segunda-feira, 9 de março de 2015

TRANQUILO E INFALÍVEL




A lenda de Bruce Lee continua viva - e faturando como nunca.


Por Pedro Augusto Leite Costa, de Seattle (Originalmente publicado na Veja.com)

Seattle -  42 anos depois da sua morte, vítima de aneurisma celebral, o lutador-filósoro--escritor e ator Bruce Lee ainda fatura quase 7 milhões de dólares anuais em direitos autorais: está entre as 20 falecidas celebridades que mais faturam no mundo, perdendo para ídolos como Michael Jackson, Elvis Presley e Marilyn Monroe.  Tornou-se tema de game na Apple, motivo de culto dos cinéfilos em mais de 17 filmes e documentários, atração turística em Seattle (seu túmulo é visitado por mais de 10 mil turistas, todos os anos) e, agora, o centro de uma magnífica exposição que começou a itinerância no Wing Luke Museu, na parte asiática da cidade, e que vai visitar diversos países do mundo, inclusive o Brasil.
Filho de cantor de ópera de antiga colônia britânica de Hong Kong, Lee - nascido Jun-fan - nasceu em San Francisco mas mudou-se para Seattle, onde teve dois filhos, um dos quais - Brandon - morto por um tiro acidental dentro de um estúdio de gravação. Sua mulher, Linda, e a filha, Shannon vivem aqui e trabalham na Fundação que leva o seu nome. Bruce, que nos filmes costumava lutar contra 30 oponentes de uma só vez, foi o responsável por trazer as artes marciais para o Ocidente, quebrando preconceitos contra os asiáticos perante a sociedade norte-americana e, mais ainda, tornando-se um dos maiores ícones da cultura mundial na década de 60.
Nos filmes, Lee é apresentando como vingador, purista, ao estilo do cowboy que volta para destruir o mal e, melhor ainda, conquistar a garota dos seus sonhos. Como muita gente, ele tornou-se um dos maiores lutadores de artes marciais para sobreviver à luta de gangs em Hong Kong, onde passou boa parte da sua infância e adolescência. Com o tempo, reuniu 25 estilos e criou sua própria escola, Jee Kune Do. Passou então, a ensinar artes marciais para quem quisesse - homens, mulheres e crianças, tornando-se um dos maiores divulgadores da arte, até iniciar seu próprio negócio através de franchising.

Franzino, pouco mais de um metro e meio e 64 quilos, Lee também é o resultado de intensa disciplina e aplicação aos treinamentos. Chegava fazer mais de mil flexões todas as manhãs, algumas com apenas o polegar como sustentáculo.  Foi também o inventor one inch punch, o soco com o polegar da mão direita que abatia o inimigo, e também com o qual se apoiava também para fazer flexões.

NO MEIO DO DESERTO, UM OASIS VIRTUAL




Bem-vindos a Ephrata - população 7.663 habitantes,  uma cidade no meio do deserto norte-americano que navega na internet mais rápida do mundo a 44 dólares mensais.

