segunda-feira, 8 de outubro de 2007

O que você faria se soubesse quando será?

Como a certeza da morte, e como dizia o jurista Saulo Ramos em sua recente biografia Código da Vida, carregamos conosco a incômoda pergunta: mas quando? O professor Randolf Frederick Pausch, 43 anos, casado e três filhos pequenos, PhD em ciência da computação na Universidade Carnegie Mellon, morrerá dentro de três a seis meses de câncer no pâncreas.
Randolf, ou Randy, foi aplaudido de pé por 400 alunos e professores da universidade quando, no início de setembro, entrou no auditório para dar a última aula, uma tradição das universidades – mas para mestres que estão se aposentando ou abandonando a cátedra.
Ele agradece os aplausos, pede que parem de aplaudir (“me deixem merecer, primeiro”, e a platéia responde “você já merece”) e depois inicia um fantástico show de vida, esperança e gratidão, tema de reportagens de duas grandes redes de TV dos Estados Unidos, a ABC e a CBS.
A aula, gravada em vídeo para que seus filhos pequenos (5, 2 e 1 ano) assistam quando entenderem que todos nós vamos para o céu (ou o inferno), recebeu o título de “Realizando Os Sonhos da Infância”. Tornou-se também um dos vídeos mais vistos na Internet.
Durante 30 minutos, em tom otimista, fazendo às vezes a platéia gargalhar (e chorar), ele discorre sobre a ciência da computação (ele é um dos inventores da realidade virtual, um programa chamado Sofia), dá dicas para a melhoria do ensino e, na melhor tradição, faz profundas reflexões sobre sua área de conhecimento.
Depois começa a parte mais impressionante. Randy avisa que, se alguém quiser chorar, que suba até o auditório e o faça para que ele, então, consiga ter pena de si mesmo. Mostra, como um cientista, diversos raios-x de órgãos do seu corpo contendo 10 tumores malignos que o levarão à morte com data anunciada.
Quando criança, Randy era do tipo que trocava qualquer diversão por experimentos de física, matemática ou astrologia. Aos oito anos, quando atravessou os Estados Unidos para visitar a Disneylândia em companhia dos pais, decidiu que não queria somente ver o Pato Donald ou Mickey, mas sim criar parques de diversões futuristas.
Logo que recebeu seu PhD pela universidade, enviou uma carta para a Disney falando de suas habilidades e, tempos depois, recebeu outra carta com um polido não. Randy não se deu por vencido. Batalhou até criar, depois de formado e com um time de cientistas, um novo parque de atrações para a Disney.
Dos sonhos de infância, o professor ainda fez outra proeza: praticar experimentos a zero grau de gravidade, dentro daqueles aviões que sobem a grandes altitudes e caem centenas de metros repentinamente. “Quando você faz as coisas certas”, disse ele, “o carma se encarrega de trazer as coisas boas para você”.
Randy também fala de seus pais. Quando adolescente, ao invés de pregar pôsteres de garotas ou de heróis nas paredes do quarto, rabiscou fórmulas matemáticas, ditados famosos e até uma “portinha” para chegar a outros planetas. “Se você é pai ou mãe, deixe seus filhos rabiscarem as paredes do quarto – tenho certeza de que isto não vai diminuir o valor sua casa”, recomenda.
Embora doente terminal, Randy demonstra boa aparência e, mais ainda, excelente preparo físico. Durante a aula, faz contínuas flexões de braços, às vezes com um braço só, para demonstrar sua saúde. A platéia vem abaixo.
Um dos slides projetados é um muro de tijolos. Randy diz que muros existem por uma simples razão: eles estão lá para testarem o quão importante é para você conseguir o que deseja – ou melhor, “eles estão lá para frear as pessoas que não desejam tanto assim conseguir os objetivos”.
Enquanto projeta os slides de seus professores e chefes durante os anos, Randy conclui que ajudar os outros a realizarem os sonhos é muito mais divertido do que realizar os próprios sonhos.
Ao final, dá um conselho: “quando você se sente magoado ou chateado com alguém, é porque você não deu ainda o devido tempo para que esta mágoa se dissipe”. Novamente aplaudido de pé, o professor recebe um abraço e um beijo de sua esposa, que chorava na audiência.
A platéia, então, descobre que naquele dia Randy estava fazendo aniversário. Comemorava 46 anos muito bem vividos.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Varig, volete para Los Angeles!

Agora que o Brasil acordou e inaugura hoje uma missão de 50 empresários à Costa Oeste americana, sob o comando do empresário Roberto Giannetti da Fonseca, da Fiesp, é chegada a hora de lutarmos para que a Varig ou outra companhia aérea de bandeira brasileira volte a fazer um vôo que fez sucesso de 1968 a 2001.
O Varig São Paulo-Los Angeles-Tóquio, primeiro através do DC-10, depois com o Jumbo 747 e finalmente com o MD-11, levou milhões de brasileiros para a capital japonesa, com uma providencial escala em Los Angeles. O vôo, que durava cerca de 12 horas, dependendo do vento, gastava muito combustível e exigia duas tripulações de cabine se revezando.
Começando no final da noite em São Paulo, a viagem atravessava a Amazônia, percorria o árido território mexicano e aterrissava em Los Angeles. Para nós a Varig era uma espécie de embaixada brasileira na Costa Oeste americana. “Estamos aqui, queremos fazer negócios, estamos trazendo empresários e turistas”, era a mensagem subliminar.
Um pouco diferente de hoje, as aeromoças eram jovens e bonitas, os pilotos velhos e experientes, o serviço de bordo era reconhecidamente o melhor do mundo: talheres de prata, uma variada seleção de vinhos, patê de foie gras na entrada e bombons na sobremesa. Até o pessoal da classe econômica era tratado como ser humano.
Dava prejuízo? Dava. No início não, mas com o tempo o Brasil fez um dos seus maiores erros históricos: esquecer aos poucos a Costa Oeste norte-americana, uma potência formada da Califórnia até o Alaska que vale pelo menos cinco vezes o PIB brasileiro. A corrida se dirigiu para a Costa Leste, onde quase dois milhões de brasileiros, grande parte ilegais, se amontoou.
Agora é diferente. Com a ajuda dos consulados brasileiros em Los Angeles e San Francisco, os empresários brasileiros estão fazendo de tudo para reconquistar a Costa Oeste, e daqui conquistar os países asiáticos, pois estas cidades, além de Seattle, são a porta para o Pacífico.
Nosso empresários pagam, no entanto, pela tortura da viagem de São Paulo até aqui, passando por Dallas ou Houston no Texas, ou Atlanta, na Geórgia, o que em outras palavras significa duplicar as horas de vôo entre os dois países.
Sai-se à noite do Brasil, chega-se no meio dos Estados Unidos nas primeiras horas da madrugada e pousa-se aqui quase cinco horas depois, enfrentando às vezes seis horas de fuso horário. Os brasileiros surgem aqui tresnoitados, atordoados e muitas vezes perdidos, sem energia para fazer negócios com Bill Gates ou passear na Disneylândia.
O pior é o transporte de carga. Sabe-se que o forte do tráfego aéreo é pago pela carga, acondicionada em imensos vãos um andar abaixo dos passageiros, ou em aviões especialmente desenhados para isto, os chamados cargos. Muitos dos produtos que estados como Califórnia, Oregon e Washington compram do Brasil são perecíveis, e não resistem às escalas atuais.
Por não ter linhas diretas regulares de passageiros ou de carga, ou mesmo por ser bem distante do Brasil, o frete vai ficando caro para a Costa Oeste, quando comparado a portos mais próximos. Mas os Estados Unidos, é só olhar no mapa, estão ainda mais perto do que a China, o Japão, a Europa e a África, e são os maiores compradores do planeta, inclusive do Brasil.
Só no ano passado compraram US$ 24,4 bilhões de nós, dos quais US$ 3,5 bilhões beneficiados pela isenção de impostos de importação. Muito pouco para um país que compra US$ 1,72 trilhão (isto mesmo, quase dois trilhões) de produtos e serviços de todo o mundo, dos quais apenas 1,3% originários do Brasil. Pagam em dólar, são organizados e eficientes e sempre demandam inovação e preços baixos, as bases do capitalismo eficiente.
Hoje em dia muitos brasileiros criticam os Estados Unidos por diferentes razões, desde o Governo Bush, a guerra no Iraque ou mesmo pela arrogância no trato dos negócios estrangeiros. Apesar das idas e vindas, Brasil e Estados Unidos têm histórias parecidas, com diferentes níveis de sucesso. De Carmem Miranda a Sônia Braga, de Pelé a Gisele Bündchen, somos queridos pelos nossos irmãos do norte.
Nossa língua portuguesa soa como música nos ouvidos dos gringos, nossas belezas naturais são reconhecidas e celebradas aqui. Fazemos etanol e aviões. Somos um povo afável, bonito, brincalhão, bom de fazer negócios. Só falta um avião.

Varig, volete para Los Angeles!

Agora que o Brasil acordou e inaugura hoje uma missão de 50 empresários à Costa Oeste americana, sob o comando do empresário Roberto Giannetti da Fonseca, da Fiesp, é chegada a hora de lutarmos para que a Varig ou outra companhia aérea de bandeira brasileira volte a fazer um vôo que fez sucesso de 1968 a 2001.
O Varig São Paulo-Los Angeles-Tóquio, primeiro através do DC-10, depois com o Jumbo 747 e finalmente com o MD-11, levou milhões de brasileiros para a capital japonesa, com uma providencial escala em Los Angeles. O vôo, que durava cerca de 12 horas, dependendo do vento, gastava muito combustível e exigia duas tripulações de cabine se revezando.
Começando no final da noite em São Paulo, a viagem atravessava a Amazônia, percorria o árido território mexicano e aterrissava em Los Angeles. Para nós a Varig era uma espécie de embaixada brasileira na Costa Oeste americana. “Estamos aqui, queremos fazer negócios, estamos trazendo empresários e turistas”, era a mensagem subliminar.
Um pouco diferente de hoje, as aeromoças eram jovens e bonitas, os pilotos velhos e experientes, o serviço de bordo era reconhecidamente o melhor do mundo: talheres de prata, uma variada seleção de vinhos, patê de foie gras na entrada e bombons na sobremesa. Até o pessoal da classe econômica era tratado como ser humano.
Dava prejuízo? Dava. No início não, mas com o tempo o Brasil fez um dos seus maiores erros históricos: esquecer aos poucos a Costa Oeste norte-americana, uma potência formada da Califórnia até o Alaska que vale pelo menos cinco vezes o PIB brasileiro. A corrida se dirigiu para a Costa Leste, onde quase dois milhões de brasileiros, grande parte ilegais, se amontoou.
Agora é diferente. Com a ajuda dos consulados brasileiros em Los Angeles e San Francisco, os empresários brasileiros estão fazendo de tudo para reconquistar a Costa Oeste, e daqui conquistar os países asiáticos, pois estas cidades, além de Seattle, são a porta para o Pacífico.
Nosso empresários pagam, no entanto, pela tortura da viagem de São Paulo até aqui, passando por Dallas ou Houston no Texas, ou Atlanta, na Geórgia, o que em outras palavras significa duplicar as horas de vôo entre os dois países.
Sai-se à noite do Brasil, chega-se no meio dos Estados Unidos nas primeiras horas da madrugada e pousa-se aqui quase cinco horas depois, enfrentando às vezes seis horas de fuso horário. Os brasileiros surgem aqui tresnoitados, atordoados e muitas vezes perdidos, sem energia para fazer negócios com Bill Gates ou passear na Disneylândia.
O pior é o transporte de carga. Sabe-se que o forte do tráfego aéreo é pago pela carga, acondicionada em imensos vãos um andar abaixo dos passageiros, ou em aviões especialmente desenhados para isto, os chamados cargos. Muitos dos produtos que estados como Califórnia, Oregon e Washington compram do Brasil são perecíveis, e não resistem às escalas atuais.
Por não ter linhas diretas regulares de passageiros ou de carga, ou mesmo por ser bem distante do Brasil, o frete vai ficando caro para a Costa Oeste, quando comparado a portos mais próximos. Mas os Estados Unidos, é só olhar no mapa, estão ainda mais perto do que a China, o Japão, a Europa e a África, e são os maiores compradores do planeta, inclusive do Brasil.
Só no ano passado compraram US$ 24,4 bilhões de nós, dos quais US$ 3,5 bilhões beneficiados pela isenção de impostos de importação. Muito pouco para um país que compra US$ 1,72 trilhão (isto mesmo, quase dois trilhões) de produtos e serviços de todo o mundo, dos quais apenas 1,3% originários do Brasil. Pagam em dólar, são organizados e eficientes e sempre demandam inovação e preços baixos, as bases do capitalismo eficiente.
Hoje em dia muitos brasileiros criticam os Estados Unidos por diferentes razões, desde o Governo Bush, a guerra no Iraque ou mesmo pela arrogância no trato dos negócios estrangeiros. Apesar das idas e vindas, Brasil e Estados Unidos têm histórias parecidas, com diferentes níveis de sucesso. De Carmem Miranda a Sônia Braga, de Pelé a Gisele Bündchen, somos queridos pelos nossos irmãos do norte.
Nossa língua portuguesa soa como música nos ouvidos dos gringos, nossas belezas naturais são reconhecidas e celebradas aqui. Fazemos etanol e aviões. Somos um povo afável, bonito, brincalhão, bom de fazer negócios. Só falta um avião.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

