durante décadas ao Alzheimer. Ávido leitor de ficção científica, e fã da utilização do computador na pesquisa científica, queria utilizar seu dinheiro para evitar que a humanidade, cada vez mais longeva, evitasse a decadência cada vez mais comum da degeneração mental.
Chegou-se a conclusão que, para dar uma acelerada às pesquisas que estão sendo feitas há mais de um século, seria necessário mapear tridimensionalmente os 86 bilhões de células que, através de trilhões de conexões, produzem risos, choros, amor, ódio, generosidade, egoísmo, fobias, traumas - e todas as outras reações que fazem de nós os animais mais complexos da Terra. Para apressar o trabalho, este mapa deveria estar disponível para a colaboração de todos os cientistas do mundo que trabalham no setor.
Hoje , Allen e os quase 500 físicos, matemáticos, neurobiologistas, engenheiros e cientistas da computação (pelo menos a metade com PHD) já apresentam vitórias para entendermos este microcomputador inserido em cada um de nós, uma máquina que trabalha 24 horas por dia, 7 dias por semana, e que geralmente depois dos 65 anos começa a degringolar.
Por exemplo, demanda mais tempo para acessar memórias, não controla eficientemente o balanceamento do corpo, demora a reagir quando solicitada, diminui a velocidade das ações, não se surpreende com as novidades e, principalmente,
tergiversa em torno de determinados assuntos - algo que, na linguagem dos computadores, é semelhante ao buffering.
Meio bilhão de dólares depois - Allen ainda tem mais 17 bilhões de dólares para gastar - o Allen Institute for Brain Science agora está nos estágios iniciais dos exames das conexões celebrais que ditam a vida e o nosso comportamento. "É um trabalho de extrema complexidade", diz Amy Bernard, diretora do Allen Institute, em entrevista ao Valor. "Se você está vendo uma pessoa limpar a janela externa do prédio", exemplifica, "é bem provável que você esteja prestando atenção na limpeza do vidro, enquanto a pessoa que limpa está prestando atenção em não cair do andaime - cada fato provoca diferente reações nos seres humanos".
Mas o mais interessante do Allen Institute é que trata-se de uma organização que, em caráter inédito, trabalha colaborativamente, e sem propósito financeiro (mais sem compromisso com o prejuízo, segundo seu presidente, David Poston) com 30 mil cientistas de todo o mundo para, quem sabe, tornar as doenças do cérebro - Parkinson, Alzheimer, autismo e, por conseguinte, a morte - reversível no futuro.
O esforço de Paul Allen e sua turma também gerou nos Estados Unidos - e em todo o mundo - uma corrida para desvendar os mistérios do cérebro. Logo depois de anunciar a meta de geral um catálogo completo de todos os tipos de células neurais nos ratos e no córtex cerebral humano, a União Europeia comprometeu-se com sua própria iniciativa no setor, enquanto o presidente Barack Obama anunciou o Brain Iniciative, um conjunto de investimentos entre os diversos institutos que estudam o cérebro, como o National Institute of Health, o Food and Drug Administration, o Howard Hughes Medical Institute e o próprio Allen Institute.
Colaboração universal aumenta velocidade da pesquisa.
Estudar e mapear o cérebro é uma paixão antiga dos cientistas. No início de década passada, por exemplo, o espanhol Santiago Ramón y Cajal, prêmio Nobel de Medicina de 1906, já desenhava células celebrais. Seu trabalho, reunido em mais de 100 artigos científicos, serve até hoje de base para pesquisas.
O que mudou no esforço para desvendar o cérebro foi a utilização desta máquina análoga, menos potente e burra, o computador, que com sua capacidade de
armazenamento de dados nas nuvens, o bigdata, foi capaz de reunir todo o gigantesco acervo de dados, distribuindo-o gratuitamente na rede.
Este avanço permitiu que o Allen Institute, por exemplo, reunisse até hoje cinco peta bytes de dados, ou o equivalente a 50 anos ininterruptas de vídeos de alta definição. Estes dados são baixados 20 mil a 180 mil vezes mensalmente por instituições que colaboram oficialmente com o Instituto (seis no Canadá, 24 nos Estados Unidos, cinco no Reino Unido e duas na Holanda), além de acessos remotos em países como o Brasil (que ocupa o 14 lugar no número de downloads) ou a Coréia do Sul.
Em menos de dois anos, já poderemos apresentar à comunidade científica resultados extraordinários, diz Bernard. Segundo ela, o mapeamento do cérebro aumentou exponencialmente a qualidade, a quantidade e a velocidade das pesquisas que tentam descobrir, atualmente, como se processam as conexões entre os quase 100 bilhões de células que compõem o cérebro humano. Veja aqui os resultados do Allen Institute:
Ratos: O Allen Mouse Brian Atlas, completado em 2006, é um mapa dos genomas do cérebro adulto do rato. O propósito é ajudar no desenvolvimento da pesquisa da neurociência, guiando os cientistas no entendimento doenças do cérebro e anomalias como autismo e depressão.
Seres Humanos: O Atlas Human Brain Atlas foi revelado em 2010. Foi o primeiro atlas a revelar anatômica e genômicamente, em três dimensões, o cérebro humano. O atlas foi criado para ajudar na pesquisa de várias áreas da neurociência, como as imagens do cérebro humano, genética, neuroanatomia e várias outras. O atlas gerou informações básicas para a cura do Alzheimer, autismo, esquizofrenia e vícios em geral, especialmente drogas.
