quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Pensando Midias Sociais

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quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Help....minha memória está falhando

No livro do polêmico apresentador da Fox Glenn Beck, Common Sense, ele pergunta o porquê de os Estados Unidos, sendo um país excepcional, estar indo ladeira baixo. Para ilustrar, ele cita algumas das mais importantes invenções norte-americanas. Avião, automóvel, lâmpada, telefone, cinema, linha de montagem, coração artificial, computador, lentes bifocais, máquina de costura, refrigerador, ar condicionado, alfinete de bebê, televisão, caixa registradora, crayon, ferramentas elétricas, perfurador de poços de petróleo, papel toalha, picolé, jeans, elevador, rifle de repetição, laser, vacina pólio, forno de microondas, copiadora, fibra óptica e, finalmente, algodão doce. E o Brasil? Alguém de lembra de alguma coisa inventada aí?

sábado, 19 de setembro de 2009

A morte do intermediário, do vendedor, do atravessador,

Seattle - Aos poucos, lentamente, quase imperceptivelmente, está morrendo uma legião de profissões centenárias com as quais a gente se acostumou a conviver: jornalistas, professores, agentes, lambe lambe, amoladores de facas, sapateiros e costureiros sob medida. Com a revolução da internet descobrimos que, em primeiro lugar, não precisamos deles. Podemos acessar notícias, por exemplo, direto das fontes. Os professores, por outro lado, descobriram que seus alunos não se interessam pelo conteúdo das aulas porque podem interagir com conteúdos fantásticos na internet, e sem a ajuda do professor. Estou lendo um dos melhores livros que já saíram sobre o fenômeno da internet, o Trust Agents, escrito por dois blogueiros, Julian e Chris, com os quais tive oportunidade de tomar uma cerveja (belga) aqui em Seattle. Muito bem escrito, o livro descreve como a rede está mudando a nossa forma de nos relacionarmos com o mundo e, principalmente, como vamos ganhar dinheiro daqui para frente - se é que dinheiro também não vai deixar de existir.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Menos jornalismo, mais conversa



*Daniel Agrela e Mariane Pinho

Embora muita gente não aceite, o jornalismo – tal qual conhecemos – está morrendo. De fato, para quem sempre viveu a adrenalina de um fechamento de jornal fica difícil acreditar que a figura romântica do repórter, o nobre intermediário da notícia, esteja próxima do fim. Com a popularização da Internet, todo mundo está convidado a ser jornalista. As pessoas não precisam mais de alguém para selecionar suas notícias.


Negar essa realidade é sempre a primeira reação. É natural. Mas não há como refutar que o crescimento do meio online e a importância exercida atualmente pelas redes sociais trouxeram mais agilidade às informações e, é claro, atingiram em cheio as empresas de mídia, especialmente jornais e revistas. Nem mesmo os cortes de pessoal, intensificados ao longo da última década para amenizar essa inevitável crise, possibilitaram a recuperação dos veículos impressos, que perdem leitores a cada dia.

Para fugir dessa tendência e abocanhar novos assinantes, os maiores impressos de São Paulo prepararam recentemente uma série de propagandas no horário nobre da TV. A Folha convocou os principais jornalistas da casa para participar de sua propaganda. Já o Estadão faz a seguinte pergunta: “quanto vale o seu conhecimento?”, dando ao leitor a opção de pagar o quanto quiser pela assinatura no primeiro mês. Ambos os periódicos tentam valorizar seus produtos, oferecendo conteúdo exclusivo, analítico e mais aprofundado.

Na verdade, os jornais sempre sofreram com a falta de instantaneidade das informações, prerrogativa do rádio, da TV e, mais recentemente, da internet – que vem tomando o espaço não só da mídia impressa, mas de todos os meios de comunicação tradicionais.
Enquanto os jornais investem em matérias analíticas, as revistas nas investigativas e a televisão no poder da imagem, a internet faz de tudo: podcast, vídeo e texto informativo e reflexivo. Ela cresce 21% ao ano, enquanto a taxa de crescimento dos outros meios se estabiliza ou cai. Cada vez mais, a Web se consolida como o centro do conhecimento descentralizado, um espaço da conversa multidirecional em que todos falam de tudo.

Talvez por isso a figura do jornalista como intermediário entre a informação e o público esteja em declínio. A força exercida pelas redes sociais como blogs, Orkut, LinkedIn, Facebook e Twitter já pôde ser percebida em diversos acontecimentos, como os relatos enviados por cidadãos iranianos no auge dos últimos conflitos, em um país com sérias restrições à cobertura jornalística tradicional. Isso prova que para uma notícia vir à tona não é preciso que haja um jornalista in loco para relatar os fatos. Eles podem vir diretamente da fonte, por meio de um blog, por exemplo.

O fato é que o jornalismo passa por um momento de transição, em que os veículos tentam se adequar à nova realidade digital. A internet caminha para abranger todas as áreas das nossas vidas e isso inclui a forma com que informamos e somos informados. É por isso que o futuro do jornalismo está na conversa. A notícia não estará mais nas mãos apenas dos jornalistas: ela está nas redes sociais, onde todos podem informar e debater. Quem estiver fora dessa discussão, também vai morrer. Precisamos nos adaptar.

* Daniel Agrela e Mariane Pinho são jornalistas e atuam como PR Digital na Cia da Informação.

domingo, 17 de maio de 2009

O Poderoso Chefão


Salt Lake City - Como os mais bem guardados segredos da Máfia, pouca gente sabe que o diretor do melhor filme de todos os tempos, O Poderoso Chefão (ganhador do Oscar de 1974), Francis Ford Coppola, 70 anos, é também um poderoso chefão na vida real, estendendo seus tentáculos na produção de vinhos, resorts em lugares paradisíacos, restaurantes temáticos, macarrões, molhos, cafés, revistas literárias e, porque não, filmes, documentários, séries e qualquer coisa que caiba numa tela.
Coppola não é Don Corleone, que simplesmente matava concorrentes que ameaçavam seu negócio, mas do velho mafioso, interpretado magistralmente por Marlon Brando, herdou o nepotismo. Sua família ("a única coisa importante que existe") está envolvida em tudo: Eleonor, sua esposa desde os anos 60, cuida dos vinhedos. O filho Roman, que também é diretor e ator, o assessora em filmagens. Sofia, que ganhou um Oscar com "Lost in Translation", lançou um vinho espumante. E por aí vai.
Em todos os negócios do chefão Coppola está o charme de sua marca registrada, a Itália. "Defino minha vida pelas impressões de criança nascida numa família ítalo-americana cujo pai era um tocador de flauta na orquestra da NBC", a tv americana, diz ele. "Desde pequeno sou rodeado por tios, tias, primos e primas ao redor de uma grande mesa comendo pasta e bebendo vinho", completa.
O homem já faliu muitas vezes (afinal, qual o cineasta que jamais faliu?), mas aos 70 anos (que ele considera 50 mais 20) parece estar no auge na sua carreira empresarial. Em uma entrevista recente à revista Sky, ele revelou que não separa vinho (ou macarrão) dos filmes que faz. " Tudo faz parte do mesmo processo, tudo vem ao mesmo tempo e do mesmo jeito", diz. De onde ele tira tamanha energia?: "Se a sua mente não se tornar pequena, você permanece novo para sempre, pois você é tão jovem quanto sente que você é".
Coppola acaba de filmar Tetro, filme sobre uma família italiana que vive em Buenos Aires, fruto de um roteiro que escreveu quando tinha 17 anos. Já que elegeu a capital argentina como seu lar, também comprou um restaurante italiano por lá. Atualmente mora em San Francisco, na Califórnia, onde tem um restaurante em sociedade com Robert de Niro e Robin Willians, mas seu lugar favorito é sua vila em Napa Valley, Jardim Escondido, também na Califórnia, onde produz vinhos especiais. O criador do Poderoso Chefão, que também foi o responsável por filmes como Apocalypse Now, Conversação, American Grafitti e até um segmento do Histórias de Nova York, parece carregar o DNA do sucesso. Talia Shire, sua irmã, conhecida em Rocky, o Lutador, ficou também famosa por participar de vários filmes dele. Nicolas Cage, que na verdade é Nicolas Coppola, ganhou um Oscar, enquanto a filha Sofia parece seguir os passos do pai como diretora de filmes excepcionais.
Na base de todo o império Coppola, no entanto, está o estúdio que ele fundou em 1969 com George Lucas, o Zoetrope, que além de abrigar os filmes da dupla ainda foi a casa de Jean-Luc Godard, Akira Kurosawa e Wim Wenders. Pouca gente sabe também que este estúdio tornou-se um das mais importantes do mundo, tendo quatro dos 100 melhores filmes produzidos até hoje no país.

domingo, 3 de maio de 2009

Lugar de professor ruim é na rua


Seattle - Tias e mestras, boas ou más, preparadas ou não, professoras e professores sempre foram colocadas num pedestal, como se fossem ícones acima do bem ou do mal. O novo secretário da Educação nomeado por Barack Obama, Arne Duncan, um ex-jogador de basquete de Harvard, 44 anos e dois filhos, descobriu que uma professora ruim (ou professor ruim) tem a capacidade de destruir o futuro de centenas, muitas vezes milhares de alunos. O contrário, como todos sabem, é mais do que verdadeiro.

Como CEO do Chicago Board School desde 2001, o terceiro maior distrito escolar dos Estados Unidos, um país que atrás de lugares como o Kasaquistão no ranking educacional, não só demitiu professores que não correspondiam aos critérios de eficiência. Mandou embora até encarregados da limpeza e da merenda, e nos casos mais graves simplesmente fechou a escola e a abriu tempos depois, passando a borracha no passado e iniciando uma nova vida para os estudantes, especialmente pobres, negros, latinos e gays. Chamou sua ação de Projeto Renascença.

Expelindo gente ruim e ponto para dentro gente boa, treinada e motivada, Arne aumentou o número de estudantes que se apresentavam para estudar em Chicago de 76% para 89%. Em sete anos, cerca de 67% dos estudantes atingiriam os padrões nacionais, contra 38% anteriores à sua administração. O melhor é que os professores, temendo ser demitidos, começaram a se apresentar para obter melhores e mais rigorosas certificações. 1.200 professores, contra 11 no início.

Agora, em nível nacional, Arne tem a astronômica soma de US$ 100 bilhões para levar os parâmetros da iniciativa privada para os outros 50 estados da federação. Em um documentário na PBS, a tv pública norte-americana, Arne lembrou a importância do diálogo, da conversa com os sindicatos, da discussão aberta e de todo o blá-blá-blá de sempre, mas ele, um dos mais queridos secretários de Obama, é mesmo da teoria do escreveu-não-leu-o-pau-comeu.

Para ele, mais do que boas escolas, excelentes materiais instrutivos, lap tops, edifícios modernos ou programas comunitários, o que realmente faz a diferença na eduçação é o professor. Ele (ou ela) é o epicentro do sistema educacional, a pedra fundamental que, se polida, pode mudar a realidade de milhões de futuros adultos.

Uma das ações mais controversas do ex-jogador de basquete foi fazer com que os estudantes que desistissem de ir à escola assinassem um documento reconhecendo que eles "teriam menos chances de arranjar bons empregos, ou simplesmente empregos", e que estariam muito mais propensos "a viver da previdência social para o resto da vida". Em outras palavras, assinando a certidão de "perdedores", que nos Estados Unidos é pior do que xingar a mãe. Os que ficaram começaram a ganhar, desde o ano passado, até US$ 4 mil por ano caso consigam a nota "A", com dinheiro fornecido pela iniciativa privada.

A política linha dura com o sistema educacional de Barack Obama já está fazendo o poderoso National Education Association (NEA), o sindicato de professores que tem 3,2 milhões de afiliados e doou US$ 50 milhões para a sua campanha presidencial, começar a chiar. Mas quem leu A Audácia da Esperança, o livro que fez o presidente ficar rico (US$ 2 milhões só no ano passado), já podia pressentir que viria chumbo grosso por aí.

"Não há razão para um professor qualificado e experiente não ganhar UNS$ 100 mil por ano (cerca R$ 19 mil por mês) , escreveu ele. "Em troca desde dinheiro, professores deveria se tornar mais responsáveis por sua performance - ao mesmo tempo em que os distritos escolares deveriam ter mais habilidade para ficarem livres do chamados professores ineficientes".

Leia um trecho de "Vida de Escritor", de Gay Talese

Não sou, nem nunca fui, um apreciador de futebol. É provável que isso se deva, em parte, à minha idade e ao fato de que, na adolescência, quando eu morava no litoral sul de Nova Jersey — há meio século — esse esporte fosse praticamente desconhecido dos americanos, a não ser os nascidos no exterior. E embora meu pai fosse nascido no exterior — era um sisudo alfaiate que se vestia com esmero, oriundo de uma aldeia calabresa, no sul da Itália, que se tornou cidadão norte-americano em meados da década de 1920 —, quando conversava comigo sobre futebol, ele se limitava a discorrer sobre as brigas de sua juventude relacionadas ao esporte, e sobre a frustração que sentia ao ver os colegas de escola jogando numa praça italiana enquanto ele costurava à janela dos fundos de um ateliê próximo, onde trabalhava como aprendiz. No entanto, como muitas vezes me repetia, já naquela época ele sabia que aqueles jovens atletas (entre os quais havia irmãos e primos seus, menos conscienciosos) estavam perdendo tempo e pondo em perigo seu futuro, chutando bola de um lado para outro quando deveriam estar aprendendo um ofício digno e se preparando para pagar o alto preço de uma passagem para os Estados Unidos, onde poderiam alcançar a prosperidade como imigrantes. Mas não, continuava ele, incansavelmente dedicado a me advertir: eles dissipavam suas tardes jogando futebol na praça, da mesma forma como mais tarde viriam a jogar atrás da cerca de arame farpado do campo de prisioneiros de guerra no norte da África em que foram metidos pelos aliados (aqueles que não foram mortos ou ficaram aleijados em combate) quando se renderam, em 1942, na qualidade de soldados de infantaria do exército derrotado de Mussolini. Vez por outra, eles enviavam cartas a meu pai, contando sobre o confinamento. Um dia, já perto do fim da Segunda Guerra Mundial, ele pôs de lado a correspondência e me disse, num tom de voz que prefiro interpretar como mais triste do que sarcástico: “Eles ainda estão jogando futebol!”.

A final da Copa do Mundo feminina entre as equipes da China e dos Estados Unidos, disputada em 10 de julho de 1999, no Rose Bowl de Pasadena, na Califórnia, diante de 90.185 espectadores (o maior público de qualquer evento esportivo feminino na história) seria televisionada para quase 100 milhões de pessoas em todo o mundo. A transmissão ao vivo, que começaria nessa tarde de sábado às 12:30 na Califórnia, seria vista em Nova York às 3:30 da tarde e, na China, às 4:30 da manhã de domingo. Eu não tinha pensado em assistir ao jogo. Para aquele sábado, em Nova York, eu havia combinado uma partida de tênis em duplas, no Central Park, com velhos companheiros que, como eu, tinham vagas lembranças de jogar muito bem no passado.

Antes de sair para o Central Park, resolvi ligar a TV no jogo de beisebol entre os New York Mets e meus queridos Yankees, que começava à 1:15. Contra o conselho mil vezes repetido, embora às vezes sem muita convicção, de meu ranzinza e agora falecido pai, os Yankees conquistaram meu coração e me escravizaram para todo o sempre em fevereiro de 1944. Naquele ano, por causa do racionamento de gasolina provocado pela guerra e de seu efeito restritivo sobre os deslocamentos, a equipe transferiu seu tradicional campo de treinos de primavera de Saint Petersburg, na Flórida, para um estádio menos quente, porém mais à mão, ainda que com arquibancadas meio bambas e com corrimãos enferrujados, nas proximidades do aeroporto de Atlantic City, e suficientemente perto de minha escola para que ficássemos ali cabulando aulas. A partir de então, na guerra e na paz, durante um período que cobriu a carreira de Joe DiMaggio e Mickey Mantle e chegou até o estrelato, no fim do século, de recém-chegados como o shortstop Derek Jeter e o lançador substituto Mariano Rivera, venho me alegrando com os triunfos dos New York Yankees e sofrido com seus reveses. E, nesse sábado de julho de 1999, eu estava contando com eles para descansar de várias semanas de extenuante batuque em minha máquina de escrever.

Decidi que precisava relaxar, deixar de lado meu livro por algum tempo. E prontamente aceitei a sugestão de minha mulher, feita dias antes, de que passássemos esse fim de semana tranquilamente em Nova York. Nossas duas filhas e seus namorados iriam de carro para a Jersey Shore,* para a casa de veraneio que tínhamos comprado perto da de meus pais, trinta anos antes, depois do nascimento de nossa segunda filha. Na noite de sábado, minha mãe, vigorosa viúva de 92 anos, tencionava levar as netas e seus namorados para jantar no cassino Taj Mahal, no calçadão de Atlantic City, onde ela gostava de saborear sua sobremesa e seu café, enquanto alimentava as máquinas caça-níqueis.

No mês anterior, minha adorável mulher e eu havíamos comemorado nosso quadragésimo aniversário de casamento, e espero não ser tachado de pouco romântico se disser que esse longo relacionamento deu certo, em parte, por termos normalmente vivido e trabalhado separados — eu como escritor-pesquisador de não-ficção, frequentemente viajando por força do ofício, e ela como preparadora de textos e editora que, ao longo de todos esses anos, fez questão de não trabalhar para empresas com as quais eu estivesse ligado por contrato. Mas quando estamos juntos sob o mesmo teto — desfrutando o que tomarei a liberdade de chamar uma harmoniosa e feliz convivência que começou em meados da década de 1950 num apartamento sem água quente em Greenwich Village, transferiu-se depois para Uptown e, finalmente com as crianças, para uma casa brownstone que até hoje é ocupada por nós (duas ágeis e ativas pessoas da terceira idade determinadas a não morrer num cruzeiro) —, devo admitir que frequentemente me aproveito da presença de minha mulher como profissional das letras, solicitando sua opinião não só sobre o que estou pensando em escrever, como também sobre o que já escrevi. E embora suas respostas, vez por outra, difiram das expressadas mais tarde pelo editor “oficial”, considero mais uma bênção que um problema ter vários pontos de vista entre os quais escolher, e julgo essa situação mil vezes preferível à falta de ajuda na revisão textual de que tanto se queixam muitos de meus amigos escritores. Mas a escritores que deploram o fato de passarem a vida abandonados e solitários, quero dizer o seguinte: quando nosso trabalho não está indo bem, ter uma mulher editora pode ser até mais humilhante, principalmente durante os fins de semana e noites que passamos em casa, quando ela lê avidamente as palavras de outras pessoas, recostada em nosso leito conjugal, sob amarrotadas páginas de originais que cobrem nosso edredom de grife ou se escondem entre os lençóis, páginas que no devido tempo ela há de juntar e empilhar ordenadamente em seu criado-mudo antes de apagar a luz e, quem sabe, sonhar com o dia em que essas páginas serão transformadas num livro muito bem encadernado e elogiado pela crítica.

Seja como for, nesse fim de semana que decidimos (ela decidiu) passar em Nova York, enquanto ela estava lá em cima editando os capítulos de um original com o qual tínhamos dormido na noite de sexta-feira, eu estava embaixo, assistindo ao jogo Yankees-Mets. (Os Yankees fizeram logo 2-0 com o home run de Paul O’Neill na primeira entrada, depois do single de Bernie Williams.) Entre uma entrada e outra, eu antevia minha partida de tênis e lembrava a mim mesmo que devia lançar a bola mais alto quando tivesse o serviço e aproveitar todas as oportunidades de subir à rede.

Fui apresentado ao tênis por meu professor de educação física durante o primeiro ano do curso secundário, e muito embora nossa escola não tivesse, naquela época, uma equipe de tênis, eu treinava sempre que podia durante o recreio do meio-dia, pois jogava melhor que os desajeitados colegas que escolhia para adversários, os quais eram também meus subordinados na redação do jornal estudantil. O fato de nunca ter me destacado em algum esporte importante (futebol americano, basquetebol, beisebol ou atletismo) não me aborrecia, já que as equipes de nossa escola eram medíocres nesses esportes. Ademais, como cronista e potencial crítico dos jogadores (além de trabalhar no jornal estudantil, eu escrevia sobre esportes e também sobre atividades escolares em minha ocupação extracurricular como correspondente sobre educação para o semanário de minha cidade natal e para o diário de Atlantic City), eu de repente experimentava a dúbia notoriedade de ser um jornalista, de ter minha imatura personalidade e identidade impulsionadas, senão valorizadas, por meus artigos assinados ou por minha foto, do tamanho de um selo postal, que aparecia sobre a minha coluna no semanário da cidade, para não falar dos muitos privilégios que estavam à minha disposição, como viajar para jogos em outras cidades no ônibus da equipe, numa poltrona reservada atrás do técnico, ou voltar depois, de carona, num cupê Buick com painel cromado, dirigido pela bela esposa do diretor de esportes.

Por piores que fossem os jogadores, pois constantemente tratavam mal a bola, chutando quase sempre para fora e desperdiçando a maioria das faltas, eu nunca os humilhava em letra de fôrma. Invariavelmente, encontrava meios de descrever com gentileza cada derrota da equipe, cada deficiência individual. Meu texto parecia ter uma queda precoce para artifícios de retórica e circunlóquios, muito antes que eu soubesse escrever direito essas palavras. Minha atitude em relação ao jornalismo foi fortemente influenciada, durante todos os meus anos de secundário, por um rebuscado romancista chamado Frank Yerby, um negro nascido na Geórgia que mais tarde se radicou na Espanha e que escrevia prolificamente sobre mulheres de anquinhas e cobertas de jóias, com tantos excessos eróticos que, não fosse o floreado estilo de sua prosa — a qual de certa forma encobria o que para mim era assustadoramente obsceno —, seus livros teriam sido censurados em todos os estados americanos, e eu não teria tido a oportunidade de solicitá-los um por um, encabulado, à proprietária da locadora de livros de nossa cidade. Além disso, não teria tentado imitar, em minhas tentativas de encobrir as falhas dos atletas da escola, a facilidade de Yerby para usar eufemismos.

Embora meus textos evasivos e cheios de rodeios pudessem ser em parte atribuídos ao desejo de manter relações amistosas com os atletas e incentivá-los a conceder constantes entrevistas, creio que essas questões práticas tinham muito menos a ver com meu estilo do que minha própria identificação juvenil com a derrota e com o fato de que, com exceção da habilidade para escrever textos que douravam a dura crueza da realidade, eu não era capaz de fazer nada fora do comum. As notas que os professores me davam, tanto no curso primário quanto no secundário, sempre me colocavam na metade pior da classe. Ao lado de química e matemática, inglês era a disciplina em que eu me saía pior. Em 1949, fui rejeitado pelas duas dúzias de faculdades a que me candidatei, em meu estado natal de Nova Jersey, e nos estados vizinhos de Pensilvânia e Nova York. Ter sido aceito pela Universidade do Alabama deveu-se inteiramente aos apelos de meu pai a um magnânimo médico de Birmingham que clinicava em nossa cidade e usava ternos cortados e costurados com perfeição por meu pai, e aos pedidos desse médico, em meu favor, a um antigo colega de classe e amigo de toda a vida, que na época ocupava o cargo de reitor de admissões daquela universidade.

Minhas principais conquistas durante os quatro anos que passei no campus da Universidade do Alabama foram ser nomeado editor de esportes do semanário da faculdade e a popularidade por assinar uma coluna intitulada “Sports Gay-zing”, na qual, muitas vezes misturando humor com gentileza e opiniões veladas, mostrava pelo melhor ângulo possível algumas das piores exibições atléticas da gloriosa história da universidade. Até mesmo o time de futebol americano da Alabama, que durante muito tempo se habituara a fazer jus à reputação nacional de estar sempre entre os dez melhores, passou, enquanto estudei ali, por alguns de seus dias mais tristes desde a Guerra Civil. Embora sua glória tivesse sido restaurada depois de 1958, com a chegada do hoje lendário técnico Paul “Bear” Bryant, em minha época cada temporada foi, no mais das vezes, motivo de um clima de velório no estado a cada fim-de-semana. E o técnico do time, natural da Nova Inglaterra, chamado Harold “Red” Drew, tinha sua efígie sistematicamente queimada nas noites de sábado, no meio do campo, por bandos de rapazes turbulentos e suas namoradas, candidatos a fraternidades masculinas e femininas, mas ainda não iniciados, que tinham passado a tarde a costurar panos de saco para produzir figuras, em tamanho natural, de olhos esbugalhados e rostos gorduchos e avermelhados com blush, que supostamente representavam os traços de Red Drew.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Pedir perdão, limpar o passado...