O apanhador no campo de centeio

Quem conhece Jorio Dauster sabe das suas virtudes como diplomata, negociador da dívida externa brasileira e ex-presidente da Vale do Rio Doce, além do excelente papo, da pele queimada de sol e do joie de vivre carioca.
O que pouca gente lembra é que Dauster teve a felicidade de, ainda nos anos 60, traduzir para o português, com a ajuda de dois amigos do Itamaraty, a obra prima de J. D. Salinger, O Apanhador no Campo de Centeio.
The Catcher in the Rye, no seu original em inglês, uma espécie de Bíblia dos pós adolescentes, ou “o romance que inventou uma geração”, já vendeu mais de 60 milhões de exemplares em praticamente todas as línguas e, ninguém sabe porquê, é consumido à razão de 240 mil exemplares todos os anos.
Aqui em Los Angeles, depois de uma palestra sobre biodiesel sob o patrocínio do Consulado Brasileiro e do Instituto Milken, perguntei ao embaixador o que faz um livro escrito em 1951 provocar tanto sucesso quase 60 anos depois.
O Apanhador, explica, toca as pessoas porque fala de conceitos filosóficos numa linguagem que qualquer um entende, se identifica e, portanto, gosta. Nada mais é do que uma acurada e sensível crônica da juventude.
O embaixador ainda traduziu mais 17 livros, inclusive outra obra-prima de Salinger, “Raise high the roof beam, Carpenters” (“acho que sou um neurótico ao contrário... sinto que o mundo está conspirando para que eu seja feliz”), ao qual ele deu o título de “Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira”.
De uns anos para cá Dauster traduziu outros autores, em especial Vladimir Nabokov, mas o “Apanhador” continua sendo um dos seus papos favoritos, mesmo porque o mistério que envolve o livro e seu autor, recluso há pelo menos meio século num sítio no Estado de New Hampshire, é também o papo favorito dos fãs de Salinger.
O escritor, que nasceu em Nova York e hoje celebra 88 anos, escreveu a maioria de suas obras entre 1940 e 1965, mas segundo a lenda continua escrevendo todas as manhãs. Seu contato com o mundo exterior é através de seu agente literário, um escudo em várias batalhas para garantir a integridade de sua obra.
O “Apanhador”, escrito na primeira pessoa, é uma viagem ao labirinto do cérebro de Holden Caulfield, de 16 anos, que detalha suas experiências em Nova York depois de ter sido expulso de um colégio interno. O livro expõe a falsidade da vida adulta, a alienação do rapaz e a inevitável perda da inocência. “Minha adolescência foi praticamente a mesma do rapaz, e foi um grande alívio contar esta história para as pessoas”, disse o autor em 1953.
Quando foi lançado, o “Apanhador” ficou na lista dos mais vendidos do The New York Times durante 30 semanas, mas, depois, foi-se tornando um culto entre os adolescentes, a ponto de, devido ao seu poder de influência, ter sido banido ou censurado em vários distritos escolares por trazer 332 palavras chulas, coisas que naquela época não ficavam bem em letra de imprensa.
Muitos professores foram despedidos ou forçados a sair das escolas por recomendar sua leitura aos estudantes, o que só provocou a curiosidade e as cópias piratas passadas de mão em mão. Salinger recebeu propostas milionárias para transformá-lo em filme, entre elas a de
Steven Spielberg. O autor, escaldado com a adaptação hollywoodiana de um de seus contos, recusou.
No Brasil, Rubem Braga e Fernando Sabino decidiram editar o livro traduzido por Dauster e seus amigos diplomatas Álvaro Alencar e Antônio Rocha após uma conversa regada a uísque na cobertura de Braga em Ipanema, no Rio.
Num recente artigo sobre a epopéia de achar um título adequado à versão para o português do The Catcher in the Rye, Dauster citou um parágrafo que diz tudo a respeito do livro que ainda hoje encanta milhões de pessoas.
“.... fico imaginando uma porção de garotinhos brincando de alguma coisa num baita campo de centeio e tudo. Milhares de garotinhos, e ninguém por perto; quer dizer, ninguém grande; a não ser eu. E eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o quê que eu tenho de fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se um deles começar a correr sem olhar onde está indo, eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio e tudo. Sei que é maluquice, mas é a única coisa que eu queria fazer. Sei que é maluquice.”

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

AS AVENTURAS DE STEPHEN FOSSETT

Até sexta-feira passada, quando escrevi este artigo, não sabíamos se tínhamos perdido ou não o maior aventureiro de todos os tempos, James Stephen Fossett, 63 anos, o milionário norte-americano que no ar, na água ou na terra estabeleceu 116 recordes mundiais, 76 deles ainda não batidos por ninguém.
Fossett, que já rodou o mundo num balão, atravessou o Canal da Mancha nadando, subiu seis dos mais altos picos da Terra e fez fortuna com a firma de investimentos Marathon Securities, simplesmente barberou no comando do seu avião, o Bellanca Citabria Super Decathlon, e, presumivelmente, espatifou-se nas montanhas do deserto de Nevada, no sudoeste norte-americano, no dia três de setembro.
Por ser famoso, e rico, mais de 17 aviões e helicópteros (e praticamente todas as redes de TV) procuraram por Fossett por mais de duas semanas por cerca de 26 mil quilômetros quadrados, algo semelhante, segundo um piloto, a localizar um pedaço de lata na Quinta Avenida do alto do Empire Estate Buiding, em Nova York.
Pelo mesmo motivo, e pela primeira vez que se tem notícia, os dois maiores líderes de buscas na Internet, Google e Yahoo, se dispuseram a utilizar seu rastreamento via satélite para, lá de cima, ajudarem a localizar Fossett e seu monoplano.
Coincidentemente, Fossett criou raízes em S. Louis, Missouri, onde há quase um século um grupo de investidores bancou o monoplano The Spirit of St. Louis, do herói Charles Lindbergh, que fez o primeiro vôo intercontinental em 1927 e depois teve seu filho seqüestrado e morto.
O mundo começou a prestar atenção em Fossett recentemente, quando depois de seis tentativas tornou-se o primeiro ser humano a viajar ao redor do mundo num balão. Ultrapassando Sir David Niven, do filme A Volta do Mundo em 80 Dias, demorou apenas 13 dias, 8 horas e 33 minutos.
Casado e sem filhos, Fossett é um dos poucos terrestres que podem ostentar a Medalha de Ouro da Federação Aeronáutica Internacional, FAI. Depois deste recorde, e não satisfeito, associou-se ao bilionário britânico Richard Branson para rodar novamente o mundo, desta vez dentro do Virgin Atlantic GlobalFlyer e em 67 horas. Como comandante, em 2004, deu a volta à Terra no catamarã Cheyenne em 58 dias e nove horas.
Boa parte das reportagens sobre Fossett, que nasceu numa pequena cidade do Tennessee, destacam dois aspectos: (1) o que faz um homem que depois de se aposentar dá uma de Deus, não sossega e bate 167 recordes mundiais? (2) como um aventureiro multifacetário como Fossett, capaz de subir os 9 mil metros do Himalaia ou atravessar do Canal da Mancha (34 quilômetros de Dover até o Cabo Griz-Nez) erra ao pilotar um avião que, como o Cessna, é considerado o Fusquinha dos ares?
Fossett desapareceu sem responder a estas perguntas, mas lendo sua autobiografia, “Chasing de Wind”, escrita em parceria com Will Hasley, lançada pela Virgin Publishing, surge um homem arredio, pouco afeto à mídia, escoteiro de alma e coração, que desde os 12 anos, quando nem sabia o que fazer da vida, já subia as mais altas montanhas da Califórnia. Uma personalidade bastante parecida com um dos poucos heróis que o Brasil tem, Amyr Klynk, o solitário paulistano que veio remando da África até a Bahia nos anos 80.
Fossett, como Klynk, ou o próprio Lindbergh, era, mais do aventureiro, um planejador nato, capaz de, como um jogo de xadrez ou no dia-a-dia de Wall Street, prever minuciosamente cada item de suas aventuras: preparo físico, técnica, equipamentos e mantimentos. Planejar, como muita gente sabe, é antecipar problemas, mas na manhã daquele três de setembro, Fossett, ao que parece, estava de folga e nem plano de vôo fez.
O avião decolou às 8:45 do campo de pouso conhecido como
Flying-M-Ranch, do também milionário Barron Hilton, dos Hotéis Hilton, em Nevada. Segundo a CNN, ele estava procurando por um lago adequado para bater outro recorde de velocidade.
As buscas começaram seis horas depois, já que Fossett não deu sinal de vida e sua aeronave tem apenas cinco horas de autonomia de vôo. O interessante é que não foram acionados os dispositivos de emergência para a localização do avião, que automaticamente são ligados quando o avião cai e bate no solo ou na água. Um mistério total.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Cortando a Barba e os Custos