Desenvolvimento do Cérebro do Rato: O Allen Developing Mouse Brain Atlas acompanha do desenvolvimento genético dos céRebros dos ratos, desde o nascimento até a vida adulta, através de imagens de ressonância magnética, medindo crescimento, espaços brancos e conectividade. O atlas auxilia os neurocientistas a estudar como os poluentes e mutações genéticas interferem no desenvolvimento do cérebro. Assim, os pesquisadores descobrem como as toxinas interferem na saúde das crianças e das mulheres grávidas.
Conectividade do Cérebro do Rato: Lançado em 2011, este atlas foca na identificação de circuitos neurais que governam o comportamento e as funções celebrais. Estes circuitos são responsáveis por funções como comportamento e percepção. Futuramente, ajudará no entendimento de como o cérebro trabalha e qual é a causa da doença de Parkinson e depressão.
Medula espinhal do Rato: Trata-se do primeiro mapa da espinha do rato jamais feita.
O objetivo deste atlas é curar danos na medula espinhal, doenças como Lou Gehring (autor e cientistas Stephen Hawking) e atrofias musculares. O projeto tem também doadores de associações de veteranos de guerra e fundações que ajudam na luta com a esclerose múltipla, uma das doenças mais comuns no Noroeste do Pacífico, onde está Seattle.
Compreender o cérebro é compreender a beleza da vida (Amy Bernard)
SOLITÁRIO, TRISTE, SOBREVIVENTE
Pessoas ricas, como dizia F. Scott Fitzgerald em o Grande Gatsby, são diferentes de você e de mim. Entre os bilionários mundiais, Paul Gardner Allen consegue ser mais diferente e enigmático. Colega de ginásio de Bill Gates, abandonou a Universidade de Washington e um emprego na Honeywell para fundar a Microsoft.
Sete anos depois, foi diagnosticado com linfoma. Saiu da empresa e, da noite para o dia, tornou-se um dos maiores bilionários do mundo - sétimo lugar na década passada, embora hoje esteja na 51 posição - não porque perdeu dinheiro, mas porque surgiram outros bilionários, especialmente na Ásia.
Embora tenha três mega iates, uma frota de Boeing 757, uma empresa de investimentos na construção civil - a Vulcan - que está praticamente reconstruindo Seattle, sua cidade natal, Allen vive sozinho enfurnado no computador, onde sofre como todos nós resolvendo problemas do Windows, que ele próprio criou.
Quando sai, é para torcer por um de seus três times que é proprietário, o Portland Trail Blazers (basquete), e o Seahawks (futebol americano), que comprou por US$ 288 milhões em 1997 e que hoje vale mais de US$ 1.33 bilhão, e ainda o Seattle Sounders (futebol). Quem assistiu ao Super Bowl em janeiro neste ano o viu sozinho, absorto e triste, na tribuna de honra do estádio.
Tamanho é ou não é documento?
Se tamanho do celebro fosse documento, uma vaca estaria hoje comendo a gente, e não o contrário, sugere a cientista Suzana Herculano-Houzel, do Instituto de Ciências Biomédicas do Rio de Janeiro. Nosso cérebro é três vezes menor do que os dos elefantes e nove vezes menor que os das baleias, mas, inexplicavelmente, três vezes maior do que os dos chipanzés (que chegam a ter um corpo três vezes maiores que o nosso),
O que nos diferencia efetivamente dos outros animais é que, dos quase 100 bilhões de neurônios que temos, pelo menos 16 bilhões estão localizados no córtex cerebral. Por isto, e ao contrário dos nossos vizinhos na Terra, temos a capacidade de planejar o futuro, aprender com os nossos erros e vasculhar o passado. Um elefante, por exemplo, só tem 4.6 bilhões de neurônios na mesma região. Um rato, 30 milhões.
Mas esta capacidade tem um preço. Embora o cérebro humano represente apenas dois por cento do corpo, consome 25% das 2 mil calorias que, em média, precisamos para sobreviver diariamente. Se não tivéssemos tal capacidade cognitiva, gastaríamos de oito a nove horas diárias caçando ou procurando alimentos cru para comermos.
Para Suzana, a utilização do fogo para pré-digerir os alimentos, em outras palavras cozinhar, nos liberou para termos mais tempo para pensar, agir e mudar o mundo. Mais ainda, pesquisar e descobrir como o nosso cérebro funciona.
Fotos/Ilustrações. Todas as imagens devem ser creditadas ao Allen Institute for Brain Science.
Here is a Dropbox link to 5 quality images.
1) Cerebelo humano - Fatia colorizada do cerebelo humano. O cerebelo, que em latim significa "pequeno cérebro", é uma região que desempenha um papel importante no controle motor.
2) Do cérebro do rato Conectividade - Visão em terceira dimensão das ligações originadas a partir de múltiplas áreas corticais distintas, visualizada com a utilização de software Allen Explorer.
3) Slides Cérebro Humano - Uma fatia do cérebro humano montada sobre uma lâmina de vidro para digitalização.
4) Conexões do cérebro do rato- Uma imagem fluorescente, mostrando conexões no cérebro do rato na área que registra o sentido do tato, antes da informação ser enviada para ser integrada e compreendida por outras regiões do cérebro.
5) Slides do cérebro do rato- A secção coronal de todo um cérebro do rato, que foi colorizado para delinear os limites anatômicos das diferentes regiões.
Robinson, também tiramos algums fotos da entrevista com a Amy.
Veja https://drive.google.com/folderview?id=0B9Xvw-pY_MRqfjZxSWp6V1ZJXzViVjZReGhIa3psUWlfRy1IUXRnajZCakJQN1N4OHFPNWM&usp=sharing_eid
Repare na foto do cerebelo......
VIAGEM FANTÁSTICA