Por Pedro Augusto Leite Costa, de Ephrata (originalmente publicado no Valor Econômico)
A última vez, e talvez a única, que o mundo percebeu que Ephrata existia foi quando um aposentado da Boeing chamado Jim Mccullar ganhou o segundo maior prêmio da loteria nos dos Estados Unidos: 380 milhões de dólares, em 2011, depois de comprar um tíquete no Safeway, na Basin Street, a única rua movimentada aqui. De lá para cá, esta modorrenta cidade, encravada no deserto que vai da Cordilheira do Pacífico até o Estado de Idaho, basicamente proporciona duas alegrias aos visitantes: quando eles chegam e quando eles saem.
Mas agora Ephrata, cujo nome é sinônimo de oásis, está virando celebridade. Segundo uma pesquisa da Gizmodo, os habitantes de Ephrata tem a internet mais rápida do mundo, 101,6 mbps, enquanto o resto dos Estados Unidos se conforma com 18.2 mbps, em média. Orgulhosa do seu clima seco e frio, além da proximidade do rio Columbia, que proporciona energia barata, qualidades essenciais para refrigeração de servidores, a cidade está abrigando datacenters gigantes (mais de nove), entre eles da Microsoft, Yahoo e Intuit e, acima, de tudo, a alegria da internet veloz para seus felizardos moradores e empresários.
É um mundo diferente, onde a vida passa devagar nas poucas ruas da cidade, mas incrivelmente rápida dentro das casas e escritórios. Os filmes são baixados instantaneamente no Netflix, os e-mails chegam e saem em centésimos de segundos, games são jogados sem interrupções e os canais a cabo deixam de fazer sentido. Segundo a pesquisa, Ephrata chega a ser mais rápida que a celebrada internet do Google, o Google Fiber, já em operação em Kansas City, Missouri, e outras cidades norte-americanas.  “Não era nossa intenção de termos a internet mais rápida dos Estados Unidos”, diz Chuck Allen, do Grant County Public Utilitity District, uma espécie de Eletropaulo privada da região, “apenas oferecer honestamente uma internet rápida para moradores e pequenas empresas daqui”.
Ephrata, assim, está fazendo história num país onde os cidadãos são vítimas da quase monopolização de provedores de internet. Basicamente, apenas os gigantes Comcast e Time Warner Cable provêm conexões decentes da chamada broadband, mas é um serviço caro e recordista de reclamações, além de sofrer críticas constantes do presidente Barack Obama por não levar a rede aos grotões norte-americanos.
A situação faz com que o país fique atrás de lugares com Singapura, Hong Kong e Coreia do Sul, que por algum tempo detiveram o título de internet mais rápida do mundo. Em lugares remotos no Arizona, onde há grande população indígena, a velocidade média da internet chega a ridículos 1,5 mbps, ainda pior do que o Brasil (velocidade média de 2,9 mbps).
Mas Ephrata, que tem seis escolas, uma estação de trem e um matutino, o Grant County Journal, é um oásis no mundo virtual. Aproveitando uma lei estadual que em 2.000 liberava os distribuidores de eletricidade a distribuírem também conexão rápida, a Eletropaulo do condado começou a construir por conta própria uma infra-estrutura ao custo de US$ 147 milhões.
O projeto, que exigiu dos usuários de eletricidade uma suplementação única de 100 dólares na conta mensal, gerou brigas e ranger de dentes, mas quando os internautas da cidade descobriram as maravilhas da internet de fibra ótica, esqueceram-se da antiga conexão discada, DSL, uma modalidade com velocidade de tartaruga que não deixará saudade entre os orgulhosos habitantes daqui.
O provedor de internet turbinada do condado, a iFiber, tem apenas 12 funcionários e oferece um serviço melhor do que gigantes como AT&T e Century Link e mais 14 outras que também disputam o mesmo mercado de conexões, mas com velocidade inferior. O mais antigo funcionário da IFiber, Alan Troupe, que já atravessou os 60 anos, é uma espécie de ligação entre Ephrata e o mundo. Além de ser o embaixador do Internet Service Provider (ISP), como eles chamam aqui, Troupe é também o porta voz do que acontece na cidade, coisa que, digamos, não absorve muito o seu tempo.
INTERNET É TUDO - Ainda não se avaliou cientificamente o efeito de uma internet super rápida em Ephrata (que custa 44 dólares por mês), mas basta dar uma chegada na cidade para constatar como a conexão turbinada trouxe melhor educação, melhores empregos e melhor renda.  Além da explosão de datacenters,  a região da cidade, o condado de Grant, foi também escolhida pela SGL (que faz peças de fibra de carbono para a BMW), a Red Silicon e muitas outras empresas cansadas de pagar pela ineficiência das empresas de internet.
Tal desenvolvimento, que espera-se não tire a paz do município, levou os empresários locais a investir no Porto (seco) de Ephrata, uma espécie de parque industrial junto ao campo de aviação da cidade, uma imensa área que foi utilizada pela Força Aérea como centro de treinamento durante a Segunda Guerra.  Guardadas as proporções, é o mesmo conceito do aerotrópolis, o aeroporto industrial para exportação concebido em países como Singapura e os Emirados Árabes, e agora em construção em Belo Horizonte.
A cidade, que agora está se acostumando a ser celebridade,  tornou-se também o pivô de uma antiga discussão entre democratas e republicanos nos Estados Unidos: deveria a internet ser provida e administrada pelas corporações, ou a rede mundial deveria ser uma utilidade pública, como água, esgoto e eletricidade, a exemplo do que a candidata Marta Suplicy apostou em sua reeleição para prefeita de São Paulo?