Quando o inventor norte-americano King Camp Gillette inventou o aparelho de barbear com lâminas descartáveis, em 1901, transformou o até então perigoso e delicado ato de fazer a barba, restrito às barbearias e a alguns familiares de plantão, em um hábito tão popular feito escovar os dentes.
A jogada de mestre, no entanto, não estava na invenção em si, mas na possibilidade de vender um produto abaixo do custo, o aparelho de barbear, para fazer com que os consumidores pagassem mais pela lâmina, mantendo-os fiéis ao longo dos anos.
Este conceito, chamado aqui de loss leader, foi a mola mestra do sucesso não só da Gillette, vendida em 2005 à Procter & Gamble por US$ 54 bilhões de dólares, mas também de muitas marcas que atraem o consumidor através de produtos baratos, como a impressora à jato de tinta, para depois retê-los através dos caros cartuchos.
Warren Buffet, o segundo homem mais rico do mundo, investiu na Gillette por acreditar que jamais haverá um dia em que o homem não se levante, passe a mão na cara e sinta a necessidade de tirar aqueles pelos que significam, no mundo de hoje e com o perdão do “companheiro” Fidel, desleixo e falta de asseio pessoal.
Mas quando o CEO James Kilts chegou à empresa em 2001, o primeiro executivo de fora da corporação em mais de 70 anos, encontrou um negócio que tinha uma grande marca, mas que, por inatividade, estava perdendo a participação de mercado.
Jim, como é chamado, se assustou com prejuízos em mais de 15 quadrimestres consecutivos, as ações em baixa e Wall Street perdendo a paciência, como revelou em seu livro de memórias “Doing What Matters”, recém lançado nos Estados Unidos.
Já famoso e realizado depois de fazer um bom trabalho na Kraft e na Nabisco, Jim tinha diversas opções: ver-se livre de recentes aquisições, como a Duracell e a Braun, sair do negócio de personal care , só manter os aparelhos e as lâminas de barbear, ou simplesmente jogar a toalha e entrar num acordo com os bancos credores.
Segundo Kenneth Roman, ex-CEO da Ogilvy & Mather que recentemente fez uma resenha do livro de Jim para o The Wall Street Journal, o homem escolheu o caminho mais difícil.
Apoiado por seu time de executivos e por seus “mentores”, introduzira uma política chamada Zero Overhead Growth (ZOG), que busca controlar os custos e investir o que sobrar em pesquisa, desenvolvimento e.... marketing.
A vontade férrea de fazer do corte de custos um meio de vida (os Estados Unidos foram reeleitos semana passada campeões de produtividade entre todos os países do mundo) faz lembrar, segundo o autor do artigo, o mantra do setor de semicondutores: o preço da sobrevivência é cortar 20% dos custos todos os anos – e para sempre.
Mas Jim foi além do corte de custos, e preparou a empresa para se manter uma eterna saúde. Inventou um programa chamado de Excelência Funcional, no qual preconiza a iniciativa de fazer o melhor, com máximo desempenho, pelo menor custo, que segundo os críticos significa simplesmente demitir gente.
Aos poucos, diz Jim em sua biografia, o pessoal começou a gostar dos benefícios de uma cultura que permanentemente combate o supérfluo e desnecessário. Depois de dois anos, quando sentiu que a turma já estava amestrada neste mantra, Jim lançou mais um projeto, o Total Innovation, um programa contínuo de melhorias e inovações, inclusive de produtos que mudariam para sempre a face do mercado, como o Mach 3 e o Sensor.
Em sua biografia, o executivo, como todo vencedor que se preza, comemora os resultados. As vendas cresceram 5% depois de seu primeiro ano no posto, 10% no segundo ano e continuou aumentando, fazendo com que a ação da Gillette subisse 20% entre 2001 e 2004, chamando a atenção da gigante Procter & Gamble, que comprou a empresa e a elegeu como uma linha de seus produtos.
Já o inovador King Gillette, que deu início a este colosso empresarial e transformou seu nome na marca recorrente de aparelhos de barbear, morreu pobre e falido em Los Angeles, na Califórnia, em 1932, depois de investir dinheiro em imóveis e ter perdido quase tudo durante a Grande Depressão.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Mulher é ruim para fazer conta?

Nada disso. Cada vez mais a ciência comprova que ser bom em matemática, ou no “alfabeto com o qual Deus construiu o Universo”, como dizia Galileu Galilei, independe do sexo.
Mas a atriz Danica McKellar, a doce Winnie Cooper do seriado Tempos Incríveis, exibido no Brasil pela Rede Cultura, a cada dia encanta os americanos com o livro “A Matemática Não é Chata”, escrito de princesa para princesas para convencê-las de que o reino dos números é também coisa de mulher.
McKellar, que já foi tão ruim em matemática como boa parte da humanidade, viveu tempos incríveis na sala de aula quando, de repente, dava branco na cabeça, o coração palpitava e rezava para que o sino do recreio acabasse com a tortura de uma, digamos, raiz quadrada.
Até que um professor apareceu e deu exemplos práticos de matemática no dia-a-dia para que ela aprendesse a lição. Foi a faísca para que explodisse sua genialidade numérica, a ponto de, mesmo com carreira de atriz, ter sido autora de um tal de Chayes-McKellar-Winn, um teorema impossível de descrever aqui, pois nem eu nem você, paciente leitor, entenderíamos bulhufas.
Muita gente pensa que, com o advento da calculadora de mão, a matemática poderia ser extinta dos currículos escolares, a exemplo da Química (já experimentou decorar a tabela periódica dos elementos?) ou da Física, cuja beleza estava na frase “a toda ação corresponde uma reação igual e contrária”, muito útil nos embates da vida.
Mas a matemática, que trabalha com conceitos de quantidade, estrutura, espaço e mudança, é cada vez mais utilizada numa miríade de profissões que envolvem o reconhecimento de padrões em números, computadores, abstrações ou qualquer coisa que exista.
Ou seja, como num jogo de xadrez, leva as pessoas a pensar adiante, lidar com possibilidades, reconhecer erros e corrigi-los imediatamente (“meu segredo de sucesso”, segundo Bill Gates), criar programas de computador que imitam o celebro humano ou simplesmente calcular a gorjeta na mesa de um bar.
Mais ainda, a matemática vem sendo lugar comum nas entrevistas de emprego aqui nos Estados Unidos, onde se pergunta para o candidato “(1) quantas bolinhas de golfe cabem num ônibus escolar”, “(2) quanto você cobraria para lavar todas as janelas de Seattle” ou a pegadinha criada pela Microsoft ainda nos anos 90: “(3) - quantos postos de gasolina existem no Brasil?”. A idéia é saber se o candidato consegue pensar e, em caso positivo, se o faz com um mínimo de racionalidade.
Danica McKellar, hoje aos 32 anos, devolve a dádiva que recebeu do professor talentoso distribuindo-a para milhões de meninas nos Estados Unidos, que estão naquela idade em que não sabem se a herdeira Paris Hilton é um modelo a ser seguido ou evitado. E que, vez por outra, se sentem pressionadas pela escola ou pelos pais para resolver, desculpem o trocadilho, esta equação.
Seu livro, que tem como subtítulo “Como sobreviver à matemática na escola sem perder a cabeça ou suas unhas”, está sendo consumido aos borbotões por meninas desesperadas e mães atribuladas. Recheado de rosa e rosas, traz dicas para o dever de casa, os testes bimensais e, melhor ainda, exemplos reais, como entender as percentagens para as garotas se darem bem no Shopping Center ou proporções, de forma a torná-las excelentes chefs de cozinha.
O resto é entremeado com horóscopos, truques, enigmas, charadas, testemunhos de outras garotas e, principalmente, os resultados certos, que podem ser encontrados no site www.danicamchellar.com.
Fazer com que as garotas amem a matemática pode mudar a realidade profissional dos Estados Unidos, diz a pesquisadora Patricia Campbell, que avalia programas de matemática e ciência para a National Science Foundation. Apesar de milhões de dólares que estão sendo gastos em programas educacionais, os homens ainda vencem as mulheres em profissões essencialmente “matemáticas”, como engenharia.
-Nós levamos as meninas a encararem a matemática. Depois a usá-la. Agora teremos que fazê-las a amarem, diz Campbell.
O primeiro passo, como se vê, é ler o livro de Danica McKellar e responder corretamente às perguntas.
*Respostas: 1- 500 mil, assumindo que o ônibus que o interior do ônibus mede 20 bolas de altura, 50 de largura e 200 de cumprimento. 2.- Assumindo que Seattle tem 10 mil quarteirões, 600 janelas por quarteirão, e a 20 dólares por hora, em torno de US$ 10 milhões. 3.- 43 189 postos.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Advogados de US$ 1 mil a hora

A eleição na semana passada do advogado de Seattle William Neukom como presidente da poderosa American Bar Association, uma espécie de OAB dos Estados Unidos, está sendo vista aqui como o coroamento de uma profissão que, embora cercada de criticismo, está fazendo a fortuna de muita gente e hoje é uma das carreiras mais desejadas no mundo ocidental.
Gravata borboleta e cabelos grisalhos, o novo presidente da ABA, sócio do pai de Bill Gates (
K&L Gates) e filantropo, fez fortuna trabalhando como advogado da Microsoft durante 25 anos. Neste quarto de século, construiu as trincheiras para que a empresa resistisse às acusações de monopólio, plágio ou qualquer destes petardos contra quem lidera (ou monopoliza) o mercado.
Com discurso tranqüilo e infalível de quem está ao lado da lei (vale à pena ver a posse na
internet) Newkom não falou das fortunas que os advogados estão embolsando. Político, criticou as recentes leis que limitam a privacidade dos americanos e a demissão de nove procuradores que não rezavam na mesma cartilha republicana do presidente.
Newkom representa uma associação de mais de 400 mil advogados norte-americanos, a maior de todo o mundo, que, nos últimos tempos, tornou-se (mesmo a contragosto, pois advogado gosta de ser conhecido como homem das leis e não como empresário) óleo da engrenagem capitalista. Aqui, advogado é tão fundamental quanto médico, embora as receitas por vezes não garantam ficar livre do encarceramento e da perda dos bens.
País do litígio, onde a maioria dos filmes termina em julgamento e onde se assina contrato até para serviços de encanador, os Estados Unidos possuem um exército de meio milhão de advogados que brotam do chão ao mínimo sinal de que você, sua empresa ou seu animal de estimação provocou dano em alguém – ou vice-versa.
Aqui não existem rígidos limites impostos pelas ordens dos advogados para o marketing da profissão. As sociedades de advogados investem milhões de dólares em anúncios de 30 segundos em rede nacionais de TV (“você tem alguma doença relacionada com telhas de amianto?) ou em outdoors nas auto-entradas ( “se você se sente lesado em qualquer coisa que seja ligue para 0800-LAWYER”). A própria American Bar Association coloca em seu site
manuais de marketing para advogados.
Boa parte deste exército, no entanto, é composta de soldados rasos – advogados que ganham cerca de US$ 54 por hora, ou em média US$ 113,6 mil por ano, segundo o Department of Labour, o equivalente ao nosso Ministério do Trabalho. Mas se você trabalhar duro, seguir as regras e pagar os impostos, como diz o mantra do capitalismo norte-americano, pode cobrar bem mais.
Na semana passada, por exemplo, foi quebrado um tabu que rondava esta profissão abraçada por 25 dos 43 presidentes norte-americanos até hoje: a hora dos advogados top ultrapassou US$ 1 mil, o que garantiu a primeira página do The Wall Street Journal para uma turma de profissionais relutantes em confirmar as faturas de quatro dígitos. Mesmo a contragosto, pelo menos três sociedades de advogados confirmaram os números:
Simpson Thacher & Barlett, Cadwalader, Wickersham & Taft, e Fried , Frank, Harris, Shriver & Jacobson LLP, as três de Nova York.
Nos Estados Unidos ganhar bem não é motivo de vergonha – pelo contrário, se você ganha bem é porque vale quanto pesa. Mesmo assim, o mais famoso advogado americano, David Boies, da
Boies, Schiller & Flexner LLP, (“a litigation powerhouse”) ponderou: “É um pouco difícil imaginar qualquer pessoa que não salve vidas valer este dinheiro”. Outro advogado novaiorquinho, que preferiu não se identificar, foi mais direto: “nós advogados relutamos muito tempo em ultrapassar a barreira dos mil dólares porque achamos que nossos clientes simplesmente vomitariam”.
Entre os grandes escritórios de advocacia, a hora trabalhada pelos advogados vinha subindo em média de 6 a 7% anualmente desde o ano 2000 até chegar ao máximo de mil dólares atuais, embora às vezes possam ser incluídas “taxas de sucesso” que elevam os rendimentos dos attorneys a níveis estratosféricos.
“Mil dólares por hora tem um significado simbólico”, diz Robert Rosenberg, da
Latham & Watkins LLP. “Como o ano 2000, é apenas um número”. E é mesmo. Quem acompanha a economia americana se assusta com aquisições (ou prejuízos) de dezenas de bilhões de dólares. “Se um jogador de beisebol chega a ganhar 15 mil dólares por hora, é razoável que advogados de renome que resolvem problemas complexos cheguem a ganhar mil dólares por hora”, diz Mike Dillon, advogado da Sun Microsystems.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Como conquistar o investidor americano