Nova York - Além de trocar dry martinis por suco de laranja nas recepções da Casa Branca, o ex-presidente democrata Jimmy Carter (1977-81) também proibiu algumas liturgias do cargo, como o hino "Hail to the Chief", durante sua presidência. A idéia era de que o presidente, depois de tantos anos de abusos dos republicanos, capitaneados por Richard Nixon, passasse a imagem de homem comum para os norte-americanos. Desnecessário dizer que deu errado. Passando a imagem de fraco, mortal e humilde, Carter foi defenestrado do cargo pelo falcão republicano Ronald Reagan, que voltou com a arrogância, as bombas e o poderio da Presidência, inclusive os dry martinis das recepções da Casa Branca.
Barack Obama parece não ser tão ingênuo quanto Carter, mas hoje segue caminho semelhante - e para muita gente perigoso - pedindo perdão pelos pecados americanos em três continentes, e em menos de 100 dias. Na França, como lembrou o novo porta voz dos Republicanos, Karl Rove (o mágico que elegeu George W. Bush) no The Wall Street Journal, disse que os Estados Unidos têm sido arrogantes e desdenhosos, "e logo com os franceses". Em Praga, lembrou Rove, disse que a América tem a responsabilidade moral de agir no controle de armas porque foi o único país a usar a arma nuclear. Em Londres, disse que as decisões sobre o sistema financeiro mundial não são feitas mais como no tempo em que Roosevelt e Churchill sentavam-se numa sala tomando brandy. E, na América Latina, disse que o país não tem perseguido um engajamento sustentável com seus vizinhos.
Obama, negro e filho de imigrantes, parece ser mais sábio que o branquelo e ex-fazendeiro de amendoins Jimmy Carter, que embora morto politicamente depois da Casa Branca ganhou o Prêmio Nobel da Paz. Ao levantar-se da cadeira para ganhar um livro de presente do venezuelano Hugo Chavez (o antiquado "Veias Abertas da América Latina") , durante uma recente reunião de cúpula, mostra elegância e respeito com o ditador venezuelano, roubando-lhe um inimigo imaginário, os Estados Unidos, sobre o qual Chaves conclama seu povo a lutar contra. Ao abrir as portas para Cuba, pode matar de vez a ditadura castrista (se é que jela já não está morta) instalando McDonald's e Starbucks na ilha proibida. Ao gravar mensagens de paz no YouTube para o mundo muçulmano, também subtrai dos terroristas a justificativa para que novos ataques sejam deflagrados contra os Estados Unidos.
Nestes primeiros 100 dias de Presidência, Obama causou da ira dos republicanos porque, sendo um estadista ou um super-star, como reclamam eles, cria novos parâmetros de eficiência para a Presidência, reinagura a diplomacia do diálogo e cooperação entre os Estados Unidos, que respondem por um terço do Produto Interno do Bruto do mundo, e outras centenas de países que vivem em torno ou em função deste chamado império da era moderna.
Por isto mesmo o novo presidente norte-americano parece ter saído por encomenda de um sonho coletivo não só do país que governa, como também de todo o mundo. Expõe com delicadeza e paciência o ridículo das guerras, da destruição da natureza, das religiões misturadas ao poder, ou das bravatas que se tornaram lugar comum nos anos Bush. Acalma os ânimos, abre possibilidades, desenha portas para o entendimento. Coisa que o mundo nunca viu. Nem mesmo com Jimmy Carter.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Obama, a Rainha, o Ipod e a pedra da Lua


Seattle - Barack Obama teria dado presente melhor à octagenária rainha Elizabeth II, durante visita ao Palácio de Buckingham semana passada? O Ipod , este minúsculo tocador de música (e de muitas outras coisas) inventado em 2001 por Steve Jobs já vendeu mais de 173 milhões de aparelhos em todo o mundo. Mais do que um milagre do design, é o melhor exemplo do empreendorismo e inovação dos Estados Unidos desde que, em 1969, Neil Armstrong trouxe de volta para Terra uma pedra da Lua. Dentro do Ipod, Obama, que gosta tanto de tecnologia quanto de Michelle, colocou 200 fotos da visita da nobre britânica aos Estados Unidos em 2007, durante visita oficial. A rainha agradeceu, retribuiu com uma foto do casal real autografada, e até hoje deve estar sem dormir tentando descobrir as nuances do seu novo brinquedo.
Os Estados Unidos podem estar dando adeus a mais de meio século de domínio mundial, tanto econômico como tecnológico, mas é pródigo em chocar o resto do mundo com simplicidade e elegância. Durante uma das maiores feiras mundiais de todos os tempos, em Osaka, Japão, em 1970, visitada por 64 milhões de pessoas, levou apenas uma imensa abóbada de alumínio. Outros países encharcaram seus pavilhões com milhares de produtos, fotos, expositores e tudo mais. No pavilhão americano, apenas a pedra da Lua, obtida um ano antes durante a viagem da Apolo 11. Desnecessário dizer que foi o país mais visitado.
Agora, quase 40 anos depois, o Ipod parece conquistar todo o mundo como a pedra da Lua. Só nos Estados Unidos, o aparelhinho responde por 90% do mercado de players, sendo responsável por quase 50% das vendas da Apple, atingindo mais de US$ 10 bilhões a cada trimestre. Explica-se que a base do seu sucesso esteja na falta de teclados, um monte de teclas incompreensivelmente juntas que existe desde que Gutenberg inventou a impressão, mas que tem sido objeto de revolta de Jobs desde quando começou a ler e escrever. Ao invés de teclar, Jobs sugeriu tocar - e todo mundo adorou.
Mais do que um simples player, o Ipod também carrega fotos, vídeos, games, agendas, e-mails, marcadores da Internet, calendários e muito mais. Seu sucesso não está apenas entre adolescentes alienados. Está no ouvido de empresários e alunos de MBA em universidades, que têm em mãos uma 'memória adicional' com tudo que eles precisam ter durante lapsos de tempo durante uma ou outra atividade.
O nome Ipod foi sugerido por Vinnie Chieco, um escritor free lancer, que foi chamado pela Apple para ajudar no marketing do produto. Chieco, ao ver o protótipo, lembrou do filme 2001, Uma Odisséia no Espaço, onde se fala para o computador-comandante 'Open de pod bay door, Hal', numa referência ao veículo espacial.
Desde que nasceu, o Ipod tem ganho prêmios de excelência em tecnologia, de produto mais inovador, de melhor produto computadorizado do mundo, melhor design, facilidade de uso, e por aí vai. Revolucionou a forma como interagimos com diversos conteúdos, roubando mercado de cds, dvds, livros e, assim, mudando completamente os modelos de negócios de empresas que pensavam que o mundo não ia mudar. Mais do que tudo, foi o responsável por trazer Jobs, o homem que criou o computador pessoal, ao centro do espetáculo da tecnologia. Agora também no Palácio de Buckingham."

terça-feira, 31 de março de 2009

10 coisas que aprendi sobre redes sociais

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NPR: do povo, pelo povo, para o povo


Fairfield, Connecticut - Nestes tempos de fim de mundo, onde tudo que é sólido está se desmanchando no ar, a NPR, a adorada rádio pública norte-americana, está se arrebentando em rios de dinheiro e sucesso. Está certo que a autarquia, fundada pelo ex-presidente Lyndon Johnson em 1970, ganhou há cinco anos a maior doação já recebida por uma instituição norte-americana, US$ 200 milhões da viúva de Jay Kroc, o fundador do McDonald's, mas parece inexplicável que a NPR tenha dobrado de ouvintes de 1999 para cá, chegando a 26,4 milhões, bem à frente do jornal de maior circulação nos Estados Unidos (USA Today, com 2,3 milhões de leitores), e os telespectadores do horário nobre de uma emissora como a Fox News (2,8 milhões).
Mas onde a NPR está se revelando mesmo é na chamada nova mídia. A rádio é a campeã de downloads (14 milhões diários) no Itunes. Sua página na internet, npr.org, é visitada por oito milhões de pessoas diariamente, e a redes sociais que se alimentam de sua programação costumam ficar, no mínimo, "congestionadas". A revista Fast Company, uma espécie de bíblia do empreendedorismo americano, acaba de fazer uma reportagem investigativa sobre o sucesso da NPR entre os gringos, e o mistério só aumentou. Diante da falta de razões, só sobrou uma justificativa: um caso de amor do público por uma rádio criada do povo, pelo povo e para o povo.
O faturamento da NPR hoje chega a US$ 159 milhões, com um lucro (isto mesmo, lucro) líquido de US$ 18.9 milhões. O dinheiro vem em grande parte (43%) das 860 estações-membro espalhadas por todos os Estados Unidos. Em segundo lugar (29%), vem o patrocínio de corporações (especialmente fundações), concebidos na forma de apoio à sua programação (mais fundação Roberto Marinho do que Casas Bahia, digamos assim). 15% originam-se de doações de empresas e principalmente do público, que anualmente participa de campanhas de arrecadação de fundos durante um dia da programação. Apenas 2% vem do governo, através de um fundo chamado Corporation for Public Broadcasting.
Ou seja, a rádio é pública, mas dinheiro do governo quase não existe. É a própria sociedade organizada que mantém e faz o sucesso da NPR. Com a crise econômica, a rádio também não ficou impune. Prevê-se que, a continuar a seca de doações e patrocínios institucionais, vai ter um déficit de US$ 23 milhões no ano fiscal de 2009. Neste ambiente, foi cortado 7% da força de trabalho e cancelados dois shows (News and Notes e Day to Day). É a pior crise desde o início dos anos 80.
Mesmo assim, os executivos e repórteres da NPR estão confiantes que passarão estes tempos medonhos de uma forma menos drástica, já que a organização não depende somente dos patrocínios, pode utilizar US$ 15 milhões anuais das suas reservas e, acima de tudo, confia que sua audiência não vai diminuir. Mais ainda, os salários da NPR são irrisórios quando comparados aos de estrelas da mídia de TV, por exemplo. "O salário de um âncora de TV dá para pegar três vezes o orçamento de um dos programas de maior audiência, o Morning Edition ", diz um dos vice-presidentes da rádio. Não fosse este caso de amor com a NPR, a audiência será para sempre cativa. Afinal, dizem eles, pouca gente hoje tem tempo para ler jornal, mas é capaz de ficar horas no trânsito, voluntária ou involuntariamente, ouvindo sua programação.

domingo, 29 de março de 2009

The Death and Life of Great American Newspapers

This article appeared in the April 6, 2009 edition of The Nation.
March 18, 2009

John Nichols and Robert W. McChesney were the founders, with Josh Silver, of Free Press, which has launched a campaign to save the news. Their book, Saving Journalism: The Soul of Democracy, will be published by New Press in the fall.

AVENGING ANGELS

Communities across America are suffering through a crisis that could leave a dramatically diminished version of democracy in its wake. It is not the economic meltdown, although the crisis is related to the broader day of reckoning that appears to have arrived. The crisis of which we speak involves more than mere economics. Journalism is collapsing, and with it comes the most serious threat in our lifetimes to self-government and the rule of law as it has been understood here in the United States.


After years of neglecting signs of trouble, elite opinion-makers have begun in recent months to recognize that things have gone horribly awry. Journals ranging from Time, The New Yorker, The Atlantic and The New Republic to the New York Times and the Los Angeles Times concur on the diagnosis: newspapers, as we have known them, are disintegrating and are possibly on the verge of extinction. Time's Walter Isaacson describes the situation as having "reached meltdown proportions" and concludes, "It is now possible to contemplate a time in the near future when major towns will no longer have a newspaper and when magazines and network news operations will employ no more than a handful of reporters." A newspaper industry that still employs roughly 50,000 journalists--the vast majority of the remaining practitioners of the craft--is teetering on the brink.

Blame has been laid first and foremost on the Internet, for luring away advertisers and readers, and on the economic meltdown, which has demolished revenues and hammered debt-laden media firms. But for all the ink spilled addressing the dire circumstance of the ink-stained wretch, the understanding of what we can do about the crisis has been woefully inadequate. Unless we rethink alternatives and reforms, the media will continue to flail until journalism is all but extinguished.

Let's begin with the crisis. In a nutshell, media corporations, after running journalism into the ground, have determined that news gathering and reporting are not profit-making propositions. So they're jumping ship. The country's great regional dailies--the Chicago Tribune, the Los Angeles Times, the Minneapolis Star Tribune, the Philadelphia Inquirer--are in bankruptcy. Denver's Rocky Mountain News recently closed down, ending daily newspaper competition in that city. The owners of the San Francisco Chronicle, reportedly losing $1 million a week, are threatening to shutter the paper, leaving a major city without a major daily newspaper. Big dailies in Seattle (the Times), Chicago (the Sun-Times) and Newark (the Star-Ledger) are reportedly near the point of folding, and smaller dailies like the Baltimore Examiner have already closed. The 101-year-old Christian Science Monitor, in recent years an essential source of international news and analysis, is folding its daily print edition. The Seattle Post-Intelligencer is scuttling its print edition and downsizing from a news staff of 165 to about twenty for its online-only incarnation. Whole newspaper chains--such as Lee Enterprises, the owner of large and medium-size publications that for decades have defined debates in Montana, Iowa and Wisconsin--are struggling as the value of stock shares falls below the price of a single daily paper. And the New York Times needed an emergency injection of hundreds of millions of dollars by Mexican billionaire Carlos Slim in order to stay afloat.

Those are the headlines. Arguably uglier is the death-by-small-cuts of newspapers that are still functioning. Layoffs of reporters and closings of bureaus mean that even if newspapers survive, they have precious few resources for actually doing journalism. Job cuts during the first months of this year--300 at the Los Angeles Times, 205 at the Miami Herald, 156 at the Atlanta Journal-Constitution, 150 at the Kansas City Star, 128 at the Sacramento Bee, 100 at the Providence Journal, 100 at the Hartford Courant, ninety at the San Diego Union-Tribune, thirty at the Wall Street Journal and on and on--suggest that this year will see far more positions eliminated than in 2008, when almost 16,000 were lost. Even Doonesbury's Rick Redfern has been laid off from his job at the Washington Post.

The toll is daunting. As former Washington Post executive editor Leonard Downie Jr. and Post associate editor Robert Kaiser have observed, "A great news organization is difficult to build and tragically easy to disassemble." That disassembling is now in full swing. As journalists are laid off and newspapers cut back or shut down, whole sectors of our civic life go dark. Newspapers that long ago closed their foreign bureaus and eliminated their crack investigative operations are shuttering at warp speed what remains of city hall, statehouse and Washington bureaus. The Cox chain, publisher of the Atlanta Journal-Constitution, the Austin American-Statesman and fifteen other papers, will padlock its DC bureau on April 1--a move that follows the closures of the respected Washington bureaus of Advance Publications (the Newark Star-Ledger, the Cleveland Plain Dealer and others); Copley Newspapers and its flagship San Diego Union-Tribune; as well as those of the once great regional dailies of Des Moines, Hartford, Houston, Pittsburgh, Salt Lake City, San Francisco and Toledo.

Mired in debt and facing massive losses, the managers of corporate newspaper firms seek to right the sinking ship by cutting costs, leading remaining newspaper readers to ask why they are bothering to pay for publications that are pale shadows of themselves. It is the daily newspaper death dance-cum- funeral march.

But it is not just newspapers that are in crisis; it is the institution of journalism itself. By any measure, journalism is missing from most commercial radio. TV news operations have become celebrity- and weather-obsessed "profit centers" rather than the journalistic icons of the Murrow and Cronkite eras. Cable channels "fill the gap" with numberless pundits and "business reporters," who got everything about the last decade wrong but now complain that the government doesn't know how to set things right. Cable news is defensible only because of the occasional newspaper reporter moonlighting as a talking head. But what happens when the last reporter stops collecting a newspaper paycheck and goes into PR or lobbying? She'll leave cable an empty vessel and take the public's right to know anything more than a rhetorical flourish with her.

The Internet and blogosphere, too, depend in large part on "old media" to do original journalism. Web links still refer readers mostly to stories that first appeared in print. Even in more optimistic scenarios, no one has a business model to sustain digital journalism beyond a small number of self-supporting services. The attempts of newspapers to shift their operations online have been commercial failures, as they trade old media dollars for new media pennies. We are enthusiastic about Wikipedia and the potential for collaborative efforts on the web; they can help democratize our media and politics. But they do not replace skilled journalists on the ground covering the events of the day and doing investigative reporting. Indeed, the Internet cannot achieve its revolutionary potential as a citizens' forum without such journalism.

So this is where we stand: much of local and state government, whole federal departments and agencies, American activities around the world, the world itself--vast areas of great public concern--are either neglected or on the verge of neglect. Politicians and administrators will work increasingly without independent scrutiny and without public accountability. We are entering historically uncharted territory in America, a country that from its founding has valued the press not merely as a watchdog but as the essential nurturer of an informed citizenry. The collapse of journalism and the democratic infrastructure it sustains is not a development that anyone, except perhaps corrupt politicians and the interests they serve, looks forward to. Such a crisis demands solutions equal to the task. So what are they?

sexta-feira, 27 de março de 2009

Valor Econômico - Digital Pages

Valor Econômico - Digital Pages

terça-feira, 24 de março de 2009

Dinheiro, prá que dinheiro?

New York - Para o quinto website mais visitado do mundo, a Wikipedia , a enciclopédia colaborativa que busca reunir todos os conhecimentos do ser humano, dinheiro não é tudo na vida. Seu fundador, Jimmy Wales, um ex-trader de opções de Chicago, bem que tentou atrair patrocinadores no início da operação, mas foi rechaçado pelos hoje milhares de colaboradores que nutrem cerca de 12 milhões de páginas sobre tudo - ou quase tudo - que existe na Terra, em mais de 250 línguas. Por que? A verdade é que a Wikipedia não é apenas resultado de um sonho coletivo de conhecimentos livres para nós, terráqueos, mas é também uma amostra do movimento que nasce neste terceiro milênio: sem chefes ou empregados, sem prédios ou telefones, mas onipresente 24 horas por dia, 7 dias por semana, onde o cliente é o centro do universo e a mercadoria não é propriedade de um único dono.
Só tem um probleminha. Sem dinheiro, como esta conta fecha? Esta é a pergunta que não quer calar. Todos os projetos em volta desta nunca vista base de conhecimento, que inclui o Wikibooks, Wikiquote ou Wikinews, são sustentados por uma fundação, a Wikimedia Foundation , que está em San Francisco, mas que por motivos de segurança pouca gente sabe onde está. A Fundação recebe doações que dão para pagar a infraestrutura de rede e seus 25 funcionários, mas está pesquisando formas de rentabilizar a base de dados com projetos empresariais. Este mergulho no mercado é feito com extrema discrição e ética, mas o objetivo da organização é um mundo onde qualquer pessoa terá livre acesso à soma do conhecimento humano. O dinheiro, assim, tornou-se uma barreira que foi transposta com trabalho colaborativo e voluntário.
No documentário Join Us , da Tv Ideal, do Grupo Abril, a Wikipedia é mostrada como o centro do mundo colaborativo, que só surgiu com o advento da Internet. Andrew Lih, um ex funcionário da organização que acaba de lançar o livro "The Wikipedia Revolution ", explica seu sucesso como um "resultado natural" das forças do mercado. "O website tornou-se um fenômeno instantâneo por causa da oferta e demanda - conteúdo equilibrado e confiável é uma commodity rara, e com alta demanda", diz ele. E mais: "a Internet tem gente ansiosa para dividir conhecimentos profundos sobre qualquer coisa, mas até então este povo estava disperso geográfica e logisticamente - A Wikipedia simplesmente apareceu como um espaço para abrigar todo este conhecimento".
Pouca gente fala, no entanto, de outro fenômeno: A Wikipedia, reunindo conhecimento de forma prática e ágil, está tomando o lugar dos jornais. O jornalista Jonathan Dee, do The New York Times, comentou o fato de que o site não é apenas uma enciclopédia on line, mas também fonte de notícias sempre atualizada. Já tornou-se lenda o fato de que a Wikipedia furou a mídia tradicional dando em primeira mão a notícia de morte de gente famosa, como o apresentador da NBC Tim Russell, que sofreu um ataque de coração fulminante.
Quem está contra a Wikipedia? Algumas pessoas que criticam certas distorções ou mentiras em determinadas páginas - como o fato da cantora Britney Spears ter o mesmo espaço que o filósofo Sócrates, ou muitos professores que identificam pesquisas e deveres-de-casa dos estudantes copiados literalmente do site, sem nenhuma outra fonte. Mesmo a cópia sendo permitida pela licença da enciclopédia, a própria comunidade não aconselha essa atitude, pois eles não consideram a Wikipedia como fonte primária. Quanto a revista Time elegeu VOCÊ como a pessoa do ano em 2006, citou o sucesso da colaboração online e a interação de milhões de pessoas ao redor do mundo. É o que a Wikipedia representa.

quinta-feira, 19 de março de 2009

A classe média chega ao paraíso

Além da Casa Branca, da Disneyworld e de Estátua da Liberdade, outro ponto que deve ser conhecido nos Estados Unidos é a rede de supermercados Costco, uma idéia inovadora que, aqui, está sendo chamada de porta do paraíso da classe média. Embora tenha sido também afetada pela crise, com "apenas" US$ 5 bilhões a menos em faturamento, a rede que tem sede em Seattle e se espalha por todo o país parece ter sido criada na medida certa para a dona de casa e, melhor ainda, é um modelo de sucesso para o empreendedor (ou para a empreendedora).
A primeira vista, o Costco é apenas um imenso barracão com produtos amontoados no chão, televisores de plasma de 200 dólares, roupas chinesas a preço de banana e banana a preço de chicletes. Depois da segunda ou terceira visita, você começa a tomar gosto pelo lugar - e descobre que ali é existe uma laboratório para paladares requintados e curiosos a procura de novidades. Com a crise, é um bom lugar para comer e beber de graça. Em cada esquina, por exemplo, há aposentados (de preferência imigrantes) oferecendo pedacinhos de tortelone feitos na hora, ou uma tostada francesa com queijo de cabra. Para a criançada, oferece-se pizza a US$ 1,50 e Coca Cola com direito a refil gratuito.
Com o tempo, descobre-se outra razão do sucesso: o fator surpresa. Embora jogados em prateleiras que lembram o Makro, no Brasil, os produtos são de excelente qualidade e sempre vêem em doses generosas com preços ainda mais generosos. E, o melhor, coisas que você jamais viu. Dez pedaços de frango em um só pacote por US$ 5, espinafre orgânico para abastecer uma casa por dois meses, caixas de vinho argentino a US$ 6 a garrafa, etc. Não é loja de pobre, mas de uma classe média americana cada vez mais esprimida pela não só pela crise, mas pelo fato de que a classe média vem sendo espremida em qualquer lugar.
Perguntei ao diretor comercial Jim Donald, numa visita a Issaquah, na região de Seattle, onde está a sede da empresa, porque o Costco não vai para o Brasil. "Temos que responder positivamente a 25 questões antes de chegar a qualquer país, mas não vamos para o Brasil simplesmente porque lá (aí) não existe uma classe média ligeiramente alta (não sabia que existia isto) que compra os nossos produtos", disse ele.
Fundado em 1983, o Costco conta hoje com 123 mil empregados e é a maior rede de atacado do mundo em volume de vendas. É o quarta maior varejista do país, e a única empresa do mundo que subiu de zero a US$ 3 bilhões de faturamento em apenas seis anos. Tem em sua carteira mais de 51 milhões de membros, representando 28,3 milhões de lares norte-americanos. Em 2007, faturou US$ 64,4 bilhões, com mais de US$ 1 bilhão em lucros. É a 29a maior empresa dos Estados Unidos, e também uma das mais adoradas.
O foco do Costco é vender produtos a preço baixo e em grande volume. Até aí nada demais. O supermercado, entretanto, não oferece centenas de marcas, e prefere vender a maioria dos produtos debaixo da sua marca própria, a Kirkland. O resultado, segundo os especialistas, é que o Costco economiza para o consumidor trabalhando com poucos fornecedores e investindo muito pouco no marketing. Aliás, como se diz aqui, o supermercado é o rei do chamado marketing de experiência. O Costco sabe que, se você for lá, vai voltar sempre.

O jeito é perguntar ao Google

Se o Google fosse uma fábrica de automóveis, não fabricaria carros. Deixaria que um bando de chineses fabricasse veículos simples, elétricos, eficientes, fáceis de dirigir, disponíveis em qualquer lugar e.... de graça. O GoogleMobile seria o resultado da colaboração de milhões de internautas, que poderiam sugerir qualquer acessório, como um plug para Ipod ou Blackberry, e rodariam sob o patrocínio de um anunciante qualquer. Melhor ainda, sairiam sempre numa versão beta, de forma que possam ser melhorados infinitamente - e a qualquer momento.

No livro "What Would Google Do", o jornalista Jeff Jarvis, também professor da City University of New York Graduate School of Journalism, faz esta e outras incômodas perguntas cujas respostas sugerem um mapa para atravessarmos a pior crise desde 1929, o grande desastre econômico de todos os tempos, a implosão da economia mundial tal qual a conhecemos ou, simplesmente, o início de uma nova era para a humanidade.

Jarvis chegou até a sentar-se com o pessoal de Detroit (Ford, GM, Chrysler) para dizer que os fabricantes de automóveis, hoje falidos, são mais desconectados dos seus consumidores do que funcionário público exigindo reconhecimento de firma. Quase apanhou. No mundo de hoje, diz, deixe o consumidor trabalhar. Ele quer influir, colaborar, conversar, participar, inovar, enfim (já repararam como todo mundo hoje está dizendo "enfim"?) - ser parte integrante do produto ou serviço.

Jorra dinheiro no Vale do Silício

O mundo, se você não reparou, está acabando, mas o Vale do Silício, uma área erguida no deserto californiano ao redor da Universidade de Stanford, está mais do que nunca open for business. Só no ano passado, segundo uma das mais conceituadas consultoras da região, a holandesa Anne Donker, foram investidos US$ 28,3 bilhões, perfazendo quase quatro mil negócios. Em qualquer momento, segundo ela, pelo menos 20 mil empreendedores estão pensando em abrir alguma empresa aqui, sendo que quase metade deles está precisando de dinheiro para tocar o negócio (embora calcula-se que só 1% deles o consiga).

Aqui está pelo menos metade de todas as firmas de investimento em novas empresas (venture capitalists, ou VCs) dos Estados Unidos, administrando cerca de US$ 257 bilhões. E, nesta crise, os VCs estão mais afoitos que nunca para financiar ideias que justamente tirem o mundo da crise, a maioria delas relacionada com a tecnologia da informação, biotecnologia e energias limpas, como baterias de alta durabilidade e paineis solares que tenham preços acessíveis à maioria das pessoas.

O bom é que para 2009 a coisa piora, mas só um pouquinho. O Vale não está se desgrenhando, como a indústria automobilística ou a mídia tradicional, por exemplo. A maioria dos VCs diz que este é um excelente momento para investir em novas empresas, já que estes ativos estão bastante depreciados de uma forma geral devido à crise mundial. "Jamais haverá recessão quando se tratar de inovação", diz Anne.

Nas pesquisas que promove no setor, ela descobriu que 48% dos investidores estão prevendo aumento de investimentos em 2009. Para onde o dinheiro está indo? Se forem seguidos os padrões do ano passado, estes bilhões de dólares irão para software, que no ano passado foi o centro de 881 negócios, energia limpa (277) e ciências da vida - biotecnologia, medicina e instrumentação (853). Na parte de específica de tecnologia da informação, os favoritos são e-commerce, componentes e subsistemas, segurança, entretenimento e redes sociais, nesta ordem.

Como se sabe, o que mais o investidor quer é ajudar a montar a empresa, criar valor e, no menor tempo possível, cair fora do negócio vendendo-o por um preço exorbitante, várias vezes o preço que pagou para entrar. É a chamada estratégia de saída. Com a crise, sair bem está ficando mais difícil, daí o VC pensar duas vezes antes de entrar financiando qualquer oferta, diz Anne. "Só falta uma lupa para que eles esquadrinhem cada pedaço do negócio, a fim de examinar detidamente se vale a pena ou não investir", diz ela.

Para chegar até estes investidores, o empreendedor tem de passar pela via crucis de uma fantástica indústria que se criou para apoiá-los antes que eles apresentem seus negócios aos VCs. No Vale, há associações de apoio a empreendedores em cada esquina, consultores caros e baratos em outras, empresas de recursos humanos que acham toda a equipe que você precisa e ainda a convence a trabalhar de graça por 90 dias em troca de uma possível futura participação, e até bancos que emprestam dinheiro em troca de um business plan que faça sentido, e a juros de 4% ao ano.

O americano comum, ao contrário do que está fazendo o presidente Barack Obama, sabe que a solução tem de vir do mercado, e não do governo. Daí surgirem ilhas de prosperidade como o Vale do Silício num mundo que, a cada dia, se desmorona.

kicker: Firmas de investimento querem financiar ideias que tirem o mundo da crise, a maioria delas relacionada com TI

O capitalismo morreu. Viva o capitalismo!

Eu já tinha ouvido falar de Chris Anderson, por intermédio do Juliano Spyer , o maior especialista brasileiro em colaboração. Sabia que o editor chefe da Wired - a bíblia dos novos tempos da internet -, o homem que tão bem identificou a nova era que estamos vivendo com o livro "The Long Tail", tinha lá suas impenetrabilidades, vivendo na reclusão de quem é submergido por pedidos de palestras, viagens ou autógrafos.

Bastou entrarmos na redação da revista em San Francisco, acompanhando um grupo de brasileiros do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) que queria conhecer as empresas do Vale do Silício, para ele aparecer todo sorridente e, melhor ainda, interessado no Brasil, onde seu novo livro, "Free", será lançado em breve. Não deu outra: autógrafos, fotos e, melhor ainda, promessas de fazer palestras no Brasil.

Como a maioria das pessoas, gosto de conhecer celebridades (qualquer uma) só pelo fato de serem celebridades. No mínimo, vira assunto de mesa de bar. Mas com Anderson é diferente. "The Long Tail" foi publicado em 2004 em forma de artigo, e até hoje é o assunto mais reverenciado numa das mais reverenciadas revistas do mundo.

Nascido em 1961, Anderson cresceu vendo Batman, lendo o The New York Times e ouvindo a NPR, a rádio pública norte-americana. Como editor da revista, e mergulhado nos meios digitais, começou a comparar a sua adolescência com o dia-a-dia dos garotos (ou garotas) que hoje têm, por exemplo, 16 anos.

Nesta imersão, descobriu um mundo totalmente novo, construído sobre a internet. O fenômeno do Long Tail, que já era estudado entre os demógrafos, baseia-se no fato de que a rede de computadores reduziu o custo de distribuição a quase zero, fazendo com que empresas como a Amazon e Netflix vendam um grande número de itens em pequenas quantidades. Outro excelente exemplo é o iTunes da Apple, que não tem nenhuma - isto mesmo, nenhuma - das bilhões de músicas no seu catálogo que não tenha sido vendida, fazendo o sucesso não só se celebridades, mas também de ilustres desconhecidos.

Na conversa, perguntamos o que vai nascer depois do que está sendo chamado de o fim do capitalismo. Para ele, emergirão empresas horizontalizadas, sem chefes, transparentes, éticas, sustentáveis e ecológicas. Um exemplo é o que está acontecendo na mídia. Com o fim dos jornais impressos, da TV ou do rádio, nascem milhões de mídias, como blogs, twiters, ou sites de notícias para hackers, adoradores do diabo ou esportes radicais. Ao invés de TV, surgem o Youtube ou o Hulu, sem comerciais e com conteúdos exclusivos ou copiados da TV. Ao invés de rádio, o Itunes - músicas on-line, a US$ 0,99 cada.