Para o vereador Kevin Danby, que também é do grupo de pressão Fiberactive, que tenta mostrar e defender os benefícios da internet rápida, a razão do sucesso de Ephrata é a união da comunidade em torno do projeto e, melhor ainda, a não interferência do governo.  “Aqui não existe almoço grátis, todos se uniram em torno do projeto e pagam pela conexão - a última coisa que precisamos aqui é o governo cuidando da internet”,  disse ele ao Valor.
O ex-professor Wes Crago, o administrador da cidade (sim, o prefeito eleito "terceirizou" a prefeitura),  diz já estar se habituando a ser o centro do noticiário. O povo de Ephrata, diz ele, já enfrentou com sucesso outras experiências semelhantes para resolver seus próprios problemas, como por exemplo da construção da Coulee Dam nos anos 30, a maior barragem americana, no rio Columbia (uma espécie de São Francisco dos Estados Unidos) que hoje fornece eletricidade e água para irrigação de mais de 2.700 quilômetros.
Do ponto de vista do governo, comenta Wes (diminutivo de Wesley), "tivemos grande ganhos de produtividade. Trabalhamos mais rápido, transferindo arquivos gigantescos e nos comunicando instantaneamente com vários departamentos, dentro dos nossos próprios servidores. O melhor foi a redução de funcionários públicos aqui na Prefeitura, já que nos tornamos mais eficientes. No futuro, certamente não seremos um novo Vale do Silício, mas estamos plantando as bases para que possamos atrair mais negócios"
Continua Wes: Parece que o mundo está caminhando hoje para a interconexão, e as cidades que não se ajustarem à esta nova realidade ficarão para trás. É mesmo fenômeno que a região viu nos anos 30 com a distribuição de eletricidade. "Uma das coisas que mais me chama a atenção é que a internet rápida proporciona a criação de negócios que jamais teríamos aqui, como a produção de noticiário local distribuído pela internet, diz ele.
Foi o que fez Kelly Ryan, que junto 64 pequenos investidores locais criou a Ifiber. Para aproveitar a capacidade instalada ("um dia vamos chegar a milhares de mbps", promete), Ryan criou nada menos do que um canal de televisão, o Channel 1, que já tem 230 mil telespectadores na TV e na Internet. "Falamos basicamente do que acontece aqui: pequenos crimes, esportes - minha paixão - e previsão do tempo", explica.
Ryan, que além de presidente e CEO é uma espécie de pau para toda obra na Ifiber, quer ficar longe de governo e, principalmente, dos reguladores. Seu inimigo número 1 é a Comcast, a maior empresa de broadband dos Estados Unidos, que utiliza as antigos fios de cobre da telefonia para levar internet e, ainda,  faz intenso lobby do Congresso para evitar que empresas com a Ifiber - que utilizam fibra ótica - proliferarem e, pela excelência da transmissão, tornem-se concorrentes.
Ephrata é o melhor exemplo do que a Federal Communications Agency, a agência reguladora dos Estados Unidos, quer proporcionar nos Estados Unidos: uma internet semelhante à rede elétrica, ou à rede de água e esgotos, que chega igualmente a todos os cidadãos, independentemente da utilização final. Foi o que declarou esta semana seu presidente, Tom Wheeler, que tem uma visão semelhante à de Casa Branca de Barak Obama.
INTERNET TURBINADA É TUDO DE BOM
A chegada da super internet à Ephrata High School, no início do milênio, transformou esta escola pública de 743 alunos em uma das melhores escolas públicas dos Estados Unidos. Este colégio de segundo grau de cidade já era famoso no futebol norte-americano, através Tigers, mas a conexão rápida mudou a vida de administradores, professores e principalmente dos alunos, que já chegam a utilizar 20% do tempo em frente ao computador.
Bem administrada, a escola acaba de comprar 457 chromebooks, o laptop de baixo custo (e sem disco rígido) para tornar o trabalho mais rápido. O fenômeno proporcionou aulas mais eficientes, deveres de casa mais rápidos e, principalmente, a experiência da colaboração. Através de aplicativos de trabalho conjunto, como o Google Docs, os alunos dividem as tarefas, fazem redações com dezenas de sugestões e, acima de tudo, aprendem a colaborar, diz a professora Sheila Massey, Teacher-Librarian/Media Specialist.
O trabalho mais difícil, segundo o diretor da escola, Daniel Martell, é fazer os alunos ficarem cientes do perigo dos cyber attacks e dos predadores e, mais ainda, aprenderem que a tecnologia foi criada para colaborar, e não apenas para proveito próprio, ‘assim como de resto todas as atividades da sociedade."
O que a internet rápida proporciona, denota o professor de Tecnologia Dane Lewman, é a agilidade de fazer as tarefas instantaneamente e ainda poder fazer a avaliação dos estudantes da mesma forma. Lewman, que deixou de ser diretor de uma startup para lecionar, diz que a Ephrata Hight School funciona na velocidade da iniciativa privada: "O caminho entre uma idéia e o resultado desta idéia, tanto na parte da aplicativos como na área de games, é cada vez mais curto", explica.
“O mais engraçado é que os estudantes não notam que a internet é fantástica, diz ele. Eles já nasceram com ela”