Atenção empresários, empreendedores, sonhadores e aventureiros. Mesmo com os mercados financeiros degringolando mundo afora, calcula-se que os Estados Unidos investirão este ano cerca de US$ 60 bilhões em novos negócios ou em projetos que precisam de um empurrãozinho para fazer sucesso.
Desde a bolha da Internet, no fim do século passado, nunca houve tanto dinheiro disponível para fazer um website que vai revolucionar a interação entre as pessoas, uma usina que vai transformar lixo em energia ou um remédio que vai curar os nossos males, entre outras idéias que, por vezes, podem torná-lo bilionário.
Os gringos, como vocês sabem, quando se lembram de nós, nos vêem como uma ilha longínqua e paradisíaca, abatida por violência e corrupção e presidida por um ex-operário.
Quem nos conhece mais de perto nos considera desorganizados, não confiáveis (chegar na hora, terno-e-gravata, planejar com antecedência etc.) e não entendem o português ou muito menos o inglês que pensamos que falamos. Em resumo, têm tolerância zero para desculpas esfarrapadas.
Portanto, antes de conquistar os corações (e os bolsos) dos investidores, aqui vão algumas recomendações para seu projeto brilhar no coração do capitalismo.
- Faça o plano de negócios. O business plan é a bíblia do mundo empresarial americano. Descreva o problema, a solução, o tamanho do mercado, prováveis clientes, a estratégia de vendas, parceiros, o modelo de negócios, os competidores (se não houver competidores é porque o negócio não presta) e quem vai administrar. Depois adicione uma planilha Excel com números que façam sentido (e que impressionem) e, por último, apresente a proposta, de preferência irrecusável. Faça a versão para o inglês, edite de uma forma elegante e revise dezenas de vezes. Um errinho (principalmente de inglês) é fatal. Não se esqueça de fazer um resumo que fisgue o investidor em não mais de 10 minutos (veja gráfico).
- Tenha um representante nos Estados Unidos. Mesmo com o advento do Skype, MSN, videoconferência ou algo que o valha, investidor quer ver o olho de quem ele vai apostar o seu rico dinheirinho. Pode ser uma empresa especializada, um consultor ou até aquele primo de terceiro grau do seu cunhado que se mudou para cá há dez anos, desde que ele (ou ela) fale inglês como português, entenda de números e conheça o estranho palavreado do mundo dos investimentos (uma boa dica é começar pela palavra “equity”). Grande parte dos prováveis negócios entre os dois países falha porque, devido à distância, uma das partes esquece, se desinteressa ou tem preguiça de fazer o follow up. Pague o justo (existem todos os tipos de preços) e, no máximo, ofereça bônus caso o negócio dê certo. Os consultores daqui costumam fazer dos Estados Unidos um bicho de sete cabeças, mas eles estão blefando a maior parte do tempo. Os americanos são como nós, só que fazem o dever de casa.
- O ideal é ter um pé aqui. O melhor dos mundos, no entanto, é que você tenha uma filial aqui que possa servir de interlocutora. Hoje em dia, o investidor não quer apenas depositar o dinheiro na conta, mas sim participar ativamente do processo, colocando a mão na massa ou metendo o bedelho através dos chamados conselhos de administração, ou boards. Como estar longe dos olhos é estar longe do coração, os empreendedores daqui, mesmo que não tenham idéias tão geniais quanto a sua, acabam levando vantagem e comendo o maior pedaço do bolo.
- Em Roma, como os romanos. Notícias sobre corrupção, violência, caos aéreo etc. deixam o investidor americano, que tem medo até da sombra, inseguro. Pode parecer conversa de Polyana, mas eles acham que fazer negócios corretamente não é apenas a melhor maneira de fazer negócios, mas a única forma. Por que aqui, caso você não jogue sob as regras, como eles dizem, há uma grande chance de você ir para a cadeia ou simplesmente ser expulso e nunca mais voltar ao mercado. Portanto, seja transparente. Mostre que você acorda cedo e dorme tarde, que os funcionários estão unidos e entusiasmados e que os clientes estão batendo à porta. Planeje e execute a longuíssimo prazo. Planilhas Excel semanais e coloridas com todos os números do negócio são recomendáveis. Ao contrário de nós, os americanos detestam surpresas.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Produtos Chineses? Não, Obrigado

Está certo que um entre cada cinco seres humanos seja chinês, que precisa comer, se vestir, ganhar dinheiro e criar filhos. Mas é injusto que o progresso da China esteja sendo feito à custa da estagnação econômica e social em países pobres como o Brasil, México e outros que também possuem mão de obra iletrada, barata e disponível.
Os Estados Unidos ainda não se mexeram porque boa parte do seu débito, cerca de US$ 4,9 trilhões, está nas mãos dos chineses, que por não possuírem proteção do Estado poupam em média 45% do que ganham. E, também, porque podem rodar a maquininha de fazer dólar e são criativos para criarem novas necessidades e novos empregos, como se viu nos últimos anos com o advento da Internet.
Aqui, no entanto, está fazendo sucesso um livro da jornalista Sara Bongiorni,
A Year Without "Made in China": One Family's True Life Adventure in the Global Economy, relato da experiência de uma família que ficou um ano sem consumir qualquer produto (ou ingrediente, ou peça ou qualquer coisa) chinês. Bongiorni não chegou a passar fome, mas de repente ficou sem cafeteira, sem televisor e sem muitas outras coisas porque simplesmente, como se sabe, a China virou a fábrica do mundo.
Só que esta fábrica está vendendo produtos que podem trazer grandes riscos para a saúde e, até, matar consumidores de pastas de dente, bicicletas, pneus, tiragostos e até comida para animais de estimação. Pelo menos seis agências federais norte-americanas estão lutando para avisar os desavisados (
www.recalls.gov). Além de produtos envenenados , aqui vão outras razões para evitarmos artigos chineses.
- A China é uma ditadura. É mesmo, e das piores. É impossível calcular o número de dissidentes que mofam em suas prisões porque ousaram ser livres. Não há direito de expressão, organização, religião, voto, trabalho etc. É um comunismo hipócrita onde nove entre cada dez milionários são dirigentes da camarilha que se instalou no poder desde Mao Tse Tung. Há fatos que soam bem aos ouvidos de muita gente, como corruptos levando balas na cabeça em estádios (e a família tem de pagar pela bala) mas, para quem viveu sob ditaduras, liberdade (com justiça) é tudo.
- A China destrói a natureza. Segundo a Organização Mundial da Saúde, sete em cada dez cidades mais poluídas do mundo estão na China. Vários estudos estimam que a poluição custe à economia chinesa cerca de 10% do Produto Interno Bruto. Desde 2002, o número de reclamações às autoridades do meio ambiente aumenta 30% ao ano, chegando a 600 mil em 2004. Com uma economia baseada na queima de carvão, há cidades onde é difícil respirar.
- A China utiliza mão de obra escrava. Um empresário de Seattle fabricava artigos aqui pagando mil dólares para o trabalhador norte-americano. Mudou-se para o México nos anos 90 pagando 125 dólares para cada empregado. Agora, paga 25 dólares por mês aos chineses. Está achando caro e por isto está procurando uma forma de se estabelecer no Vietnã. Com esta exploração da mão de obra, Karl Marx deve estar se revirando no túmulo.
- A China é a rainha da pirataria – Chegam a cúmulo de copiar carros, como o Chevy, da General Motors. A principal atração turística de Pequim não é a Cidade Proibida, mas um mercado de quinquilharias chamado Pearl Market, um prédio de seis andares onde se pode comprar todas as “marcas” famosas. O governo se gaba de ter reduzido a pirataria de softwares de 92 para 82%. Está certo que os piratas e contrabandistas, como dizia o finado Roberto Campos, são os heróis do capitalismo, mas sem direitos autorais não há invenções.
- A China é corrupta – Somente em 2006 cerca de 60 mil funcionários do governo foram presos por corrupção. Há pouco tempo, o diretor do FDA chinês, Zheng Xiaoyu, foi executado por aceitar propinas no valor de US$ 850 mil de oito companhias farmacêuticas para aprovar remédios que levaram à morte mais de 10 pessoas. Em 2007 chineses já foram obrigados a fazer recall de vários produtos nos Estados Unidos, especialmente na área de comidas de animais e brinquedos infantis.
É certo que a China está demonstrando ao mundo que os produtos e serviços podem ser feitos ou ofertados por um preço ínfimo, criando um novo paradigma que muita gente chama de leilão reverso. Se países que respeitam as regras do livre mercado não reagirem, a China vai acabar com as possibilidades de sermos, um dia, uma nação desenvolvida – e democrática.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Um mórmon no poder

Rico, bonito, empresário de sucesso, pai e marido exemplar, sem antecedentes criminais (nem multa por velocidade), republicano e mórmon. O ex-governador de Massachusetts, Mitt Romney, 60 anos, o homem que salvou as Olimpíadas de Salt Lake City em 2002 e fez fortuna com a firma de investimentos Bain Capital, é um dos candidatos mais afluentes entre os republicanos para a sucessão de George Bush – a ponto de ter sido capa de praticamente todas as revistas de negócios desde que o ano começou.
Romney, no entanto, peca por ser mórmon. O país está cansado da mistura entre Igreja e Estado que os neoconservadores encabeçados por Bush promoveram nos últimos anos, a ponto de levarem o país a uma guerra fratricida e sem sentido no Iraque só para satisfazer ao complexo industrial militar. Os mórmons pertencem à religião que mais cresce nos Estados Unidos, embora seja mais conhecida entre outros credos por abrigar entre seus devotos os chamados casamentos múltiplos (um homem, às vezes com dezenas de esposas), especialmente em regiões remotas do país.
Em todos os debates que participa, Mitt é confrontado com perguntas sobre a influência da religião no poder, especialmente na tomada de decisões que apaixonam os Estados Unidos atualmente, como a liberação de fundos federais para a pesquisa de células-tronco, direito ao aborto, casamentos entre homossexuais e outras conquistas (ou atrasos, segundo os neoconservadores) da sociedade norte-americana no fim do século passado. Mitt, como bom político, escorrega-se dos petardos com a firmeza de um quiabo, mas no final do dia, como todos sabem, o que vale é uma boa administração.
É neste ponto que Mitt é fantástico. Ele é uma espécie de SWAT que chega com um time de craques para resolver qualquer problema do mundo dos negócios. Formado por Haward (entre os cinco melhores alunos), cresceu como consultor na Bain & Company, mas desiludiu-se ao notar que seus conselhos não eram seguidos. Propôs, e tornou-se sócio, da Bain Capital, que com apenas US$ 37 milhões para investir fez o sucesso de empresas como Brookstone, Sealy, Domino’s Pizza e Staples, na qual colocou US$ 600 mil e hoje fatura US$ 18 bilhões.
Como este formidável DNA de administrador, Mitt foi chamado às pressas para salvar as Olimpíadas da Inverno de 2002, em Salt Lake City (reduto dos mórmons). Em 1999, durante os preparativos, os jogos estavam a perigo, com escândalos de corrupção e US$ 379 milhões de saldo negativo. O homem chegou, cortou custos, arranjou novos patrocinadores e, ao final da competição (“trabalhar lá era como enfrentar um final de uma copa do mundo 17 vezes em 17 dias”) ainda obteve um lucro de US$ 100 milhões.
Foi o passe para lançar seu nome nacionalmente. Em 1994, já tinha tentado arrancar o democrata Ted Kennedy a quase centenária invencibilidade como senador de Massachusetts, mas foi dizimado como uma saraivada de anúncios na TV afirmando que sua atuação na Bain Capital, comprando e vendendo empresas, levou à demissão de milhares de funcionários (e eleitores). Perdeu a eleição para o Senado, mas foi eleito governador do Estado de 2002 a 2006. Lá, virou a mesa transformando um déficit de US$ 3 bilhões num superávit de US$ 1 bilhão, criou seguro saúde universal que hoje é referência nos Estados Unidos e ainda um arrojado plano para proteger a ecologia. Tornou-se, também, presidente da Associação dos Governadores Republicanos, outra plataforma para chegar à Casa Branca.
Como empresário, o forte do candidato Mitt Romney (apenas 11% de preferência nas pesquisas) é obter dinheiro, mas muito dinheiro para eleger-se presidente dos Estados Unidos. É o candidato republicano que mais arrecadou (US$ 23 milhões), embora não tenha superado a favorita dos democratas, Hillary Clinton, que conseguiu, com o apoio do marido, o ex-presidente Bill Clinton, cerca de US$ 26 milhões. O que mais está surpreendendo os analistas é como Romney está conseguindo levantar dinheiro através de pequenas doações no seu site na internet.
Romney poderia ser católico, protestante, judeu, muçulmano ou ateu, mas o fato de ser mórmon o joga numa zona de incerteza pelo próprio desconhecimento que a maioria das pessoas tem da igreja fundada nos Estados Unidos pelo visionário Joseph Smith em 1830 e que hoje conta com mais de 13 milhões de adeptos só nos Estados Unidos. Como é comum não gostarmos daquilo que não conhecemos, por insegurança ou medo, fica difícil saber o que um mórmon vai fazer na Casa Branca.