Solitário e excêntrico, o bilionário Paul Allen, co-fundador da Microsoft,  está gastando meio bilhão de dólares para descobrir como a mente humana funciona.

Por Pedro Augusto Leite Costa, de Seattle

Semana que vem fará 15 anos que Paul Allen, o 51︒  homem mais rico do mundo, reuniu em seu mega-iate Octoplus, aqui na região de Seattle, a fina-flor dos cientistas especializados no cérebro humano, como James Watson, Steven Pinker e David Anderson.

Allen, que há 30 anos sofre do linfoma de não-Hodgkin's, viu sua mãe sucumbir durante décadas ao Alziemer. Ávido leitor de ficção científica, queria utilizar seu dinheiro para evitar que a humanidade, cada vez mais longeva, evitasse a decadência cada vez mais comum da degeneração mental.

Chegou-se a conclusão que, para dar uma acelerada às pesquisas que estão sendo feitas há mais de um século, seria necessário mapear tridimensionamente os 86 bilhões de células que, através de trilhões de conexões, produzem risos, choros, amor, ódio, generosidade, egoísmo, fobias, traumas - e todas as outras reações que fazem de nós os animais mais complexos da Terra. Mais ainda, este mapa deveria estar disponível para a colaboração de todos os cientistas do mundo que trabalham no setor.

Hoje , Allen e os quase 500 físicos, matemáticos, neubiologistas, engenheiros e cientistas da computação (pelo menos a metade com PHD) já apresentam vitórias para entendermos este micro-computador inserido em cada um de nós, uma máquina que trabalha 24 horas por dia, 7 dias por semana, e que geralmente depois dos 65 anos começa a desgringolar.

Por exemplo, demanda mais tempo para acessar memórias, não controla eficientemente o balanceamento do corpo, demora a reagir quando solicitada, diminui a velocidade das ações, não se surpreende com o novo e, principalmente, tigiversa em torno de determinados assuntos - algo que, na linguagem dos computadores, é semelhante ao buffering.

Meio bilhão de dólares depois  - Allen ainda tem mais 17 bilhões de dólares para gastar - o Allen Institute for Brain Science agora está nos estágios iniciais dos exames das conexões celebrais que ditam a vida. "É um trabalho de extrema complexidade", diz Amy Bernard, diretora do Allen Institute, em entrevista ao Valor. "Se você está vendo uma pessoa limpar a janela externa do prédio", exemplifica, "é bem provável que você esteja prestando atenção na limpeza, enquanto a pessoa que limpa está prestando atenção em não cair do andaime - cada fato provoca diferente reações nos seres humanos".