TÃO ESSENCIAL QUANTO O AR QUE RESPIRAMOS
A experiência de Ephrata mostra que a internet não chega a ser tão essencial quanto o oxigênio, mas está quase lá. Além do crescimento econômico e da geração de empregos, conexões rápidas permitem, por exemplo, que os sistemas de saúde transmitam instantaneamente imagens complexas, liguem pacientes e médicos via skype e, assim, remova barreiras geográficas para onde a medicina pode chegar.
Mas é na educação, o maior nivelador de oportunidades para todos que já existiu, é que a internet rápida multiplica infinitamente as possibilidades de aprendizado da população do século 21, desde o jardim de infância à pós graduação. É uma espécie de socialismo eletrônico. Hoje, milhões de estudantes norte-americanos em diferentes níveis estudam boa parte do tempo longe do campus das universidades. Unir professores e alunos em experiências cada vez mais virtuais exigirá a banda larga que cresça exponencialmente.
As pessoas hoje vivem cada vez mais. A internet também é fundamental para os aposentados terem uma vida independente, estando sempre em contato com médicos e familiares. Eliminando a necessidade de deslocamentos, a banda larga também tem um impacto tremendo no gasto de energia e na proteção do meio ambiente, pois as pessoas deixam de utilizar carros ou transportes públicos para trabalhar.
Nos Estados Unidos, a grande sensação da banda larga é o governo eletrônico e a participação cívica. Prefeituras de Nova York e San Francisco, por exemplo, estão fazendo sucesso com os serviços 311, especialmente via web, de contato direto com a população. Haverá um dia em que a democracia vai se tornar totalmente eletrônica, extinguindo-se o voto tradicional como conhecemos hoje e indo em direção a um “like” do Facebook.