Um mórmon no poder

Rico, bonito, empresário de sucesso, pai e marido exemplar, sem antecedentes criminais (nem multa por velocidade), republicano e mórmon. O ex-governador de Massachusetts, Mitt Romney, 60 anos, o homem que salvou as Olimpíadas de Salt Lake City em 2002 e fez fortuna com a firma de investimentos Bain Capital, é um dos candidatos mais afluentes entre os republicanos para a sucessão de George Bush – a ponto de ter sido capa de praticamente todas as revistas de negócios desde que o ano começou.
Romney, no entanto, peca por ser mórmon. O país está cansado da mistura entre Igreja e Estado que os neoconservadores encabeçados por Bush promoveram nos últimos anos, a ponto de levarem o país a uma guerra fratricida e sem sentido no Iraque só para satisfazer ao complexo industrial militar. Os mórmons pertencem à religião que mais cresce nos Estados Unidos, embora seja mais conhecida entre outros credos por abrigar entre seus devotos os chamados casamentos múltiplos (um homem, às vezes com dezenas de esposas), especialmente em regiões remotas do país.
Em todos os debates que participa, Mitt é confrontado com perguntas sobre a influência da religião no poder, especialmente na tomada de decisões que apaixonam os Estados Unidos atualmente, como a liberação de fundos federais para a pesquisa de células-tronco, direito ao aborto, casamentos entre homossexuais e outras conquistas (ou atrasos, segundo os neoconservadores) da sociedade norte-americana no fim do século passado. Mitt, como bom político, escorrega-se dos petardos com a firmeza de um quiabo, mas no final do dia, como todos sabem, o que vale é uma boa administração.
É neste ponto que Mitt é fantástico. Ele é uma espécie de SWAT que chega com um time de craques para resolver qualquer problema do mundo dos negócios. Formado por Haward (entre os cinco melhores alunos), cresceu como consultor na Bain & Company, mas desiludiu-se ao notar que seus conselhos não eram seguidos. Propôs, e tornou-se sócio, da Bain Capital, que com apenas US$ 37 milhões para investir fez o sucesso de empresas como Brookstone, Sealy, Domino’s Pizza e Staples, na qual colocou US$ 600 mil e hoje fatura US$ 18 bilhões.
Como este formidável DNA de administrador, Mitt foi chamado às pressas para salvar as Olimpíadas da Inverno de 2002, em Salt Lake City (reduto dos mórmons). Em 1999, durante os preparativos, os jogos estavam a perigo, com escândalos de corrupção e US$ 379 milhões de saldo negativo. O homem chegou, cortou custos, arranjou novos patrocinadores e, ao final da competição (“trabalhar lá era como enfrentar um final de uma copa do mundo 17 vezes em 17 dias”) ainda obteve um lucro de US$ 100 milhões.
Foi o passe para lançar seu nome nacionalmente. Em 1994, já tinha tentado arrancar o democrata Ted Kennedy a quase centenária invencibilidade como senador de Massachusetts, mas foi dizimado como uma saraivada de anúncios na TV afirmando que sua atuação na Bain Capital, comprando e vendendo empresas, levou à demissão de milhares de funcionários (e eleitores). Perdeu a eleição para o Senado, mas foi eleito governador do Estado de 2002 a 2006. Lá, virou a mesa transformando um déficit de US$ 3 bilhões num superávit de US$ 1 bilhão, criou seguro saúde universal que hoje é referência nos Estados Unidos e ainda um arrojado plano para proteger a ecologia. Tornou-se, também, presidente da Associação dos Governadores Republicanos, outra plataforma para chegar à Casa Branca.
Como empresário, o forte do candidato Mitt Romney (apenas 11% de preferência nas pesquisas) é obter dinheiro, mas muito dinheiro para eleger-se presidente dos Estados Unidos. É o candidato republicano que mais arrecadou (US$ 23 milhões), embora não tenha superado a favorita dos democratas, Hillary Clinton, que conseguiu, com o apoio do marido, o ex-presidente Bill Clinton, cerca de US$ 26 milhões. O que mais está surpreendendo os analistas é como Romney está conseguindo levantar dinheiro através de pequenas doações no seu site na internet.
Romney poderia ser católico, protestante, judeu, muçulmano ou ateu, mas o fato de ser mórmon o joga numa zona de incerteza pelo próprio desconhecimento que a maioria das pessoas tem da igreja fundada nos Estados Unidos pelo visionário Joseph Smith em 1830 e que hoje conta com mais de 13 milhões de adeptos só nos Estados Unidos. Como é comum não gostarmos daquilo que não conhecemos, por insegurança ou medo, fica difícil saber o que um mórmon vai fazer na Casa Branca.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Como demitir controladores de vôo

Há exatos 26 anos, o então presidente Ronald Reagan desceu aos jardins da Casa Branca para bater o martelo: se cerca de 13 mil dos 17,5 mil controladores de vôo do Professional Air Traffic Controllers Organization (PATCO) não voltassem ao trabalho em 48 horas, seriam demitidos sumariamente e expulsos para sempre do serviço público.
Dois dias depois, os controladores esperaram que o velho cowboy piscasse, mas o que ocorreu foi surpreendente. Reagan demitiu, com uma só canetada, todos os controladores grevistas e mudou para sempre a história da aviação comercial e do movimento sindical nos Estados Unidos.
O presidente, que segundo se dizia à época não conseguia mascar chiclete e andar ao mesmo tempo, mas tinha consciência de seu poder e sabia utilizá-lo, aproveitou-se de uma lei de 1955 que proibia greves entre funcionários públicos federais, sob pena de multa e um ano de cadeia, para fazer o que fez.
Muitos funcionários de outros setores, como carteiros, já haviam parado. Mas num setor estratégico, responsável pela segurança de milhões de passageiros lá no céu, não se concebia uma paralisação.
Sob a alegação de que seu trabalho é muito estressante, os controlares desde o início de 1981 pediam aumento de US$ 10 mil anuais, redução para quatro dias de trabalho por semana e aposentadoria integral depois de 20 anos de trabalho. Ao todo, suas reivindicações custariam aos cofres do governo cerca de US$ 770 milhões.
A FFA – Federal Aviation Administration contra-ofertou com um pacote de cerca de US$ 40 milhões, que incluía uma semana de trabalho mais curta e 10% de aumento para controladores que trabalham durante a noite, extensivo aos instrutores. Depois de quase sete meses de negociações, 95% deles rejeitaram a contra oferta. Foi o sinal amarelo para que o governo começasse a esboçar um plano de ação.
Apesar dos controladores terem escolhido o período de verão para cruzar os braços, provocando prejuízos de mais de US$ 30 milhões diários a empresas como Braniff, Eastern, American e TWA, que juntas faziam 14 mil vôos comerciais diários carregando mais de 800 mil passageiros – 60% deles em viagens de negócios – e ainda 10 mil toneladas de carga, o plano da FFA funcionou tranquilamente.
Aproximadamente três mil supervisores se juntaram a dois mil fura-greves e cerca de novecentos militares para controlar os principais aeroportos norte-americanos. A Agência também ordenou que as companhias aéreas reduzissem em 50% os vôos durante os horários de pico nos principais aeroportos por questões de segurança. Aproximadamente 60 torres de controle foram programadas para sair do ar até segunda ordem. Mais de 45 mil pessoas registraram-se para ser treinadas e, assim, substituir os grevistas demitidos.
Naturalmente, houve problemas numa situação emergencial como esta. Muita gente perdeu negócios, produtos perecíveis – como, por exemplo, órgãos para transplantes - se estragaram – e as locadoras de automóveis e ferrovias ficaram apinhadas de gente querendo ir de um ponto A para um ponto B.
Os grevistas, através do PATCO, foram à imprensa para falar que, sem eles, os passageiros e todo o sistema aéreo estariam em perigo, mas pouca coisa de ruim aconteceu depois que o tráfego foi reduzido, o monitoramento aumentado e os 33 mil pilotos redobraram a atenção para evitar “chuveiradas de alumínio”, como os controlares chamam os desastres aéreos.
Em pouco tempo, mais de 80% dos vôos estavam operando normalmente, enquanto os vôos de carga permaneceram virtualmente inalterados.
Mesmo vitorioso, o governo, que tinha a população a seu lado, não parou por aí. Pôs muitos grevistas na cadeia e indiciou 75 deles, ao mesmo tempo em que juízes federais impuseram uma multa de US$ 1 milhão por dia ao sindicato grevista, que quase foi varrido do mapa depois de perder a certificação do Federal Labor Relations Authority.
O governo ainda descobriu que poderia controlar os céus com 20% a menos de controladores. Dois anos depois, o setor, que movimentava cerca de US$ 30 bilhões e empregava cerca de 340 mil pessoas já naquela época, tinha aumentado em 6% o movimento de aeronaves.
Reagan hoje deve estar no céu, descansando em paz, com a sensação do dever cumprido depois de ter sido eleito presidente para proteger os cidadãos que, vez por outra, passeiam pelos céus.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Meu nome é Forest Gump

A vida imita a arte, e é por este motivo que o grupo Viacom está celebrando uma década de lucros com uma idéia nascida em um dos mais formidáveis filmes de todos os tempos: Forest Gump, ganhador de seis Oscars, inclusive de melhor ator para Tom Hanks.
Para quem não se lembra, Forest vai à guerra do Vietnã e faz de
Benjamin Buford "Bubba" (Mykelti Williamson), um negro que conhecia tudo sobre camarões e só falava sobre camarões, seu melhor amigo.
Bubba, que tinha um QI tão baixo quanto Gump, morre numa emboscada vietnamita. Forest volta como herói, fica famoso e cria a Bubba Gump Shrimp Co., entre outros projetos de sucesso que coincidem com os principais marcos da história recente dos Estados Unidos.
A Paramount, que distribui o filme e hoje pertence à Viacom , já ganhou quase um bilhão de dólares apenas como a exibição de Forest, depois de ter investido míseros US$ 58 milhões. Mas, embalada pelo sucesso do filme entre uma legião de adoradores, criou no final de 1996 a rede temática de restaurantes que transformou-se uma máquina de ganhar dinheiro.
Freqüentar o Bumba Gump, que além dos Estados Unidos também tem diversas filiais aqui no México e na Ásia, é como mergulhar no set do filme. Obviamente, tudo gira em torno de camarões, que Bumba chamava insistentemente de “a fruta do mar”: fritos, salgados, assados, doces, à La Creole, sopas, coquetéis, churrascos, pipocados, com limão, coco, pimenta, abacaxi, em saladas, em sanduíches – é difícil escolher.
O filme é passado em telões e, como em todos os filmes geniais, não dá para tirar o olho enquanto se come camarões, preferencialmente com morritos, a bebida cubana. O cardápio é uma raquete de pingue-pongue (Forest foi campeão mundial e, através deste esporte, “responsável” pela reabertura do diálogo entre China e Estados Unidos na década de 70). Antes de chegar às mesas, passa-se por uma pequena loja onde se podem comprar camisetas, bonés e souvenires do filme.
Nas paredes, estão afixados os ditados maternos (cujo papel é representado pela excelente Sally Field) sempre repetidos por Gump, como “a vida é uma caixa de chocolates – você nunca sabe o que você vai pegar”, e, numa tradução livre, “não existem pessoas burras – apenas burrices”. Se você quiser chamar o garçom, levante uma placa azul que diz “Corra, Gump”, a frase que o tornou “campeão” de futebol americano e, já na década de 70, “precursor” do jogging.
Os restaurantes são caros para uma rede temática (pense entre 50 a 100 dólares por pessoa), e depois desta overdose de Forest Gump é difícil querer voltar e passar pela experiência novamente. Mas sempre permanece a idéia de que a história é feita por pessoas comuns, descompromissadas econômica e politicamente, que transformam o mundo porque apenas fizeram o que se esperava que fizessem quando, por uma obra do destino, estão nas horas e nos lugares certos.
Assim é Forest Gump. Limítrofe, aleijado na infância, arranjadinho, bom moço, motivo de chacota dos colegas e do desprezo dos mais velhos, Gump é o centro de eventos notáveis, como o surgimento de Elvis Presley, a revelação de Watergate e o nascimento da Apple. No filme, ele também aparece como co-autor de Imagine, a música-hino de John Lennon.
Gump, também através de efeitos especiais, graças ao trabalho de Ken Ralston (pelo qual ganhou um Oscar) participa do episódio da entrada de alunos negros (pela primeira vez) na Universidade do Alabama, e visita os ex-presidentes John F. Kennedy, Lyndon Johnson e Richard Nixon na Casa Branca, por motivos diversos e sempre fazendo alguma coisa ridícula – e televisionada em branco e preto para todo o país.
O filme, que ainda ganhou mais de 24 diferentes prêmios e é motivo de culto até hoje, é um retrato da América, do herói que contra tudo e contra todos (inclusive ele mesmo, devido à sua limitada inteligência) veio, viu e venceu, como faziam os romanos. É um dos 100 melhores filmes de todos os tempos, segundo o ranking do American Film Institute.
É, também, motivo de polarização entre os críticos, um debate semelhante a quem assistiu, durante a ditadura militar no Brasil, ao embate entre A Banda, de Chico Buarque, e Disparada, de Geraldo Vandré. A metade acha que trata-se de um melodrama pop, enquanto a outra metade diz que o filme é tão doce quanto uma caixa de chocolates. Ou mesmo um delicioso coquetel de camarão.