Mas o mais interessante do Allen Institute é que trata-se de uma organização que, em caráter inédito,  trabalha colaborativamente, e sem propósito financeiro (mais sem compromisso com o prejuízio, segundo seu presidente, David Poston)  com 30 mil cientistas de todo o mundo para, quem sabe, tornar as doenças do cérebro - parkinson, alzheimer, autismo e, por conseguinte, a morte - reversível no futuro.

O esforço de Paul Allen e sua turma também gerou nos Estados Unidos - e em todo o mundo - uma corrida para desvendar os mistérios do célebro. Logo depois de anunciar a meta de geral um catálogo completo de todos os tipos de células neurais nos ratos e no cortex cerebral humano, a União Européia comprometeu-se com sua própria iniciativa no setor, enquanto o presidente Barack Obama anunciou o Brain Iniciative, um conjunto de investimentos entre os diversos institutos que estudam o cérebro, como o National Institute of Health, o Food and Drug Administration, o Howard Hughes Medical Institute e o próprio Allen Institute.

Colaboração universal aumenta velocidade da pesquisa.

Estudar e mapear o célebro é uma paixão antiga dos cientistas. No início de década passada, por exemplo, o espanhol Santiago Ramón y Cajal, prêmio Nobel de Medicina de 1906, já desenhava células celebrais. Seu trabalho, reunido em mais de 100 artigos científicos, serve até hoje de base para pesquisas.
O que mudou no esforço para desvendar o célebro foi a utilização desta máquina análoga, menos potente e burra, o computador, que com sua capacidade de armazenamento de dados nas nuvens, o bigdata, foi capaz de reunir todo o gigantesco acervo de dados, distribuindo-o gratuitamente na rede.
Este avanço permitiu que o Allen Institute, por exemplo, reunisse até hoje cinco petabytes de dados, ou o equivalente a 50 anos initerruptas de vídeos de alta definição. Estes dados são baixados 20 mil a 180 mil vezes mensalmente por instituições que colaboram oficialmente com o Instituto (seis no Canadá, 24 nos Estados Unidos, cinco no Reino Unido e duas na Holanda), além de acessos remotos em países como o Brasil (que ocupa o 14 lugar no número de downloads) ou a Coréia do Sul.
Em menos de dois anos, já poderemos apresentar à comunidade científica resultados extraordinarios, diz Bernard. Segundo ela, o mapeamento do célebro aumentou exponencialmente a qualidade, a quantidade e a velocidade das pesquisas que tentem descobrir, atualmente, como se processam as conexões entre os quase 100 bilhões de células que compõem o célebro humano. Veja aqui os resultados do Allen Institute:

Ratos: O Allen Mouse Brian Atlas, completado em 2006, é um mapa dos genomas do célebro adulto do rato. O propósito é ajudar no desenvolvimento da pesquisa da neurociência, guiando os cientistas no entendimento doenças do célebro e anomalias como autismo e depressão.

Seres Humanos: O Atlas Human Brain Atlas foi revelado em 2010. Foi o primeiro atlas a revelar anatômica e genômicamente, em três dimensões, o célebro humano.  O atlas foi criado para ajudar na pesquisa de várias áreas da neurociência, como as imagens do célebro humano, genética, neuroanatomia e várias outras.  O atlas gerou informações básicas para a cura do Alzheimer, autismo, esquisofrenia e vícios em geral, especialmente drogas.

Desenvolvimento do Célebro do Rato: O Allen Developing Mouse Brain Atlas acompanha do desenvolvimento genético dos célebros dos ratos, desde o nascimento até a vida adulta, através de imagens de ressonância magnética, medindo crescimento, espaços brancos e conectividade. O atlas auxilia os neurocientistas a estudar como os poluentes e mutações genéticas interferem no desenvolvimento do célebro. Assim, os pesquisadores descobrem como as toxinas interferem na saúde das crianças e das mulheres grávidas.

Coneticvidade do Cérebro do Rato: Lançado em 2011, este atlas foca na identificação de circuitos neurais que governam o comportamento e as funções celebrais.  Estes circuitos são responsaveis por funções como comportamento e percepção. Futuramente, ajudará no entendimento de como o célebro trabalha e qual é a causa da doença de Parkinson e depressão.

Medula espinhal do Rato: Trata-se do primeiro mapa da espinha do rato jamais feita.
O objetivo deste atlas é curar danos na medula espinhal, doenças como Lou Gehring ( do autor e cientistas Stephen Hawking) e atrofias musculares. O projeto tem também doadores de associações de veteranos de guerra e fundações que ajudam na luta com a esclerose múltipla, uma das doenças mais comuns no Noroeste do Pacífico, onde está Seattle.

Compreender o cérebro é compreender a beleza da vida.