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quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

CELEBRATING TOM JOBIM IN SEATTLE


FOR IMMEDIATE RELEASE

Pedro A. L. Costa
# 253 218 9542
pedroalcosta@live.com            
                   


CELEBRATING TOM JOBIM IN SEATTLE


Life and Music of the Bossa Nova's creator will be shown in Seattle
this January, 23rd


SEATTLE, January 7th, 2015 Honorary Brazilian Consulate in Seattle, Giordano Productions and Morningsong Productions have reserved the main stage at The Triple Door, in downtown Seattle, this January 23rd at 7:30pm for the kickoff of this year’s Brazilian Nights Pacific Northwest series with a celebration of the life and music of Antonio Carlos Jobim. Seattle’s adopted Brazilian Jazz Piano great Jovino Santos Neto has put together an evening dedicated to Brazil’s best loved composer. Joining him will be vocalist Maucha Adnet, who performed with Jobim for 10 years, and legendary Brazilian guitarist Romero Lubambo, best known in the U.S. for his work with Kenny Barron and Diana Krall.


Brazilian Nights PNW is dedicated to introducing Seattle to Brazilian artists who represent the best traditions of a culture drenched in rhythm and melody. Local Seattle musicians rooted in those same traditions will team up for evenings of music guaranteed to delight and astonish. “We want to showcase artists who are pushing Brazilian music forward while staying true to their roots, and who may not get a lot of airplay outside of Brazil. We want to see what beautiful things evolve from the cultural exchange this makes possible.” said co-producer Adriana Giordano
Brazilian Nights PNW kicked off a successful first year last August 8th, with the pyrotechnic Alessandro Penezzi Trio. The audience that night had perhaps a once-in-a-lifetime chance to see three passionate players and composers working together at the height of their powers. Local musicians had a chance to learn one-on-one in workshops with these generous artists.


Last September 12, the Triple Door audience was transported to the wild and mysterious natural landscapes of Brazil by soulful vocalist Paula Santoro. Accompanied by pianist Rafael Vernet, MS. Santoro sang out to the best in each of us, and we couldn’t help but sing back.


In October, the project closed with Filo Machado, revered composer, arranger, singer, and multi-instrumentalist. Filo was joined on stage by his 11-year-old grandson Felipe, who charmed us all with his beautiful voice and left no doubt that Filo’s royal musical line will endure for generations.