segunda-feira, 16 de julho de 2007

México: decifra-me ou te devoro

Atravessar a fronteira do Rio Grande e chegar ao México é como entrar, aos poucos, num filme de Zorro. Não temos mais Don Diego de La Vega se travestindo de cavaleiro vingador e tantos outros personagens que revelavam, ainda no século 19, uma Alta Califórnia quente, modorrenta, desértica, cristã e ao mesmo tempo cheia de injustiças – algo que os ricos irmãos de norte utilizavam como antítese do que não queriam ser - tanto que acabaram incorporando à força este território aos Estados Unidos.
O México continua sendo pobre por estar tão perto dos Estados Unidos e tão longe de Deus, como diz a lenda, mas o que o país está fazendo, mesmo sendo viciado em petróleo, turismo e remessas dos emigrantes mexicanos que pularam a cerca e foram morar acima do Rio Grande – itens que perfazem mais de 60% da renda nacional– é de dar inveja a países que competem com a maior nação de língua espanhola do mundo no comércio internacional.
Mesmo mergulhado na corrupção, num sistema político arcaico, frágil e ineficiente e nas origens do seu povo (a maioria da população é mestiça entre os usurpadores espanhóis e os resignados índios), o PIB chegou a US$ 1,1 trilhão ano passado (12º no mundo em poder de compra), a renda per capta a US$ 11,2 mil (duas vezes a brasileira), e seus habitantes (109 milhões no último senso) vivem, segundo a ONU, um pouquinho pior do que nós no índice de desenvolvimento humano.
A música é, na maioria das vezes, insuportável (uma espécie de torneio de cornetas histriônicas), a comida é uma mistura de qualquer coisa com tortilhas e pimenta, e a área de serviços não tem pressa nenhuma em atender os fregueses, algo muito parecido com os nossos baianos, que segundo se diz só entram em pânico no dia seguinte.
É um povo melancólico, acomodado, de pouco riso, que só demonstra o orgulho nacional quando a seleção, que não fez feio na Copa América, está jogando. Mas, em compensação, tirando a máfia do narcotráfico e os coiotes da fronteira, não é violento, não seqüestra os filhos da classe média e trata bem o turista, pelo menos os estrangeiros.
O México faliu em 1994 (como o Brasil, foi socorrido na última hora por então presidente americano Bill Clinton), e por isto mesmo foi obrigado a fazer a lição de casa. Hoje, é uma economia moderna e diversificada que fez o óbvio para estar onde está: abriu os portos a mais de 40 nações, principalmente com os Estados Unidos e Canadá (destino de 90% do seu comércio), Europa, Japão, Israel e países vizinhos da América Central. Praticamente todo o seu comércio externo se faz debaixo do guarda-chuva de acordos internacionais.
Ao abrir os portos, reduziu a chamada pobreza extrema de 24,2% para 17,6% de 2000 a 2004, cresceu a uma taxa média de 5,1% de 1995 a 2002 e, como nós, manteve a inflação em níveis civilizados, algo em torno de 3,3%, reduzindo o débito externo a 20% do PIB. Hoje, o México divide com o Chile a melhor classificação de crédito entre todos os países da América Latina.
Mas o que impressiona mesmo é o desempenho do presidente Felipe Calderón. Quase impossibilitado de assumir o poder exatamente há um ano diante dos protestos do candidato de esquerda, Andrés Manuel López Obrador, Calderón aproveita sua popularidade (65%) para trabalhar: em apenas duas semanas, conseguiu a aprovação da reforma da previdência do país e agora aprovará a reforma fiscal, fazendo com que os mexicanos que trabalham debaixo do pano venham à luz. Calcula-se que a reforma vai aumentar a coleta dos impostos em pelo menos 3% do Produto Interno Bruto.
Calderón fez da guerra contra o crime e o tráfego de drogas o centro da sua administração. Logo que assumiu o poder mandou 24 mil soldados para as regiões produtoras de drogas para manter a paz. A tacada tornou-se bastante popular, o que lhe possibilitou limpar a polícia federal mexicana e dar cursos de treinamento para mais de 1 mil oficiais. O que fez mais sucesso, no entanto, foi a obrigação de revistar as mochilas dos alunos quando entram e saem das escolas.
O México descobriu há tempo que o comércio internacional é uma espécie de panacéia para os males que afligiram esta nação desde que foi fundada. Modesta e consistentemente, sem falso nacionalismo, xenofobia ou as chamadas perdas internacionais (como dizia Leonel Brizola), está trabalhando para conquistar seu lugar ao sol.

terça-feira, 10 de julho de 2007

Enfim , o sonho da casa própria

Se você quer morar nos Estados Unidos, adora o clima das montanhas e tem dinheiro sobrando no bolso, aqui vai uma oportunidade única: o corretor Joshua Saslove acaba de colocar à venda o que vem a ser casa mais cara do mundo, em Aspen, Colorado, por US$ 135 milhões, sem descontos.
A mansão de 17 mil metros quadrados, um pouco maior que a Casa Branca, tem 15 quartos, 16 banheiros, salão de beleza (ao lado da suíte máster) e, segundo mediu o The New York Times, espaço suficiente para uma festa de 450 pessoas. São necessários 12 empregados para cuidar do bangalô.
O rancho Hala, que significa bem-vindo em árabe, pertence ao polêmico príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Bandar bin Sultan bin Adul Al Saud, ex-embaixador nos Estados Unidos de 1983 a 2005 e hoje secretário geral do Conselho de Segurança Nacional. Ele é filho bastardo do prínce Sultan bin Abdul Aziz e amigo íntimo dos Bush, pai e filho.
Bandar, que tem oito filhos, fez o seu refúgio de 39 hectares em Aspen com o dinheiro de sua herança e, mais ainda, com os lucros que obteve intermediando compras de armas britânicas pela Arábia Saudita nos valor de US$ 80 bilhões, incluindo mais de 100 caças. O dinheiro ajuda a pagar pela gasolina do seu jato Airbus A 340.
Mais de mil pessoas, muitos deles pertencentes ao grupo de 943 bilionários existentes hoje no mundo, segundo a revista Forbes, já se inscreveram para visitar a mansão, mas somente 11 o fizeram até agora. Se você estiver interessado em vê-la, mas não tem tempo de ir a Aspen, há fotos disponíveis no site
www.christiesgreatestates.com/properties/view_13243/ . Segundo Joshua, seu trabalho básico é dizer “não” aos pretendentes que não têm tanto dinheiro assim para comprar a mansão.
Hala é o ponto máximo da chamada “bolha” habitacional que vem elevando os preços das casas nos Estados Unidos a níveis exponenciais desde o estouro de outra “bolha”, a da Internet, em 2001, quando os investidores ficaram mais ariscos e resolveram se salvaguardar comprando residências com juros de pai para filho, de 1 a 6% ao ano, sob as bênçãos do presidente do Banco Central americano da época, Alan Greenspan.
A mania de comprar casas, que as pessoas acreditam ser um bom investimento (e é, mas somente pela especulação dos preços), faz com que atualmente, segundo o governo norte-americano, cerca 70% da população seja dona de residências, com pagamentos mensais médios de US$ 1.687, cerca de duas vezes mais o preço médio dos aluguéis no país: US$ 868 por mês.
O preço médio de uma casa nos Estados Unidos, segundo a Associação Nacional dos Corretores, está em US$ 206 mil, um aumento médio de 15% sobre o ano passado e 55% sobre os últimos cinco anos. Se você comprou aqui uma casa em 2002, provavelmente obteve 275% de retorno no seu investimento, o que deixa as bolsas de valores no chinelo.
Por isto boa parte dos proprietários entra na onda de refinanciar suas casas. Somente em 2004, fizeram mais de US$ 139 bilhões com estes refinanciamentos. 35% do dinheiro foi para fazer melhorias nas próprias casas, 16% em compras diversas e 26% para pagar antigos débitos, principalmente de cartão de crédito, como revelou a revista Time.
Na opinião de muitos economistas, o mercado residencial foi e é a salvação da lavoura para os Estados Unidos depois do estouro da bolha ponto com. Desde o início deste século é uma espécie de corrida do ouro onde todo mundo pode ficar rico se tiver um pouco de dinheiro (pelo menos 10 mil dólares) e espírito empresarial. É difícil encontrar alguém que não esteja envolvido com o setor, que não seja construtor, agente, corretor, financiador, remodelador etc.
Todo mundo adverte que a bolha vai estourar a qualquer momento. E que, com os preços das casas voltando aos patamares civilizados, pessoas que contraíram empréstimos para comprá-las, mesmo sem garantias reais, como no chamado mercado secundário, estarão de uma hora para outra com débitos que não poderão ser honrados. A bola de neve, segundo os economistas, pode causar um estrago de proporções astronômicas no país.

