terça-feira, 28 de agosto de 2007

Advogados de US$ 1 mil a hora

A eleição na semana passada do advogado de Seattle William Neukom como presidente da poderosa American Bar Association, uma espécie de OAB dos Estados Unidos, está sendo vista aqui como o coroamento de uma profissão que, embora cercada de criticismo, está fazendo a fortuna de muita gente e hoje é uma das carreiras mais desejadas no mundo ocidental.
Gravata borboleta e cabelos grisalhos, o novo presidente da ABA, sócio do pai de Bill Gates (
K&L Gates) e filantropo, fez fortuna trabalhando como advogado da Microsoft durante 25 anos. Neste quarto de século, construiu as trincheiras para que a empresa resistisse às acusações de monopólio, plágio ou qualquer destes petardos contra quem lidera (ou monopoliza) o mercado.
Com discurso tranqüilo e infalível de quem está ao lado da lei (vale à pena ver a posse na
internet) Newkom não falou das fortunas que os advogados estão embolsando. Político, criticou as recentes leis que limitam a privacidade dos americanos e a demissão de nove procuradores que não rezavam na mesma cartilha republicana do presidente.
Newkom representa uma associação de mais de 400 mil advogados norte-americanos, a maior de todo o mundo, que, nos últimos tempos, tornou-se (mesmo a contragosto, pois advogado gosta de ser conhecido como homem das leis e não como empresário) óleo da engrenagem capitalista. Aqui, advogado é tão fundamental quanto médico, embora as receitas por vezes não garantam ficar livre do encarceramento e da perda dos bens.
País do litígio, onde a maioria dos filmes termina em julgamento e onde se assina contrato até para serviços de encanador, os Estados Unidos possuem um exército de meio milhão de advogados que brotam do chão ao mínimo sinal de que você, sua empresa ou seu animal de estimação provocou dano em alguém – ou vice-versa.
Aqui não existem rígidos limites impostos pelas ordens dos advogados para o marketing da profissão. As sociedades de advogados investem milhões de dólares em anúncios de 30 segundos em rede nacionais de TV (“você tem alguma doença relacionada com telhas de amianto?) ou em outdoors nas auto-entradas ( “se você se sente lesado em qualquer coisa que seja ligue para 0800-LAWYER”). A própria American Bar Association coloca em seu site
manuais de marketing para advogados.
Boa parte deste exército, no entanto, é composta de soldados rasos – advogados que ganham cerca de US$ 54 por hora, ou em média US$ 113,6 mil por ano, segundo o Department of Labour, o equivalente ao nosso Ministério do Trabalho. Mas se você trabalhar duro, seguir as regras e pagar os impostos, como diz o mantra do capitalismo norte-americano, pode cobrar bem mais.
Na semana passada, por exemplo, foi quebrado um tabu que rondava esta profissão abraçada por 25 dos 43 presidentes norte-americanos até hoje: a hora dos advogados top ultrapassou US$ 1 mil, o que garantiu a primeira página do The Wall Street Journal para uma turma de profissionais relutantes em confirmar as faturas de quatro dígitos. Mesmo a contragosto, pelo menos três sociedades de advogados confirmaram os números:
Simpson Thacher & Barlett, Cadwalader, Wickersham & Taft, e Fried , Frank, Harris, Shriver & Jacobson LLP, as três de Nova York.
Nos Estados Unidos ganhar bem não é motivo de vergonha – pelo contrário, se você ganha bem é porque vale quanto pesa. Mesmo assim, o mais famoso advogado americano, David Boies, da
Boies, Schiller & Flexner LLP, (“a litigation powerhouse”) ponderou: “É um pouco difícil imaginar qualquer pessoa que não salve vidas valer este dinheiro”. Outro advogado novaiorquinho, que preferiu não se identificar, foi mais direto: “nós advogados relutamos muito tempo em ultrapassar a barreira dos mil dólares porque achamos que nossos clientes simplesmente vomitariam”.