Pelo menos nos Estados Unidos, uma espécie de avant première do que vai acontecer no mundo, a tendência é o que ele chama de "marketing massivo de nichos". Uma mídia para cada gosto. Este é um intrincado labirinto de tribos, gangs, gostos, seja lá o que for, uma parafernália de conteúdos totalmente diferente do que estamos acostumados, dirigida para cada ser humano, em uma onda gigantesca, indetectável e incompreensível.

O interessante disto tudo é que a conta não fecha. Excetuando o Google, que vive de pequenos anúncios na Internet e distribui gratuitamente softwares para as massas, e outras poucas empresas, não foi descoberto ainda um modelo de negócios rentável que possa abarcar as iniciativas dos empreendedores do mundo inteiro.

Chris Anderson, no entanto, faz muito dinheiro com esta nova era. Já ganhou milhões na Wired, nos livros que escreve e nas palestras que dá. Coube a ele identificar e descrever pela primeira vez a nova era. Agora, já prenuncia outra era (vai ser tudo free, como dizia Raul Seixas) de conteúdo, produtos, serviços - o que for - para todo mundo. Quem vai pagar a conta?

sábado, 31 de janeiro de 2009

Conversando a gente se entende....


Seattle - Você prefere ler aquele manual de 300 páginas ou perguntar para seu colega como se faz para instalar o seu programa de email? Já foi chamado de burro porque não suportava ficar boa parte da sua adolescência sentado numa cadeira ouvindo qualquer marciano falar o que você não entendia? Já caiu no sono - e sonhou com uma praia distante - durante um treinamento na sua empresa?
Se você disse sim a qualquer uma destas perguntas você não está sozinho. Especialistas em educação - presencial ou à distância - finalmente estão dando o braço a torcer e reconhecendo a chatice que é o processo de aprendizado, desde que algum insensível na antiga Grécia criou o professor, a sala de aula e um monte de alunos que estão ali como se estivessem no purgatório.
Para Jay Cross, o autor de Learning:Rediscovering the Natural Pathways that Inspire Innovation and Performance, o aprendizado já mudou - só que a maioria das pessoas, especialmente os empresários que precisam adequar suas empresas aos novos e mutantes tempos, ainda não percebeu.
A educação, como se sabe, continua sendo a grande e sustentável vantagem competitiva na idade do conhecimento, onde somos pagos para pensar, ao contrário de 100 anos atrás. Mas o problema é que hoje a velocidade das mudanças é tão grande que o mercado - empresas, alunos etc - não suporta mais pagar os custos da ineficiência do aprendizado tradicional. Por isto o ser humano aprende muito mais trocando mensagens on line, blogando, fazendo podcasts, escrevendo em wikis, jogando no Wii, trocando informações no Orkut ou simplesmente encostando no colega ao lado e perguntando. Em outras palavras, fazendo o que fomos feitos para fazer: comunicar, socializar, entreter e sermos entretidos.
O problema é que as gerações antigas, incluindo eu e você, leitor, não conseguimos imaginar uma escola sem professor, uma empresa sem prédios, um negócio sem chefe. Ainda somos viciados em conceitos que, já morreram ou estão fadados a morrer. Confundimos seriedade com trabalho duro. Não concebemos que as chamadas relações estruturadas - a escola, o govenro, a empresa - não estão seguindo mais a fantástica, confusa e inesperada capacidade do ser humano de criar conceitos, estabelecer conexões, ter os chamados insights, progredir independentemente de qualquer controle, de grande irmãos ou líderes.
"Por isto a chamada conversação é a mais poderosa tecnologia de aprendizado do planeta", disse Jay Cross numa recente entrevista ao web site da Adobe, uma empresa que está apostando tudo na colaboração on line. "O que os empregados fazem quanto tem uma dúvida? Perguntam para os colegas que estão mais próximos deles". É uma prática comum. Daí, segundo ele, a tendência de networking online (ou off line) não só nas empresas, mas em tudo quanto é lugar. A reboque, uma incrível troca instantânea de conhecimento que vai levar o progresso a níveis exponenciais, com boa parte dos seres humanos se comunicando 24 horas por dia, 7 dias por semana.

* Dirige a The Information Company nos Estados Unidos. www.vidaamericana.com.br

http://vimeo.com/3006363

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

A gente não quer só comida - a gente quer banda larga também


Seattle - Plugado num Blackberry, no Youtube e outras gusoleimas digitais, Barack Hussein Obama, o primeiro presidente on line dos Estados Unidos, pretende investir US$ 30 bilhões para levar a banda-larga a todos - isto mesmo, todos - os 303 milhões de americanos, estejam eles em Nova York ou em Boys Town, Nebraska, considerada a menor cidade do país, com apenas cinco honrosos habitantes. Obama entende que a chamada conexão de alta velocidade, assunto em que o país está em um humilhante 15° lugar no mundo, é tão importante quanto a paz, o pacote de estímulo de US$ 750 bilhões ou, simplesmente, comida na mesa do trabalhador.
Especialistas têm apenas um vaga idéia do que seria um país totalmente plugado, mas não conseguem imaginar a grandiosidade da revolução que tal estrutura vai provocar em termos de educação, entretenimento, informação e principalmente novos empregos, milhões de empregos. O consenso é que, hoje, a banda-larga é tão importante quanto os carros de Henry Ford nos anos 20, as estradas construídas por Dwight Eisenhower nos anos 50 e a própria infraestrutura de Internet que a dupla Clinton-Gore criou nos anos 90, as chamadas information highways. Só se sabe que a banda-larga é o passaporte para o futuro.
Boa parte dos US$ 30 bilhões que Obama pretende investir vai para incentivos fiscais. Empresas que levem a bandalarga a lugares inóspitos ou de pouco acesso vão ganhar até 60% de tax credits, como se diz por aqui. Outras que aumentarem a velocidade da atual banda podem receber até 40%. Os incentivos, segundo a revista Business Week, estarão disponíveis para qualquer empresa. Mas quem vai ganhar, como se prevê, é quem já está no ramo, como a AT&T, Verizon Communications, Comcast, ou até uma empresa de internet sem fio aqui da região de Seattle, a Clearwire. Pelas suas características, o setor é altamente monopolizado, e vai vencer a parada quem já estiver pronto para fazer o serviço. Depois de oito anos de George W. Bush, a pressa do novo governo, seja ela em qualquer setor, chega aos níveis da extrema ansiedade.
O homem chave de Obama nos setor é um tal de Blair Levin, que não dá entrevista para a imprensa nem sob tortura. Ele lidera um grupo que estuda a possibilidade de incentivos fiscais para quem também utiliza a conexão rápida, como escolas, livrarias e - o problemão de todo mundo comenta -, a redução de custos no setor de saúde. Afinal, durante a campanha, Obama bateu de frente neste setor, insistindo que sua informatização seria a chave para aumentar a produtividade e, desta forma, reduzir os custos para milhões de americanos que pagam US$ 150 dólares por uma consulta ou comprimidos para combater o colesterol. Fala-se também que até os Estados vão receber dinheiro para construir redes de banda-larga para regiões que nunca nem ouviram falar disto. Seria uma extensão do atual programa do Departamento de Agricultura, o Rural Development Broadband Program, que já conectou 600 mil casas em 40 estados desde 2002.
Esta empurrão na banda-larga é importante para a administração de Obama porque pretende resolver um monte de problemas. Além de criar empregos na construção destas redes e ampliar o uso da Internet, o esforço traria os Estados Unidos para um dos primeiros lugares do mundo neste setor, que hoje tem a Dinamarca, a Noruega e Holanda nos primeiros lugares. "A banda-larga é a chave para o nosso futuro", resumiu S. Derek Turner, diretor da Free Press, uma organização independente que estuda o assunto no momento.

Dirige a The Information Company nos Estados Unidos - www.vidaamericana.com.br

domingo, 18 de janeiro de 2009

Investir em crise abre a porta pula do avião


Seattle - Aterrorizado pelas perdas que provocou aos seus clientes no Heritage Wealth Management Inc., uma firma de Indiana, nos Estados Unidos, o gerente de investimentos Marcus Schrenker, 38 anos, abriu a porta no seu mono-motor e pulou para a eternidade num pântano no Estado de Alabama, no sul do país. Schrenker, rico, bonito, acrobata e esportista, um homem que ficou milionário sendo o que se chama aqui de "babá de milionário", cometeu sucessivos erros que, pelo que se viu até agora, deram um prejuízo de US$ 2 milhões aos seus clientes. Depois que ficou pobre, até a sua mulher o deixou entrando com um pedido milionário de divórcio. A saída foi a morte.
Tudo parecia ser mais um caso de suicídio nos recessivos tempos que estamos vivendo até que a Força Aérea americana relatou que foi chamada a socorrer um piloto que tinha quebrado do pára-brisa do avião e que, segundo o chamado, "estava sangrando profundamente". Ao chegarem perto do mono-motor Piper PA-46, ainda a dois mil pés de altitude, descobriram que a cabine estava vazia e que a porta lateral estava semiaberta. Seguiram o avião até que ele se espatifou num mangue ao sul do Alabama. Dentro, nenhum sinal de sangue.
Foi aí que descobriram que Marcus Schrenker queria mesmo é desaparecer e reaparecer, daqui a algum tempo, mas com outra identidade. Sem dívidas financeiras, aporrinhações da esposa e outras contrariedades que só quem está vivo sabe, ele queria uma segunda chance. No entanto, Polícia, FBI, Força Aérea e toda a mídia cheiraram a notícia e começaram a seguí-lo. Descobriram uma fita de vídeo de um motel onde ele aparece ainda carregando o pára-quedas e entrando no quarto. Entrevistado pela política, o gerente disse que Schrenker alegava que tinha tido um acidente de canoa no rio. Mais tarde, descobriu-se que ele tinha guardado uma motocicleta (uma Yamaha vermelha) num local próximo e, como no filme Easy Rider, já tinha colocado o pé na estrada.
Na quinta-feira passada, o xerife Frank Chiumento descobriu o moço escondido num acampamento em Quincy, na Flórida. Schrenker estava meio desacordado depois de cortar o pulso esquerdo numa nova tentativa - esta real - de suicídio para se livrar dos problemas. O problema é que, mais uma vez, ele não tinha morrido. Pego em flagrante num país onde o maior pecado é a mentira, o investidor agora vai seguir a Via Crucis dos tribunais. Um juiz já terminou o congelamento de todos os seus bens, de forma que os interesses dos investidores sejam no mínimo garantidos.
Quando viu todo o alvoroço na TV, sua mulher, Michelle, voltou atrás e disse que quer ajudar o pai de seus três filhos a voltar à vida normal. "Ele é apenas uma vítima das circunstâncias", disse através de seu advogado". Para quem está de fora, e pelas informações obtidas até agora pela imprensa, Schrenker não cometeu crime algum depois que recebeu um email um dia antes do vôo com um texto que o ameaçava (não se sabe como). Promotores entrevistados pela TV, no entanto, dizem que sua prisão é apenas uma questão de tempo. Atrás das grades, ele terá mais tempo para pensar no que fez e, como quer sua esposa, se reconciliar com a vida.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Recessão é a melhor hora para descriminalizar as drogas


Maconha, haxixe, cocaína, crack, anfetaminas - o presidente-eleito Barack Obama, ele mesmo um ex-usuário (hoje é só cigarro de vez em quando) terá que lidar com a possibilidade de descriminalização das drogas, a exemplo dos que os Estados Unidos fizeram há exatos 75 anos, quando uma emenda constitucional acabou com a Prohibition, que para nós ficou conhecida como Lei Seca. Em 1933, milhões de americanos voltaram a tomar seus dry martinis e, assim, deixaram de ser criminosos, esvaziaram as prisões e, o melhor, acabaram com a vida fácil de Al Capones e outros gângsters que infestavam Chicago oferecendo bebidas que muitas vezes simplesmente matavam quem as bebia.
Contraditoriamente, e diferentemente de muitos países, os Estados Unidos adotam desde então uma política semelhante à Prohibition em relação a outras drogas. O resultado é uma Chicago dos anos 30 em escala mundial. Aqui, mais de meio milhão de pessoas encarceradas por uso de entorpecentes (1,8 milhão de prisões por ano), bilhões investidos nas guerras contra o tráfego, desde a Colômbia até o Afeganistão, milhares de mortes por overdose, suporte a terroristas como a FARC, e por aí vai. Ao todo, 20 milhões de americanos tomam drogas, contra 127 milhões de pessoas que, talvez como você, leitor, são chegados num drinque no final do dia.
Como lembrou Ethan A. Nadelmann, diretor do Drug Policy Alliance, não faz sentido liberar o álcool e proibir a maconha, que faz menos mal, tem pouca associação com comportamentos violentos e não oferece risco de overdose (a não ser o sono). O problema maior, como muita gente sabe, são as drogas estimulantes - cocaína e metafetaminas -, mas que quando comparadas ao álcool representam menor número de mortes e outros prejuízos para a sociedade.
"A diferença real", disse ele num artigo do The Wall Street Journal, "é que o álcool é um diabo que a gente conhece, enquanto estes outros diabos a gente desconhece". Por isto mesmo, continua, nada melhor que uma recessão (ou será depressão?), como a que vemos agora, para sairmos da chamada zona de conforto e enfrentarmos nossos preconceitos de uma forma clara, eficiente e principalmente inteligentemente.
Trazendo o mundo das drogas à luz do dia, sendo vendidas e controladas pelo Estado (ou por organizações criadas para este fim), e a exemplo do que já acontece vários países, como no nosso vizinho Canadá e em países europeus, o custo para a sociedade seria menor. Milhões de dólares deixariam de ser gastos numa guerra subterrânea que a gente desconhece e, por isto mesmo, não sabe como lidar.
Em seu programa de governo, Barack Obama já sinalizou que vai acabar com as grandes sentenças para drogados, voltará a financiar programas educativos para evitar a AIDS (que tem uma relação íntima com as drogas), deixará que a maconha seja testada para fins medicinais e vai dar suporte a programas alternativos para pequenos usuários pegos pela polícia.
Como se sabe, a fonte de toda dor - qualquer dor - é a falta de informação. Muitos pais sofrem por não saber como os filhos compram drogas em favelas, injetam substâncias no corpo sem agulhas descartáveis ou desconhecem seus limites como usuários. Trazendo o problema à tona, os riscos cairiam tremendamente e a criminalidade deixaria de existir em grande parte. Mas este problema, se não for enfrentado, sempre existirá. Pois se droga realmente fosse uma "droga", uma substância utilizada desde Adão para esquecermos a realidade e vivermos sonhos impossíveis, ninguém a utilizaria.

O Rambo Pitbull de Barack Obama


Já ia escrevendo um artigo explicando porque Barack Obama pode ser um desastre como presidente - inexperiente, joguete nas mãos das elites, síndico de outro desastre, George W. Bush - quando surge uma esperança: a primeira escolha do eleito, o deputado Rahm Emanuel (para chefe de gabinete) , o político pitbull, mais conhecido como "Rahmbo", "algo intermediário entre as hemorróidas e uma terrível dor de dente" - como dizem seus detratores -, o homem que esteve por trás da fantástica vitória dos democratas em 2006 e que culminou com a eleição do primeiro presidente negro americano.

Se Obama representa o equilíbrio, a turma do deixa disso, nem negro, nem branco, nem asiático, nem africano, Rahm é o oposto: é o cowboy chamado para impor ordem no faroeste sem lei. Direto, brusco, é judeu praticante, já foi triatleta, tem 1m78cm de altura, nove dedos nas mãos (fruto de uma infecção que quase o matou), pele tostada (como a dos beduínos) e uma energia sem limites, que combina eficiência e eficácia. É um temido gerentão, CEO, executor ou, simplesmente, um trator.

Um dos principais fundraisers dos democratas e deputado pelo distrito de Chicago (mesmo de Barack), Rahm liga às quatro da tarde pedindo dinheiro, novamente às 4h15min para ver se o dinheiro já foi transferido e às 4h30min para agradecer - e pedir mais. Não é à toa que Obama teve o dinheiro que quis durante a campanha.

Amado e odiado, pela esquerda e pela direta, é um dos homens mais ricos do Congresso. Levantou (para si) US$ 18 milhões em bônus em dois anos e meio, quando trabalhou para o banco Dresdner Kleinwort Wasserstein, em Chicago.

Com seu estilo determinado, incansável e nervoso, impôs a eficiência e a disciplina empresarial à então confusa e difusa minoria democrata. Na Casa Branca, provavelmente trará a mesma disciplina a um governo que deve US$ 10,3 trilhões e tem um déficit anual perto dos US$ 500 bilhões.

Rahm tem a fé que remove montanhas não apenas por mérito. Parece que nasceu assim, como seus pais e irmãos. Filho de um médico israelita que imigrou para os Estados Unidos, já serviu no Exército israelense como mecânico na fronteira com o Líbano.

O irmão mais novo, Ari Emanuel, um dos mais proeminentes agentes artísticos de Hollywood, divide com ele o estilo "bateu-levou-deixa-que-eu-chuto". O mais velho, Ezekiel, é um famoso oncologista nos Estados Unidos e tido como um dos maiores apologistas na defesa da ética na Medicina.

Rahm formou-se em dança e tem diploma de Comunicação. Ganhou notoriedade quando, há dois anos, percorreu o país para lançar o livro "O Plano - Grande Idéias para a América".

Seu ídolo é Bill Clinton, com quem atuou seis anos na Casa Branca e chegou a substituir o ex-porta-voz George Stephanopoulos como conselheiro sênior na área de política e estratégia.

Para Rahm, política se faz com dinheiro - se tiver boas idéias e nobres ideais, melhor ainda. Se não tiver, azar de quem estiver pela frente. Sendo um pitbull de Barack Obama, a Casa Branca, enfim, vai funcionar.

Você chamaria Obama para salvar a empresa?


Carismático, pai exemplar, orador excepcional, o presidente-eleito Barack Obama nunca amanheceu com contas a pagar ou dormiu com contas a receber. Até ficar rico com sua autobiografia, vivia pendurado em cartões de crédito, a exemplo de seus mais de 100 milhões de eleitores. Em seu primeiro emprego, como pesquisador numa consultoria financeira, sentia-se um espião atrás das linhas inimigas. Obama sempre foi aquele cara que está mais para empregado insatisfeito do que patrão legal. É uma espécie de antítese empresarial. Agora, vai assumir o comando da locomotiva do mundo sem saber como ela roda, o que ela carrega e para onde ela vai. Os EUA e o mundo esperam que ele se saia bem, mas um rápido "reality check", como se diz aqui, leva a crer que só um milagre pode fazer com que ele recoloque o país nos trilhos.

Na Casa Branca a partir de 20 de janeiro, o presidente democrata vai descobrir que todos os bilhões de dólares despejados pelo governo para salvar o mercado imobiliário foram por terra. Até o fim de 2008, outras 1,4 milhão de hipotecas não vão ser pagas. O que gerou a maior recessão econômica desde 1930, o escândalo das sub-primes, está longe de acabar. Obama será obrigado a intervir no mercado novamente para convencer os bancos a dar uma moratória nos pagamentos.

Como democrata, Obama adora sindicatos. E sindicatos, como se sabe, adoram proteger o trabalhador. De cada carro que sai das linhas de produção da General Motors (a empresa tem caixa para sobreviver até o final de dezembro, e não pode mais pedir emprestado), US$ 2 mil são separados para pagar benefícios de empregados. A conta simplesmente não fecha. Com este câncer na produtividade, mais de um milhão de empregos serão perdidos este ano. O desemprego vai chegar a 7% até dezembro, maior índice desde 1993.

Obama vai ter de cortar impostos para desempregados, emprestar dinheiro para as empresas contratarem mais e terá que convencer o Congresso a dar um segundo pacote de estímulo para a população. O primeiro, no início deste ano, quase chegou a US$ 300 bilhões e foi distribuído indiscriminadamente entre todos - todos - cidadãos norte-americanos.

Menos impostos, mais gastos, e assim a vida continua. Mesmo com o petróleo barato, outra vítima da recessão, o presidente eleito terá de investir mais de US$ 150 bilhões em fontes alternativas de energia nos próximos dez anos, de forma que o país se veja livre da dependência do óleo do Oriente Médio. O progresso que está sendo feito em diversas áreas - energia solar, vento, etanol - é excepcional, mas nada que sobrepasse o velho, e agora novamente barato, óleo dos cheiques árabes. Analistas já estão prevendo que o preço do petróleo vai voltar em breve aos níveis do início deste ano - mais de US$ 100 o barril.

Com tanto pepino pela frente, os Estados Unidos precisam de um líder carismático ou de um gerente eficaz e eficiente, que resolve tudo doa a quem doer? Se os Estados Unidos fossem uma empresa, a sua empresa, você chamaria Barack Obama para tomar conta do pedaço?

kicker: O detalhe é que quanto mais o governo interfere, menos o mercado reage; de janeiro para cá, casas perderam 17% do valor

Sarah não sai do inconsciente coletivo


Derrotada nas eleições presidenciais, humilhada por sua ignorância (principalmente geográfica) e ridicularizada pelas posições políticas e religiosas, a governadora do Alasca Sarah Palin não sai do inconsciente coletivo norte-americano desde que juntou-se ao idoso John Mcain na derrotada chapa republicana. "Você pode odiá-la, mas não consegue tirar os olhos dela", resumiu um veterano jornalista da TV.

Desde a derrota, Palin vem sendo mais notícia de que o presidente-eleito Barack Obama. Deu entrevista para o Today, o Bom Dia Brasil daqui, para a sisuda Greta Von Susteren, da Fox News, e para o outro sisudo Wolf Blitzer, da CNN. Em todas, mostrou suas pernas, seu coque dos anos 60, o conjuntinho preto com o broche da bandeira americana e outros dotes, especialmente na cozinha, fazendo caçarola de salmão em sua casa no estado que de abundante só tem gelo.

O que os americanos não dizem, e nem poderiam dizer dado o grau de puritanismo (uma palavra branda para sexo mal resolvido) da sua população, principalmente a masculina, é que o país está tarado pela ex-miss Alasca que acidentalmente entrou na política, uma evangélica que acha que a África é um país ou que a Rússia é vizinha dos Estados Unidos (olhando de cima o globo terrestre, é ou não é?).
Mesmo formada em Comunicações, e sendo uma ex-jornalista de TV, Palin é uma mulher chucra, interiorana, inocente (mesmo do alto dos seus 44 anos), uma mãe de cinco filhos que agora vive seus momentos de glória enfrentando jornalistas marmanjões com olhares lânguidos na TV. Não acredita na evolução da espécie (e nem na fotossíntese, como brincou o comediante Bill Maher, da HBO), é contra o aborto (seu último filho é deficiente mental), é a favor da educação dos jovens para a utilização de armas, apóia a pena de morte e, contra tudo e contra todos, é a favor da exploração de petróleo nas reservas naturais do seu Estado natal.
Algumas feministas ainda tentam defender Sarah Palin, por ser a primeira governadora mulher do Alasca e a segunda candidata presidencial em mais de dois séculos de história norte-americana (a primeira foi a democrata Geraldine Ferraro., que também perdeu a eleição). Mas sua falta de conhecimento, e daí o despreparo para o cargo, é tão grande que, aos poucos, torna-se impossível defendê-la. Apenas assisti-la e torcer para mais uma gafe.
Agora ela aparece monótona e diariamente na TV, mostrando seu corpo bem torneado e suas idéias truncadas para um país sedento por um símbolo sexual na política, algum colírio no intervalo de um noticiário coberto por previsíveis homens de terno e gravata. O país reprimido sexualmente estremece-se agora da mesma forma que cansou de comentar o affair entre o ex-presidente John Kennedy e a atriz Marilyn Monroe. Ou mesmo entre Bill Clinton e a ex-estagiária da Casa Branca Monica Lewinsky. Ou até do coitado do ex-presidente Jimmy Carter, que confessou ter traído a mulher - mas só em pensamento. Isto mesmo, em pensamento.
Fora pelos seus atributos físicos ninguém entende seu estrondoso sucesso na política. Sexo, como se diz, anda de mãos dadas com o poder. Talvez, com o passar dos anos, esta senhora que saiu do nada reúna as mínimas condições para suceder Barack Obama na Presidência dos Estados Unidos. Determinação e coragem ela já demonstrou ter.

Microsoft corre para a terceira idade


Há quatro anos a Microsoft, cujo quartel general e aqui, enrosca-se numa luta para destruir o Google e outras empresas que, com menos recursos mas com mais inteligência e juventude, dominam a Internet. Com 21 bilhões de dólares em caixa, provenientes da renda do paquidérmico Windows e do Office, a empresa criou o Online Services Business, que reúne o portal MSN, a agência de publicidade on line aQuantive, e o Live Search para enfrentar a concorrência. Resultado? Acaba de perder meio bilhão de dólares no último quadrimestre, 80% a mais comparado ao mesmo período no ano passado.
Sempre que visito o campus da empresa, uma espécie de Disneylândia da tecnologia, faço a óbvia pergunta: o que vai acontecer com vocês se continuarem a insistir em vender softwares embutidos em PCs e Laptops, e não mergulharem de vez na web? Todos se ajeitam na cadeira, pigarreiam e desconversam, como se eu estivesse vendendo apólice de seguro de vida.
A verdade é que a empresa que aprendemos a admirar, mas que hoje está para a Internet assim como a General Motors está para a indústria automobilística, degladia-se internamente para buscar o seu lugar no futuro. Tem dinheiro, cabeças pensantes, gente estimulada mas, como uma Venezuela que se deitou na piscina do petróleo, tenta mas não consegue dar um passo na Internet quando tem recursos entrando em caixa todos os dias - e por um bom tempo ainda.
A empresa nasceu com a idéia de "um computado em cada casa, rodando um software Microsoft", mas não contava com uma idéia mais genial, de que software é commodity que pode ser encontrado e utilizado na rede. Quando, como e onde você estiver. E de graça. Pior ainda, não contava (e ninguém contava) com outra novidade, a pesquisa (não basta aparecer, você tem de ser é achado) , que hoje é pedra fundamental não só da internet, mas de boa parte do marketing.
Sem saber para onde ir, especialmente desde que Bill Gates optou pela filantropia e deixou o Steve Ballmer gritando sozinho no salão, a Microsoft hoje é uma cidade dentro de Redmond, perto de Seattle, com interesses tão distintos que tentam abraçar o mundo de uma vez só, desde a saúde até a geologística, num premeditado projeto de onipresença. Está certo que ela ganha dinheiro em vários setores (US$ 9 bilhões de faturamento no ano passado), especialmente empresariais, compra dezenas de outras empresas, é uma fantástica usina de gênios, mas está certo também que a firma rasga dinheiro como nunca e, como qualquer um de nós, está envelhecendo.
Qualquer usuário hoje sabe que a simplicidade é o Deus nos negócios na Internet. O Google ("apenas uma firma de publicidade", segundo os funcionários da Microsoft) é assim. Seu logo, sua webpage, as novas facilidades que apresenta a cada dia (e que passam imediatamente a fazer parte das nossas vidas) são tão óbvios que fazem a gente pensar: por que eu não inventei isto antes? Tudo que sobe desce, diz o ditado. A Microsoft, a empresa que fez, faz e ainda fará por algum tempo parte das nossas vidas, tende a complicar-se ainda mais e perder o fio da história. Hoje é um gigante de cabelos brancos que, naturalmente, vai dar lugar em breve às próximas gerações.