Solitário, triste, e sobrevivente.

Pessoas ricas, como dizia F. Scott Fitzgerald em o Grande Gatsby, são diferentes de você e de mim. Entre os bilionários mundiais, Paul Gardner Allen consegue ser mais diferente e enigmatico. Colega de ginásio de Bill Gates, abandonou a Universidade de Washington e um emprego na Honeywell para fundar a Microsoft.  

Sete anos depois, foi diagnosticado com linfoma. Saiu da empresa e, da noite para o dia,  tornou-se um dos maiores bilionários do mundo - sétimo lugar na década passada, embora hoje esteja na 51 posição - não porque perdeu dinheiro, mas porque surgiram outros bilionários, especialmente na Asia.

Embora tenha três mega iates, uma frota de Boeings 757, uma empresa de investimentos na construção civil - a Vulcan - que está praticamente reconstruindo Seattle, sua cidade natal, Allen vive sozinho enfurnado no computador, onde sofre como todos nós resolvendo problemas do Windows, que ele próprio criou.

Quando sai, é para torcer por um de seus três times que é proprietário, o Portland Trail Blazers (basquete), e o Seahawks (futebol americano), que comprou por US$ 288 milhões em 1997 e que hoje vale mais de US$ 1.33 bilhão, e ainda o Seattle Sounders (futebol).  Quem assistiu ao Super Bowl em janeiro neste ano o viu sozinho, absorto e triste, na tribuna de honra do estádio.

Tamanho é ou não é documento?

Se tamanho do celebro fosse documento, uma vaca estaria hoje comendo a gente, e não o contrário, sugere a cientista Suzana Herculano-Houzel, do Instituto de Ciências Biomédicas do Rio de Janeiro. Nosso célebro é três vezes menor do que os dos elefantes e nove vezes menor que os das baleias, mas, inexplicavelmente,  três vezes maior do que os dos chipanzés (que chegam a ter um corpo três vezes maiores que o nosso),


O que nos diferencia efetivamente dos outros animais é que, dos quase 100 bilhões de neurônios que temos, pelo menos 16 bilhões estão localizados no cortex cerebral. Por isto, e ao contrário dos nossos vizinhos na Terra, temos a capacidade de planejar o futuro, aprender com os nossos erros e vasculhar o passado.  Um elefante, por exemplo, só tem 4.6 bilhões de neurônios na mesma região. Um rato, 30 milhões.

Mas esta capacidade tem um preço. Embora o célebro humano represente apenas dois por cento do corpo, consome 25% das 2 mil calorias que, em média, precisamos para sobreviver diariamente. Se não tivéssemos tal capacidade cognitiva, gastaríamos de oito a nove horas diárias caçando ou procurando alimentos cru para comermos.

Para Suzana, a utilização do fogo para pre-digerir os alimentos, em outras palavras cozinhar, nos liberou para termos mais tempo para pensar, agir e mudar o mundo. Mais ainda, pesquisar e descobrir como o nosso célebro funciona.

Publicado Originalmente no jornal Valor Econômico.



segunda-feira, 9 de março de 2015

TRANQUILO E INFALÍVEL




A lenda de Bruce Lee continua viva - e faturando como nunca.


Por Pedro Augusto Leite Costa, de Seattle (Originalmente publicado na Veja.com)

Seattle -  42 anos depois da sua morte, vítima de aneurisma celebral, o lutador-filósoro--escritor e ator Bruce Lee ainda fatura quase 7 milhões de dólares anuais em direitos autorais: está entre as 20 falecidas celebridades que mais faturam no mundo, perdendo para ídolos como Michael Jackson, Elvis Presley e Marilyn Monroe.  Tornou-se tema de game na Apple, motivo de culto dos cinéfilos em mais de 17 filmes e documentários, atração turística em Seattle (seu túmulo é visitado por mais de 10 mil turistas, todos os anos) e, agora, o centro de uma magnífica exposição que começou a itinerância no Wing Luke Museu, na parte asiática da cidade, e que vai visitar diversos países do mundo, inclusive o Brasil.
Filho de cantor de ópera de antiga colônia britânica de Hong Kong, Lee - nascido Jun-fan - nasceu em San Francisco mas mudou-se para Seattle, onde teve dois filhos, um dos quais - Brandon - morto por um tiro acidental dentro de um estúdio de gravação. Sua mulher, Linda, e a filha, Shannon vivem aqui e trabalham na Fundação que leva o seu nome. Bruce, que nos filmes costumava lutar contra 30 oponentes de uma só vez, foi o responsável por trazer as artes marciais para o Ocidente, quebrando preconceitos contra os asiáticos perante a sociedade norte-americana e, mais ainda, tornando-se um dos maiores ícones da cultura mundial na década de 60.
Nos filmes, Lee é apresentando como vingador, purista, ao estilo do cowboy que volta para destruir o mal e, melhor ainda, conquistar a garota dos seus sonhos. Como muita gente, ele tornou-se um dos maiores lutadores de artes marciais para sobreviver à luta de gangs em Hong Kong, onde passou boa parte da sua infância e adolescência. Com o tempo, reuniu 25 estilos e criou sua própria escola, Jee Kune Do. Passou então, a ensinar artes marciais para quem quisesse - homens, mulheres e crianças, tornando-se um dos maiores divulgadores da arte, até iniciar seu próprio negócio através de franchising.