terça-feira, 3 de julho de 2007

Todos somos imigrantes

A não ser pelo homem de Neanderthal, que deve ter vivido e morrido sem abandonar as proximidades da caverna em que nasceu, todos nós somos imigrantes. Nossos antepassados (ou nós mesmos) singraram mares, cruzaram territórios no dorso de mulas ou foram para o aeroporto e pegaram o avião para um novo país, em busca do que todo mundo quer: segurança, dinheiro e felicidade, não necessariamente nesta ordem.
Nos Estados Unidos, o problema é que quem chegou antes – descendentes de ingleses, alemães e holandeses – está achando que os quase 20 milhões de imigrantes ilegais que aportaram aqui nos últimos anos são uma ameaça ao estilo de vida norte-americano e, particularmente, ao inglês como linguagem comum. Esquecem que, como na história do ovo e da galinha, o país só ainda cresce porque tem gente disposta a trabalhar por cinco dólares a hora – o que, em bom economês, significa ganhos de produtividade.
Morar aqui é ter um vizinho de Taiwan, um encanador da Ucrânia, um taxista do Punjabi, uma babá do Camboja, um garçom mexicano e um xerife da Etiópia. Todos tentam falar a língua de Shakespeare com exóticos sotaques, mas, ao mesmo tempo, celebram o Quatro de Julho, Dia da Independência, hasteando a bandeira nas janelas de suas casas. Sem eles, diz o vinicultor Terry Harrison, proprietário da vinícola Steppe Cellars aqui no deserto de Washington, “eu não poderia vender este Chardonnay a menos de 10 dólares a garrafa”.
É com este espírito que o presidente George W. Bush está empurrando goela abaixo dos congressistas novo pacote para os imigrantes, que os legaliza desde que entrem, novamente, mas pela porta da frente: documentados, com dinheiro, dentro dos prazos e trâmites legais. O povo está contra: acha que o pacote, que voltou a renascer semana passada no Congresso, sob o alento do democrata Bob Kennedy, premia quem atravessou ilegalmente a fronteira do Rio Grande fugindo dos coiotes e das milícias.
Bush está com uma batata quente nas mãos. Rodeado por babás e serviçais mexicanos desde a infância no Texas, o presidente sabe da importância imigrantes do México nos Estados Unidos. Iletrados, cheios de filhos que às vezes só falam espanhol e obrigam o sistema educacional público a ser bilíngüe, brotam aqui (já são oito milhões de mexicanos ilegais) para dar uma banana à história e recuperar um território – o sudoeste dos Estados Unidos – tomado deles em diferentes guerras.
Embora a imagem dos Estados Unidos não esteja lá estas coisas hoje em dia, todo mundo quer vir para cá. Por vontade própria ou refugiando-se das guerras ao redor do globo. Só em 2006, o país aceitou mais imigrantes como residentes permanentes do que todos os outros países do mundo combinados. Ao mesmo tempo, mesmo construindo um muro de duas mil milhas na fronteira com o México ou criando programas de trabalhadores temporários, não consegue deter a leva de ilegais que chega a quase um milhão de pessoas por ano.
Receber este povo, que pouco depois que chegam aqui arranjam emprego, casa própria, escola para os filhos e carro na garagem – coisas que muitos deles não tiveram em seus países– gera controvérsia em torno de racismo, etnia, benefícios econômicos, criminalidade, valores morais e até hábitos de trabalho. Programas jornalísticos da TV, como o de Lou Dubbs na CNN, só tratam deste tema, e na maioria das vezes com raiva.
A Califórnia, que tem um governador austríaco,
Arnold Schwarzenegger, e um prefeito de Los Angeles descendente de mexicanos, Antonio Villaraigosa, já tem 65% de sua população latina. Um dos candidatos democratas à presidência, Bill Richardson, tem mãe mexicana. Os latinos estão caminhando para se tornar maioria no Texas, Arizona, Flórida e outros estados do Sul. Dados do Censo demonstram que estão invadindo os estados centrais à procura de trabalho que os americanos não querem mais fazer.
Vendo o copo metade cheio, ou invés de metade vazio, como é comum, a forma mais apropriada de enxergar os Estados Unidos não é considerá-lo, como se supõe, um país ameaçado pelos estrangeiros. Ao contrário, seu território virou uma imensa ONU com gente de todo o mundo que celebra, aqui, a antes improvável convivência de praticamente todas as raças da Terra.
A ironia desta história é que justamente esta fusão é que faz a grandeza o país.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Cansado dos políticos? Eleja um empresário

Muitos políticos roubam, deixam roubar ou fazem as duas coisas juntas porque, além da cara-de-pau, fazem parte de um jogo inventado na antiga Grécia, a democracia, no qual eram eleitos pelas idéias, não pelo dinheiro. Ainda não tinham nascido os outdoors, os santinhos ou a televisão. Exigir bons modos desta raça é hipocrisia. É como pedir à raposa comedimento no trato com as colegas do galinheiro. Como neste caso a raposa é quem faz a lei no galinheiro, é difícil que as regras sejam mudadas. Mas como ainda não descobriram um sistema melhor do que a democracia, como dizia Winston Churchill, aqui vai o exemplo do prefeito de Nova York, Michael Bloomberg. O empresário, que ficou rico com um sistema de informações com o seu sobrenome que hoje vale mais de US$ 20 bilhões, não precisa roubar, nem para si nem para seus asseclas — que também são bilionários. Não tem cabo eleitoral, empreiteira pagando contas, lobistas batendo a sua porta, agência de publicidade para lavar dinheiro ou dívidas de campanha. Pagou do próprio bolso ambas as campanhas, em 2001 e 2005. E, na semana passada, ao anunciar que vai deixar o Partido Republicano e se tornar independente, com vistas à sucessão presidencial ano que vem, aventou a possibilidade de abrir o bolso novamente: meio bilhão de dólares para chegar à Casa Branca. Fosse pobre ou classe média, Bloomberg teria que angariar correligionários, criar comitês, passar a mão na cabeça de gente importante e ficar à mercê de interesses muitas vezes não tão republicanos, como a direita religiosa, os banqueiros de Wall Street, o completo industrial-militar ou as celebridades de Hollywood. Ele não é bonito, não faz discursos eloqüentes e ninguém sabe o que se passa na sua cabeça. O empresário de 65 anos faz o que bem quer, mas, astuto, trata Nova York como uma empresa de 18,9 milhões de acionistas. Quem vota é sempre um cliente. Seu primeiro ato frente à Prefeitura foi criar um imenso mesão de corretora onde todos trabalham juntos - e rápido. Se você, por exemplo, viu um muro pichado na Quinta Avenida, ligue 311 e dentro de poucas horas o muro voltará a ficar branco. Depois de cinco anos e meio como prefeito, tem a aprovação de 70% dos habitantes. Nascido democrata, tornado republicado e agora independente, Bloomberg é o oposto da turma que está em Washington. É a favor do casamento gay, do direito ao aborto, do controle de armas e das pesquisas de célula-tronco, bandeiras de uma cidade que lança as tendências de todo o mundo. Também proibiu o fumo e gordura trans em todos os restaurantes. Herdou uma metrópole traumatizada — e com um rombo de US$ 6 bilhões — pelos ataques de 11 de setembro de 2001. Mesmo assim, fez o contrário do que todo mundo aconselha: aumentou os impostos, o que gerou mais US$ 3 bilhões anuais no caixa. Conseguiu dinheiro para seguir sua idéia fixa de tratar a cidade com uma marca e fixar, como meta, 50 milhões de visitantes/ano. Para tanto, julgou ser indispensável diminuir o crime, oferecer bom transporte público (ele vai de metrô trabalhar todos os dias) e manter a cidade limpa. E, também, contratar um diretor de Marketing com um orçamento de US$ 22 milhões anuais. O resultado está aí: a cidade recebeu 40 milhões de visitantes já no ano passado. Trabalhar com Bloomberg, que é fixado em metas (e cobranças diárias), mais se parece com o inferno em plena Terra, a exemplo de certas empresas da iniciativa privada. Como não tem rabo preso com ninguém, não precisou, nem precisa, contratar cabos eleitorais ou seus indicados. Só gente boa, selecionada a dedo e, de preferência, com MBA nas costas. O prefeito, que também tem um MBA por Haward, será lembrado, no entanto, pela mudança radical que operou no sistema de ensino da cidade. Combateu os sindicatos, proibiu celulares em sala de aula, pagou decentemente os professores e, em maio deste ano, anunciou que a taxa de graduação do nível médio chegou a 60%, a maior marca desde 1986. Bloomberg, que vem se tornando capa das revistas de negócios dos Estados Unidos por aplicar a Bíblia empresarial à prefeitura de Nova York, parece ser, como disse a Business Week, a mistura certa de gerenciamento, risco e habilidade política que pode definir um novo modelo de serviço público, inclusive em nível nacional - objetivo que o prefeito não assume em público. Mas que está bem perto da Casa Branca, isto está.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Paris Hilton faz dinheiro até no xadrez

Os Estados Unidos pararam na semana passada para assistir, impávidos, à herdeira dos Hotéis Hilton, Paris Hilton, 26 anos, voltar para uma minúscula cela na prisão feminina de Los Angeles, na Califórnia, onde cumprirá pena de 45 dias por dirigir bêbada. Paris já tinha sido encarcerada, mas ganhou prisão domiciliar (e coleira eletrônica) depois de se recusar a comer e entrar em depressão. Voltou para as grades chorando e gritando pela mãe. Mais uma vez, Paris demonstrou sua capacidade para gerar mídia, como se ela e os paparazzi tivessem nascidos um para o outro. Todas as redes de TV - inclusive a cabo - colocaram helicópteros durante horas para filmar sua volta à prisão - e, novamente, provocar o debate sobre esta celebridade que se tornou famosa, em 2003 por fazer sexo com o namorado num vídeo distribuído à exaustão pelo Youtube. A moça, que se não trabalhasse teria direito a US$ 1 bilhão de herança dos hotéis e da fortuna do pai, que é corretor de imóveis em West Hollywood, é uma máquina de fazer dinheiro: girou quase US$ 260 milhões em diferentes empreendimentos em 2006 e colocou no bolso cerca de US$ 7 milhões, tornando-se uma das pessoas do show business que mais faturou no ano passado. Paris é tudo que um pai não deseja numa filha ou, em termos históricos, é um monumento ao nada. Faz sexo para milhões de internautas (interrompeu o ato para atender um celular), fala palavrões em público (TVs estão sendo penalizadas por mantê-la no ar vomitando impropérios), trata os pobres, negros e latinos como porcos e sua ausência, como se brinca no Brasil, preenche uma lacuna: a herdeira não contribui em nada para o bem da humanidade, a ponto de ser eleita numa pesquisa da Associated Press como o pior modelo de celebridade de 2006 e, pelo Guinness, o livro dos recordes, como a personalidade mais exagerada de todos os tempos. Da solidão da prisão de 2 x 3 metros, disse que recebeu um chamado de Deus e fará de tudo para se comportar daqui em diante. Atriz, modelo, empresária, cantora, designer, socialite e agora escritora, pois acaba de lançar sua autobiografia, Paris sabe, como poucos, chamar atenção e encher os bolsos. Por exemplo, ganhou US$ 400 mil do ex-namorado na Justiça pela não-autorizada distribuição de sua pornochanchada na internet. Seu livro, pelo qual ganhou US$ 100 mil de adiantamento e ainda carinhoso depoimento de Donald Trump, esteve durante semanas na lista dos mais vendidos do jornal The New York Times. Ajudou a desenhar uma coleção de pulseiras Samantha Thavasa, uma linha de jóias para a Amazon, e ainda um perfume para a marca Parlux Fragrances em sua homenagem (nomes: Paris Hilton, Paris Hilton for Women, Paris Hilton for Men, Just Me Paris Hilton, Paris Hilton: Heiress and Paris Hilton: Heir). Paris também emprestou seu nome para uma rede de casas noturnas e, justamente por fazer o contrário do que qualquer herdeira faria, mobiliza a audiência Internacional. Loira, cara de boneca e magrela, Paris tem tanto poder na mídia que até os âncoras Don Rather e Brian Willians já pediram desculpas em pleno ar por serem obrigados a noticiar seus passos em direção à prisão - ou simplesmente qualquer respiro seu. É um reconhecimento sobre o que a mídia, hoje, é obrigada a relatar, especialmente para não perder a audiência de crianças e adolescentes. A empresária, que controla a empresa Paris, Inc. com a ajuda da família e se considera uma mescla de "mulher de negócios e uma marca", já recebeu elogios do avô, Barron Hilton ("você trabalha mais do que todos os meus executivos e de qualquer pessoa que conheço"). Paris, no entanto, não precisa dos elogios do avô. "Acho que toda década tem um ícone loiro, como Marylin Monroe ou a princesa Diana, e agora, sou eu este ícone", diz. Como apontou na semana passada o escritor Khaled Housseini, do livro Caçador de Pipas, na rádio pública PBS, histórias como a de Paris Hilton - e em outras épocas Branca de Neve, Gata Borralheira etc - sempre fazem sucesso por comparar ricos e pobres, bem e mal-nascidos, maus e bons, ódio e amor, brancos e não tão brancos, a mídia, apenas, reproduz o desejo humano de idolatrar estes contos-de-fada. No caso de Paris Hilton, é preciso trocar o sótão de um castelo medieval pelo xadrez de Los Angeles.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