Nada a temer, senão o próprio medo


Quando o democrata Franklin Delano Roosevelt, o FDR, o maior presidente americano, assumiu a Casa Branca em 1933, devolveu aos americanos a vontade de reagir e dar a volta por cima depois que o furacão de 1929 roubou 13 milhões de empregos, reduziu a produção industrial à metade, derrubou os preços das residências em 80% e ainda provocou a falência de cinco mil bancos.
Vendo o documentário FDR, que a TV pública americana (PBS ) acaba de distribuir gratuitamente pelo Itunes, dá para antever o que ocorrerá conosco nos próximos anos. Na crise de 29, no entanto, o maior problema não era a falta de emprego, a destruição de valor, a inflação ou a fome, mas sim a apatia. O povo estava cansado, desiludido, debilitado, sem forcas para reagir. No primeiro dia, na famosa Conversa ao Pé do Rádio, e com apenas um discurso, FDR trouxe a esperança de volta aos norte-americanos. "Não temos nada a temer, senão o próprio medo", disse.
O problema é que esperança não enchia e nem enche barriga. A depressão econômica durou ainda boa parte dos 12 anos dos quatro mandatos de Roosevelt, e só iria acabar depois que o governo despejasse meio trilhão de dólares em dezenas de programas sociais, regulasse a economia de tudo quanto é jeito, empregasse diretamente oito milhões de pessoas e, finalmente, entrasse na Segunda Guerra Mundial, mesmo contra a vontade da população e dos políticos.
Roosevelt teve que dobrar o Congresso para acabar com as seguidas moções que defendiam a neutralidade norte-americana. Sabia que nada melhor que guerras, conflitos ou batalhas para fomentar a economia, e bastou que a Marinha americana fosse destruída em Pearl Harbor para que convencesse a indústria do pais a produzir aviões, metralhadoras e granadas.
O esforço de guerra, que arrancou cerca de US$ 360 bilhões dos contribuintes, foi a coisa mais notável que se viu até então. As forças armadas americanas, dizem os historiadores, eram menores do que as da Suécia. Em apenas um ano, 1943, os Estados Unidos produziram cerca de 120 mil aviões de combate. A união em torno de um objetivo comum, acabar com Hitler, uniu de vez o país e construiu as bases do que viria a ser a maior potência militar (e econômica) do mundo.
Vitima da poliomielite e entrevado em cadeiras de rodas, condição que escondeu do povo durante todos os anos da Casa Branca, FDR é criticado até hoje por ter intervido na economia com mão de ferro. Keynesiano de carteirinha, sabia o custo da não intervenção. Mesmo nascido em berço de ouro, e extremamente à vontade na vida besta da alta sociedade de Nova York, era um esquerdista para os padrões norte-americanos. Governo-patrão, força para os sindicatos, salário mínimo e outras garantias para o povo trabalhador. Só não avançou mais ainda porque resistiu como pôde às exigências da mulher Eleonor Roosevelt, uma espécie de Lula que acreditava que o Estado, e não o mercado, resolve as diferenças sociais.
O legado de FDR, como as Nações Unidas e o Seguro Social norte-americano, persiste até hoje. Mesmo aleijado, mas dono de um irrefreável otimismo, simpatia e vigor politico, tirou os Estados Unidos da recessão, ganhou a Segunda Guerra e elevou o país à condição de superpotência. Ano passado, seu biógrafo Jean Eduard Smith escreveu: "FDR levantou-se da cadeira de rodas para erguer uma nação de joelhos".

A última flor da dinastia Kennedy


Para quem não a conhece, ela é aquela menininha que bate continência ante a passagem do túmulo do pai, o democrata John Kennedy, nos fazendo chorar nos repetitivos filmes que, há quarenta anos, passam na TV americana sobre o assassinato de um dos mais importantes presidentes norte-americanos, em 1963. Caroline Bouvier Kennedy, advogada (mas também ex-jornalista, ex-museóloga e autora de livros patrióticos), hoje uma respeitável e milionária mãe de família, quer ser agora Senadora pelo Estado de Nova York, vaga ocupada por Hillary Clinton, hoje futura secretária de Estado de Barack Obama.
Caroline, que levou seu trôpego tio Bob (está com câncer) a subir o pódio para apoiar Obama ("he's a lifetime candidate"), encantou-se pela política e agora parece ser imbatível para o cargo. Não só na preferência do atual governador de Nova York, David Paterson, o deficiente visual que substituiu Eliot Spitzer, pego em flagrante com uma prostituta e obrigado a renunciar - como também do Partido Democrata, da mídia e, principalmente, dos doadores da campanha.
Caroline passou por muitas tragédias. Viu, pela ordem, seu irmão Patrick não resistir a dois meses de vida, seu pai ser assassinado em Dallas, Texas, sua mãe sucumbir ao câncer, e o mais novo, John-John, morrer depois que seu Teco-Teco desabou no Atlântico. Aos 51 anos, mãe de três filhos, casada com um designer de museu, tímida, baixinha, voz raquítica, a moça é a ultima remanescente do que se convencionou chamar de "família real" norte-americana.
Sua grande tacada foi escrever um editorial no The New York Times , com o título "Um presidente como o meu pai", em Janeiro deste ano, ato que foi a gota dágua para os eleitores esquecerem Hillary Clinton e optarem pelo negro que viria ser o presidente do Estados Unidos. No jornal, ele pontificou: "Eu nunca tive um presidente que me inspirasse do mesmo jeito que as pessoas dizem que meu pai as inspirou - pela primeira vez, (...) encontrei um homem que poderia ser este tipo de presidente, não só para mim, mas para as novas gerações de norte-americanos". Seu endosso caiu como uma bomba nos comitês dos outros candidatos, pois o poder de fogo de um Kennedy é irresistível nas hostes do Partido Democrata.
Herdeira da fortuna dos Kennedy, que incluiu uma penthouse na East Side de Nova York e uma vila no balneário de Martha's Vineyard, Caroline, mineiramente, contribuiu com a campanha de Obama, mas também com a de Clinton durante as prévias do Partido Democrata. Sua candidatura ao Senado (nos Estados Unidos, quando o cargo fica vago, como agora, o substituto é apontado pelo governador do Estado), é apoiada pelo atual prefeito da cidade, Michael Bloomberg, como também pelo The New York Times.
Milhares de livros, documentários, séries e filmes já foram feitos para desvendar o mistério da morte do seu pai, e principalmente a atração que esta família irlandesa de católicos exerce sobre o eleitorado norte-americano. Se eleita, Caroline vai servir ainda dois anos do mandato de Hillary Clinton, e provavelmente fará campanha para ficar mais seis anos no cargo. Ao todo, e se ela for eleita, os Kennedy terão um representante no Senado durante contínuos 68 anos. E, quem sabe, uma futura presidente Kennedy na Casa Branca.

Montanha russa ou casa dos horrores?


2008 não ficará na história como o ano em que os investidores americanos perderam mais de 7 trilhões de dólares em ações, foram obrigados a devolver suas casas para os bancos ou assistiram à sua aposentadoria evaporar. Fora estes fatos, que irão direto para o Guiness, o livro dos recordes, 2008 irá se tornar o ano em que, pela primeira vez nas nossas vidas, foi bobagem fazer qualquer planejamento para 2009, simplesmente porque ainda não sabemos o que acontecerá com nós neste ano que se inicia.
Por que? Primeiro porque as coisas, contrariando a teoria do fundo do poço, não param de piorar. O barril de petróleo, que chegou a US$ 150 no último verão aqui, agora está abaixo de US$ 40 - trata-se de notícia ruim, já que significa falta de demanda. O valor de mercado da General Motors, já socorrida pelo governo norte-americano, está abaixo do que era em 1927. Instituições financeiras tradicionais, como Bear Stearns e Lehman Brothers, já não existem, e como lembrou o MarketWatch, do The Wall Street Journal, é normal agora a bolsa subir e descer 900 pontos num mesmo dia.
Em segundo lugar, nunca ninguém viu uma recessão como esta, onde a atividade econômica em todo o mundo parece desmoronar como num castelo de cartas. O S&P Broad-Market Index, que reúne mais de 11 mil ações de país em desenvolvimento e países emergentes, caiu US$ 17,7 trilhões do início do ano até agora. Em Novembro, o Banco Mundial disse que a economia da China vai diminuir seu crescimento para 7,5% ano que vem, o pior nível desde 1990. As ações na Rússia caíram 72%, Turquia 68% e Índia 67%. No Japão, o índice Nikkei registrou os menores índices em 26 anos, e o país já se declarou em recessão. A Islândia, país que ninguém sabia que existia até pouco tempo, perdeu 81% do valor de suas ações com investimentos em fundos de altíssimo risco. Até sobrou para o Brasil, que perdeu 25% do Bovespa, a maior perda em apenas um mês durante os últimos dez anos.
Além de muita gente boquiaberta, o que vimos até agora foram diferentes governos em todo o mundo despejando dinheiro no mercado e regulando-o a fim que não se cometam mais excessos, como se o capitalismo, por si só, fosse um excesso, e governos, pela sua própria natureza, fossem exemplos de lisura e competência. Só o governo norte-americano endividou-se ainda mais e imprimiu dinheiro (isto mesmo, rodou a maquininha) para injetar estes trilhões no mercado, inclusive em participações acionárias, e ainda reduziu a taxa de juros a zero. Está apenas devolvendo para o mercado o que o mercado lhe deu na forma de impostos durante todos estes anos.
Como disse Hugh Johnson, chairman of Hohnson Illington Advisors, que está de olho no mercado há 40 anos, o problema agora é que não existem palavras para descrever o que está acontecendo, se é recessão ou depressão, se trata-se de uma arranjo natural do capitalismo ou se é o que se convencionou chamar de fim de mundo. "Gostaria de usar a comparação com uma montanha russa", diz Paul Nolte, da Hinsdale Associates, "mas está sendo mais uma viagem de ida à casa dos horrores".

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Gordon Gekko, ou a ganância não é pecado


Seattle - Agora que já foram derretidos mais de 8 trilhões de dólares para salvar os Estados Unidos, Hollywood prepara uma nova versão de Wall Street, o filme de Oliver Stone sobre um corretor chamado Gordon Gekko, interpretado por Michael Douglas, que numa certa altura do drama diz: "Ganância, na falta de uma palavra melhor, é uma coisa boa". Ninguém jamais imaginaria que o filme, pessimamente recebido pela crítica, tornaria-se um dos mais cultuados de todos os tempos, mesmo 21 anos depois de fazer sucesso nos cinemas e arrecadar mais de US$ 45 milhões.

Michael Douglas, que ganhou um Oscar por sua atuação, nunca mais conseguiu se separar do irascível e perverso player que representou, um homem sem coração, que seria capaz de pisar no pescoço da própria mãe para fazer um bom negócio. Até hoje, quando entra num pub em Nova York, como revelou recentemente ao Los Angeles Times, vem um engravatado com gel no cabelo e um dry martini na mão que lhe diz: "Ei Gekko, você é o cara...".

Muita gente queria ser Gordon Gekko na década de 80. O princípio era simples: acorde cedo, durma tarde, trabalhe duro (e bota duro nisto), coma um sanduíche no almoço e jante no Fasano, use ternos bem cortados, de preferência com gravatas berrantes e suspensórios. Por detrás deste figurino, a máxima: jamais aja com o coração, custe o que custar. Olho nos números, nada mais que números, e trate gente como máquina. Ou melhor, como coelho. Uma cenoura na frente, e uma paulada atrás.

Pois bem. Aqui e aí, este pessoal vem brincando à vontade deste então, ganhando milhões de dólares, quando o mercado sobe ou desce -, enviando-os para paraísos fiscais, comprando Ferraris e desdenhando do que eles chama aqui de Main Street, a economia real. Desde lá, são considerados intocáveis. Se vem alguém querendo regular os mercados, ou querendo limitar seus ganhos, surge um monte de consultores e especialistas fazendo apologia da liberdade de mercado. E a imprensa vai atrás.

Estes mesmos Gordons Gekkos da vida estão os responsáveis pelo Armagedon financeiro que se abateu sobre o mundo recentemente. Infelizmente, não há nada a fazer contra eles no sistema capitalista. Do mesmo jeito que destruíram a vida de milhões de famílias ao redor do mundo, implodindo ou postergando sonhos de gerações, eles vêm criando riqueza - e empregos - ao redor do mundo desde a década de 80. "Eu não sou devastador de empresas. Sou um libertador", dizia ele.

Ou seja, qualquer regulamentação, como querem alguns, reduziria a capacidade deste pessoal de também agir para o bem - investindo em empresas, emprestando recursos para girar a economia, empregando gente. O melhor, agora, é esperar que o próprio capitalismo, o pior sistema que existe (porque não inventaram coisa melhor) se ajuste, os agentes do mercado voltem a ter confiança entre si e o mundo continue a rodar.

Quanto a Gordon Gekko, os produtores ainda não sabem como ele voltará às telas, duas décadas depois. Estará ainda na prisão? Será mais condescendente com o mundo? A arrogância vai acabar com ele novamente? Sua segunda melhor frase vai ficar na história: "trabalho duro não para viajar de primeira classe, mas sim para ter o meu próprio jatinho".

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Você chamaria Barak Obama para salvar a sua empresa?


Seattle - Carismático, pai exemplar, orador excepcional, o presidente-eleito Barack Obama nunca amanheceu com contas a pagar e dormiu com contas a receber. Até ficar rico com sua autobiografia, A Audácia da Esperança, vivia pendurado em cartões de crédito, a exemplo de seus mais de 100 milhões de eleitores. Em seu primeiro emprego, como pesquisador numa consultoria financeira, sentia-se um espião atrás das linhas inimigas. Obama sempre foi aquele cara que está mais para empregado insatisfeito do que patrão legal (se é que existe patrão legal). Agora, vai assumir o comando da locomotiva do mundo sem saber como ela roda, o que ela carrega e para onde ela vai. Os Estados Unidos e o mundo esperam que ele se saia bem, mas um rápido "reality check", como se diz aqui, leva a crer que só um milagre pode fazer com que ele recoloque o país nos trilhos.
Na Casa Branca a partir de 20 de Janeiro próximo, o presidente democrata vai descobrir todos os bilhões de dólares despejados pelo governo para salvar o mercado imobiliário foram por terra. Até o fim de 2008, outras 1,4 milhão de hipotecas não vão ser honradas. Ou seja, o que gerou a maior recessão econômica deste 1930, o escândalo das sub-primes, está longe de acabar. Obama será obrigado a intervir no mercado novamente para convencer os bancos a dar uma moratória nos pagamentos. Do começo deste ano até hoje as casas já perderam outros 17% do seu valor. O detalhe é que quanto mais o governo interfere, menos o mercado reage.
Como democrata, Obama adora sindicatos. E sindicatos, como se sabe, adoram proteger o trabalhador. De cada carro que sai das linhas de produção da General Motors (a empresa tem caixa para sobreviver até o final de Dezembro, e não pode mais pedir emprestado), dois mil dólares são separados para pagar benefícios de empregados. A conta simplesmente não fecha. Com este câncer na produtividade, mais de um milhão de empregos serão perdidos este ano. O desemprego vai chegar a 7% até Dezembro, maior índice desde 1993. Obama vai ter de cortar impostos para desempregados, emprestar dinheiro para as empresas contratarem mais e terá que convencer o Congresso a dar um segundo pacote de estímulo para a população. O primeiro, no início deste ano, quase chegou a US$ 300 bilhões e foi distribuído indiscriminadamente entre todos - isto mesmo, todos - cidadãos norte-americanos.
Menos impostos, mais gastos, e assim a vida continua. Mesmo com o petróleo barato, outra vítima da recessão, o presidente eleito terá de investir mais de US$ 150 bilhões em fontes alternativas de energia nos próximos dez anos, de forma que o país se veja livre da dependência do óleo do Oriente Médio. O progresso que está sendo feito em diversas áreas - energia solar, vento, ondas do mar etc - é excepcional, mas nada que sobrepasse o velho, e agora novamente barato, óleo dos cheiques árabes. Analistas já estão prevendo que o preço do petróleo vai voltar em breve aos níveis do início deste ano - mais de 100 dólares o barril.
Com tanto pepino pela frente, os Estados Unidos estão precisando de um líder carismático ou de um gerente eficaz e eficiente, que resolve tudo doa a quem doer? Se os Estados Unidos fossem uma empresa, a sua empresa, você chamaria Barack Obama para tomar conta do pedaço?





sábado, 1 de novembro de 2008

Crise? Pergunte à mamãe




Seattle - Querem ler mais uma história sobre crise? Em 1929, meu avó, cujo nome eu herdei, era fazendeiro de café às margens do rio que, na década de 60, viria a se tornar o lago de Furnas, no Sul de Minas. Com a derrocada das bolsas, o café perdeu o preço e ele foi obrigado a dar a fazenda para um banco da região. Ele pegou a mulher e seis filhos e foi para a cidade, Fama, onde tornou-se comissário de café - ocupação com a qual sobreviveria até morrer. Pessoas que presenciaram aquela época, como minha mãe, morrem de saudade do que perderam e, mais ainda, do que viria a seguir.
Das histórias contadas de gerações em gerações, a imagem que fica é a de uma fazenda colonial, cheia de jardins (obra da minha avó), caixas d'água (obras do meu avô), cafezais a perder de vista, uma linha de trem que passava semanalmente entre o rio e a casa, naquela época a única ligação com aquele mundo desglobalizado, leite no pé da vaca, pães de queijo, pintinhos enfraquecidos perto do fogão de lenha, peru que morria na véspera e um casal de cachorros, Ramona e Caruso.
Ramona, alegre e festeira, recebia os visitantes com estardalhaço, latindo, pulando em cima das crianças e sujando os ternos de algodao dos visitantes. Caruso, um pouco atrás, como o príncipe consorte seguindo a futura rainha, tinha o paz do silêncio. Mas quando resolvia abrir a boca mordia cruelmente quem tivesse pela frente.
Os cães, que hoje deduzo serem representantes da raça Fila brasileiro, eram a proteção contra tudo: viajantes indesejados, cobradores, familiares aborrecidos, prenúncios de tempestades e tudo o mais. Além de alarme contra ladroes, matavam gambás, perseguiam gatos, ajudavam manusear o gado e, se não tivessem valia alguma, davam vida a fazenda.
Meu tio, por exemplo, relembra que, todos os dias, levava os dois cachorros para tocar o gado. Lá no pasto, bastava gritar Ramona, Caruso, para os animais, em fila indiana, voltarem para o retiro de leite. Um dia - "eu era apenas um menino" - ele se esqueceu de chamar os cachorros, foi sozinho até o pasto e gritou: Ramona, Caruso... e as vacas, sem pestanejar, voltaram na hora para o retiro. Talvez esta tenha sido a maior mentira que já escutei, mas como somos mineiros, todos nós a recontamos com orgulho.
Fazendeiros, como meu avós, são apegados à terra, e a tem como o bem maior, o mais sólido e o mais perene dos investimentos. Com o crack da bolsa, um espirro comparado às intrincadas e globalizadas crises de hoje, abandonaram tudo que tinham, fizeram as malas e foram para a, na época, importante (e estrategicamente localizada) Fama. Um dia, de tardinha, minha avó estava com as crianças (entre as quais a minha mãe) no alpendre e, lá longe, viu dois cachorros cansados, suados, no fim da rua. Vinham correndo, ofegantes, com a língua de fora, com a força que so a saudade traz. Minha avó sentou-se no chão, chamou a vizinhança e começou a chorar copiosamente. Eram Ramona e Caruso.

P.S. O banco ficou com a fazenda, mas a represa de Furnas colocou-a debaixo d'àgua para sempre.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

O império da lei nos salva da selvageria


Atlanta - Hitlers, Osama Bin Ladens, Sadam Husseins, ou este menino que matou a namorada "por amor" no Brasil, todos eles merecem julgamento, defesa e advogado. Os "bad guys", como se diz aqui, vêm e voltam com o tempo, mas esta questão é eterna. Quando assistimos na TV crimes dantescos, nossa primeira reação é devolver aos criminosos todo o sofrimento que eles perpetraram. Torturá-los, humilhá-los, jogá-los à fúria de outras bestas feras na prisão. A vontade é: roubem-lhe os direitos, já que eles, como animais na savana, tiraram-nos a vida, a dignidade, um parente ou até bens materiais.
O advogado norte-americano Peter Keane vem defendendo criminosos há mais de 30 anos e, sempre, entre uma sentença e outra, depara-se com esta questão ética e moral. Em sua carreira profissional, frequentemente enfrenta a sanha do Estado, dos policiais, da opinião pública, da mídia e tudo mais. É o reú e ele, sozinhos num canto do Júri, contra o mundo. "Já ajudei a colocar em liberdade gente que, livre, matou mais pessoas", testemunhou no programa I Believe, da NPR , a rádio pública norte-americana. "E isto, é claro, trouxe noites em claro, ansiedade e depressão".
A maioria das pessoas tem dificuldade em entender tudo isto, diz Keane. O direito à defesa, por incrível que pareça, explica, é o mecanismo que a nossa sociedade inventou para proteger e manter a nossa liberdade. Se sempre nos pautarmos pela regra de que, não importa o que um indivíduo tenha feito, sempre haverá uma pessoa para defendê-lo, seremos livres também. A regra, sábia, simples e extremamente eficiente, é um antítodo contra a tendência natural de ser humano de agir sob a influência da emoção ou, o pior, abusar do poder, de qualquer poder.
Embora defendesse cada um dos seus clientes com habilidade, tenacidade e criatividade, a maioria deles foi condenada. Outros, mesmo culpados, foram postos em liberdade e voltaram a cometer crimes. Keane voltou a defendê-los com o mesmo zelo.
Como ele se sente depois de três décadas defendendo criminosos? Orgulhoso. Sua consciência ainda se debate com este diálogo moral? Sem dúvida.
Nos júris, ele conviveu não só com os criminosos, mas muitas vezes com as vidas - destroçadas, humilhadas, corroídas - de familiares e amigos das vítimas. Mas, ao final de cada julgamento, a crença de que ele estava fazendo, mais uma vez, a coisa certa, prevalecia sobre uma possível dor de consciência.
"Tirar esta proteção para quem cometeu o crime, ou de quem foi acusado de cometer um crime, joga por água abaixo todos os outros direitos democráticos, que foram tão cuidadosamente refinados durante o nosso processo civilizatório. Sem a resistência dos advogados que representam pessoas processadas, toda a liberdade se perde", diz ele.
Hoje dando aulas em universidades, Keane recomenda a seus alunos manterem o orgulho de defender os criminosos, não importa o que eles ou elas fizeram. "Eu desejo que eles saibam defender gente como Saddam Hussein e Osama Bin Laden, ou para os estupradores, assassinos e ladrões. Uma pessoa do seu lado, não importa o que você fez. É nisto que Keane acredita.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

O Youtube é que ganhou as eleições nos Estados Unidos

Seattle - As eleições de 2008 têm um grande vencedor. É o Youtube, o site controlado pelo Google que, hoje, é a maior ferramenta de panfletagem (e de reflexão) política em todo o mundo. Acredita-se que, dos 200 mil vídeos postados todos os dias, cerca de 35% sejam de cunho político, disponíveis 24 por dia, 365 dias por ano. Juntos, os vídeos que envolvem Barack Obama e John McCain já receberam cerca de 100 milhões de visitas. A maioria deles são curtos e extremamente bem produzidos, parecidos com comerciais, geralmente feitos pelas campanhas por cima ou por debaixo do pano. O vídeo de maior sucesso, no entanto, é o que ridiculariza a candidata Sarah Palin, candidata à vice-presidente pelo Partido Republicano, especialmente as engraçadíssimas caricaturas feitas no programa Saturday Night Live, da NBC. Do lado de Obama, possivelmente o futuro presidente dos Estados Unidos, o mais assistido é o seu já famoso discurso sobre a questão do racismo, um catatau de 37 minutos já visto 6 milhões de vezes.

Por que este sucesso todo? Em primeiro lugar, segundo o Politico.com, o site vem roubando audiência da TV da mesma forma que a TV roubou os públicos das rádios e jornais desde a campanha do republicano e herói de guerra Dwight Eisenhower em 1960. Aliás, tudo que a TV produziu em seu 60 anos de história é o equivalente a apenas seis meses de Youtube. Só em julho último, segundo uma pesquisa da Universidade do Kansas, aproximadamente 91 milhões de internautas assistiram a 5 bilhoes de vídeos no site. Em segundo, o Youtube está mais presente na política do que promessa de candidato. O Pew Research Center diz que 35 milhões de americanos já assistiram vídeos on line relacionados com política. Num país de quase 400 milhões de habitantes, nunca houve tanta gente politizada e, melhor ainda, com vontade de colaborar.

Em terceiro lugar, o Youtube é uma fantástica ferramenta política. Candidatos e simpatizantes colocam milhares de vídeos todos os dias, mesmo antes de acabar os eventos, na tentativa de chamar a atenção do eleitorado, sem interferência de um jornalista metidinho qualquer que descontextualize a mensagem do candidato. E, para o bem ou para o mal, o vídeo fica ali para sempre, virando fonte de referência caso você tenha perdido a ocasião. Dependendo do tanto de gente que os assiste, as campanhas têm à mão a resposta imediata do eleitorado, também para o bem ou para o mal. Quem perde são as empresas de pesquisa.

O Youtube é a estrela da Web 2.0, uma revolução colaborativa na Internet que está mudando o mundo, com importantes reflexos na política. Ao lado deste site, Facebook, Twitter, MySpace (e até o Orkut no Brasil) são ferramentas de um fenômeno muito maior que ultrapassa os conceitos políticos tal qual os conhecemos. O povo, ou os internautas, não querem mais apenas votar. Querem participar do processo político, também terem seus 15 minutos de fama, mudar o mundo através das teclas do computador. Fora Barack Obama, poucos políticos perceberam que a Web 2.0 está mudando mundo. Em 2008 estamos vendo apenas uma gota de um oceano que, em breve, vai mudar (para o bem) como lidamos com o mais importante ato de nossas vidas: o voto.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Os Estados Unidos são excepcionais?


De vez em quando surgem no horizonte teorias que nos causam arrepios. É o caso da tese, por exemplo, do excepcionalismo dos Estados Unidos, falado à queima roupa nos debates de TV quando acabam as justificativas para a série de erros que o país vem cometendo desde que os democratas deixaram o poder. À primeira vista, o American Excepcionalism parece ser mais um exercício de ego do país que, em toda a história da humanidade, conseguiu concentrar um inconcebível poder político, econômico e militar.

Justiça seja feita, no entanto. Esta tese não tem nada a ver com superioridade, mas sim com diferenciação. Cunhada pelo pensador político francês Alexis de Tocqueville, que escreveu Democracia na América, o pressuposto é o de que os Estados Unidos e seu povo diferem do resto do mundo porque para cá convergiu uma miríade de povos de várias raças e cantos do mundo (e como continuam chegando), mas sem arredar pé de valores inalienáveis, como democracia, o império da lei, a liberdade, o bem comum, o jogo justo, a propriedade privada, os direitos humanos e o governo constitucional.

O problema é que agora, tal qual Roma, os Estados Unidos estão sendo vítimas do poderio que mantém desde meados do século passado, segundo Andrew J. Bacevich, um professor de História e Relações Internacionais da Universidade de Boston e coronel de reserva. Ele acaba de escrever The Limits of Power: The End of American Exceptionalism, uma interessante autocrítica sobre a paulatina perda do poder de uma Nação.

Segundo Bacevich, a ética da auto gratificação – notadamente numa nação que deve pelos cotovelos e que, apesar das ameaças, continua gastando quase a metade do que o mundo produz – é a saúva que está acabando com os Estados Unidos. É um contraponto à pedra basilar que torno da qual este país se formou – a crença puritana de que somente o trabalho duro e auto abnegação levam ao sucesso.

Para o autor, a única superpotência mundial, com as forças armadas superiores à soma de todas as outras, também se meteu em compromissos externos que, a cada dia, é obrigada a sustentar sem ter os meios para tal – uma referência a Guerra do Iraque ou do Afeganistão. Ou ajudar povos que os americanos só ficaram sabendo outro dia – e pelo noticiário – como a Ossétia do Sul, o enclave da Geórgia invadido pela Rússia.

Tudo que sobe, desce, diz o ditado. O excepcionalismo norte-americano, no entanto, continua a desafiar a ordem natural da história. Ao contrário do império romano, ou mesmo de um exemplo mais recente, o império britânico, onde o sol nunca se põe, ou se punha, a decadência do país já foi anunciada em prosa e verso repetidas vezes, e para todo mundo ouvir.