Entre os grandes escritórios de advocacia, a hora trabalhada pelos advogados vinha subindo em média de 6 a 7% anualmente desde o ano 2000 até chegar ao máximo de mil dólares atuais, embora às vezes possam ser incluídas “taxas de sucesso” que elevam os rendimentos dos attorneys a níveis estratosféricos.
“Mil dólares por hora tem um significado simbólico”, diz Robert Rosenberg, da
Latham & Watkins LLP. “Como o ano 2000, é apenas um número”. E é mesmo. Quem acompanha a economia americana se assusta com aquisições (ou prejuízos) de dezenas de bilhões de dólares. “Se um jogador de beisebol chega a ganhar 15 mil dólares por hora, é razoável que advogados de renome que resolvem problemas complexos cheguem a ganhar mil dólares por hora”, diz Mike Dillon, advogado da Sun Microsystems.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Como conquistar o investidor americano

Atenção empresários, empreendedores, sonhadores e aventureiros. Mesmo com os mercados financeiros degringolando mundo afora, calcula-se que os Estados Unidos investirão este ano cerca de US$ 60 bilhões em novos negócios ou em projetos que precisam de um empurrãozinho para fazer sucesso.
Desde a bolha da Internet, no fim do século passado, nunca houve tanto dinheiro disponível para fazer um website que vai revolucionar a interação entre as pessoas, uma usina que vai transformar lixo em energia ou um remédio que vai curar os nossos males, entre outras idéias que, por vezes, podem torná-lo bilionário.
Os gringos, como vocês sabem, quando se lembram de nós, nos vêem como uma ilha longínqua e paradisíaca, abatida por violência e corrupção e presidida por um ex-operário.
Quem nos conhece mais de perto nos considera desorganizados, não confiáveis (chegar na hora, terno-e-gravata, planejar com antecedência etc.) e não entendem o português ou muito menos o inglês que pensamos que falamos. Em resumo, têm tolerância zero para desculpas esfarrapadas.
Portanto, antes de conquistar os corações (e os bolsos) dos investidores, aqui vão algumas recomendações para seu projeto brilhar no coração do capitalismo.
- Faça o plano de negócios. O business plan é a bíblia do mundo empresarial americano. Descreva o problema, a solução, o tamanho do mercado, prováveis clientes, a estratégia de vendas, parceiros, o modelo de negócios, os competidores (se não houver competidores é porque o negócio não presta) e quem vai administrar. Depois adicione uma planilha Excel com números que façam sentido (e que impressionem) e, por último, apresente a proposta, de preferência irrecusável. Faça a versão para o inglês, edite de uma forma elegante e revise dezenas de vezes. Um errinho (principalmente de inglês) é fatal. Não se esqueça de fazer um resumo que fisgue o investidor em não mais de 10 minutos (veja gráfico).
- Tenha um representante nos Estados Unidos. Mesmo com o advento do Skype, MSN, videoconferência ou algo que o valha, investidor quer ver o olho de quem ele vai apostar o seu rico dinheirinho. Pode ser uma empresa especializada, um consultor ou até aquele primo de terceiro grau do seu cunhado que se mudou para cá há dez anos, desde que ele (ou ela) fale inglês como português, entenda de números e conheça o estranho palavreado do mundo dos investimentos (uma boa dica é começar pela palavra “equity”). Grande parte dos prováveis negócios entre os dois países falha porque, devido à distância, uma das partes esquece, se desinteressa ou tem preguiça de fazer o follow up. Pague o justo (existem todos os tipos de preços) e, no máximo, ofereça bônus caso o negócio dê certo. Os consultores daqui costumam fazer dos Estados Unidos um bicho de sete cabeças, mas eles estão blefando a maior parte do tempo. Os americanos são como nós, só que fazem o dever de casa.
- O ideal é ter um pé aqui. O melhor dos mundos, no entanto, é que você tenha uma filial aqui que possa servir de interlocutora. Hoje em dia, o investidor não quer apenas depositar o dinheiro na conta, mas sim participar ativamente do processo, colocando a mão na massa ou metendo o bedelho através dos chamados conselhos de administração, ou boards. Como estar longe dos olhos é estar longe do coração, os empreendedores daqui, mesmo que não tenham idéias tão geniais quanto a sua, acabam levando vantagem e comendo o maior pedaço do bolo.