Franzino, pouco mais de um metro e meio e 64 quilos, Lee também é o resultado de intensa disciplina e aplicação aos treinamentos. Chegava fazer mais de mil flexões todas as manhãs, algumas com apenas o polegar como sustentáculo.  Foi também o inventor one inch punch, o soco com o polegar da mão direita que abatia o inimigo, e também com o qual se apoiava também para fazer flexões.

NO MEIO DO DESERTO, UM OASIS VIRTUAL




Bem-vindos a Ephrata - população 7.663 habitantes,  uma cidade no meio do deserto norte-americano que navega na internet mais rápida do mundo a 44 dólares mensais.

Por Pedro Augusto Leite Costa, de Ephrata (originalmente publicado no Valor Econômico)
A última vez, e talvez a única, que o mundo percebeu que Ephrata existia foi quando um aposentado da Boeing chamado Jim Mccullar ganhou o segundo maior prêmio da loteria nos dos Estados Unidos: 380 milhões de dólares, em 2011, depois de comprar um tíquete no Safeway, na Basin Street, a única rua movimentada aqui. De lá para cá, esta modorrenta cidade, encravada no deserto que vai da Cordilheira do Pacífico até o Estado de Idaho, basicamente proporciona duas alegrias aos visitantes: quando eles chegam e quando eles saem.
Mas agora Ephrata, cujo nome é sinônimo de oásis, está virando celebridade. Segundo uma pesquisa da Gizmodo, os habitantes de Ephrata tem a internet mais rápida do mundo, 101,6 mbps, enquanto o resto dos Estados Unidos se conforma com 18.2 mbps, em média. Orgulhosa do seu clima seco e frio, além da proximidade do rio Columbia, que proporciona energia barata, qualidades essenciais para refrigeração de servidores, a cidade está abrigando datacenters gigantes (mais de nove), entre eles da Microsoft, Yahoo e Intuit e, acima, de tudo, a alegria da internet veloz para seus felizardos moradores e empresários.
É um mundo diferente, onde a vida passa devagar nas poucas ruas da cidade, mas incrivelmente rápida dentro das casas e escritórios. Os filmes são baixados instantaneamente no Netflix, os e-mails chegam e saem em centésimos de segundos, games são jogados sem interrupções e os canais a cabo deixam de fazer sentido. Segundo a pesquisa, Ephrata chega a ser mais rápida que a celebrada internet do Google, o Google Fiber, já em operação em Kansas City, Missouri, e outras cidades norte-americanas.  “Não era nossa intenção de termos a internet mais rápida dos Estados Unidos”, diz Chuck Allen, do Grant County Public Utilitity District, uma espécie de Eletropaulo privada da região, “apenas oferecer honestamente uma internet rápida para moradores e pequenas empresas daqui”.
Ephrata, assim, está fazendo história num país onde os cidadãos são vítimas da quase monopolização de provedores de internet. Basicamente, apenas os gigantes Comcast e Time Warner Cable provêm conexões decentes da chamada broadband, mas é um serviço caro e recordista de reclamações, além de sofrer críticas constantes do presidente Barack Obama por não levar a rede aos grotões norte-americanos.
A situação faz com que o país fique atrás de lugares com Singapura, Hong Kong e Coreia do Sul, que por algum tempo detiveram o título de internet mais rápida do mundo. Em lugares remotos no Arizona, onde há grande população indígena, a velocidade média da internet chega a ridículos 1,5 mbps, ainda pior do que o Brasil (velocidade média de 2,9 mbps).
Mas Ephrata, que tem seis escolas, uma estação de trem e um matutino, o Grant County Journal, é um oásis no mundo virtual. Aproveitando uma lei estadual que em 2.000 liberava os distribuidores de eletricidade a distribuírem também conexão rápida, a Eletropaulo do condado começou a construir por conta própria uma infra-estrutura ao custo de US$ 147 milhões.
O projeto, que exigiu dos usuários de eletricidade uma suplementação única de 100 dólares na conta mensal, gerou brigas e ranger de dentes, mas quando os internautas da cidade descobriram as maravilhas da internet de fibra ótica, esqueceram-se da antiga conexão discada, DSL, uma modalidade com velocidade de tartaruga que não deixará saudade entre os orgulhosos habitantes daqui.
O provedor de internet turbinada do condado, a iFiber, tem apenas 12 funcionários e oferece um serviço melhor do que gigantes como AT&T e Century Link e mais 14 outras que também disputam o mesmo mercado de conexões, mas com velocidade inferior. O mais antigo funcionário da IFiber, Alan Troupe, que já atravessou os 60 anos, é uma espécie de ligação entre Ephrata e o mundo. Além de ser o embaixador do Internet Service Provider (ISP), como eles chamam aqui, Troupe é também o porta voz do que acontece na cidade, coisa que, digamos, não absorve muito o seu tempo.
INTERNET É TUDO - Ainda não se avaliou cientificamente o efeito de uma internet super rápida em Ephrata (que custa 44 dólares por mês), mas basta dar uma chegada na cidade para constatar como a conexão turbinada trouxe melhor educação, melhores empregos e melhor renda.  Além da explosão de datacenters,  a região da cidade, o condado de Grant, foi também escolhida pela SGL (que faz peças de fibra de carbono para a BMW), a Red Silicon e muitas outras empresas cansadas de pagar pela ineficiência das empresas de internet.
Tal desenvolvimento, que espera-se não tire a paz do município, levou os empresários locais a investir no Porto (seco) de Ephrata, uma espécie de parque industrial junto ao campo de aviação da cidade, uma imensa área que foi utilizada pela Força Aérea como centro de treinamento durante a Segunda Guerra.  Guardadas as proporções, é o mesmo conceito do aerotrópolis, o aeroporto industrial para exportação concebido em países como Singapura e os Emirados Árabes, e agora em construção em Belo Horizonte.