Opening for these three shows were local artists En Canto, Brazilian Orchestra, known for its lively and exotic melodies, Brazilian jazz and soul combo EntreMundos Quarteto, and, of course, Seattle’s godfather of Brazilian music, pianist and composer Jovino Santos Neto.


Brazilian Nights PNW counts on donations from music lovers to support the project. “Every donation is used to realize the Brazilian Nights PNW project and its musical workshops”, said Pedro Augusto Leite Costa, Honorary Consul of Brazil in Seattle and one of its producers. Donations can be made to the fiscal sponsor Jazz Night School at 206-722-6061.


Tickets are available at thetripledoor.net and 206-838-4333.
For further information:



sexta-feira, 31 de outubro de 2014

As mãos invisíveis

As mãos invisíveis

Por Pedro Augusto Leite Costa | Para o Valor, de Seattle
Incomodado com a quantidade de dinheiro despejado nas eleições brasileiras? Bem-vindo aos Estados Unidos da América. Aqui, frustrados com o blá-blá-blá inerente à democracia, bilionários estão fazendo justiça - ou o que pensam que é certo - com o próprio bolso. Desde 2010, quando a Suprema Corte liberou doações anônimas ilimitadas para candidatos ou causas, gente como os irmãos Koch, do Kansas, estão despejando bilhões de dólares para o bem ou para o mal, tentando reduzir o tamanho do governo, "de forma que ele caiba numa privada", como defende o ativista anti-impostos Grover Norquist, ou lutando pelo direito dos gays ao casamento, causa financiada pelo dono da Amazon, Jeff Bezos, ou pressionando para que o copo de Coca-Cola fique menor, como quer o ex-prefeito de Nova York Michael Bloomberg.
Os 492 bilionários americanos, com fortuna conjunta de US$ 2 trilhões, 100% mais do que há dez anos, estão ativos como nunca. Tom Steyer, um deles, garante que, do alto do sucesso, enxergam deficiências dos mercados (inclusive o político) e, por que pagam milhões de dólares em impostos, estão habilitados a ter mais representatividade na democracia. O best-seller "Billionaires - Reflections of the Upper Crust", do pesquisador Darrel M. West, da Brookings Institution, dá um mergulho no universo de quem não tem onde mais gastar dinheiro. Noventa e nove porcento deles votam, 84% fazem doações para candidatos, 68% contribuem para causas sociais e dois terços financiam causas republicanas ou pró-mercado.
E estão se multiplicando a um ritmo que parece sempre mais acelerado, tanto aqui como no mundo. Formam, atualmente, um time de quase 1,7 mil indivíduos (veja quadro na próxima página). Em 12 países, como a Ucrânia, são candidatos a presidente. Se continuar a festa, interesses bons ou ruins mudarão a vida do povo, aqui chamado de 99%.
Nem sempre os bilionários têm sucesso quando se metem em política. Demonizado por boa parte deles, Barack Obama foi reeleito em 2012. A reforma do sistema de saúde, vista como de natureza socialista pela direita americana, está caindo nas graças da população. A defesa do meio ambiente, como a barreira à construção do oleoduto do Canadá ao Golfo do México, está funcionando. Washington e Colorado liberalizaram a maconha, enquanto o casamento gay, que, segundo os radicais, pode destruir a humanidade, foi oficializado em vários Estados.
Essa desgulamentarização do processo político tem idas e vindas. Depois de Watergate, na década de 70, foram criados diversos mecanismos para conter a influência do poder econômico, mas, com o tempo, as coisas foram se afrouxando.
Com abastados democratas e republicanos batendo de frente, a radicalização do processo político foi às alturas, afastando principalmente os jovens. O Congresso só trabalhou oito dias desde julho e perde-se na discussão de infindáveis obsessões, como o terno marrom-claro que o presidente Obama usou recentemente em uma entrevista coletiva.
"Se continuarmos na trajetória de muito dinheiro e grande sigilo, as pessoas vão continuar a ser cínicas sobre política", diz West
O presidente reclama que, por causa disso, não consegue nomear ninguém para trabalhar no governo, pois depende da aprovação da Câmara dos Deputados, nas mãos do Partido Republicano. Também precisa se curvar anualmente aos congressistas para aumentar o teto da dívida de US$ 17 trilhões. Deixar o governo à míngua é a estratégia para diminuir sua influência, mas, como diz o ditado aqui, "você odeia o governo até precisar dele".
Para solucionar esse problema, West sugere limites de contribuição (que, oficialmente, pularam de US$ 5,8 milhões para US$ 310 milhões na última eleição, somente aquelas com dedução fiscal), transparência nas doações, governabilidade no processo e, mais ainda, oportunidade para todos, por meio da melhora da educação.
A seguir, os principais trechos de entrevista com West, vice-presidente e diretor do Center for Technology Innovation da Brookings Institution.
Valor: Qual é o problema com os bilionários?
Darrel M. West: O problema é a combinação de concentração de riqueza, ativismo político e sigilo. Os Estados Unidos voltaram a uma era pré-Watergate, do "big money" e sigilo excessivo, o que sempre cria problemas para as democracias.
Valor: O senhor acha que bilionários deveriam ser proibidos de participar da política e do lobby em geral, ou mesmo terem suas ações limitadas?
West: Não devemos restringir a participação de bilionários na política, mas devemos insistir em maior transparência. É importante para as pessoas comuns saber quem está financiando esforços de mudanças de políticas públicas, pois o mensageiro é tão importante quanto a mensagem no discurso político.
Valor: Qual é a diferença dos chamados bilionários maus e bons na influência do processo eleitoral?
West: Estamos vendo o ativismo político considerável de bilionários liberais, conservadores e libertários. Muitos tentam influenciar as eleições e garantir que suas questões particulares sejam resolvidas. Um lado não é pior que o outro. Há motivos de preocupação em todo o espectro político.
Valor: O financiamento de campanha é um problema em todos os lugares, mesmo com transparência, governança e educação. Se as pessoas normais sabem que os irmãos Koch estão atrás de algum candidato, eles vão necessariamente mudar sua opinião?
West: O mensageiro é de suma importância para os eleitores. Pessoas avaliam a fonte de informação, e isso afeta a forma como julgam o material que lhes é apresentado. Alguns eleitores liberais vão reagir negativamente se acharem que os irmãos Koch estão financiando determinadas causas, enquanto alguns eleitores conservadores vão se sentir da mesma forma sobre os candidatos apoiados por George Soros ou outros bilionários liberais.
Valor: Por que bilionários compram jornais tradicionais, mesmo sabendo que não têm a mesma influência política que costumavam ter e estão com problemas financeiros?
West: Bilionários estão comprando jornais porque pensam que isso os ajuda a influenciar o debate público. Rupert Murdoch tem o "The Wall Street Journal" e a Fox News. Michael Bloomberg adquiriu a "BusinessWeek". E Jeff Bezos comprou o "Washington Post".
Valor: Se o senhor tivesse apenas uma oportunidade, o que mudaria no processo político para devolver o poder às pessoas comuns?
West: A melhor mudança seria instituir maior divulgação sobre dinheiro e política. As pessoas precisam saber quem está por trás de candidatos e causas. Isso faz uma grande diferença para o eleitor médio.
Valor: Se não fizermos nada para melhorar o processo político, o que vai acontecer com a democracia?
West: Se continuarmos na trajetória de muito dinheiro e grande sigilo, que são tóxicos para os sistemas democráticos, as pessoas vão continuar a ser cínicas sobre política. Hoje em dia, acredito que a maioria dos benefícios estão indo para grandes jogadores.
“Billionaires - Reflections of the Upper Crust”
De Darrel M. West. Brookings Institution Press, 269 págs, US$ 19,93