- Em Roma, como os romanos. Notícias sobre corrupção, violência, caos aéreo etc. deixam o investidor americano, que tem medo até da sombra, inseguro. Pode parecer conversa de Polyana, mas eles acham que fazer negócios corretamente não é apenas a melhor maneira de fazer negócios, mas a única forma. Por que aqui, caso você não jogue sob as regras, como eles dizem, há uma grande chance de você ir para a cadeia ou simplesmente ser expulso e nunca mais voltar ao mercado. Portanto, seja transparente. Mostre que você acorda cedo e dorme tarde, que os funcionários estão unidos e entusiasmados e que os clientes estão batendo à porta. Planeje e execute a longuíssimo prazo. Planilhas Excel semanais e coloridas com todos os números do negócio são recomendáveis. Ao contrário de nós, os americanos detestam surpresas.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Produtos Chineses? Não, Obrigado

Está certo que um entre cada cinco seres humanos seja chinês, que precisa comer, se vestir, ganhar dinheiro e criar filhos. Mas é injusto que o progresso da China esteja sendo feito à custa da estagnação econômica e social em países pobres como o Brasil, México e outros que também possuem mão de obra iletrada, barata e disponível.
Os Estados Unidos ainda não se mexeram porque boa parte do seu débito, cerca de US$ 4,9 trilhões, está nas mãos dos chineses, que por não possuírem proteção do Estado poupam em média 45% do que ganham. E, também, porque podem rodar a maquininha de fazer dólar e são criativos para criarem novas necessidades e novos empregos, como se viu nos últimos anos com o advento da Internet.
Aqui, no entanto, está fazendo sucesso um livro da jornalista Sara Bongiorni,
A Year Without "Made in China": One Family's True Life Adventure in the Global Economy, relato da experiência de uma família que ficou um ano sem consumir qualquer produto (ou ingrediente, ou peça ou qualquer coisa) chinês. Bongiorni não chegou a passar fome, mas de repente ficou sem cafeteira, sem televisor e sem muitas outras coisas porque simplesmente, como se sabe, a China virou a fábrica do mundo.
Só que esta fábrica está vendendo produtos que podem trazer grandes riscos para a saúde e, até, matar consumidores de pastas de dente, bicicletas, pneus, tiragostos e até comida para animais de estimação. Pelo menos seis agências federais norte-americanas estão lutando para avisar os desavisados (
www.recalls.gov). Além de produtos envenenados , aqui vão outras razões para evitarmos artigos chineses.
- A China é uma ditadura. É mesmo, e das piores. É impossível calcular o número de dissidentes que mofam em suas prisões porque ousaram ser livres. Não há direito de expressão, organização, religião, voto, trabalho etc. É um comunismo hipócrita onde nove entre cada dez milionários são dirigentes da camarilha que se instalou no poder desde Mao Tse Tung. Há fatos que soam bem aos ouvidos de muita gente, como corruptos levando balas na cabeça em estádios (e a família tem de pagar pela bala) mas, para quem viveu sob ditaduras, liberdade (com justiça) é tudo.
- A China destrói a natureza. Segundo a Organização Mundial da Saúde, sete em cada dez cidades mais poluídas do mundo estão na China. Vários estudos estimam que a poluição custe à economia chinesa cerca de 10% do Produto Interno Bruto. Desde 2002, o número de reclamações às autoridades do meio ambiente aumenta 30% ao ano, chegando a 600 mil em 2004. Com uma economia baseada na queima de carvão, há cidades onde é difícil respirar.
- A China utiliza mão de obra escrava. Um empresário de Seattle fabricava artigos aqui pagando mil dólares para o trabalhador norte-americano. Mudou-se para o México nos anos 90 pagando 125 dólares para cada empregado. Agora, paga 25 dólares por mês aos chineses. Está achando caro e por isto está procurando uma forma de se estabelecer no Vietnã. Com esta exploração da mão de obra, Karl Marx deve estar se revirando no túmulo.