A cidade, que agora está se acostumando a ser celebridade,  tornou-se também o pivô de uma antiga discussão entre democratas e republicanos nos Estados Unidos: deveria a internet ser provida e administrada pelas corporações, ou a rede mundial deveria ser uma utilidade pública, como água, esgoto e eletricidade, a exemplo do que a candidata Marta Suplicy apostou em sua reeleição para prefeita de São Paulo?
Para o vereador Kevin Danby, que também é do grupo de pressão Fiberactive, que tenta mostrar e defender os benefícios da internet rápida, a razão do sucesso de Ephrata é a união da comunidade em torno do projeto e, melhor ainda, a não interferência do governo.  “Aqui não existe almoço grátis, todos se uniram em torno do projeto e pagam pela conexão - a última coisa que precisamos aqui é o governo cuidando da internet”,  disse ele ao Valor.
O ex-professor Wes Crago, o administrador da cidade (sim, o prefeito eleito "terceirizou" a prefeitura),  diz já estar se habituando a ser o centro do noticiário. O povo de Ephrata, diz ele, já enfrentou com sucesso outras experiências semelhantes para resolver seus próprios problemas, como por exemplo da construção da Coulee Dam nos anos 30, a maior barragem americana, no rio Columbia (uma espécie de São Francisco dos Estados Unidos) que hoje fornece eletricidade e água para irrigação de mais de 2.700 quilômetros.
Do ponto de vista do governo, comenta Wes (diminutivo de Wesley), "tivemos grande ganhos de produtividade. Trabalhamos mais rápido, transferindo arquivos gigantescos e nos comunicando instantaneamente com vários departamentos, dentro dos nossos próprios servidores. O melhor foi a redução de funcionários públicos aqui na Prefeitura, já que nos tornamos mais eficientes. No futuro, certamente não seremos um novo Vale do Silício, mas estamos plantando as bases para que possamos atrair mais negócios"
Continua Wes: Parece que o mundo está caminhando hoje para a interconexão, e as cidades que não se ajustarem à esta nova realidade ficarão para trás. É mesmo fenômeno que a região viu nos anos 30 com a distribuição de eletricidade. "Uma das coisas que mais me chama a atenção é que a internet rápida proporciona a criação de negócios que jamais teríamos aqui, como a produção de noticiário local distribuído pela internet, diz ele.
Foi o que fez Kelly Ryan, que junto 64 pequenos investidores locais criou a Ifiber. Para aproveitar a capacidade instalada ("um dia vamos chegar a milhares de mbps", promete), Ryan criou nada menos do que um canal de televisão, o Channel 1, que já tem 230 mil telespectadores na TV e na Internet. "Falamos basicamente do que acontece aqui: pequenos crimes, esportes - minha paixão - e previsão do tempo", explica.
Ryan, que além de presidente e CEO é uma espécie de pau para toda obra na Ifiber, quer ficar longe de governo e, principalmente, dos reguladores. Seu inimigo número 1 é a Comcast, a maior empresa de broadband dos Estados Unidos, que utiliza as antigos fios de cobre da telefonia para levar internet e, ainda,  faz intenso lobby do Congresso para evitar que empresas com a Ifiber - que utilizam fibra ótica - proliferarem e, pela excelência da transmissão, tornem-se concorrentes.
Ephrata é o melhor exemplo do que a Federal Communications Agency, a agência reguladora dos Estados Unidos, quer proporcionar nos Estados Unidos: uma internet semelhante à rede elétrica, ou à rede de água e esgotos, que chega igualmente a todos os cidadãos, independentemente da utilização final. Foi o que declarou esta semana seu presidente, Tom Wheeler, que tem uma visão semelhante à de Casa Branca de Barak Obama.
INTERNET TURBINADA É TUDO DE BOM
A chegada da super internet à Ephrata High School, no início do milênio, transformou esta escola pública de 743 alunos em uma das melhores escolas públicas dos Estados Unidos. Este colégio de segundo grau de cidade já era famoso no futebol norte-americano, através Tigers, mas a conexão rápida mudou a vida de administradores, professores e principalmente dos alunos, que já chegam a utilizar 20% do tempo em frente ao computador.
Bem administrada, a escola acaba de comprar 457 chromebooks, o laptop de baixo custo (e sem disco rígido) para tornar o trabalho mais rápido. O fenômeno proporcionou aulas mais eficientes, deveres de casa mais rápidos e, principalmente, a experiência da colaboração. Através de aplicativos de trabalho conjunto, como o Google Docs, os alunos dividem as tarefas, fazem redações com dezenas de sugestões e, acima de tudo, aprendem a colaborar, diz a professora Sheila Massey, Teacher-Librarian/Media Specialist.
O trabalho mais difícil, segundo o diretor da escola, Daniel Martell, é fazer os alunos ficarem cientes do perigo dos cyber attacks e dos predadores e, mais ainda, aprenderem que a tecnologia foi criada para colaborar, e não apenas para proveito próprio, ‘assim como de resto todas as atividades da sociedade."
O que a internet rápida proporciona, denota o professor de Tecnologia Dane Lewman, é a agilidade de fazer as tarefas instantaneamente e ainda poder fazer a avaliação dos estudantes da mesma forma. Lewman, que deixou de ser diretor de uma startup para lecionar, diz que a Ephrata Hight School funciona na velocidade da iniciativa privada: "O caminho entre uma idéia e o resultado desta idéia, tanto na parte da aplicativos como na área de games, é cada vez mais curto", explica.
“O mais engraçado é que os estudantes não notam que a internet é fantástica, diz ele. Eles já nasceram com ela”