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Leia mais em:
http://www.valor.com.br/cultura/3746628/maos-invisiveis#ixzz3Hk3oqFQv

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Conteúdo que Transforma

Reproduzido do Valor Econômico, 19/9/2014

Por Pedro Augusto Leite Costa, de Seattle.

Ainda não é imprensa do povo, pelo povo ou para o povo, como o presidente americano Abraham Lincoln se referiu à democracia no discurso de Gettysburg, ante um país destroçado pela Guerra Civil. Ou nem tão radical quanto o mundo idealizado por Karl Marx, para quem a primeira liberdade de imprensa consiste em não ser uma indústria. Mas o “ProPublica”, jornal eletrônico sem fins lucrativos que dá poder (e dinheiro) a duas dúzias de repórteres, não só incomoda governos, corporações e lobistas, como também revigora a própria mídia.
Desde 2008, quando começou a operar em Nova York com uma dotação inicial de US$ 10 milhões da Sandler Foundation, já ganhou dezenas de prêmios, inclusive dois Pulitzers, fez os leitores se arrepiarem com as histórias do furacão Katrina, estancou a prática de corromper médicos com presentes na indústria farmacêutica e pôs gente na cadeia com revelações sobre Wall Street. Foram os primeiros prêmios dessa importância a ser dados a um jornal que, como se diz aqui, não corta árvores para informar pessoas. Recentemente, o “ProPublica” anunciou que chegou a 90 parcerias na imprensa tradicional, a começar pelo maior de todos os jornais, o “New York Times”.
Segredo do sucesso? “Dar poder aos repórteres para decidir quanto tempo [e outros recursos] será necessário para investigar uma boa história”, diz Stephen Engelberg, o editor-chefe que fez carreira como repórter investigativo do “Times” (veja entrevista na pág. 26). “Mas o fundamental é que os nossos parâmetros de sucesso não são medidos pela audiência ou pela lucratividade e, sim, pelas transformações na sociedade que ajudamos a promover por meio da informação”, ressalta.
A onda do chamado conteúdo transformador, ou consequente, como se dizia nos anos 70, longe das celebridades e outras aberrações, já atinge pelo menos 170 jornais sem fins lucrativos nos Estados Unidos, geralmente financiados por organizações que não querem deixar o jornalismo morrer: o Centro Knight para o Jornalismo nas Américas, a MacArthur Foundation, o Pew Research Center, a Ford Foundation e a Carnegie Corporation of New York, entre outras. “Não somos a solução para o futuro do jornalismo tradicional, que está sobre um tremendo estresse, mas apenas uma parte do que se tornará esse setor no futuro”, afirma Engelberg.
Explosão de negócios
Organizações sem fins lucrativos na mídia americana remontam a 1846, quando foi fundada uma das maiores agências de notícias do mundo, a Associated Press, hoje com 3 mil jornalistas e 243 escritórios em 96 países. Há também outros exemplos de sucesso, como um dos melhores jornais americanos, “The Christian Science Monitor” ou a revista “Consumer Reports”, a bíblia da defesa do consumidor, o jornal de esquerda “Mother Jones” ou a PBS ou a NPR, as emissoras públicas de TV e rádio dos Estados Unidos, que funcionam basicamente com as doações da audiência. Apesar de sucesso, o jornalismo filantrópico ainda representa apenas 1% do faturamento da mídia no país.
O que se discute agora, no entanto, é se esse formato acabará se tornando majoritário no jornalismo americano, em que a publicidade caiu 49% nos últimos cinco anos, o que motivou a demissão de boa parte dos quase 100 mil jornalistas que atuavam no país, segundo a Newspaper Association of America. Um levantamento do Pew Research Center analisou as finanças, o tráfego on-line e a audiência entre 18 jornais sem fins lucrativos e descobriu que o faturamento está aumentando, os modelos de negócio estão se diversificando e a audiência está começando a crescer.
A receita com a publicidade nos jornais americanos é apenas 46% do que era há sete anos (embora o faturamento on-line esteja aumentando exponencialmente, com ênfase em mobilidade), os 150 mil jornalistas americanos foram reduzidos a 53 mil – o menor nível desde 1978 – e, segundo o Pew, os jornais estão perdendo leitores não somente por causa das redes sociais, mas pela baixa qualidade. A publicidade é ainda a grande fonte de receita (69%), enquanto crescem os meios pagos pela própria audiência (24%) e os meios filantrópicos ou investimentos de capitalistas de risco (1%).
Mais de 15% dos adultos americanos hoje consultam mídia sociais para se informar sobre praticamente tudo. E, mais ainda, segundo o American Press Institute, 69% acessam notícias em celular ou tablet. Ou seja, a solução (até agora, pois pode ainda mudar) é misturar a geração de notícias, mídias sociais e mobilidade em uma só plataforma, como tenta o jornal “The New York Times” em seu novo serviço, o NYT Now. Como compara o articulista da revista “Wired” Frank Rose, os smartphones estão trazendo uma era dourada para o jornalismo. “Se você andasse de metrô em Nova York há alguns anos, veria que os passageiros competiam na arte de dobrar os jornais várias vezes, de forma que não incomodassem outros passageiros. O jornal ficava do tamanho de um tablet – é o que estamos vendo hoje com a leitura de notícias nos celulares.”