O interessante é que o país, por ser excepcional, cai, levanta, dá a volta por cima e lá em cima permanece. Vejam, por exemplo, o resultado da conjunção dólar fraco associado ao alto preço do petróleo. Aumentando sua competitividade com a desvalorização da sua moeda, e tornando oneroso o transporte com o aumento de preço do petróleo (um container da Shangai para Nova York passou de US$ 2 mil para US$ 8 mil), o país provoca o reverso da globalização que ele próprio criou, trazendo de volta muitas das indústrias (e dos empregos) que perdeu.

Como ainda dita os destinos da humanidade, os Estados Unidos ainda farão qualquer coisa a seu alcance para não perder a hegemonia. E, assim, ganhará mais tempo de poder do que a história lhe reservou.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Viva a diferença, mas com direitos iguais


Traída pelo marido, traída pelo Partido Democrata e agora por Barack Obama, que não a escolheu para ser vice-presidente na sua chapa à Presidência dos Estados Unidos, a senadora por Nova York Hillary Rodham Clinton, 60 anos, não deixou por menos. Subiu semana passada no palanque da convenção do partido em Denver, Colorado, e, lá de cima, jurou fidelidade ao marido (“um dos melhores presidentes norte-americanos até hoje), ao Partido (“precisamos nos unir) e a Obama (“ele é o meu candidato”).

Mulher traída, como se sabe, é um dos bichos mais perigosos que existe. Quando traída politicamente é pior ainda. Mas Hillary, que sofreu as duas traições, é diferente. Como animal político, capaz de manter um casamento com um marido que fez sexo com uma estagiária dentro de sua própria casa, a determinação da ex-primeira dama dá inveja tanto em homens como em mulheres. Embora rica com as vendas de sua biografia (sua fortuna é avaliada em US$ 34,9 milhões), ou com as palestras do Bill, Hillary vem gastando um dinheirão desde que começou a campanha –e, o pior, está devendo os bicos. Mesmo assim, não desiste.

Ela chegou a Denver, sempre naqueles conjuntinhos que as mulheres executivas usam para não ficar muito tempo diante do armário, com um fantástico respaldo político. Teve mais votos, mais estados e mais delegados que qualquer outro candidato na história das convenções democratas, mas mesmo assim não obteve o consenso do partido. Hillary, a exemplo de outras mulheres no poder, tem um alto índice de rejeição, especialmente de mulheres que acham que lugar de mulheres é em casa, esquentando a barriga no fogão e esfriando no tanque, como se diz.

Fora este machismo, que nos Estados Unidos é jogado na cesta comum do que os americanos chamam de sexismo, há quem ache que Hillary na Casa Branca seria um problema. Primeiro, porque não teria peito suficiente para ocupar o cargo mais importante do mundo, um lugar onde, com uma pincelada, pode-se mudar o rumo da história do Universo, para o bem ou para o mal. Segundo, porque é casada com Willian Jefferson Clinton, cujo papel seria viver na Casa Branca e, o que é pior, à toa. E como é perigoso homem sem fazer nada dentro de casa.

Hillary subiu no palanque falando “sou uma mãe orgulhosa, uma orgulhosa democrata, uma orgulhosa norte-americana e um orgulhoso cabo eleitoral de Obama” com uma plataforma política própria, mais uma vez. Ali, caso falasse a linguagem dos homens, e não da política, falaria: “Perdi a batalha – aliás, diversas batalhas – mas aqui ainda estou, representando todas as mulheres do mundo, lutando por um lugar ao sol neste mundo machista, bélico, antiecológico e inconseqüente”.

Está certo que a presença de Hillary foi apagada pela ovação de mais de 10 minutos ao ex-presidente Bill Clinton, ou pelo irrepreensível discurso de Barack Obama (já vi discursos ótimos, mas o de ontem será visto daqui a 40 anos com a mesma devoção). Hillary volta ao Senado para continuar sua representação do povo de Nova York. A ex-candidata à Presidente vai ser provavelmente ministra de Obama. E, de lá, tentar novamente ser a presidente dos Estados Unidos.

O mundo precisa de um Obama

Está certo que a dupla republicana John McCain/Sarah Palin, confirmada semana passada na convenção de Saint Paul, Minnesota, tem experiência administrativa, história política ilibada e fama entre a metade eleitores norte-americanos que, ninguém sabe porque, insiste em ser republicana depois de oito anos de governo Bush.

Mas para o observador atento que assistiu ao discurso de ambos, os Estados Unidos estão em vias de repetir o desastre bushiano por mais quatro ou oito anos. McCain e Palin são beligerantes, arrogantes, antigos e principalmente míopes para o mundo que trocou a simpatia pelo ódio contra um país que se tornou, desde meados do século passado, a sede do império.

Em outras palavras, o recado que o mundo está dando aos Estados Unidos é: pare de fazer guerra, exerça a diplomacia, ajude o resto do mundo e vamos ser todos felizes. O discurso da dupla – como também de outros republicanos ilustres, como o do ex-prefeito de Nova York Rudolf Giuliani – aponta na direção contrária. É porrada só. No estilo “escreveu não leu o pau comeu”.

Barack Obama, o candidato democrata, pode ser inocente, despreparado e negro num país que celebra com um feriado nacional o aniversário do assassinato de seu maior líder negro – Martin Luther King, Jr., mas tornou-se uma celebridade capaz de reunir mais de 200 mil pessoas num encontro histórico em Berlim, a capital alemã destruída justamente pelos ataques dos aliados na Segunda Grande Guerra.

Ou seja, os Estados Unidos não estão precisando de um síndico, um gerentão ou um executivo com MBA (coisa que Bush ganhou em Harvard). Está precisando é de um líder, como Obama, que com sua harmonia, tranqüilidade e paciência é capaz de tirar o país do atoleiro ou, quem sabe, do labirinto em que se meteu.

Os republicanos são muito criticados, mas, verdade seja dita, construíram ao longo dos anos o que os Estados Unidos são hoje. A abolição da escravatura, o centro no indivíduo, a meritocracia, a industrialização, a responsabilidade fiscal e a certeza de que o governo – qualquer governo – rouba do indivíduo a capacidade de reação quando lhe ajuda com um bolsa família qualquer.

Mais do que tudo, criaram um país que nasceu com um formidável business plan – a Constituição norte-americana – e a respeitam até hoje, seja nos mínimos detalhes ou nas grandes decisões. De uns tempos para cá, no entanto, se meteram com a direita religiosa (30% do partido), coisa que os pais fundadores do país tentaram evitar a qualquer custo, não para proteger o Estado, mas sim as religiões.

Agora o sonho americano está morrendo. Não só pelos neo-republicanos, mas talvez porque os impérios se revezam de tempos em tempos. Se os Estados Unidos quiserem prevalecer no seu papel de centro do mundo, para onde convergem todas as rotas – como se dizia de Roma, precisam fazer as pazes consigo mesmo e com o resto do Planeta.

Coisa que Barack Obama faria com facilidade. Podem apostar.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

O velho tema

O Brasil quer abrir até CPI para investir porque os milhões investidos pelo governo nos atletas (US$ 100 milhões) foram para o ralo nas Olimpíadas, denegrindo a imagem do nosso país.
Os Estados Unidos gastaram, mais uma vez, cerca de meio bilhão de dólares. E perderam a liderança do esporte mundial. Aqui também a xiadeira está alta. Não vai ter CPI, mas aguardem profundas mudanças na política esportiva dos gringos.
Os Estados Unidos, como diz Bill Gates, erram. Mas são fantásticos na hora de reconhecer o erro e corrigi-lo. Ninguem, muito menos os Estados Unidos, gosta de perder.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

OBAMA ON LINE JÁ GANHOU A ELEIÇÃO

Nova York – Nesta semana o candidato democrata Barack Obama aceitará a indicação do partido para concorrer à Presidência dos Estados Unidos na convenção de Denver, capital do Colorado, iniciando o round final no embate com o candidato republicano, John McCain. ` Seja qual for o resultado, a campanha virtual do americano-queniano-hawaiano à presidência dos Estados Unidos, que vai custar mais de US$ 1 bilhão até outubro, tornou-se um oráculo para todos os outros candidatos que, de tempos em tempos, aventuram-se a cargos eletivos em qualquer país do mundo.
Seu website funciona como um alçapão para capturar eleitores que hoje passam boa parte do dia na frente de uma tela de computador, seja no trabalho ou no lar. O objetivo principal, como era de ser esperar, é arrecadar dinheiro num país de bolsos fartos onde 90% das casas estão plugadas na rede.
Há dias, por exemplo, o site exibe uma pegadinha: “seja o primeiro a saber quem vai ser o vice-presidente de Obama”, um segredo tão bem guardado feito a fórmula da Coca-Cola. Basta registrar seu nome e email e você saberá instantaneamente (talvez até antes da imprensa....) quem vai compor a chapa do candidato democrata.
Outra? Doe dez dólares e concorra a uma jantar com Obama. Uma significativa parte das doações (30%) ao candidato é deste valor. Na internet, e com cartão de crédito, milhões de americanos estão contribuindo um pouquinho para eleger o candidato do povo, como geralmente se fala dos candidatos do partido Democrata nos Estados Unidos.
Participação, debate, organização. Além de um mergulho na biografia e nas propostas de campanha, o site tornou-se um imenso espaço colaborativo. Estimula os eleitores, ensina os fundamentos da liderança, fornece material de campanha, vende camisetas, logotipos e DVDs, mergulha na realidade de cada um dos 50 estados americanos e, principalmente, utiliza todas as ferramentas atuais para agregar pessoas: FaceBook, Myspace, Youtube, Flick, Linkedin ...e por aí vai. De quebra, você pode registrar o número do seu celular para receber mensagens do candidato.
Melhor, impossível.
No futuro, a história registrará esta campanha on line como um marco que transformou e aprimorou a democracia, trazendo o eleitor para o centro real do espetáculo, coisa que jamais se imaginava quando este modelo político foi inventado na antiga Grécia.
Nesta nova posição, o eleitor vai se apegar ao poder que nunca teve. Vai querer que as decisões não esperem quatro ou oito anos para serem efetivadas. Ou, quem sabe, não vai querer mais a intermediação de políticos para proteger o seu status quo, melhorar de vida ou ajudar quem precisa.
Com Barack, abre-se uma janela para adivinharmos o futuro de nós enquanto seres políticos. Deseja mudança? Quer uma escola no seu bairro? Eleger ou depor um governante? Abra a tela do computador e simplesmente dê um clique.

A CORAGEM VEM COM A PRÁTICA

Atlanta, Georgia – Depois de seu irmão mais velho ter morrido num acidente quando ela tinha quatro anos, a vida da médica Theresa MacPhail deixou de ser um parque de diversões para se transformar num campo cheio de perigos. Super protegida pela mãe, cresceu presa a regras e restrições impostas para pretensamente protegê-la. Não podia voltar da escola sozinha, dormir na casa das amigas ou viajar no verão. “E se algo te acontecer? ”, perguntava a mãe. Quando cresceu, a lista de medos aumentou ainda mais, fazendo-a uma medrosa por excelência. Começou a ter medo de sofrer de câncer, de perder a carteira, acidentes de carro, terremotos, ter um aneurisma cerebral, perder o emprego ou morrer num acidente aéreo... desastres grandes e pequenos, reais ou imaginários, conforme contou num emocionante depoimento ao programa “Nisto Eu Acredito”, da NPR, a rádio pública norte-americana (e com todo respeito às outras, a melhor do mundo).
O medo pode ser uma reação irracional, nascer do nada ou pode ser justificado. Mas é um sentimento difícil de ser enfrentado, às vezes até de falar sobre ele. Mas Theresa, que hoje vive nos confundós da China tentando controlar epidemias, desenvolveu uma inusitada defesa para suplantá-lo. Ela simplesmente se obriga a fazer coisas que a ameaçam ou a assustam ou a amedrontam– pelo menos uma vez. Especialmente coisas que aterrorizariam sua mãe, (fosse ela viva – pois ela também morreu num acidente de carro quando Theresa tinha apenas 14 anos): viver na China, andar de motocicleta, contar piadas diante de platéias e até casar de novo, e pela segunda vez. No depoimento, ela confessou que foi criada para viver o resto da sua vida de maneira segura, de preferência entre quatro paredes. Mas o que ela fez foi o contrário: ser corajosa o suficiente para viver uma vida completa, excitante e, porque não, perigosa de vez em quanto.
Ela tem medo de que, falando da sua mãe e fazendo justamente o oposto que recomendava, que ela volte do além e a puxe pelo dedo do pé enquanto estiver dormindo. “Mas mamãe é força básica da minha vida, e no fim eu acho que ela ficaria orgulhosa de mim”, diz. Coragem, segundo ela, não é um atributo natural dos seres humanos. Ela acredita que nós devemos praticá-la, como se fizéssemos exercício para fortalecer um músculo. “Quanto mais eu faço coisas que me botam medo, ou mesmo coisas que me deixam numa posição inconfortável, mais eu descubro que eu posso fazer muito mais coisas do que eu penso que sou capaz”, conclui. A médica reconhece que herdou da mãe uma natureza cautelosa, mas também ela acredita que o medo pode ser um excelente sentimento, desde que o enfrentemos de frente. Acreditar nisto, segundo ela, faz do mundo um lugar menos assustador.
Theresa MacPhail formou-se pela Universidade da Califórnia, em Berkeley, uma das mais famosas do mundo. Ela também se tornou escritora e jornalista; acabou de escrever “O Olho Do Vírus”, uma obra de ficção sobre a epidemia de gripe asiática. Segundo ela, sua vida daria um filme emocionante que pouca gente acreditaria. Na verdade, seu pai acaba de morrer – também numa morte acidental. Mas ela acredita que um raio não cai no mesmo lugar quatro vezes – e se recusa a viver com medo.

O PODER DE CADEIRA DE RODAS


New York – Quem assiste Warm Springs, da HBO, a história da pólio que atacou o nova-iorquino Franklin Delano Roosevelt, descobre o lado fraco, medroso e incongruente do homem que viria a ser o maior presidente norte-americano de todos os tempos, reeleito quatro vezes até morrer de hemorragia cerebral em 1945.
Roosevelt, um ex-secretário assistente da Marinha e favorito do Partido Democrata para a sucessão do governo do Estado de Nova York, acordou com febre e paralisado da cintura para baixo aos 39 anos enquanto passava férias em Campobello Island, New Brunswick.
A depressão e a vontade de recuperar a força nas pernas o leva a um balneário na Geórgia, Warm Springs, onde mantém contato não só com a pobreza do Sul, mas também com gente como ele, atacada pela paralisia infantil, naquela época uma espécie de Aids sem possibilidade de cura – a não remediar com águas magnesianas do local.
Representando pelo inglês Kenneth Branagh, Roosevelt bebe em doses cavalares, fuma a todo instante, trai a mulher (Eleonor Roosevelt, vivida por Cynthia Nixon, do seriado Sex in the City, que como Eleonor é também é homosexual na vida real), mas já mostra, por outro lado, o político gigantesco que viria a idealizar o New Deal, que salvou os Estados Unidos da Grande Depressão.
Roosevelt não tinha nada para ser do Partido Democrata. Nascido numa das mais aristocráticas famílias nova-iorquinas, viveu num ambiente de luxo e riqueza, com pai ausente (quando ele nasceu seu pai já tinha 54 anos) e mãe repressora, que a todo o momento (mesmo na idade adulta) ameaçava cortar-lhe a mesada.
A viagem para o pobre e rural ambiente do Sul foi o que os americanos chamam de “turning point”, uma surpreendente sucessão de acontecimentos que moldaria sua liderança e visão de mundo. O futuro presidente dos Estados Unidos chega à Geórgia enojado com a pobreza e as condições do balneário que iria se “curar” e, no futuro, comprar e administrar.
Aos poucos, toma amor pelo lugar e, milagrosamente, segundo ele, consegue andar, mesmo que trôpego, com os pés tocando o fundo da piscina. Uma entrevista a um jornal local é distribuída para toda a mídia americana da época e Warm Springs, do dia para a noite, torna-se a Meca de centenas de pessoas atacadas pela paralisia.
Roosevelt escreve para mãe e pede que adiante o dinheiro da herança para comprar Warm Springs do seu amigo, o banqueiro George Foster Peabody. Com o socorro materno, transforma-o num centro de milagres, onde crianças começam a andar com botinhas ortopédicas e adultos arriscam alguns passos.
Pressionado pelas chamadas bases, no entanto, Roosevelt volta a Nova York e, pelos braços do Partido Democrata, o partido do povo, como é chamado até hoje, prossegue a carreira que o levaria à capital Albany e, depois à Casa Branca.
Warm Springs mostra um homem amedrontado pela possibilidade dos eleitores descobrirem que era um aleijado – jamais se deixou fotografar de cadeira de rodas -, ou de cair quando subisse em qualquer púlpito para discursar. “Se eu cair será o meu fim na política”, repetia. Só o convencem a continuar na luta quando dizem que existiria um punhado de gente para socorrê-lo, entre eles sua mulher, Eleonor. Mesmo traída pelo marido, que a partir daí dá-lhe a liberdade para fazer o que quiser, ela resiste e diz: “Não quero a liberdade. Quero é ser sua esposa para sempre”.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

TERRÁQUEOS, LUNÁTICOS E MARCIANOS

San Juan Islands – Para muita gente (inclusive eu) a coisa mais interessante que aconteceu na Terra desde Adão e Eva foi a chegada do homem à Lua, numa fria noite de julho de 1969. Até hoje nada foi mais extraordinário que o astronauta Neil Armstrong (“um pequeno passo para mim, um grande passo para a Humanidade”) descer titubeante a escada do módulo da Apolo 11, pisar na Lua e fincar a bandeira dos Estados Unidos antes dos soviéticos, naquela época chamada de carrascos de Moscou, agentes da mal, devoradores de criancinhas e assim era o mundo de então.
A Nasa (pronuncia-se naasssa), a agência espacial norte-americana que mandou os astronautas para a Lua sem a ajuda de nenhum computador (mesmo porque naquela época eles não existiam), comemorou na semana passada 50 anos. Ela nasceu pelas mãos do republicado Dwight Eisenhower, que quase morreu de inveja (como todos os americanos) do soviético Yuri Gagarin tornar-se o primeiro homem a dar uma volta pela órbita da Terra, mas foi John F. Kennedy quem lançou a corrida espacial: “queremos descer na Lua até o final da década”, disse ele num discurso. O que pouca gente sabe é que, depois deste discurso, os Estados Unidos dedicaram quase um 1% do seu Produto Interno Bruto à Nasa.
A agência, que já fez mais de 150 missões tripuladas até hoje, recebe anualmente cerca de US$ 17 bilhões para brincar de ir à Lua novamente, manipular jipinhos no solo de Marte ou visitar aquela estação espacial lá em cima que ninguém sabe porque existe. O problema é que, agora, ela sofre de dois males: não há uma meta específica em torno da qual todo mundo se une (ir à Marte para que?), ao mesmo tempo em que dezenas de milionários ou pagam absurdos para uma vaga de turista nas viagens espaciais, ou jogam milhões numa corrida espacial privada. Tome-se os exemplos de Jeff Bezos, o dono da Amazon, ou de Richard Branson, da Virgin. Ambos, nascidos vendo Super Homem e os Jetsons na TV, estão brigando para ver quem chega primeiro lá em cima, e por um preço razoável, capaz de atrair milhares de consumidores.
A Nasa já errou muito: os astronautas da Apolo 1 morreram carbonizados num teste, a Apolo 13 não conseguiu aterrissar na Lua e os ônibus espaciais Columbia e Challenger explodiram lá em cima. Por gastarem bilhões de dólares dos contribuintes (só o programa dos ônibus espaciais já custou mais de US$ 100 bilhões) e por atraírem a atenção de todo o mundo, qualquer desastre com a Nasa parece ser de grandes proporções, que significam protestos, debates e principalmente redução de verba para os programas. Quando a poeira abaixa, voltam os planos, as verbas e as vitórias, como por exemplo, as recentes e surpreendentes informações sobre o solo de Marte, que tem água e, conseqüentemente, vida.
Entre a Nasa de John F. Kennedy e a Nasa de George W. Bush (ou de Obama, ou de Mccain) existem muito mais de 50 anos. O mundo de hoje não é tão vidrado no espaço – tanto é que a missão há alguns anos mudou para “entender e proteger o planeta em que vivemos” . Parece que o mundo hoje prefere (ou precisa) arrumar a casa, diminuir o aquecimento global, proteger a natureza e ter uma vida saudável. Hoje também não existem soviéticos para competir com os americanos. Sem competidores, não é competição. O espírito competitivo é tudo eles. Quando Armstrong, Collins (o segundo homem a pisar na Lua) e Aldrin voltaram à Terra, ficaram alguns dias de quarentena dentro de uma bolha especial (tinha-se receio de que eles trouxessem alguma praga maldita lá de cima). Foram recebidos como heróis, mas quando Aldrin foi abraçar sua família, seu pai lhe perguntou:
- Por que você não foi o primeiro a pisar na Lua?

NOSSO DESTINO É CRIAR

San Francisco – Não é café, nem petróleo ou avião. Enfim, depois de tortuosos 508 anos de vida, descobrimos nossa vocação: é criar, formar conceitos, conectar pontos, inventar, abrir as portas do inusitado. Os brasileiros, que desde 2006 investem mais no mundo que o mundo no Brasil (US$ 152 bilhões em ativos, segundo a KPMG), estão em vias de dominar a criação nos Estados Unidos, desde publicitários, designers, músicos, gente da moda e até empresários. Agora, temos um produto, a criatividade, um projeto, espalhar nossa criação nos quatro cantos do mundo, e um objetivo para esta revolução criativa: gerar dividendos para nós.
Mergulhados num prato de frango ao curry, regado a água de coco, num barulhento restaurante asiático aqui, na capital da inovação, PJ Pereira (sócio de Nizan Guanaes nos Estados Unidos), Bruno Ewald, cineasta e sobrinho do Rubens, e eu vamos resolvendo os problemas nacionais e citando nomes que, hoje em dia, são mais falados nos Estados Unidos que no Brasil: Ícaro Dória, da Saatchi & Saatchi New York; Ricardo Figueira, da Isobar; Fernanda Romano, da JWT. O próprio PJ já é um dos criativos mais festejados aqui em San Francisco, através da Pereira & O’Dell.
Por sermos uma festejada mescla de branco-indio-negro, uma Itália dos trópicos rebatizada a cada ano como o país do futuro, aprendemos a criar do nada, sem organização ou planejamento, em cima da hora ou, como celebramos, por acaso. Veja este povo da Imbev, o Carlos Brito comprando a Anheuser-Bush na maior transação da história dos Estados Unidos. Ou Carlos Ghosn, colocando a Nissan/Renault nos trilhos e reinventando a indústria automobilística. Rogê Agnelli, o ser mais competitivo que o Brasil já produziu, dia desses faz a Vale dona de todas as minerações aqui, repetindo o sucesso de Alain Belda, da Alcoa.
Sem ufanismo, é tudo gente que fala português, bebe caipirinha, já chorou na novela das oito e cresceu jogando futebol. Ou também gente que cansou de falar mal do Brasil ou que não entende porque a nossa auto estima já nasceu lá embaixo. Daí este Manifesto Bossa Nova pela Criatividade Brasileira, um documento nascido pelas mãos do baiano Nizan Guanaes (que como todo bom baiano não nasceu, estreou), e que deu o que falar durante um recente congresso de propaganda no Brasil.
O conceito de criatividade, como se sabe, não é novo, mas a conscientização de seu poder ecônomico é. Ela desafia formas, estruturas, hierarquias, parece ser espontânea, mas na maioria das vezes surge da fórmula 90% transpiração e 10% inspiração. Esta indústria – que pode ser encontrada em setores tão distintos como softwares ou artesanato, costura ou vídeos, televisão ou móveis –, e cujo valor de exportação hoje é calculado em mais de US$ 445,2 bilhões em todo o mundo, segundo o consultor Supachai Panitchpakdi, é a nossa redenção, aquilo que fazemos de melhor, a arma que precisamos utilizar intensamente para não naufragar num mundo dominado pelas formigas chinesas, pelos PHDs em série da Índia ou pelos petrodólares da Rússia.
Falta agora bater no peito, reconhecer nosso potencial, trabalhar duro e correr para o abraço. Pouca gente consegue ver a relação entre criatividade e desenvolvimento político, social e econômico. Criatividade é o amálgama que pode nos unir para sobreviver num mundo globalizado, instantaneamente mutável, mudando (para melhor) o nosso destino. A melhor forma de prever o futuro, como se sabe, é criá-lo.

ESTÃO FALANDO MAL DE VOCÊ

San Francisco – Uma das primeiras lições que aprendemos no jornalismo é jamais falar ou escrever através da mídia aquilo que você, como cavalheiro, não faria pessoalmente. O mesmo pode ser aplicado aos bilhões de internautas que, freneticamente, não medem palavras ou sentimentos quando se dirigem a outras pessoas, especialmente crianças. Esta lei, apesar de não escrita, nada mais é que bom senso (ou senso comum) para quem vive em sociedade.
Só que a turma da internet, armada de emails, mensagens instantâneas, sites de relacionamento etc. não está nem aí para estes limites e está mandando ver. O resultado é que hoje, nos Estados Unidos, 42% das crianças e adolescentes já foram ou são vítimas de um engraçadinho (ou, na maioria das vezes, engraçadinhas) que escrevem coisas horríveis para amigos, amigos dos amigos, namorados, casos e, o que era de se esperar, inimigos.
Pode parecer coisa menor, “coisa de criança” , mas tem gente nem experimentou a puberdade e já se matou depois de receber emails ofensivos ou sofrer campanhas on line maliciosas, desde críticas à quantidade de espinhas no rosto, o tamanho do nariz, uma roupa considerada ridícula, intolerância racial e até rejeições amorosas. Pais, educadores e gente preocupada com o assunto vêm criando sites educacionais, como o www.cyberbullyng.com, para abrigar denúncias e fazer algo sobre o assunto. Até um filme, Adina's Deck, já foi feito sobre a questão.
Quem tem filho sabe que crianças (e adolescentes) falam e escrevem coisas horríveis, não porque são maus ou futuros criminosos. Mas, por não terem sofrido as agruras da vida, não conseguem avaliar os resultados de suas ações. Com o tempo, e depois de levar umas pancadas, pensam duas vezes antes de falar o que vem à cabeça. Palavras são poderosas. Elas encantam ou destroem, na maioria das vezes muito mais pela forma do que pelo conteúdo.
Defronte à tela de um lap top ou um celular, no entanto, fica mais fácil soltar as rédeas das emoções e destruir pessoas. Sem a presença física, ou mesmo travestido de outra pessoa, a tela do computador funciona como um escudo, um objeto eletrônico que te impede de levar um soco ou ouvir o que não quer. É um veículo ideal para gente ruim, que gasta tempo e palavras para o mal. Na enquete americana, 58% das crianças e adolescentes entrevistados não revelaram aos seus pais, ou a qualquer adulto, que foram ou estão sendo vítimas de ameaças, campanhas difamatórias, fofocas etc.
O que fazer? Segundo o site www.stopbullyingnow.com, coloque o computador que os filhos utilizam em lugares freqüentados pelos pais. O segundo passo é conversar com os filhos sobre o assunto, e encorajá-los a revelar quando há alguma ameaça. É importante frisar que jamais a vítima deve responder às ameaças on line, e sim procurar amparo nos responsáveis ou, em última instancia, na Justiça. É recomendável manter as provas deste crime, jamais apagando os emails, mensagens de texto ou fotos e ilustrações enviadas. E, por último, instalar softwares de controles nos computadores dos filhos, muitos deles já incorporados aos navegadores quando são instalados.
Não só nos Estados Unidos, como em todos os países, o cyberbullying é uma atividade repugnante e inaceitável, e que merece a intromissão de pais ou responsáveis mesmo à custa da perda de parte da privacidade dos filhos. Deste Adão e Eva, nunca tivemos uma ferramenta como a internet para colaborarmos em escala global rumo à paz e a felicidade. Pena que tem gente no mundo que acha justamente o contrário.