História de um rato que ruge

Seu país está em crise, precisa de dinheiro, a popularidade está em baixa e seu poder está em jogo? Ameace os Estados Unidos ou Israel, seu histórico aliado. E não se esqueça de chamar a mídia e fazer barulho, muito barulho. É o que fazem a Coréia do Norte, o Irã, a Venezuela e agora, revolvendo a extinta Guerra Fria, o presidente russo Vladimir Putin. Como menino mimado, e às vésperas da reunião do G8 na semana passada na Alemanha, Putin ameaçou apontar seus mísseis para o "mundo livre", como eram chamados os países ocidentais no passado, caso os Estados Unidos insistam em instalar mísseis na Europa Oriental para evitar um possível ataque nuclear do Irã ou de qualquer país do Eixo do Mal (ou fora dele). Com uma guerra de palavras, que dominou as manchetes de todo o mundo por uma semana, Putin colocou a Rússia, que hoje não passa de um elefante sentado em imensas reservas de petróleo, no radar dos acontecimentos. Do jeito que se gabava o Kremlin quando a União Soviética ainda existia. Como a história é cíclica, e como os Estados Unidos serão os xerifes do mundo por muitos anos ainda, veremos cada vez mais os americanos como uma mescla de dominadores e reféns de países que, política ou economicamente, precisam deles para sobreviver. Não fazem nada contra a China, que rouba os empregos americanos e do mundo com pirataria e câmbio desvalorizado, porque os chineses detêm boa parte da dívida externa dos Estados Unidos. Não fazem nada contra o México, que despeja aqui milhões de trabalhadores ilegais, pois a economia americana cresce porque, entre outros fatores, conta com mão-de-obra barata, iletrada, ilegal e estrangeira. Não fazem nada contra a Rússia, seu histórico inimigo por mais de meio século, porque precisam de seu petróleo e podem ser alcançados pelas armas nucleares que foram concebidas e construídas, justamente, para acabar com os Estados Unidos. A teoria é esta. Ameace os Estados Unidos, chame a atenção para o seu país, que mais ou cedo ou mais tarde chegarão bilhões de dólares que o complexo industrial militar norte-americano precisa dar vazão anualmente. Com um PIB de US$ 13 trilhões (22% da economia mundial), boa parte deles queimados na manutenção da maior força armada do mundo (US$ 350 bilhões só no Iraque até agora), os Estados Unidos precisam encontrar encrenca (e resolvê-la) e aceitar provocações onde for para manterem esta máquina funcionando - seja em nome da democracia, da geopolítica, do petróleo, da religião ou de outro argumento qualquer. Foi o que o que captou o escritor irlandês Leonard Webberley, que já em 1955 criou uma série de livros satíricos baseados no Ducado de Grande Fenwick, começando com O rato que ruge. No livro, que depois virou filme com o ator inglês Peter Sellers, este fictício Ducado, incrustado nos Alpes Suíços, se vê ameaçado quando um americano resolve criar um vinho que competiria com seu principal e único produto de exportação, um pinot noir tão "saboroso" que só deixa ressacas como lembrança. Com a ameaça de perder a galinha dos ovos de ouro e de ser varrido do mapa para sempre, o Ducado, por obra de seu primeiro-ministro, resolve declarar guerra aos Estados Unidos. Atravessam o Atlântico numa antiquada nau, chegam à Nova York num dia em que a cidade estava deserta, seqüestram o cientista que estava fazendo a bomba "Q", conseguem de um general um atestado de que tinham vencido a guerra e voltam para o Ducado com todos no navio, inclusiva a bomba. É aí que surge uma das cenas mais engraçadas da história do cinema. O almirante do Condado, que sofria de enjôos toda vez que entrava em qualquer embarcação, chega aos pés da rainha e anuncia que tinha ganhado a guerra contra os Estados Unidos, para desespero de todo o mundo. A rainha quase tem uma síncope. O que os grupos insurgentes no Iraque não perceberam até hoje é que, se os Estados Unidos ganharem a guerra, se tornariam uma potência no Oriente Médio. Teriam de dar um basta ao radicalismo islâmico, engolir os sanduíches do McDonalds e o café do Starbucks. Mesmo assim, seriam uma potência. É o que a história, até hoje, provou.

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Al Gore, presidente dos Estados Unidos?

Finalmente surge uma luz na sonolenta, previsível e amontoada corrida presidencial nos Estados Unidos. O ex-vice-presidente norte-americano Albert "Al" Gore Jr., o homem que construiu a internet e há cinco anos percorre o planeta alertando para o derretimento das calotas globais, pode ser o próximo - e imbatível - candidato do Partido Democrata à Presidência, se depender de boa parte do eleitorado, das estrelas de Hollywood e de ícones da tecnologia, como Steve Jobs, dono da Apple. Gore, que sofreu uma roubada da história quando perdeu no Colégio Eleitoral a eleição para George W. Bush em 2000 - fato que até agora não engoliu - é hoje o que se chama de unanimidade nacional, um sentimento que não aparece aqui desde John F. Kennedy e Martin Luther King. Sua apresentação em powerpoint, Uma verdade inconveniente, com a qual ganhou o Oscar de melhor documentário este ano, elevou-o ao favoritimismo para ganhar o Prêmio Nobel da Paz de 2007. Menestrel do aquecimento global, Gore acaba de ser capa da revista Time ("A Última Tentação de Gore") pelo lançamento de seu novo livro, O assalto à razão. Só não assume a candidatura porque está faltando o voto de um eleitor: ele mesmo. A eleição de Gore, que é bom de voto (antes de tornar-se vice-presidente foi deputado federal e senador pelo Tennessee), é importante porque pode mudar o destino dos Estados Unidos, o maior poluidor da Terra, e por conseqüência, de todo o mundo. Sentado no Salão Oval da Casa Branca, Gore significaria a retirada imediata das tropas no Iraque, o fim da dependência do petróleo, seguro saúde universal para os americanos, impulso à internet como arma para a educação e redução da pobreza, a volta dos superávits orçamentários e uma série de quebra de paradigmas que apaixona os progressistas do país. Mais ainda, o mundo voltaria a respirar com a saída da direita religiosa que se apoderou da Casa Branca e que, embora tenha sido eleita duas vezes por metade dos 300 milhões de norte-americanos (ou de seus representantes), torna-se a cada dia mais impopular no país e fora dele. Além de simpático, bem nascido, elegante e ético, Gore é ecológico de carteirinha, a ponto de levar sua cesta para o supermercado e evitar os sacos plásticos poluentes. Formado por Haward em Letras, ex-correspondente de guerra (embora se opusesse ao conflito do Vietnã, foi convocado e serviu como fotógrafo de uma revista especializada, Army Flier), é casado com Tipper Gore, pai de quatro filhos e está ficando rico não só com as centenas de palestras que dá anualmente, mas também com a administração de um fundo de investimentos "verde", que aplica em projetos sustentáveis, Generation Investment Management. Acaba de comprar uma mansão de 1910 em Nashville (capital da música country), Tennessee, de onde escreve seus artigos e comanda o esforço global rumo ao esfriamento do planeta. É membro do board da Apple e do Google, de onde empurra estas empresas para seu movimento ecológico. Diz-se que a derrota política é a pior dor que um homem pode experimentar, e evitá-la novamente é principal motivo que faz com que Gore não caia na vala política e se candidate pela terceira vez à Casa Branca. O político democrata, que atualmente diz não morrer de amores pela política, não foi posto à prova em nenhum cargo público executivo, embora como vice-presidente tenha lançado as bases do que é hoje a Internet. Ao mesmo tempo, não se sabe como Gore reagiria às demandas atuais, como o terrorismo. O que ele faria nos dias seguintes a 11 de setembro de 2001, quando as Torres Gêmeas e parte do Pentágono foram destruídas por Osama Bin Laden? O Iraque teria sido invadido durante sua presidência? O clima na Terra estaria melhor caso ele tivesse ganho a eleição para a presidência no início do século? Em termos históricos perguntas como estas são despropositadas, mas Gore tem um grande eleitor do outro lado, o presidente George W. Bush. O homem é atordoado todas as noites com a possibilidade de novos ataques aos Estados Unidos e, por causa disto, acorda diariamente tropeçando no front externo e interno. Embora com boas intenções (que presidente não tem boas intenções?), está na hora de Bush passar o chapéu para o sucessor e se livrar da enrascada que meteu seu país nos últimos oito anos.

Al Gore, presidente dos Estados Unidos?

Finalmente surge uma luz na sonolenta, previsível e amontoada corrida presidencial nos Estados Unidos. O ex-vice-presidente norte-americano Albert "Al" Gore Jr., o homem que construiu a internet e há cinco anos percorre o planeta alertando para o derretimento das calotas globais, pode ser o próximo - e imbatível - candidato do Partido Democrata à Presidência, se depender de boa parte do eleitorado, das estrelas de Hollywood e de ícones da tecnologia, como Steve Jobs, dono da Apple. Gore, que sofreu uma roubada da história quando perdeu no Colégio Eleitoral a eleição para George W. Bush em 2000 - fato que até agora não engoliu - é hoje o que se chama de unanimidade nacional, um sentimento que não aparece aqui desde John F. Kennedy e Martin Luther King. Sua apresentação em powerpoint, Uma verdade inconveniente, com a qual ganhou o Oscar de melhor documentário este ano, elevou-o ao favoritimismo para ganhar o Prêmio Nobel da Paz de 2007. Menestrel do aquecimento global, Gore acaba de ser capa da revista Time ("A Última Tentação de Gore") pelo lançamento de seu novo livro, O assalto à razão. Só não assume a candidatura porque está faltando o voto de um eleitor: ele mesmo. A eleição de Gore, que é bom de voto (antes de tornar-se vice-presidente foi deputado federal e senador pelo Tennessee), é importante porque pode mudar o destino dos Estados Unidos, o maior poluidor da Terra, e por conseqüência, de todo o mundo. Sentado no Salão Oval da Casa Branca, Gore significaria a retirada imediata das tropas no Iraque, o fim da dependência do petróleo, seguro saúde universal para os americanos, impulso à internet como arma para a educação e redução da pobreza, a volta dos superávits orçamentários e uma série de quebra de paradigmas que apaixona os progressistas do país. Mais ainda, o mundo voltaria a respirar com a saída da direita religiosa que se apoderou da Casa Branca e que, embora tenha sido eleita duas vezes por metade dos 300 milhões de norte-americanos (ou de seus representantes), torna-se a cada dia mais impopular no país e fora dele. Além de simpático, bem nascido, elegante e ético, Gore é ecológico de carteirinha, a ponto de levar sua cesta para o supermercado e evitar os sacos plásticos poluentes. Formado por Haward em Letras, ex-correspondente de guerra (embora se opusesse ao conflito do Vietnã, foi convocado e serviu como fotógrafo de uma revista especializada, Army Flier), é casado com Tipper Gore, pai de quatro filhos e está ficando rico não só com as centenas de palestras que dá anualmente, mas também com a administração de um fundo de investimentos "verde", que aplica em projetos sustentáveis, Generation Investment Management. Acaba de comprar uma mansão de 1910 em Nashville (capital da música country), Tennessee, de onde escreve seus artigos e comanda o esforço global rumo ao esfriamento do planeta. É membro do board da Apple e do Google, de onde empurra estas empresas para seu movimento ecológico. Diz-se que a derrota política é a pior dor que um homem pode experimentar, e evitá-la novamente é principal motivo que faz com que Gore não caia na vala política e se candidate pela terceira vez à Casa Branca. O político democrata, que atualmente diz não morrer de amores pela política, não foi posto à prova em nenhum cargo público executivo, embora como vice-presidente tenha lançado as bases do que é hoje a Internet. Ao mesmo tempo, não se sabe como Gore reagiria às demandas atuais, como o terrorismo. O que ele faria nos dias seguintes a 11 de setembro de 2001, quando as Torres Gêmeas e parte do Pentágono foram destruídas por Osama Bin Laden? O Iraque teria sido invadido durante sua presidência? O clima na Terra estaria melhor caso ele tivesse ganho a eleição para a presidência no início do século? Em termos históricos perguntas como estas são despropositadas, mas Gore tem um grande eleitor do outro lado, o presidente George W. Bush. O homem é atordoado todas as noites com a possibilidade de novos ataques aos Estados Unidos e, por causa disto, acorda diariamente tropeçando no front externo e interno. Embora com boas intenções (que presidente não tem boas intenções?), está na hora de Bush passar o chapéu para o sucessor e se livrar da enrascada que meteu seu país nos últimos oito anos.