Como indústria, a produção de notícias nos Estados Unidos gera US$ 65 bilhões por ano, segundo uma pesquisa do Pew Research Center. O mesmo instituto chama a atenção para a escala: só o Google, que afetou boa parte indústria jornalística com o Google News, gera US$ 58 bilhões ao ano. O setor tecnológico hoje tem tanto dinheiro que praticamente está transformando o meio (tablets, celulares e games, por exemplo) em mensagem. Daí a explosão de negócios, como a compra do “Washington Post” pelo bilionário Jeff Bezos, da Amazon, ou dos investimentos de outro bilionário, Pierre Omidyar, fundador da Ebay, no First Look Media, ou ainda a compra do “News Republic” por um terceiro bilionário, Chris Hughes, cofundador do Facebook.
***
Os melhores serão os escolhidos
Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista com Stephen Engelberg, editor-chefe do “ProPublica”, jornal eletrônico sem fins lucrativos.
Qual é o segredo para ganhar tantos prêmios em tão poucos anos de vida?
Stephen Engelberg – Dar tempo, dinheiro e poder aos repórteres para decidir sobre os assuntos que querem investigar. Sabemos que boas reportagens exigem tempo de investigação, e isso pode demorar dias, meses ou anos. Um dos nossos Pulitzers foi ganho com a reportagem de Sheri Fink, que, também sendo médica com Ph.D., utilizou seus conhecimentos e contatos durante mais de um ano para investigar a história [“Escolhas mortais no Hospital Memorial”, sobre as decisões que muitos médicos tiveram que tomar sobre quem viveria ou não durante o furacão Katrina em 2009].
Qual é o salário dos seus jornalistas?
S.E. –Temos diferentes níveis, desde US$ 40 mil, US$ 50 mil por ano, até US$ 180 mil, US$ 190 mil para os profissionais mais experientes.
Como funciona o modelo de negócio?
S.E. –Basicamente, temos cerca de três mil doadores, que pagam desde US$ 5 até milhões de dólares anualmente. No início, recebemos US$ 10 milhões anuais da Sandler Foundation, mas agora estamos diminuindo essa dependência. Arrecadar dinheiro demanda muito tempo e muito esforço, mas o nosso sucesso ajuda nessa arrecadação. Temos também de tomar cuidado com as doações, pois não aceitamos que os doadores interfiram no nosso conteúdo. O certo é que gastamos US$ 0,85 do que recebemos naquilo que interessa: jornalismo de qualidade. Empresas tradicionais de mídia gastam somente US$ 0,15 em jornalismo.
O jornalismo do futuro será uma atividade sem fins lucrativos?
S.E. –Acho que estamos caminhando para um futuro no qual haverá uma mistura de jornalismo pago pela publicidade, e nesse ponto espero que o “The New York Times” continue fazendo o sucesso que sempre fez, e modelos como o nosso e ainda muitos outros. A competição é muito maior hoje do que quando comecei no jornalismo. E isso é ótimo. Vencerá quem tiver o melhor conteúdo.
Mas as redes sociais não estão matando o jornalismo?
S.E. –Veja o exemplo do Buzz Feed, que está fazendo um tremendo sucesso com a sua audiência on-line e está utilizando este dinheiro para investir em reportagens investigativas. Veja também o exemplo da Al-Jazeera, que está investindo milhões de dólares para conquistar a audiência americana. O futuro vai ser um pouco disso tudo, e isso é ótimo para a nossa democracia.
Como o senhor mede o sucesso do “ProPublica”?
S.E. –Sem dúvida não é pelo dinheiro que ganhamos ou pelo tamanho da nossa audiência, mas sim pelas mudanças que ajudamos a promover na sociedade. É o chamado jornalismo comprometido com as mudanças. No entanto, não fazemos campanhas, apenas reportagens. Temos leitores de todos os tipos, mas principalmente gente educada que exige maior nível de aprofundamento nas questões que levantamos.
Qual é a sua reportagem favorita no “ProPublica”?
S.E. –Não tenho favoritismo entre os filhos gerados aqui, mas tenho orgulho que muitos deles ajudaram a corrigir falhas no sistema americano de saúde, como nos casos de pagamentos das empresas farmacêuticas aos médicos ou na reportagem sobre os riscos associados ao remédio Tylenol.
Parte do sucesso de vocês se deve à intensa utilização de bancos de dados.
S.E. –Sim, utilizamos parte da nossa equipe para coletar dados que hoje em dia estão disponíveis na internet, mas pouca gente tem paciência de coletá-los e ordená-los em uma forma que seja palatável para o grande público.
Vocês estariam reinventando o jornalismo?
S.E. –Não temos a pretensão de reinventar o jornalismo, mas humildemente dizemos que, sem dúvida, somos parte dessa resposta.
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Pedro Augusto Leite Costa, para Valor Econômico, em Seattle