“ALÔ? PRECISO DA SUA AJUDA PARA SALVAR O MUNDO”

Seattle – Quando tomava seu último drinque num restaurante de Nova York na noite em que comemorou seu 52º aniversário, dia 13 de março deste ano, Jamie Dimon, CEO e chairman do JP Morgan Chase, recebeu um chamado dos diretores do Bear Stearns, a venerável casa bancária nova-iorquina, àquela altura vítima de uma corrida sem precedentes. “Precisamos de US$ 30 bilhões para fechar o caixa esta noite”, imploraram. Dimon deu dois goles, pensou alguns segundos já ia respondendo um sonoro não quando avaliou que ali estava o início de uma catástrofe de proporções globais. A festa de aniversário não só tinha acabado para ele. Naquela noite e nas 72 horas seguintes, em frenéticas negociações, Dimon mobilizou o presidente do Banco Central, o secretário do Tesouro e toda uma cadeia de milhares de contadores, advogados, consultores, e gerentes ao redor do mundo para salvar o Bear. Acabou comprando o banco por uma ninharia (“uma coisa você é comprar uma casa, a outra é comprar uma casa em chamas”, disse ele) por dez dólares a ação, com o aval do BC americano.
Dimon é hoje a maior sensação do sistema financeiro dos Estados Unidos. Bem nascido, formado por Harvard, cara de menino, obcecado por cortar custos, desde bônus até contas de celulares, deu semana passada uma entrevista de quase duas horas para a TV pública norte-americana, a PBS, durante o Festival de Novas Idéias, em Aspen, Colorado. Ali, diante do jornalista Charlie Rose, descreveu com o humor os delicados dias em que, segundo ele, o mundo foi salvo de uma hecatombe financeira. “Naquela noite, avaliamos que havia um risco de 30% de haver uma quebra sucessiva de bancos e outras instituições financeiras – mesmo assim, assumir este risco seria uma grande falta de responsabilidade - tudo poderia acontecer”. Dimon, que já foi protegido e braço direito de Sandy Weill, o obscuro banqueiro que através de fusões e aquisições chegou a chairman do então maior conglomerado financeiro mundial, o Citicorp, sendo depois demitido por seu protetor, diz que Wall Street não pode ser responsabilizada pela crise econômica americana. “Wall Street somos todos nós”, disse ele. Qualquer cidadão americano (ou de muitos países) possui investimentos ou aposentadorias negociadas lá, explica. “No entanto, há muita alavancagem, liquidez e ambições desmedidas, mas Wall Street apenas reflete o que se passa na economia”.
Dimon, casado e pai de três filhas, já poderia estar descansando em cima dos seus quase um bilhão de dólares, principalmente em ações do JPMorgan, mas parece um gênio jovial quando fala do sistema financeiro, dos Estados Unidos e dos problemas a serem enfrentados por Barack Obama ou John Mccain, candidatos dos democratas e dos republicanos. O principal deles, diz Dimon, é o que ele considera uma “esclerose” das instituições norte-americanas. Para o chairman do JPMorgan, os Estados Unidos perderam a capacidade de reagir e resolver seus problemas, habilidade que, há quase um século, tem levado o país a ser a maior potência do mundo. Por exemplo, “desde 1974 sabíamos da crise de petróleo, e mesmo fizemos muito pouco para solucioná-la”. Mais ainda, os Estados Unidos não têm um plano para resolver o decadente sistema educacional e os estratosféricos custos da saúde, reclama. “Apesar de democrata, tenho muitos amigos republicanos e milionários que pensam que eles fizeram este país – penso o contrário: eles são beneficiários das oportunidades que os Estados Unidos lhes ofereceram e agora está na hora deles ajudarem o país a resolver estas importantes questões”.

ABAIXO OS POLÍTICOS (E VIVA A POLÍTICA)

San Francisco, Califórnia – Quando no poder, ou próximos a ele, os políticos roubam (ou deixam roubar), favorecem interesses (mesmo os bons) ou simplesmente embolsam gordos salários e não fazem nada. A culpa não é deles. Como os gregos descobriram ao inventar a democracia, é próprio do ser humano querer agradar a todos, mentir ou acomodar-se às benesses da Corte. E, mais ainda, fazer de tudo para não perder esta boquinha.
Mas a possibilidade de extirpar os políticos – e preservar a política – está chegando. Depois de uma semana fazendo um documentário para a TV brasileira sobre a revolução da colaboração aqui no Vale do Silício, fica fácil entender porque a era do intermediário – políticos, vendedores de seguros, consultores, advogados e até jornalistas – está chegando ao fim.
O fenômeno da internet – e da colaboração – democratiza a informação e, conseqüentemente, o poder. Mais do que a TV, a Internet hoje é, por exemplo, o banco dos réus dos representantes que dizem nos representar. Os internautas, libertários por natureza e gregários no cotidiano, quase elegeram o obstetra Ron Paul (“fim do imposto de renda e das forças armadas”) candidato republicano à presidência dos Estados Unidos.
Agora, numa virada surpreendente, podem destruir a candidatura de Barack Obama, o democrata escolhido pela blogosfera para a Casa Branca. O afro-asiático-americano está indo para o centro para agradar outros eleitores, com posições direitistas sobre a pena de morte para estupradores de crianças, o porte de armas e aí por diante.
A mudança está enfurecendo o mundo virtual. Ao mesmo tempo em que Obama vira a folha, 12 mil internautas criaram um grupo on line no site do candidato, exigindo que ele mantenha-se fiel aos princípios de campanha. “Quando um candidato decide se mover para o centro, ele deveria ficar longe de nós”, disse Mike Stark, estudante de direito da Universidade de Virgínia.
Ou seja, a opinião do eleitor que está detrás da tela do computador agora não é apenas importante, mas pode definir o futuro dos políticos – e da política. O ambiente virtual tem todas as condições não só de deliberar sobre qualquer assunto que rege nossas vidas, mas também acabar com a intermediação, que hoje sobrevive porque os intermediários sempre vão arranjar um jeito de sobreviver.
Calcula-se que hoje existam 1,2 bilhão de internautas no mundo, que de uma forma muito mais fácil, segura e instantânea podem votar on line sobre qualquer tema, dispensando exaustivos processos de campanha, financiamentos, lobby, corrupção... Enfim, toda esta embromação que muita gente já está cansada de acompanhar no nosso dia-a-dia.
Tome-se o exemplo de George W. Bush. Um homem só, eleito pelo voto dos delegados, e não pelo voto do povo, fez um estrago de proporções maremóticas em oito anos de governo. Ou mesmo Lula, no Brasil, que está dando certo porque, incompetente e complacente com a corja que tomou o poder, não conseguiu fazer o estrago de proporções maremóticas pelo qual foi eleito.
Todo poder ao povo, dizia John Lennon. Fosse vivo, hoje estaria cantando: todo poder a você. Agora, a liberdade, a paz e a democracia estão na frente de qualquer tela de computador.

CONVERSA ANTES DA DECOLAGEM

Seattle - Não sei se tenho cara de confessionário, mas basta um ser humano sentar-se ao meu lado para a história começar. A última foi num banco do aeroporto de Atlanta, o maior do mundo, quando esperava a conexão para Seattle. Uma mulher na casa dos 50 anos, vestida de preto, chapéu de caubói e sapatos de lã, me disse que, num intervalo de seis meses, teve de mandar a filha autista para um hospício em Utah, perdeu 65 quilos, separou-se do marido depois que ele revelou que era gay e, como se não bastasse, começou a perder a força nas pernas, a ponto de não poder mais andar sem a ajuda de um andador.

Antes que tentasse balbuciar algum comentário ("escutar é um ato de amor", diz o ditado), emendou: “adoro mudanças (e como, pensei eu), mas o fato de não poder mais andar está surpreendendo não só a mim como aos médicos”. "Fiz testes de sangue, ressonância, cutucaram minha coluna e não descobriram nada". Mórmon (“da sétima geração”), filha de professores que rodavam o mundo ensinando inglês, a mulher não citou Deus nem o destino para explicar os mistérios que a estavam rondando. Pele pálida, cabelos desarranjados, olhos reluzentes, estava encantada, isto sim, com mistérios da medicina.

Antes da chamada para o embarque, ela retirou da bolsa um laptop e continuou falando. "Ganho a vida escrevendo (é redatora de publicidade) e ensinando os outros a escrever - meu último livro, não sei se você leu, chama-se "Como Escrever num Mundo Onde Ninguém Lê". Balancei a cabeça e coloquei a mão no queixo em sinal de concordância. "É um livro fácil de se ler porque é extremamente pequeno (imagino), tem poucas páginas (não diga) e letras extremamente grandes (melhor assim)".

Continuei em silêncio quando revelou que, apesar de norte-americana, era nascida no Irã, criada na Rússia, crescida no Afeganistão e, ainda adolescente, mudou-se para a Birmânia (ou outro país distante) junto com os pais e seis irmãos. Já em Seattle, apaixonou-se com um professor que dava aulas em Atlanta, para onde se mudou. Agora, estava voltando para Seattle, pois fora chamada para trabalhar num projeto legal.

Em Atlanta, teve dois filhos, o mais velho faixa preta de caratê, especialista em explosivos e que trabalha como double de cinema. A outra filha foi diagnosticada aos três meses de idade com autismo. "Não há nenhuma relação entre autismo e vacinas, como se diz por aí, tampouco que o autismo esteja crescendo como uma epidemia", diz ela. "O que está crescendo é a percepção entre as pessoas sobre a doença que ataca as ligações entre os neurônios do cérebro - entre dois e 3% da população do mundo é autista", explica.

Antes da decolagem, vi de longe a mulher ser acomodada no primeiro assento do avião. Num espaço de seis meses a vida tinha lhe dado diferentes e estupendas pancadas. O marido, a filha, o trabalho, a perda de 65 quilos e, agora as pernas. Durante o nosso encontro, e na única vez que falei, ousei perguntar-lhe se o problema nas pernas não seria uma somatizaçao de tudo que ela está passando. "Não existe relação", argumentou com voz forte e um pouco brava. "Amo meus filhos, adoro meu ex-marido, apesar de separados, adoro viver e sou extremamente feliz".

*Dirige a Cia. da Informação em Seattle, Estados Unidos (pedro@theinformationcompany.net)


segunda-feira, 7 de julho de 2008

REDONDO

Que Thomas Friedman (para mim, o melhor jornalista que já apareceu por aqui) nos perdoe, mas o mundo, ao contrário de seu best seller de 400 páginas, está deixando de ser plano. Bastou o petróleo chegar a 140 dólares o barril, esvaziando as esperanças de que volte a preços civilizados no futuro, para o fenômeno da globalização ir por água abaixo. A conta é simples: tirando os serviços da indústria da informação, todos os outros produtos - desde bananas a computadores - precisam ser transportados em navios, aviões, caminhões e automóveis. Ou seja, está ficando inviável carregar mercadorias de um ponto A para um ponto B, até que um doido invente um combustível mais barato - e viável - do que a gasolina ou o óleo diesel. Todo mundo está tentando, tem muito blá-blá-blá, mas esta mudança ainda está difícil. Agora, aqui em Seattle, onde há oito anos cerca de 150 mil enfurecidos anti globalizantes transformaram a cidade num campo de guerra durante a reunião da Organização Mundial do Comércio, começa-se a discutir se consumir e produzir localmente é o melhor para o planeta Terra e, assim, para seus habitantes. Hortas caseiras estão florescendo. Empresas de energia estão alugando tetos solares para as residências. Empresas como Zipcar.com estão estimulando o compatilharmento de veículos. Até as vinícolas estampam nos rótulos o orgulho de ter seus vinhos produzidos no Estado de Washington. Na cidade que dita as tendências do mundo a ordem é: consuma menos, localmente, e, de preferência, não deixe rastros na natureza, como o lixo doméstico. O problema é que o mundo, e particularmente os Estados Unidos, ficou tão encantado com a globalização que esqueceu como são feitos muitos produtos. Ficou famoso o caso de Christina Lampe-Onnerud, que depois de criar uma bateria mais durável e recarregável para computadores, rodou os Estados Unidos à procura de possível fabricantes. Ninguém se interessou. Bastou aterrissar em Shenzhen, na China, para que dezenas de fabricantes, de terno e gravata, munidos de lap tops e powerpoints, fazerem fila de manhã no seu hotel para oferecer serviços, disse ela à revista Business Week. Além da bolha do petróleo, outras mãos invisíveis (ou bastante visíveis) do mercado contribuem para esta corrida anti globalizante. Desde 2002 o dólar caiu 30% em relação às mais importantes moedas, especialmente o yuan chinês. Os salários na China estão subindo à uma taxa de 10 a 15% ao ano. O custo de mandar um container de Xangai a San Diego, nos Estados Unidos, subiu 150%, ou para US$ 5.500, desde 2000. Segundo a CIBC WorldMarkets , de Toronto, se o petróleo chegar a US$ 200, coisa bastante provável, este mesmo container chegaria a US$ 10 mil. Em outras palavras, os Estados Unidos - ou outros países centrais - vão ter de aprender a fabricar tudo que foi terceirizado na China, Vietnã, Japão ou até no Brasil. Quando isto acontecer, todas as brilhantes - e bastante atraentes - teorias sobre o livre mercado terão de ser refeitas, reescritas, repensadas.Como a história da humanidade é a história do combustível que roda a humanidade, um barril de petróleo a US$ 200 pode mudar todas as nossas concepções sobre o mundo. Sem torrar óleo diesel e gasolina, e assim proteger o ar que respiramos, um petróleo a este preço pode ser uma oportunidade para que, globalizados ou não, iniciarmos a construção de um mundo melhor.

terça-feira, 10 de junho de 2008

O FIM DOS JORNAIS E....DA MICROSOFT

A briga é boa. Já que o Steve Balmer, ceo da Microsoft, previu o fim dos jornais em papel a curtíssimo prazo, os jornalistas estão mandando ver. Vejam só o Seattle Post Intelligence de hoje. 
http://seattlepi.nwsource.com/virgin/366347_virgin10.html

segunda-feira, 9 de junho de 2008

ESTADOS UNIDOS: SEGUNDA DIVISÃO?

Seattle – Embasbacados com um cheque de US$ 1.200,00 do presidente George W. Bush para qualquer habitante que pague impostos, a fim de soerguer a economia, os americanos assistem ao jornalista Fareed Zakaria, da Newsweek, anunciar que os Estados Unidos deixarão de ser potência hegemônica mais cedo que se pensa. Em seu novo livro, The Post American World, Zakaria, indiano nascido em Mumbai e que também faz sucesso na CNN como comentarista internacional, avisa que o país não está em declínio – o problema é que pelo menos outros 25 países, entre eles o Brasil, estão crescendo absurdamente.

            Com seu PIB de US$ 14 trilhões, quase a metade de todo o mundo, os Estados Unidos reinam num mundo sem competidores há pelo menos duas décadas, desde que o Muro de Berlim caiu e não deixou saudade. Agora, “isolado por dois oceanos e dois vizinhos benignos”, como diz Zakaria, está levando um susto ao perceber que a maior empresa do mundo com ações em bolsa está na China, que o homem mais rico está no México, o maior edifício em Dubai, a maior indústria cinematográfica na Índia e o maior cassino em Macau. Sem concorrência, “ficamos gordos e preguiçosos, envolvidos por um sistema político “desfuncional”, polarizado, que não honra compromissos e que está deixando sem educação pelo menos um terço do país”, diz ele.

            Como bom imigrante (quem está aqui não quer sair), Zakaria, numa entrevista à TV pública norte-americana, a PBS, não deixa dúvidas quanto ao poderio dos Estados Unidos. “Somos o primeiro país universal da história, uma conjunção de imigrantes que faz uma economia inovadora, flexível e dinâmica, mas estamos entrando numa era em que vamos ter de aprender a cooperar com outros povos e países – aí está o nosso futuro”, diz ele. Este “crescimento do resto”, como ele se refere ao desenvolvimento de países como China, Índia, Brasil, Rússia e outros, é “a grande história do nosso tempo, é aquela que vai redefinir o Planeta”, acrescenta.

            Num artigo na Newsweek, Zakaria lembra que o pânico no sistema financeiro, a recessão econômica, a guerra sem fim no Iraque e a ameaça do terrorismo, entremeados por aumento do desemprego e a crise das hipotecas - estão levando o país do otimismo a ficar pessimista. Em Abril, diz ele, uma nova pesquisa revelou que 81 por cento dos americanos acreditam que o país está no caminho errado, a resposta mais negativa em 25 anos em que a pesquisa é feita.

“Mas isto não explica a presente atmosfera de fraqueza”, explica. Esta ansiedade tem razões mais profundas, continua. “É um sentimento de que grandes e descomunais forças estão correndo pelo mundo”. Em quase todas as indústrias, em todos os aspectos da vida, os padrões estão sendo mudados, misturados, remexidos. “E, pela primeira vez na memória recente, os Estados Unidos não estão liderando a mudança. Os americanos vêem que este novo mundo está surgindo, mas têm medo que ele seja moldado numa terra distante e por povos estrangeiros”.

COLABORAR É VIVER

Estamos fazendo um documentário para a TV Ideal sobre colaboração. A idéia inicial nasceu de um papo com meu colega Juliano Spyer, mestre na área. Lemos alguns livros, como Collaboration 2.0 e Groundsweel, entrevistamos gente, mergulhamos em websites sobre colaboraçao e... ficamos encantados com o tema. A colaboração hoje é um mercado de 40 bilhoes de dólares anuais e cresce 12% ao ano nos Estados Unidos, especialmente na Costa Oeste, berço ou altar da inovaçao norte-americana. Maiores exemplos: Wikipedia, Craiglist, Prosper.com. Mas é interessante como a colaboração está fazendo as empresas ganhar dinheiro. Procter & Gamble, Google, Dell.. tem muita gente faturando com a colaboração de clientes, funcionários, provedores... nunca o termo colaboradores foi tão bem empregado, ao invés de ser um eufemismo para esconder a velha relação entre patrão e empregado que é simplesmente ..... antiga.

SHOW DE BOLA NOS GRINGOS

Seattle – Brasileiro, aqui nas proximidades do Pólo Norte, é que nem Deus. Todo mundo sabe que existe, mas ninguém vê. Semana passada, quando o escrete passou na cidade para derrotar o Canadá, deu Brasil em tudo quanto é canto. Calculava-se cerca de sete mil brazucas em Seattle, mas praticamente todo o estádio Qwest Field, que recebeu 47 mil pagantes, era de pedros e marias, josés e aparecidas, uma onda verde amarela que Seattle jamais vai esquecer.

            O domingo, como sempre, estava frio e chuvoso (aqui é a cidade que mais chove nos Estados Unidos, e talvez na Via Láctea toda), mas desde o meio-dia começou a brotar no centro da cidade gente bonita, queimada de sol e com pouca roupa. Depois de cerveja e caipirinha, temperadas com músicos brasileiros locais (sim, eles existem), a seleção entrou em campo e aí foi uma zorra total. Exaltados, brasileiros chegarem a ser presos e liberados em seguida. No aquário dos jornalistas, lúgrube e infeliz, choveram lamentos sobre o “espetáculo deplorável de futebol estilo Dunga” que estávamos vendo.

            Nas arquibancadas era só festa. É difícil presenciar aqui gente que tem controle de bola, dribla com ginga e dá espetáculo para quem pagou cerca de 100 dólares por um ingresso. No gargarejo, dava para ouvir Robinho, o maior astro, emitir grunhidos para pedir a bola e marcar gols. É o velho ditado que só quem cresceu jogando pelada conhece (e às vezes cumpre): “Quem se desloca recebe, quem pede tem preferência”. Ele enfiava as bolas na rede, mandava beijos para a torcida e assim caminhava a humanidade.

            Trocando de lugares durante o jogo, junto aos jornalistas ou no meio da galera, dava para ver porque, muitas vezes, a mídia se distancia da realidade. O Brasil teria podido entrar em campo com um bando pernas de pau, brucutus, chacretes ou coisas do tipo. Entrou com um timão milionário, unido, sincronizado, brincalhão, fazendo bicicletas, folhas-secas e outras mágicas brasilianas. Por mais que os jornalistas tenham descido o porrete, o time jogou bem, ganhou a partida e fez a alegria da “sofrida torcida brasileira nos Estados Unidos”, como lembrou Dunga (ou era o Tristonho?) na entrevista.

            Sofrida mesmo. Boa parte da população brasileira em Seattle é ilegal. A maioria veio de Goiás, um estado que liga Brasília a Minas Gerais. Reinam numa atividade que rende em média 16 mil dólares por casa para as empresas que os contratam: trocar telhados. É um emprego arriscado. Como chove muito, estão sempre despencando lá de cima. Se caírem, têm de ir para o Hospital, passar pelos canais burocráticos e cair nas garras da imigração. Se pegos, passam de um a dois meses na cadeia e depois são deportados para o Brasil. “Não dá nem para pegar a escova de dente em casa”, diz um deles.

            Brasileiros, como outros imigrantes, são a chave do sucesso norte-americano. Pagando salários mais baixos, os gringos conseguem índices de produtividade maiores, mantêm a economia funcionando. São pedreiros, carpinteiros, pintores e telhadistas que estavam na torcida. Gente humilde, que troca o almoço pela janta, dorme em barracões das empresas, trabalha sete dias por semana, sofre com a desvalorização do dólar e sonha com uma vida melhor. No domingo de chuva, nunca tivemos tanto orgulho do Brasil. Que terra, que gente boa, e que saudade.

RECEITA PARA ADVOGADOS: COMO CONVENCER OS JUÍZES

 Seattle – Acaba de sair aqui o festejado livro do Antonin Gregory Scalia, o falcão da Suprema Corte norte-americana que, escolhido por Ronald Reagan, tornou-se o pavor dos advogados americanos antes, durante e até depois dos julgamentos. Em Making Your Case, The Art of Persuading Judges, Scalia, um ítalo-americano nascido em Nova Jersey, debulha em 115 pequenas lições a arte de dobrar os juízes a favor dos clientes, de forma que eles se sintam fiéis da balança, fiéis ao chamado espírito da lei e, mais importante, fiéis de que jamais contraditados no futuro.

            Mesmo para nós, eventuais réus, o livro é uma delícia, porque força os rábulas que invadem o mundo, em torno de 950 mil só nos Estados Unidos, a fazerem o dever de casa. Antes de disparar lições com uma surpreendente capacidade de síntese, Scalia adverte que juízes só podem ser persuadidos se (1) eles têm uma idéia clara do que os advogados estão pedindo para a Corte fazer, (2) se eles têm certeza de que a Corte tem o poder de fazer o que eles estão pedindo, para, então, (3) ouvidas todas as razões (inclusive da parte contrária), concluírem que o que você está pedindo é o melhor – não só no seu caso como nos casos que virão.

            Scalia divide juízes entre textualistas, como ele, que apenas se atêm ao que está escrito nos códigos, e aqueles que querem fazer história, ou seja, aqueles que julgam prestando atenção no desdobramento de suas decisões. “Para mostrar as razões que vão persuadir os juízes a decidir ao seu favor”, no entanto, o advogado fundamentalmente “precisa saber o que motiva a Corte, e isto nem sempre é fácil de discernir”.  Quanto mais completa a pesquisa sobre os precedentes, mais chances o advogado tem de ganhar a causa. A lógica é clara: se no passado o juiz decidiu assim, é claro que agora ele vai decidir assim.

            Diz o adágio que juiz não fala, decide. Scalia, casado há 48 anos e com nove filhos, adora falar. Recentemente, ocupou metade do 60 Minutes, o Fantástico americano. Para se ter uma idéia da sua personalidade, basta dizer que ele acha tortura perfeitamente aceitável nos interrogatórios. Mesmo na extrema da extrema direita, posição política muito comum entre imigrantes ou filhos de imigrantes, o juiz surpreende ao revelar o que, na visão dele, conquista os magistrados. “Simpatia, caráter e competência são bastante admirados pelos juízes, pois a tendência humana é a de ser mais receptivo à pessoa em que se confia e se gosta”, diz Scalia. “Todos nós somos mais aptos a ser persuadidos por alguém que nós admiramos do que por alguém que detestamos”.

Diante do Juiz, conclui, o objetivo de qualquer argumento é mostrar você mesmo digno de confiança e afeição. “A confiança acaba quando o advogado dissimula ou induz falsa informação- não só intencionalmente como, o que é pior, sem cuidado”. Ou mesmo “descaracterizar o precedente para que ele se ajuste ao caso em questão, construindo argumentos que convenceriam apenas os estúpidos ou mal informados.”.

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Não deixem de assistir ao premiado documentário sobre o ex-presidente dos Estados Unidos e Prêmio Nobel da Paz, Jimmy Carter. The Man from Plains está para entrar para história como um dos  melhores documentários de todos os tempos. http://www.sonyclassics.com/jimmycartermanfromplains/main.html

*Dirige a The Information Company nos Estados Unidos (pedro@theinformationcompany.net)

segunda-feira, 19 de maio de 2008

CÉREBRO

Segundos depois de despertar numa fria manhã em 10 de dezembro de 1996, a neuroanotomista norte-americana Jill Bolte Taylor sentiu uma fisgada na cabeça, semelhante àquela sensação de quando tomamos sorvete rapidamente. Levantou-se e, já no banho, perplexa e intrigada, sentiu estar numa viagem alucinógena, onde os pingos do chuveiro pareciam brincar com as células do seu corpo. Aos 37 anos, uma das maiores especialistas do mundo em cérebro estava sofrendo um derrame cerebral provocado por uma hemorragia craniana do tamanho de uma bola de golfe. Nas quatro horas seguintes, foi médica e paciente, feitiço e feiticeira, atriz e espectadora: numa cronologia aterrorizante, assistiu de camarote à perda da fala, da capacidade de ler, de escrever e de reagir a estímulos externos, sentidos alojados na parte esquerda da sua cabeça. Virou uma criança num corpo de mulher. Depois de operada, extirpada a hemorragia, demorou nove anos para se recuperar.
Tanto no best seller “My Stroke of Insight” quanto no vídeo que faz sucesso na internet, Taylor mostra um cérebro (real) cortado ao meio, brinca com a massa marrom-clara e defende, como ninguém, a independência entre as partes esquerda e direita. A direita, diz ela, é a parte do nós, das intuições, das trocas de energias, da felicidade, da expansão da nossa consciência. A esquerda é a parte intelectual, do eu, introvertida, calculista, metódica, linear, é aquele diabinho que nos lembra as contas a pagar, nos põe medo na hora de enfrentar o mundo e que, por isto mesmo, nos faz sofrer. Quando acordou do pesadelo de quatro horas, Taylor, uma loira energética com voz de quem fala e é ouvida, sentiu uma extrema sensação de paz, euforia, como se não houvesse mais problemas no mundo. Humildemente, despediu-se da vida e preparou-se para o que ela chama de “transição”.
Esta transição realmente chegou para a cientista formada e treinada por Harvard, uma das melhores universidades do mundo, mas não através da morte. Como teve de aprender a conviver com apenas metade das 50 milhões de células que harmoniosamente viviam no nosso cérebro – precisamente as da parte direita-, a experiência a levou a mundos que pouca gente conhece. “Vivemos e lutamos entre nós nos ego-caixotes da parte esquerda do cérebro, nos recusando a pensar que um mundo diferente é possível”, diz ela. “A benção que recebi desta experiência é que a paz interior é acessível a qualquer pessoa, em qualquer momento: tudo que temos de fazer é silenciar a voz que domina a parte esquerda”.
Hoje Jill dá a volta ao mundo contanto sua experiência. Mesmo com o sucesso repentino – já chegou a dar entrevista para a apresentadora Oprah Winfrey na TV norte-americana - continua dando aulas na Escola de Medicina da Universidade de Indiana, seu estado natal, e especializou-se na investigação pós morte do cérebro humano. Ela ainda é porta voz da Harvard Brain Tissue Resource Center, e consultora da Midwest Proton Radiotherapy Institute. Agora em maio foi escolhida pela revista Time uma das 100 pessoas mais influentes do mundo.
Uma das partes mais fantásticas do vídeo é quando ela conta, em lágrimas, a briga entre partes direita e esquerda do seu cérebro durante as quatro horas de derrame. “Meu lado direito me dava fantásticas sensações de alegria e paz, enquanto que o esquerdo me chamava para a responsabilidade, me dizia: você está sofrendo um derrame, vá ao telefone e grite por socorro”. Após ter tido o seu cérebro danificado, e tendo de recorrer ao seu lado direito, ela pergunta à platéia se a deliberada escolha pelo lado direito pode ser feita por nós no dia-a-dia da vida.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

O que vale é a experiência?