TÃO ESSENCIAL QUANTO O AR QUE RESPIRAMOS
A experiência de Ephrata mostra que a internet não chega a ser tão essencial quanto o oxigênio, mas está quase lá. Além do crescimento econômico e da geração de empregos, conexões rápidas permitem, por exemplo, que os sistemas de saúde transmitam instantaneamente imagens complexas, liguem pacientes e médicos via skype e, assim, remova barreiras geográficas para onde a medicina pode chegar.
Mas é na educação, o maior nivelador de oportunidades para todos que já existiu, é que a internet rápida multiplica infinitamente as possibilidades de aprendizado da população do século 21, desde o jardim de infância à pós graduação. É uma espécie de socialismo eletrônico. Hoje, milhões de estudantes norte-americanos em diferentes níveis estudam boa parte do tempo longe do campus das universidades. Unir professores e alunos em experiências cada vez mais virtuais exigirá a banda larga que cresça exponencialmente.
As pessoas hoje vivem cada vez mais. A internet também é fundamental para os aposentados terem uma vida independente, estando sempre em contato com médicos e familiares. Eliminando a necessidade de deslocamentos, a banda larga também tem um impacto tremendo no gasto de energia e na proteção do meio ambiente, pois as pessoas deixam de utilizar carros ou transportes públicos para trabalhar.
Nos Estados Unidos, a grande sensação da banda larga é o governo eletrônico e a participação cívica. Prefeituras de Nova York e San Francisco, por exemplo, estão fazendo sucesso com os serviços 311, especialmente via web, de contato direto com a população. Haverá um dia em que a democracia vai se tornar totalmente eletrônica, extinguindo-se o voto tradicional como conhecemos hoje e indo em direção a um “like” do Facebook.

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