- A China é a rainha da pirataria – Chegam a cúmulo de copiar carros, como o Chevy, da General Motors. A principal atração turística de Pequim não é a Cidade Proibida, mas um mercado de quinquilharias chamado Pearl Market, um prédio de seis andares onde se pode comprar todas as “marcas” famosas. O governo se gaba de ter reduzido a pirataria de softwares de 92 para 82%. Está certo que os piratas e contrabandistas, como dizia o finado Roberto Campos, são os heróis do capitalismo, mas sem direitos autorais não há invenções.
- A China é corrupta – Somente em 2006 cerca de 60 mil funcionários do governo foram presos por corrupção. Há pouco tempo, o diretor do FDA chinês, Zheng Xiaoyu, foi executado por aceitar propinas no valor de US$ 850 mil de oito companhias farmacêuticas para aprovar remédios que levaram à morte mais de 10 pessoas. Em 2007 chineses já foram obrigados a fazer recall de vários produtos nos Estados Unidos, especialmente na área de comidas de animais e brinquedos infantis.
É certo que a China está demonstrando ao mundo que os produtos e serviços podem ser feitos ou ofertados por um preço ínfimo, criando um novo paradigma que muita gente chama de leilão reverso. Se países que respeitam as regras do livre mercado não reagirem, a China vai acabar com as possibilidades de sermos, um dia, uma nação desenvolvida – e democrática.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Um mórmon no poder

Rico, bonito, empresário de sucesso, pai e marido exemplar, sem antecedentes criminais (nem multa por velocidade), republicano e mórmon. O ex-governador de Massachusetts, Mitt Romney, 60 anos, o homem que salvou as Olimpíadas de Salt Lake City em 2002 e fez fortuna com a firma de investimentos Bain Capital, é um dos candidatos mais afluentes entre os republicanos para a sucessão de George Bush – a ponto de ter sido capa de praticamente todas as revistas de negócios desde que o ano começou.
Romney, no entanto, peca por ser mórmon. O país está cansado da mistura entre Igreja e Estado que os neoconservadores encabeçados por Bush promoveram nos últimos anos, a ponto de levarem o país a uma guerra fratricida e sem sentido no Iraque só para satisfazer ao complexo industrial militar. Os mórmons pertencem à religião que mais cresce nos Estados Unidos, embora seja mais conhecida entre outros credos por abrigar entre seus devotos os chamados casamentos múltiplos (um homem, às vezes com dezenas de esposas), especialmente em regiões remotas do país.
Em todos os debates que participa, Mitt é confrontado com perguntas sobre a influência da religião no poder, especialmente na tomada de decisões que apaixonam os Estados Unidos atualmente, como a liberação de fundos federais para a pesquisa de células-tronco, direito ao aborto, casamentos entre homossexuais e outras conquistas (ou atrasos, segundo os neoconservadores) da sociedade norte-americana no fim do século passado. Mitt, como bom político, escorrega-se dos petardos com a firmeza de um quiabo, mas no final do dia, como todos sabem, o que vale é uma boa administração.
É neste ponto que Mitt é fantástico. Ele é uma espécie de SWAT que chega com um time de craques para resolver qualquer problema do mundo dos negócios. Formado por Haward (entre os cinco melhores alunos), cresceu como consultor na Bain & Company, mas desiludiu-se ao notar que seus conselhos não eram seguidos. Propôs, e tornou-se sócio, da Bain Capital, que com apenas US$ 37 milhões para investir fez o sucesso de empresas como Brookstone, Sealy, Domino’s Pizza e Staples, na qual colocou US$ 600 mil e hoje fatura US$ 18 bilhões.
Como este formidável DNA de administrador, Mitt foi chamado às pressas para salvar as Olimpíadas da Inverno de 2002, em Salt Lake City (reduto dos mórmons). Em 1999, durante os preparativos, os jogos estavam a perigo, com escândalos de corrupção e US$ 379 milhões de saldo negativo. O homem chegou, cortou custos, arranjou novos patrocinadores e, ao final da competição (“trabalhar lá era como enfrentar um final de uma copa do mundo 17 vezes em 17 dias”) ainda obteve um lucro de US$ 100 milhões.