A Universidade de Washington, através do Centro de Estudos Brasileiros, ajudou a mandar mais uma turma de estudantes para o Brasil. Ficaram uma semana no Rio. Foram assaltados, covardemente espancados e proibidos de voltar para casa em que estavam hospedados, pois havia contantes tiroteios com metralhadoras. Agora estão refugiados numa casa de campo em Minas. O Brasil, segundo eles, está sendo uma experiência fantástica.

DE CASO COM A MÁFIA


            Seattle – Após assistir nas últimas semanas aos 86 episódios dos The Sopranos, da HBO, considerado o melhor seriado de todos os tempos da TV norte-americana, e também o que mais faturou, e ficar terrificado com o estilo de liderança do chefão Tony Soprano, dá vontade de jogar no lixo idéias holísticas, congruentes, participativas e outros modismos inventados pelos consultores em administração. O estilo “escreveu-não-leu-é-porrada-mesmo” de Tony, que faz análise e tem problemas com a mãe, mesmo depois dela ter morrido, obviamente tem seus exageros, como assassinatos e extorsões, mas é o que se vê, mutatis mutandis, no dia-a-dia das empresas nos Estados Unidos que freqüentam as primeiras posições da Fortune 500.

            O Soprano da América Corporativa é uma espécie de cowboy que, em tempos de crise (ou seja, sempre), corta a emenda do feriado, suspende o cafezinho e liga para o sub-chefe domingo de manhã para saber o que ele está achando das coisas. Fala pouco, não é amigo, aparece em horas incertas, não gosta de responder (e sim perguntar), não reage no calor dos acontecimentos e presta atenção a tudo que ouve. Sorrisos esparsos, abre o saco de pancadas de uma só vez, e dá a mão depois que o subordinado já roeu todas as unhas. É astuto, sortudo, charmoso, de bem com a vida, aceita ouvir desaforos sem estourar os miolos e parece ser teleguiado por um sentido de missão, do tipo “não sabia que era impossível, portanto fui lá e fiz”.  

            Tony é assim. É mais um bem-sucedido CEO da Cosa Nostra, organização criminosa que ao longo da sua história brindou o mundo empresarial com livros sobre eficiência e eficácia administrativa. O último que saiu é sobre Bernardo Provenzano, o chefão que, encarcerado, torna-se prolífico escritor de cartas. John Murray, que escreveu sua biografia Boss of Bosses, colheu dele sete regras essenciais para o mundo dos negócios: (1) Em tempos de crise, desapareça do radar. (2) Medite, seja calmo, correto e consistente, descubra o que há por trás das palavras e não confie em apenas uma fonte de informação. (3) “O chefão tem de aparecer como uma figura beneficente, tanto nos negócios como na vida pessoal, a fim de obter o consenso”. (4) Seja como um pastor, confiável e autoritário”. (5) Seja politicamente flexível. (6) Em caso de escândalo ou falência, distancie-se e não seja confundido com o caso em questão. (7) Seja modesto. Sempre.

            Tony mete tanto medo que seu motorista pede-lhe desculpas por ter apanhado dele num de seus freqüentes ataques de fúria (acompanhados de desmaios de ataques de pânico). Tortura e mata como quem toma um cafezinho na esquina, faz sexo com metade do mundo, mas recolhe-se todas as noites à sua sacrossanta mansão, onde é pai e marido exemplar. O mundo gira à sua volta: ele recolhe, processa, tira o melhor proveito (90% para ele, o resto para o grupo) e distribui os dividendos salomonicamente. Todo mundo que lhe presta um favor tem um preço, uma gorjeta de 50 ou 100 dólares. Não existem amizades, existem interesses. Beija e abraça os inimigos, para depois encomendar-lhes a morte.

            Os Sopranos são reprisados e alugados à exaustão na Blockbuster, principalmente por chefes que, no subconsciente, imaginam um mundo onde não têm que pedir tudo com delicadeza e carinho, para depois serem motivos de piada na rádio peão. Um mundo onde o bem e o mal surgem claramente, e não em zique-zague, um universo onde, infelizmente, alguns têm de ganhar, outros têm de perder. Os chefões é que decidem quem.

 

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Rica, famosa, adolescente. Mesada? US$ 300,00

            Seattle – Destiny Hope Cyrus, ou Miley Cyrus, a garota que está tão onipresente nos Estados Unidos feito a bandeira americana, foi eleita semana passada pela revista People a criança que mais fatura no show business: US$ 17,5 milhões pela recente temporada. A cantora, atriz, autora e guitarrista, que ao colocar uma peruca loura transforma-se em Hannah Montana, o seriado responsável pela recuperação dos estúdios Disney, põe apenas US$ 300,00 mensais no bolso. O resto vai para seu pai, Billy Ray Cyrus, que também faz o papel de seu pai em Hannah Montana.

            Miley, que é vista em 95 milhões de norte-americanos, envolveu-se numa trapalhada na semana passada, quando a revista Vanity Fair publicou suas fotos com as costas nuas, envolvida apenas com uma roupa de cama. As fotos, feitas pela lendária Annie Liebovitz, tiveram um efeito desastroso para sua carreira. Conhecida pela espontaneidade, simplicidade e principalmente por ser engraçada – sua marca registrada – Miley, ou Hannah Montana, teve que se desculpar com os fãs: “As fotos eram para ser artísticas, mas vendo o resultado na revista, me sinto totalmente sem graça “, disse. “Eu jamais quis que isto acontecesse – e por isto peço desculpas”.

            Apesar do tropeço, a carreira da Miley, que tem apenas 15 anos, vai de vento em popa. Somente no ano passado ela faturou US$ 3,5 milhões, o que a colocou no 17º lugar dos milionários com menos de 25 anos da revista Forbes. Seu programa roda quase que 24 horas por dia no Disney Channel, que não tem anúncios, só os do próprio canal. A garota já vendeu mais de oito milhões de CDs, três milhões de DVDs, 1,7 milhão de jogos interativos e 3,7 milhões de livros. Apresentou o Oscar deste ano (quase irreconhecível num vestido de Valentino) vai ganhar uma estátua no museu de cera da Madame Tussauds e já vende cerca de 400 produtos, o que a faz uma estrela do mercado de merchandising nos Estados Unidos, avaliado em US$ 200 bilhões anuais.

            Hannah tem duas vidas. Uma como Miley, a estabanada (e com problemas de auto-afirmação) garota que vive numa praia da Califórnia como seu pai (viúvo) e seu irmão. A outra, como a celebridade Hannah Montana, séria, profissional, sempre correndo do assédio dos fãs. O seriado, 26 capítulos por temporada, é divertidíssimo, o que soa como alívio para os pais que, vez por outra, são obrigados a acompanhá-lo.

Ao lado de High School Musical, e desde março de 2006, quando estreou, Hannah é programa obrigatório nos Estados Unidos. Já foi escolhido para receber o Emmy, o Oscar da TV, ao mesmo tempo em que já foi anunciada a terceira série, que começará a partir de abril do ano que vem. Tem gente que paga até US$ 1000,00 para vê-la mais de perto em seus shows (que faturou até agora US$ 65 milhões), coisa que o candidato Barack Obama, que tem duas filhas, se recusou a fazê-lo.

Nada mal para uma garota que nasceu na distante
Franklin, Tennessee, filha de um decadente músico de rock-in-rool que colocou o nome de Destiny Hope (Destino Esperança) porque acreditava que ela iria realizar grandes coisas. Sem namorado, sem ir à escola (tutores a acompanham nas temporadas), e principalmente longe do lugar comum que acompanha as celebridades infantis, Destiny Hope vai trocar de nome oficialmente. Para Miley Cyrus, não para Hannah Montana.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Esta Marx não previu

Seattle - Todo mundo pensa que os Estados Unidos, que mandam no mundo, são controlados pelas corporações. Pouca gente lembra, no entanto, que a maioria das corporações é propriedade de milhões de americanos que compram ações, participam de fundos de investimento, jogam na bolsa ou simplesmente contribuem para o famoso IRA, acrônimo para Individual Retirement Account, a aposentadoria do setor privado abençoada pelo Governo. Exemplo? As empresas petrolíferas norte-americanas são controladas por cerca de 100 milhões de americanos, que ganham em média US$ 70 mil por ano. Como podemos chamar este fenômeno? Capitalismo socialista? Socialismo do capitalismo? Marx, socorro!!!.

sábado, 26 de abril de 2008

Universidade de Washington cria Centro de Estudos Brasileiros

           Seattle – A Jackson School of International Studies, da Universidade de Washington, anunciou ontem a criação de seu Centro de Estudos Brasileiros. O centro, que pretende ser a melhor e mais completa instituição do gênero em todo os Estados Unidos, será o elo que reunirá a cultura, a iniciativa privada e a mídia brasileira em toda a Costa Oeste norte-americana, desde a Califórnia até o Estado de Washington. Além da própria reitoria da Universidade, Fiesp, Boeing, Microsoft e Starbucks – as maiores empresas da região - estão entre os primeiros apoiadores da iniciativa.

Através da oficialização, o Centro já pode receber doações dedutíveis do imposto de renda de empresas, governos, associações e outras instituições, tanto brasileiras e norte-americanas. “O Centro nasce da necessidade de aumentarmos o entendimento do Brasil na região, a fim de que os empresários, formadores de opinião e outros líderes se dêem conta das potencialidades culturais e econômicas de uma das maiores potências mundiais, o Brasil”, disse o professor Jonathan Warren, um dos fundadores.

O Centro foi criado depois da visita da missão brasileira da Fiesp à Costa Oeste dos Estados Unidos, em outubro do ano passado, liderada pelo empresário Roberto Giannetti da Fonseca. “Os Estados Unidos são os maiores parceiros comerciais do Brasil, mas as possibilidades desta região estão sendo pouquíssimo exploradas pelos empresários brasileiros”, diz ele. “Daí a razão de criarmos um Centro que, mais do que cultura e educação, provenha informações negociais para os empresários brasileiros a partir de Seattle”.

Depois da oficialização, representantes do Comitê Organizador do Centro receberão na semana que vem um plano de negócios, as propostas de nomes para a criação do conselho diretor e as necessidades iniciais de fundos, calculadas entre US$ 100 mil e US$ 1 milhão. Os recursos virão de empresas apoiadoras, do governo do Estado de Washington e ainda de programas federais de incentivos ao comércio externo norte-americano, bem como de empresas e instituições brasileiras que desejam fazer ou aumentar seus negócios na Costa Oeste dos Estados Unidos.

A instituição já conta com uma sala e computadores na Jackson School da Universidade de Washington, bem como com o trabalho integral de coordenador, o economista Jay Freistadt, especialista em economia brasileira. O desenvolvimento dos trabalhos já pode ser visto no site http://jsis.washington.edu/brazil/about.shtml.  Dois dos primeiros projetos, o envio de estagiários norte-americanos para empresas brasileiras, bem como um curso virtual para a formação de empreendedores, já estão em andamento.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Os gringos estão ficando verdes


            Seattle – Ao longo da sua existência, os Estados Unidos caíram, levantaram e sacudiram a poeira dezenas de vezes, transformando-se não só no país do futuro, mas no país que inventa o futuro. Agora que a gasolina beira os quatro dólares, o que faz o americano tirar do bolso às vezes mais de 100 dólares para encher o tanque, a nação responsável por quase metade do PIB da Terra – e por isto mesmo a maior poluidora do mundo – mobiliza-se para reduzir o seu rastro de destruição na natureza.

            A edição do The New York Times Magazine da semana passada, chamada de Low Carbon Catalog, numa alusão às dietas de baixa caloria, traz quase uma centena de lucrativas inovações verdes made-in-America. A melhor delas? Três empresas californianas que estão alugando caros e super-eficientes (US$ 40 mil em média por casa) painéis solares que podem ser instalados nas residências sem a ajuda de técnicos. O modelo de negócio é comparado ao que aconteceu com o setor de telefones celulares, cujos proprietários hoje “não precisam pagar 10 mil dólares pelo aparelho, ou mesmo construir, manter e reparar a rede de telecomunicações”.

            O país hoje funciona à base de um termômetro chamado preço de petróleo. Quanto mais sob o preço do barril (já chegou a mais de 120 dólares), mais a corrida verde se intensifica. No melhor estilo “a necessidade é a mãe da inovação”, dezenas de venture capitalists que ganharam as burras na virada do século hoje investem em carros que fazem 300 milhas com um galão de gasolina, ou em academias de ginástica que literalmente tiram energia dos próprios atletas que utilizam as bicicletas ergométricas gerando iluminação ou calefação.

            O mais interessante, no entanto, são as iniciativas do poder público. Reynolds, uma sonolenta cidade de Indiana, estava destinada a sumir do mapa, mas descobriu que poderia aproveitar a energia do cocô de mais de 150 mil porcos criados num raio de 15 milhas do centro do município. Com a ajuda da empresa Biotown, foram investidos cerca de 15 milhões num digestor que hoje provê metano, gás sintético e biodiesel. Em outras palavras, toda a energia que a cidade precisa vem da “porcaria”, gerando empregos e atraindo empresas.

            Pode-se duvidar da viabilidade dos milhares de projetos verdes que nascem em todas as direções no país da inovação, mas quando se vê os grandes se mexerem a coisa muda de figura. Acredita-se, por exemplo, que o mercado de troca de carbono, no qual muita gente já está ganhando dinheiro, vá chegar a US$ 1 trilhão daqui a poucos anos. Daí a razão de bancos de investimento, empresas de energia, e até os chamados fundos de hedge, nomes de peso como GE, Goldman Sachs. JP Morgan e Chase, estarem lutando por este mercado.

            Após entrarem numa guerra fratricida, exportarem empregos para países de mão-de-obra barata, passarem pelo furacão do governo George W. Bush, ainda ameaçados pelo poderia chinês, os Estados Unidos olharam para os lados de descobriram que, através do verde, tentarão de todas as formas se manterem como a maior potência mundial. 

sexta-feira, 11 de abril de 2008

VOANDO COM RICHARD BRANSON

San Francisco – Sou um dos felizes passageiros (poltrona 23B) da mais nova (e surpreendente) companhia aérea norte-americana, a Virgin America, que acaba de inaugurar o vôo entre Seattle e San Francisco, sobrevoando a maravilhosa Costa Oeste dos Estados Unidos.  Seu dono, o bilionário britânico Richard Branson, um louco que semana passada deu entrevista sentado na privada de sua mansão numa ilha do Pacífico, não estava à bordo – mas tudo aqui em cima, como de resto em todos os seus negócios, faz lembrar o homem que, por onde passou, revolucionou o mundo empresarial.

            Para começar, Sir Branson, hoje o 236º  homem mais rico do mundo, com quase US$ 7,9 bilhões no bolso, criou uma linha aérea num país onde é vetada aos estrangeiros a propriedade de linhas aéreas. Enfrentou reguladores, bateu de frente com os sindicatos, defendeu-se do lobby das concorrentes, criou uma intrincada estrutura societária, ganhou o apoio do governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, e... pimba: eis que a Virgin America está competindo com a Delta, America, Jet Blue, United e está ganhando. Por quê? A razão é simples: com o capitalismo de cabeça para baixo, não existem mais monstros sagrados. “Qualquer um pode colocar um avião no ar”,  reflete Samantha, a aeromoça da Virgin, “o que faz a diferença é oferecer um serviço melhor, mais bonito e barato”

            Os aviões Airbus 320 da Virgin têm asas pintadas com a bandeira americana (suprema humilhação para os gringos), os pilotos se vestem de preto e as aeromoças, de vermelho, são prá lá de charmosas. As luzes da cabine lembram as luminárias roxas e azuis das discotecas da década de 70, mas causam uma incrível sensação de paz e conforto. O sistema de som é tão bom que dá para entender o inglês do piloto. As poltronas são de couro e há espaço para as pernas e para os cotovelos. As mesinhas de trás das cadeiras são de acrílico, possuem um compartimento só para copos e têm espaço suficiente para um laptop (com tomada e tudo) e o pratinho de tira-gostos.

            Mas o surpreendente mesmo é a TV. Existem canais ao vivo para todos os gostos (pelo menos 25 filmes), ao lado de um detalhado mapa fornecido pela Google (via satélite), trezentas músicas em MP3, e um sistema de compras onde você insere o cartão de crédito (e de débito) e a aeromoça parece adivinhar seu pedido segundos depois. Ali, você pode escolher uma formidável seleção de vinhos, comidas exóticas de vários países, refrigerantes para os abstêmios, snacks, doces, chicles e muita coisa mais. De graça, só água. Por isto uma passagem entre Seattle e San Francisco custa somente cerca de 200 dólares.

            A aviação, como se diz aqui, é o negócio mais sexy já inventado pelo homem, mas não se sabe porque é tão mal administrada, complicada e cheia de coisas sem sentido, congestionando aeroportos, cometendo erros grosseiros, gerando prejuízos em série e torturando a vida daqueles que ainda não tiveram sorte de ir de business ou de primeira classe. Branson, que ficou rico vendendo discos de vinil na década de 70, sabe disto e não se conformou. Invadiu o país na inovação com um serviço inovador, metade marketing metade eficiência, que ainda vai dar muito trabalho para quem está sentado nos louros.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

O BRASIL QUE COMPRAR A AMÉRICA (A COMEÇAR PELOS BRASILEIROS)

Seattle – Sabe-se que desde que Carmem Miranda, a pequena notável, aportou em Hollywood, os brasileiros tentam ganhar a América. Muita gente se deu bem, outros nem tanto, mas todos têm a certeza de que, por pior que seja os Estados Unidos, aqui existem inigualáveis condições para que você trabalhe, ganhe dinheiro, compre uma casa no subúrbio, um carrão na garagem e, o principal, proporcione aos filhos educação.

            A novidade é que esta população de quase 1,2 milhões de habitantes está sendo alvo, agora, da cobiça de empresas brasileiras. Instituições financeiras, como o Banco do Brasil, fizeram pesquisas para conhecer os brazucas. Resultado: criaram um banco só para esta população. A Brex  estudou também onde eles estão aqui e vende Bis, guaraná e outras delícias no chamado mercado étnico. A exemplo de outros países, que estão se aproveitando do dólar baixo e a crise financeira deste império de 14 trilhões de dólares de PIB, o Brasil também está comprando os Estados Unidos, a começar pelos brasileiros.

            A Embaixada aqui, como toda a rede de consulados, já detecta uma elevação da renda deles, bem como uma melhora na auto-estima, mesmo entre os "indocumentados, um eufemismo diplomático para os ilegais (afinal, eles não violaram lei brasileira alguma). Os brazucas não chegam apenas fugindo dos coiotes no deserto do Arizona, mas aportam com visto de entrada, cabeça erguida, para estudar ou trabalhar, e depois vão ficando. Se a imigração pega, não deixam nem recuperar a escova de dentes. Ficam até três meses detidos e depois são expelidos para o Brasil, com passagem paga pelo governo americano.

            Não existem mais pólos migratórios tradicionais, como Governador Valadares na região de Boston. Agora chega gente de Rondônia e Paraná (Ohio) Goiás (Seattle),  e Vale do Paraíba (Utah). A maioria é gente jovem, bem disposta (a quase tudo), sem curso universitário, que enchem as construções, os restaurantes, os salões de beleza, os serviços de acompanhantes ou a velha e tradicional faxina caseira (uma faxina boa mesmo está custando US$ 300,00 por dia). O mais interessante é que, quanto mais ilegal, maior é a vontade de ter filhos. É uma forma dizer “daqui não saio, daqui ninguém me tira”.

            O maior interesse do empresário brasileiro é nas remessas para o Brasil. Outro interesse é no poder empreendedor dos brazucas aqui, que fluentes na língua e adequados à realidade norte-americana, servem de ponte para as empresas brasileiras expandirem negócios. Outro ainda é o mercado com o belo poder aquisitivo que eles representam.  Se ganham pelo menos R$ 4 mil mensais, já estão chegando perto da classe A/B brasileira. Já imaginou isto multiplicado por quase 1,2 milhão de habitantes?

            Por isto é torna-se necessária uma pesquisa sobre os imigrantes brasileiros nos Estados Unidos. Estes dados são preciosos, não só em termos de políticas públicas, através da Embaixada e de outras redes de apoio, mas também para ganhar dinheiro, a saudável prática onde os americanos são imbatíveis.

            Os jornais dizem que muita gente está voltando para o Brasil, desesperançada com a queda do dólar e as condições aqui. Mas sabe-se que os brasileiros ainda chegam aos borbotões, comprando a Direct TV para assistir a Rede Globo, mandando Skypes 24 horas por dia, fazendo churrasco e batucada domingo e, mais do que tudo, sentindo saudades do melhor país do mundo.

 

quarta-feira, 2 de abril de 2008

ENSINANDO A PESCAR

Seattle – Para o bilionário Ewing Marion Kauffman, morto em 1993 depois de fazer fortuna com a empresa que hoje faz parte do conglomerado farmacêutico Aventis, dar dinheiro para os necessitados assemelha-se, na maioria das vezes e infelizmente, a enxugar gelo. Antes de partir para o outro mundo depois de uma vida de sucesso em Kansas City, Missouri, fundou a Kauffman Foundation, que hoje não só patrocina os principais programas da PBS, a TV pública americana, como também distribui milhões de dólares para uma raça diferente que habita o planeta, os empreendedores.

            A Kauffman Fountation, com seus US$ 2 bilhões de dólares (hoje a 30a maior fundação nos Estados Unidos) mergulha profundamente nas origens, na realidade e nas tendências do empreendorismo norte-americano. Na semana passada, lançou o resultado de uma pesquisa que abrangeu cerca de cinco mil empreendedores nos Estados Unidos desde 2004. A conclusão, como era de se esperar, é que não existem negócios sem, parafraseando o ex-primeiro ministro britânico Winston Churchill, “sangue, suor e lágrimas”, mas as recompensas são inigualáveis, para o bem (quando dá certo), ou para o mal (quando dá errado, como na maior parte das vezes).

            Além da maioria dos novos empresários não contar com a ajuda de nenhum empregado no primeiro ano, pelo menos um terço deles chega ao Natal sem faturar absolutamente nada. A metade consegue faturar algum, mas não mais do que US$ 100 mil nos 12 primeiros meses. O interessante, no entanto, é que pouca gente cria um negócio do nada. Cerca de 80% dos entrevistados investiram dinheiro do próprio bolso ou receberam financiamento no primeiro ano. Perto de 10% investiram cerca de US$ 100 mil, enquanto o restante nem isto. Cerca de 30% destes “loucos” começou a aventura com menos de US$ 5 mil.

            O dado que mais chama a atenção na pesquisa é como o empreendorismo ainda é coisa de macho , branco e anglo-saxão. Eles formam 70% da base de novos empreendedores aqui. Os negros são responsáveis por apenas 9% dos novos negócios, os asiáticos 4%, enquanto o restante é formado por índios (native americans), habitantes das ilhas do Pacífico e outros grupos étnicos. Só 6.6% dos novos negócios são iniciados por gente como nós, os latinos.

            Ao contrário da crença comum, de que a maioria dos empreendedores são como espermatozóides que morrem antes de chegar à praia, somente 9% das empresas abarcadas nas pesquisas fecharam as portas antes do primeiro ano. Entre os homens empreendedores a taxa de sucesso é de 92%, enquanto a de mulheres empreendedoras a taxa é de 89%.

            Seja como for, estes cinco mil entrevistados eram gente comum, que vivia atrás de uma mesa de um escritório qualquer, fazendo a riqueza de outro patrão qualquer, esperando um aumento qualquer ou uma aposentadoria qualquer. Levantaram da cadeira, rasparam as economias e se lançaram neste mundo fantástico, onde não existe dia igual ao outro, onde você e seus fantasmas são colocados à prova 24 horas por dia, sete dias por semana. Quando adolescente, disse ao meu pai que queria ser jornalista. E ele, empreendedor de sucesso, respondeu: “Mas por que você não se torna dono de um jornal?”.

*Dirige a The Information Company nos Estados Unidos (pedro@theinformationcompany.net)

segunda-feira, 24 de março de 2008

Carl Icahn, o Robin Hood de Nova York

Se você anda desanimado com a vida, pensando que não nasceu para o mundo dos negócios ou para ficar rico, assista ao bilionário norte-americano Carl Icahn sendo entrevistado por Lesley Stahl no programa 60 Minutes, da CBS, (www.cbsnews.com/stories/2008/03/06/60minutes/main3915473.shtml), agora já disponível na internet.
O judeu nova-iorquino, hoje considerado o 46º homem mais rico do mundo, com US$ 14 bilhões no bolso (e nas bolsas) e um estonteante escritório com vista para o Central Park, em Nova York, está se tornando um Robin Hood dos pequenos acionistas insatisfeitos com as empresas nas quais depositaram suas poupanças.
Icahn vai lá, compra a empresa, ou parte dela, faz o pessoal levantar o traseiro da cadeira, acordar cedo, dormir tarde e, melhor ainda, gerar lucros. Depois, vende e embolsa a diferença. Na venda da BEA para a Oracle, levou US$ 300 milhões. Para os acionistas, US$ 3 bilhões.
“Vou ser direto: estou aqui para ganhar dinheiro – é o que eu gosto de fazer”, confessa ele, sem mudar o semblante, ao 60 Minutes. Obsessivo, viciado em trabalho, cabelo tapando a careca, Icahn tem uma equipe de 40 pessoas que, para não dizer o tempo todo, passam boa parte do dia e da noite pensando em empresas-alvo para seus negócios.
Geralmente são algumas jóias da coroa, como a Motorola, ou o conglomerado Time Warner, ou a Blockbuster, que têm CEOs bonzinhos, que agradam a todo o mundo, e pensam nos negócios de uma forma, digamos, holística, familiar, sustentável e outras ondas do momento, mas que geralmente não conseguem fazer dinheiro. Icahn costuma chamá-los de morons, que significa pessoa idiota, estúpida, cujo retardo mensal equivale a uma criança de 8 a 12 anos.
Icahn aprendeu a ser cruel com o próprio pai, que não via nenhum futuro nele e o desprezava. Por exemplo, sem apoio algum, pagou seus estudos em Princenton (uma das melhores e mais caras universidades do mundo) com seu próprio dinheiro, proveniente em grande parte das rodadas de pôquer no campus.
Numa história pessoal única, só possível nos Estados Unidos, Icahn faz mais pelos acionistas (e são milhões deles aqui) do que muitos Bill Gates da vida já fizeram pelos necessitados. No entanto, muita gente, especialmente os CEOs e milhares de empregados demitidos em suas “faxinas” empresariais, o odeiam.
Na tarde em que deu entrevista para o 60 Minutes, os mercados financeiros estavam, como quase sempre nos últimos meses, derretendo. Icahn perdeu Us$ 150 milhões naquela tarde. No dia seguinte, recuperou tudo e ganhou mais um pouco.
No programa, o bilionário confessou possuir iates e casas que raramente usa. Seu maior divertimento é chacoalhar as empresas e dar uma injeção de ânimo no capitalismo americano.
Carl Icahn é também um dos maiores filantropistas do país, um construtor serial de escolas para os habitantes pobres de Nova York, cidade onde nasceu há 72 anos e fez sua fortuna. O trabalho assistencial é feito por sua segunda e atual mulher, bem mais nova que ele. Por sinal, sua ex-assistente pessoal.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Ser rico, aqui, está ficando constrangedor

Estréia esta semana nos Estados Unidos o segundo – e mais polêmico ainda – documentário de Jamie Johnson, 29 anos, o premiado herdeiro da Johnson & Johnson que está fazendo da sua vida uma luta para denunciar a única coisa que tanto os ricos quanto os pobres gostam: dinheiro.
“The One Percent”, apresentado sob aplausos no TriBeCa Film Festival, é um documentário de 80 minutos sobre os desafios que os Estados Unidos enfrentam ao ter apenas um por cento da sua população controlando a metade da riqueza nacional.
O filme apresenta o comentarista Robert Reich, Bill Gates Sr., Milton Friedman (que acusou Johnson de socialista e abandonou as filmagens) e alguns bilionários, contrabalanceando com cenas que mostram efeito do furacão Katrina sobre a população pobre do Sul dos Estados Unidos.
Em 2003, Jamie, uma espécie de Michael Moore dos ricos, já tinha irritado seus amigos (e a própria família) ao lançar Born Rich, transmitido pela rede HBO. Na apresentação, frisou-se que documentário era “sobre os filhos dos ricos e dirigido por um deles”.
O herdeiro entrevista seus amigos e conhecidos sobre a experiência de viver sem restrições financeiras de nenhuma espécie. Fez tanto sucesso com a iniciativa que ganhou dois prêmios Emmy, incluindo melhor direção para não ficção, e uma aparição no programa de Oprah Winfrey na TV, onde foi entrevistado ao lado da neta do bilionário Warren Buffet, hoje o homem mais rico do mundo.
Depois de lançar “The One Percent”, Jamie sofreu ainda mais ameaças e acusações dos entrevistados e citados, inclusive da J&J e de seu pai James Loring Johnson, que o acusaram de tê-los retratado injustamente. O cineasta, no entanto, descobriu, durante as filmagens, que seu pai tinha ajudado a custear um documentário sobre o apartheid e outras injustiças na África do Sul. À época, a reprimenda da família foi tão forte que seu pai jamais voltou a fazer filmes, preferindo pintar paisagens e ler o dia inteiro.
Numa entrevista ontem na NPR, Jamie Johnson revelou que o dinheiro, ou o excesso dele, sempre foi um tabu nas reuniões familiares. Seu pai costumava dizer: “Porque você está falando sobre dinheiro? Se alguém te perguntar sobre isto, diga que não é verdade, diga que não temos parentesco com a família que fundou a Johnson & Johnson”.
Pessoas ricas, diz Jamie na NPR, geralmente relutam em falar sobre dinheiro, particularmente antigos milionários, aqui chamados Old Money, e WASPs (abreviatura em inglês para branco, anglo saxão e protestante). Mesmo assim, ele diz que este tabu nunca o intimidou.
“A fortuna da minha família está aumentado mais rápido do que nunca – somos parte de um pequeno número de famílias que tem a maioria da riqueza nacional -, mas ter-se tanto na mão de tão poucos não pode ser bom para a América”, diz.
O documentário contrapõe cenas de country clubes, seminários para se evitar a alta taxação do governo ou cursos de como ter acesso a presidentes da República, e cenas de deprivação, como Nova Orleans sendo inundada durante o furacão katrina.
Uma das melhores cenas é Jamie, com um microfone escondido, perseguindo seu pai num country clube e perguntando sobre o que ele achava da riqueza. Ele, perdendo a paciência, responde: “Eu não posso te dar todas as soluções para os problemas do mundo”.

Por que a mulher deve comandar o mundo

Com a vitória da senadora Hillary Clinton nas primárias do Texas e de Ohio, renovam-se as esperanças de que a primeira candidata à Presidente da história dos Estados Unidos dê a volta por cima e vença Barack Obama na indicação do Partido Democrata para a Casa Branca.
Hillary, 60 anos, milionária e esposa do homem mais influente do mundo segundo a revista Time, Bill Clinton, está sofrendo o maior revés de sua vida – talvez pior do que o escândalo da estagiária Monica Lewinsky- ao se deparar, no próprio seio democrata, com o candidato Obama, uma espécie de Moisés moderno liderando as massas cansadas do desastre republicano.
Mas Hillary, embora não bata este martelo – “não acho justo inserir a questão de gênero sexual nesta campanha”- é mulher. E, como tal, é um ser mais completo para gerir o destino da nação mais potente da Terra e, conseqüentemente, do mundo. Não que as mulheres sejam melhores que os homens, explica a jornalista Dee Dee Myers no livro “Por que as Mulheres Deveriam Mandar no Mundo”, mais um best seller que está dando o que falar aqui. “Mas com uma mulher no comando tudo poderia mudar”, alfineta.
Poderia mesmo? “A política, por exemplo, seria mais colegiada. As empresas seriam mais produtivas. As comunidades seriam mais saudáveis”, continua. “Dar mais poder as mulheres faria do mundo um lugar melhor para se viver, não porque as mulheres se igualam os homens, mas justamente porque elas são diferentes”.
Em seu livro, a ex-assessora de imprensa do Bill Clinton, que ficou famosa não só por causa do seu interessante apelido, mas também por se tornar a primeira – e mais nova – porta voz da Casa Branca, numa época em defender o ex-presidente era semelhante a defender um porco chovinista incapaz de controlar seus instintos sexuais, defende como ninguém Hillary na Presidência.
Dee Dee hoje é uma bem sucedida mãe de família que faz questão de dizer que adora os homens (“até meu pai era um homem”, brinca ela) e divide seu tempo como editora contribuinte da revista Vanity Fair e comentarista política das redes NBC e MSNBC. Na entrevista que deu semana passada ao melhor jornalista americano da atualidade, Tim Russert, do programa Meet the Press, Dee Dee diz que “as mulheres tendem a ser melhor comunicadoras, melhores ouvintes e melhores para formar consensos”.
Dee Dee, eu também sou fã das mulheres.

Para Buckley, ser de direita não era pecado

Tem gente que acha que, depois da queda do Muro de Berlim, ser de direita ou de esquerda perdeu relevância no mundo. Mas não para William F. Buckley Jr., o jornalista, empresário, pintor, escritor, tocador de espineta, velejador, ou, na falta de outros adjetivos, padrinho do novo conservadorismo americano. Este polêmico (e bem nascido) renascentista foi encontrado morto em seu escritório semana passada, em Connecticut, vítima de complicações com enfisema e diabetes, aos 82 anos.
Buckley tinha muitos defeitos, menos o medo de ser de direita. À frente da National Review, a revista fundada em 1951 e favorita dos republicanos, especialmente do ex-presidente Ronald Reagan, o jornalista, que assinava WFB ao final dos artigos, tornou-se uma espécie de reserva moral, ideólogo e porta voz dos conservadores, um tipo de gente discreta e abastada que prefere o silêncio dos subúrbios às luzes da mídia.
Ele não só defendia os pilares republicanos, como a responsabilidade fiscal, o respeito à propriedade privada, o império da lei e o respeito às tradições, mas também ultrapassou as barricadas e começou a atacar a esquerda, ou os liberais, como se diz por aqui, segundo ele um bando de indulgentes preguiçosos que sofrem de uma disjunção histórica.
Filho de um barão do petróleo, Buckley revelou outros defeitos ao longo de seus artigos, 55 livros e dezenas de novelas de espionagem, entre eles um incompreensível anti-semitismo e uma recomendação para que os aidéticos fossem tatuados a fim de que fossem reconhecidos e não transmitissem o vírus a pessoas sãs. Escrevia de maneira complicada, cheio de hipérboles e palavras que ninguém conhece, e falava sempre em tom ácido, aristocrático, com algum sotaque britânico – só para irritar a audiência.
Ou não só a audiência: durante um debate transmitido pela TV em 1968, durante a convenção do Partido Democrata, em Chicago, o escritor Gore Vidal o chamou de “pro-crypto nazista”, no que Buckley revidou: “escute, seu veado, pare de me chamar de crypto-nazista ou eu vou te dar uma porrada na cara”. Tempos depois, na Esquire Magazine, ambos trocaram artigos sobre a briga. O de Buckley se chamava “Experimentando Gore Vidal”, enquanto o de Gore Vidal era “Um Encontro Detestável com Willian Buckley Jr.”.
A julgar pela cobertura da imprensa durante sua morte, páginas inteiras no The New York Times e no The Wall Street Journal, bem como reportagens nas grandes redes de TV, Buckley ficou famoso por levar o conservadorismo às massas através dos programas de entrevistas que participou, Firing Line, transmitido pela PBS. Mostrava-se impecavelmente de terno e gravada, com fleuma, erudição, reunidos num conservadorismo inteligente que às vezes caía para o lado do fino humor. Mesmo sem entender muitas das palavras, o publico gostava de ver suas expressões faciais, gestos e perguntas indiscretas aos entrevistados. Chegou a bater o Ibope do 60 Minutes, uma espécie de Fantástico aqui.
Com sua morte, os conservadores, já debilitados pelo desastre do governo George W. Bush, ficam ainda mais desamparados. John Mccain, o herói do Vietnã candidato presidencial dos republicanos, não passa em nenhum teste para testar seu alegado DNA da direta.

Voar é mesmo com os pássaros?

Voar é com os pássaros, era o título do filme de Robert Altman em 1970, mas de uns tempos para cá cada vez mais seres humanos infestam os céus. Segundo a IATA, a associação que monitora e regula o setor, cerca de 4,7 bilhões de passageiros deverão voar até o final de 2008, formando uma indústria que gera cerca de meio trilhão de dólares em faturamento e, melhor ainda, 31,9 milhões de empregos.
Além do mau tempo, do congestionamento dos aeroportos, dos preços dos combustíveis (que engolem cerca de US$ 150 bilhões das empresas aéreas) e das rígidas imposições da segurança, apenas um porém ainda amarra o desenvolvimento desta indústria: governo demais, regulamentos demais e outras mazelas oriundas da época da Segunda Grande Guerra. Obviamente, a título de proteger as chamadas empresas nacionais.
Por isto que a luta agora é por uma injeção de capitalismo no setor, o que geraria mais 24 milhões de empregos e um aumento do Produto Interno Bruto dos países em cerca de US$ 490 bilhões, algo semelhante a tudo que o Brazil produz. Conclusão: há uma intensa (e benéfica) relação entre a liberalização do tráfego aéreo e os benefícios para a economia, como defende o estudo da consultoria Intervistas, um catatau de dezenas de páginas patrocinado pela Boeing, a GE e outras organizações que formam a liderança do setor e que já está disponível na internet (
http://www.iata.org/whatwedo/economics/liberalization-study.htm).
Uma vez liberado, o tráfego tente a aumentar em até 100% em alguns países, promovendo uma reação em cadeia que beneficia toda a população, e não só um bando de executivos cujas empresas pagam pelo transporte aéreo, como era de se supor.
Mesmo à custa do nosso conforto (e dos nossos joelhos), atrasos e cancelamentos muitas vezes sem nenhuma explicação, as 2.092 companhias aéreas já fizeram seu dever de casa: aumentaram a taxa média de ocupação dos assentos para 76%, estão utilizando aeronaves mais eficientes, emitindo bilhetes eletrônicos e cobrando até por café e água lá em cima, o que vem gerando uma economia de US$ 6 bilhões anuais, segundo o que chefão da IATA, Giovanni Bisignani, disse através da PrNewswire.
Mesmo assim, a indústria continua vulnerável, disse ele. “Estamos obtendo um lucro de US$ 5 bilhões este ano, mas ainda carregamos mais de US$ 150 bilhões em débitos, o que significa mais vulnerabilidade do que em 2001, depois do ataque às Torres Gêmeas”. Segundo ele, a aviação comercial já saiu da UTI, mas ainda está doente.
Agora que a economia americana está dando uma freada, Bisgnani está mais preocupado, já que o bem-estar da aviação comercial é apenas um reflexo das economias ao redor do mundo. Daí a nova onda de fusão entre as companhias aéreas, como a provável união entre a Delta (quem já passou pelo aeroporto de Atlanta, na Geórgia, o maior do mundo, tem uma idéia do tamanho desta empresa) e a Northwest.
O setor aeroespacial é o mais atrativo que existe, ou como se diz aqui, é o mais “sexy”, mas esta indústria, que por décadas ficou estacionada em monopólios protegidos por governos, ainda não se acostumou aos ares da livre concorrência. Já não é sem tempo.

Um homem, duas, três, ou mais esposas

Espremidos entre a crise econômica e as eleições presidenciais, os americanos estão vidrados num documentário de quatro horas produzido pela PBS, a TV pública, sobre os Mórmons. Suave, elegante, imparcial e extremamente bem feito, o programa conta a história da religião fundada pelo profeta Joseph Smith Jr. em 1830 numa fazenda de Nova York, mostra os trabalho dos missionários (aqueles rapazes de gravata em camisas de mangas curtas que vagam pelas cidades), dá voz aos dissidentes, lembra seu poderio político (como, por exemplo, o ex-candidato presidencial republicano Mitt Romney), mas capta a atenção do público pela poligamia, justamente o assunto pelo qual eles não querem ser conhecidos – e nem lembrados.
Os adeptos da Igreja dos Santos dos Últimos Dias, a religião que mais cresce no mundo, hoje com 13 milhões de seguidores, abdicaram da poligamia – ter duas, três, ou sabe-se lá quantas esposas – em troca da liberdade de credo já em 1890, quase 60 anos depois da sua fundação. Quando a praticaram, seguindo os preceitos de Joseph Smith Jr., foram mortos, humilhados, perseguidos, roubados, presos e tiveram que fazer uma façanha de proporções literalmente bíblicas: atravessar em carroças, enfrentando a neve, a fome e os índios, os milhares de quilômetros que separam Illinois, à beira dos Grandes Lagos, até a desértica Utah, no Oeste americano, onde fundaram Salt Lake City. Desde lá, seus dirigentes engolfam-se numa monótona panfletagem de relações públicas para separar o joio do trigo, no caso, a poligamia do mormonismo, sem sucesso.
No documentário, a poligamia (ainda praticada por uma minoria de mórmons fundamentalistas, não oficialmente reconhecida como mórmons), é atribuída, entre outras explicações, ao próprio Joseph Smith Jr. (32 esposas), que a criou para satisfazer seus próprios instintos sexuais, inclusive em relação às esposas dos irmãos de fé.
Brigham Young (52 esposas), seguidor de Joseph e tido como o gênio estrategista que liderou a travessia até Utah, era contra no início, mas, mesmo a contragosto, acabou adequando-se à norma.
Mas o que surpreende é a versão das historiadoras convidadas para debulhar o sentido da poligamia no programa. Segundo elas, o fato de um homem ter várias mulheres servia também como diferenciação entre os mórmons e não mórmons – especialmente os protestantes. Na medida de suas possibilidades financeiras, os mórmons, que fazem da família (e da obediência) a mola mestra do seu culto, abrigaram em suas casas mulheres que, em outros cultos ou fora deles, teriam se perdido na prostituição, no abandono ou simplesmente na solidão depois de verem seus maridos morrerem, principalmente em guerras.
Seja para satisfazer Joseph Smith Jr., seja para seguir os exemplos do Velho Testamento, “onde Abraão e outros personagens tiveram muitas esposas por mandamentos de Deus”, a poligamia está tão associada ao mormonismo como o radicalismo ao islamismo. Ela incendeia o imaginário coletivo, faz repensar os conceitos civilizatórios, a instituição do casamento e a relação entre os homens e as mulheres. Por mais que se digam coisas boas a respeito dos mórmons – e existem milhares delas, como em qualquer religião – as imagens que a mídia mostra – geralmente um homem mais velho, de chapéu e barbudo, ao lado de diferentes mulheres, de diferentes idades, carregando bebes em profusão– formam a percepção retida em nossas memórias.

Só o capitalismo acaba com a pobreza?

Para quem, como boa parte dos norte-americanos, acredita que o capitalismo é a solução para tudo, mas tudo mesmo, um livro está provocando no berço do livre mercado a ira da esquerda e até dos próprios capitalistas. A começar pelo mais ilustre deles, Bill Gates, um dos maiores filantropos de todos os tempos, que está distribuindo sua fortuna de mão em mão em remotas aldeias africanas.
Willian R. Easterly, um ex-funcionário do Banco Mundial, defende que os 2,7 trilhões de dólares destinados à caridade pelo mundo ocidental nos últimos cinqüenta anos tiveram um efeito semelhante a, digamos, enxugar gelo. O ato de tirar de quem tem e doar a quem não tem “é fantástico, mas os pobres não são pobres por falta de caridade”, diz ele em seu livro “Why the West’s Efforts to Aid the Rest Have Done So Much Ill and So Little Good”
A pobreza existe por “falta de capitalismo”, defende ele. Será? Caso recebessem injeções de livre mercado, não existiriam, segundo o autor, mais de três bilhões de seres humanos que vivem com menos de dois dólares por dia. Um bilhão deles sem ter o suficiente para comer.
Easterly, numa visão completamente oposta à de Gates e à do vocalista da banda U2, Bono, (que faturou mais de 22 milhões de dólares com sua linha de produtos “Red”, que destina porcentagem dos ganhos para programas sociais) está reinventando o preceito bíblico “ao invés de dar o peixe, ensine o homem a pescar”.
Pelas propostas de seu livro, todo o Terceiro Setor – incluindo aí Banco Mundial e outros organismos que tentam mitigar as injustiças globais – iria para o espaço diante dos irrefutáveis argumentos da própria história. Para começar, a explosão do capitalismo desde 1950 fez com que a renda média anual das pessoas subisse de US$ 2 mil para US$ 7 mil. “Ao contrário do senso comum, países pobres cresceram à mesma taxa que os ricos – e este crescimento salvou bilhões de habitantes da miséria”.
Para Easterly, o capitalismo adapta-se como água morro abaixo, descobrindo seus próprios – e imponderáveis – caminhos. Quem diria que a onipresente China se tornaria a fábrica do mundo, competindo pela supremacia com os Estados Unidos, depois de lançar seus habitantes às garras do capitalismo? Pois é, lá quase meio bilhão de chineses saíram da pobreza para a classe média, coisa que deve fazer Karl Marx revirar-se no túmulo.
Num artigo recente no conservador The Wall Street Journal, ele aponta outros fatos que, à revelia de qualquer previsão dos economistas ou planejadores de plantão, também surpreenderam: o Egito é responsável hoje por 94% das importações italianas de cerâmica. A Índia, embora semi-alfabetizada e adormecida por milênios, é hoje a grande fonte mundial de terceirização de tecnologia. O Quênia domina o mercado de flores na Europa, enquanto Lesoto tornou-se o maior exportador de têxteis para os Estados Unidos. Sem falar nas Filipinas, responsável por 72% do mercado mundial de circuitos eletrônicos.
E o Brasil?

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Rudy Giuliani, a próxima vítima

Amanhã, quando forem abertas as urnas das eleições primárias da Flórida - um estado que até hoje está com a barra suja por ter dado a vitória a George W. Bush há sete anos - o ex-prefeito de Nova York Rudolph William Louis "Rudy" Giuliani estará com o coração na mão.
O ex-manda-chuva da maior cidade americana, que montou a estratégia para tornar-se o candidato republicano em 2008 em cima das cinzas do ataque terrorista de 11 de setembro, jogou boa parte do dinheiro de campanha, em torno de 47 milhões de dólares, no estado favorito dos brasileiros, onde floresce Miami, a capital da América Latina.
Por que Giuliani, um ex-promotor público sobrevivente a um câncer de próstata e especializado em prender mafiosos na fria Nova York, deixou de investir em Iowa, New Hampshire ou na Carolina do Sul para ganhar os votos republicanos num estado tropical, sulista e cheio de imigrantes ilegais?
Por uma simples razão: a Flórida é onde boa parte dos endinheirados nova-iorquinos vai se aposentar. Aos 64 anos, e sempre martelando a necessidade de ter um líder experiente para enfrentar crises, o que soa como mel no mamão para os idosos, Giuliani acredita que irá fazer sucesso lá.
Ledo engano. As últimas pesquisas lhe dão um humilde terceiro lugar nas preferências dos republicanos na Flórida, atrás de John Mccain, o senador por Arizona torturado durante cinco anos no Vietnã, e Mitt Romney, o empresário mórmon que salvou as Olimpíadas de Salt Lake City do fracasso e tem 250 milhões de dólares no bolso.
Saltar algumas primárias é uma prática comum entre os candidatos presidenciais norte-americanos, mas Giuliani comete três erros que, provavelmente, e se nenhum fato novo acontecer (e como acontece...) vão enterrá-lo politicamente.
Tirar proveito da desgraça. Giuliani tornou-se o homem do ano de 2001 depois que, no apagar das luzes como prefeito de Nova York, liderou o atendimento de milhares de vítimas do ataque terrorista às Torres Gêmeas. Mas agora, depois de quase sete anos do ocorrido, o que muitos norte-americanos querem é esquecer as imagens mais tristes que o país registrou em dois séculos de existência. Ficar lembrando os aviões espatifando-se nos arranha céus não é muito atrativo para o eleitorado.
Nova York, afinal, não é os Estados Unidos. A cidade de 19 milhões de habitantes, considerada a capital do mundo, não reflete nem de longe a realidade norte-americana. É como tomar o pulso do eleitorado brasileiro pelos cariocas. Tabus como homossexualidade, divórcio, aborto e drogas são vistos como uma certa complacência pelos nova-iorquinos. Basta dar uma volta em Times Square.
Republicanos são conservadores. Não adianta Giuliani ser republicano de carteirinha quando casou três vezes, foi morar com um casal gay quando se divorciou a última vez e é tão liberal em relação ao aborto como uma feminista democrata. A onda conservadora nos Estados Unidos, agora que o país está se derretendo economicamente, continua firme e forte.
Como se não bastasse, ainda existe um fantasma que povoa os sonhos de Giuliani. Vira e mexe, seu sucessor como prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, é citado para concorrer à presidência dos Estados Unidos como candidato independente. A política, seja em qualquer lugar, é uma atividade traiçoeira, mas está sendo impiedosa com Rudy
.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Homem não chora, mulher pode?

Depois de levar a primeira surra de sua vida, chegando em terceiro lugar no caucus de Iowa, a senadora Hillary Rodham Clinton, 60 anos, reuniu outras madames num café em New Hampshire e, entre cappuccinos e croissants, assustou a audiência quando, com voz embargada, quase chorou. De mulher para mulher, e de frente para as câmeras, desabou diante do cansaço, da pressão e da solidão da agitada campanha presidencial norte-americana.
Não deu outra. A esposa de Bill Clinton, favorita nacionalmente, mas ainda rejeitada por metade dos americanos, mostrou seu lado mulher (coisa que se recusava a fazer na campanha) e, assim, reverteu o quadro, qanhando de virada as primárias do Estado, à frente dos outros democratas Barack Obama e John Edwards. O choro ganhou um editorial no The New York Times assinado pela feminista Gloria Steinem.
Até hoje, depois de mais de dois séculos de independência, nenhuma mulher chegou perto de ocupar o Salão Oval da Casa Branca. A cadeira de presidente, como todos sabem, é quente: dá dores de cabeça, noites mal dormidas, pressões de todos os lados e muitas rugas. Repare nas fotos dos presidentes no decorrer dos mandatos. O tempo não faz bem a eles.
Hillary, se chegar lá, vai ter de provar que uma mulher sabe governar os Estados Unidos, pois, como diz Steinem, aqui o racismo de gênero sexual é maior do que o racial. Ou seja, terá de ser um boa presidente, “apesar de ser mulher”.
Hillary (ou qualquer outro candidato) vai encontrar um governo decadente, as finanças em frangalhos, uma guerra impopular e um partido Democrata dividido, embora (ainda) tenha maioria no Congresso. Vai ter que capturar Osama Bin Laden, fazer o papel de xerife do mundo, viver sob proteção do serviço secreto 24 horas por dia e, mesmo assim, estar bem vestida, maquiada e com o cabelo armado.
Ter receio de uma presidente mulher soa estranho num país onde as mulheres simplesmente mandam. Independentes, já são maioria da força de trabalho, ganham mais do que os homens, invadem as universidades e têm vida econômica própria, sem ter que depender de qualquer outra figura masculina.
Mas o fato é que os Estados Unidos (e a maioria dos países) nunca tiveram uma presidente mulher. Ao ver Hillary à beira de um ataque de nervos na TV, os americanos temeram que, ante outros aborrecimentos (e como presidentes os têm), qual seria sua reação? Reagir? Acomodar-se? Rir? Chorar? Afinal, diz Freud, o que se passa na cabeça de uma mulher?
Hillary ainda tem 48 Estados (onde serão realizadas primárias) para testar suas emoções. Ela tem o maior caixa de campanha (quase US$ 100 milhões), uma estrutura espetacularmente profissional, o apoio do chamado establishment, a força dos eleitores de Nova York, onde já é senadora por dois mandatos, e o ombro do melhor e maior cabo eleitoral que se pode ter, o ex-presidente Bill Clinton, popular e querido não só nos Estados Unidos como em praticamente em todo o mundo.
Hillary é inteligente, rica, bem sucedida como advogada, experiente na Casa Branca, onde passou oito anos ao lado do marido, um potencial de abrir uma nova frente para as mulheres a partir de seu exemplo e, como escreveu Gloria Steinem, ainda leva uma vantagem: não precisará provar sua masculinidade. E poderá, se quiser, chorar.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

O incrível "Dr. Não", sempre candidato

O fenômeno do Dr. Não, como é mais conhecido Ronald Ernest "Ron" Paul, um médico republicano do Texas, está desafiando os jornalistas, os assessores políticos e, principalmente, seus concorrentes à Presidência dos Estados Unidos. Cara de bonachão, o cordato velhinho (parece bem mais idoso que seus 72 anos) é um tremendo sucesso na Internet, graças a um bando de infomaníacos que, 24 horas por dia, sete dias por semana, faz parte do chamado marketing virtual: infiltram-se em blogs, enviam vídeos para o YouTube e disseminam spans pela rede. Resultado: semana passada, e pela segunda vez nesta campanha, Paul arrecadou quase 10 milhões de dólares em um só dia. Um recorde em toda a história política norte-americana.
A exemplo das cabeças dos juízes, ninguém sabe ao certo o que sai da mente do obstetra que participou da Guerra do Vietnã. Libertário, segue o mantra “você é o dono do seu próprio nariz”, mas, inexplicavelmente, é contra o aborto. Também é contra qualquer tipo de guerra, controle de armas e o aumento de impostos. Aliás, quer acabar com o imposto de renda e, de quebra, com o próprio Banco Central norte-americano, pois acha que os países, assim como as pessoas, devem viver dentro das suas possibilidades, e não “rodar a maquininha” de fazer dinheiro ou endividar-se no cartão de crédito, como boa parte da população faz. Não intervencionista, quer que os soldados americanos voltem para casa e que os Estados Unidos utilizem forças especiais, como a CIA, para combater seus inimigos. Ou seja, um samba do crioulo doido.
O incrível, no entanto, é que Ron Paul aparece em primeiro lugar na preferência do eleitorado em várias pesquisas de araque, principalmente aquelas realizadas entre os internautas. Lidera, por exemplo, o ranking de palavras-chave nos mecanismos de busca da Internet, liderança que pode ser espontânea, como Paris Hilton ou George Bush, ou forçada, que geralmente é resultado de manipulações técnicas de gente especializada no assunto. Como disse a rede ABC, “os simpatizantes de Ron Paul tem um grande habilidade na arte do marketing viral, usando especialistas e postagens de blogs para criar uma percepção de momento de sua candidatura. O USAToday, o jornal de maior circulação dos Estados Unidos, concluiu: “Ele é naturalmente on line, porque, entre outras razoes, libertários amam da rede mundial de computadores”. O problema, no entanto, é que nas pesquisas reais, feitas por gente profissional com parâmetros profissionais, Ron Paul aparece nos últimos lugares, perdendo feio para gente como Rudy Giuliani, o ex-prefeito de Nova York, o ex-governador de Massachusetts, Mitt Romney, e até para o ator grandalhão de voz cavernosa Fred Thompson.
Ron Paul já está em seu terceiro mandato no Congresso norte-americano e, vez por outra, arrisca-se com uma candidatura à Presidência. Já poderia ter se aposentado na companhia dos cinco filhos, 18 netos e um bisneto. No entanto, a paixão política o leva a candidatar-se mais uma vez, mostrar idéias estranhas ao eleitorado (coisas que, na Presidência, jamais faria) e, principalmente, fazer sucesso entre os eleitores virtuais.