Foi o passe para lançar seu nome nacionalmente. Em 1994, já tinha tentado arrancar o democrata Ted Kennedy a quase centenária invencibilidade como senador de Massachusetts, mas foi dizimado como uma saraivada de anúncios na TV afirmando que sua atuação na Bain Capital, comprando e vendendo empresas, levou à demissão de milhares de funcionários (e eleitores). Perdeu a eleição para o Senado, mas foi eleito governador do Estado de 2002 a 2006. Lá, virou a mesa transformando um déficit de US$ 3 bilhões num superávit de US$ 1 bilhão, criou seguro saúde universal que hoje é referência nos Estados Unidos e ainda um arrojado plano para proteger a ecologia. Tornou-se, também, presidente da Associação dos Governadores Republicanos, outra plataforma para chegar à Casa Branca.
Como empresário, o forte do candidato Mitt Romney (apenas 11% de preferência nas pesquisas) é obter dinheiro, mas muito dinheiro para eleger-se presidente dos Estados Unidos. É o candidato republicano que mais arrecadou (US$ 23 milhões), embora não tenha superado a favorita dos democratas, Hillary Clinton, que conseguiu, com o apoio do marido, o ex-presidente Bill Clinton, cerca de US$ 26 milhões. O que mais está surpreendendo os analistas é como Romney está conseguindo levantar dinheiro através de pequenas doações no seu site na internet.
Romney poderia ser católico, protestante, judeu, muçulmano ou ateu, mas o fato de ser mórmon o joga numa zona de incerteza pelo próprio desconhecimento que a maioria das pessoas tem da igreja fundada nos Estados Unidos pelo visionário Joseph Smith em 1830 e que hoje conta com mais de 13 milhões de adeptos só nos Estados Unidos. Como é comum não gostarmos daquilo que não conhecemos, por insegurança ou medo, fica difícil saber o que um mórmon vai fazer na Casa Branca.

Um mórmon no poder

Rico, bonito, empresário de sucesso, pai e marido exemplar, sem antecedentes criminais (nem multa por velocidade), republicano e mórmon. O ex-governador de Massachusetts, Mitt Romney, 60 anos, o homem que salvou as Olimpíadas de Salt Lake City em 2002 e fez fortuna com a firma de investimentos Bain Capital, é um dos candidatos mais afluentes entre os republicanos para a sucessão de George Bush – a ponto de ter sido capa de praticamente todas as revistas de negócios desde que o ano começou.
Romney, no entanto, peca por ser mórmon. O país está cansado da mistura entre Igreja e Estado que os neoconservadores encabeçados por Bush promoveram nos últimos anos, a ponto de levarem o país a uma guerra fratricida e sem sentido no Iraque só para satisfazer ao complexo industrial militar. Os mórmons pertencem à religião que mais cresce nos Estados Unidos, embora seja mais conhecida entre outros credos por abrigar entre seus devotos os chamados casamentos múltiplos (um homem, às vezes com dezenas de esposas), especialmente em regiões remotas do país.
Em todos os debates que participa, Mitt é confrontado com perguntas sobre a influência da religião no poder, especialmente na tomada de decisões que apaixonam os Estados Unidos atualmente, como a liberação de fundos federais para a pesquisa de células-tronco, direito ao aborto, casamentos entre homossexuais e outras conquistas (ou atrasos, segundo os neoconservadores) da sociedade norte-americana no fim do século passado. Mitt, como bom político, escorrega-se dos petardos com a firmeza de um quiabo, mas no final do dia, como todos sabem, o que vale é uma boa administração.
É neste ponto que Mitt é fantástico. Ele é uma espécie de SWAT que chega com um time de craques para resolver qualquer problema do mundo dos negócios. Formado por Haward (entre os cinco melhores alunos), cresceu como consultor na Bain & Company, mas desiludiu-se ao notar que seus conselhos não eram seguidos. Propôs, e tornou-se sócio, da Bain Capital, que com apenas US$ 37 milhões para investir fez o sucesso de empresas como Brookstone, Sealy, Domino’s Pizza e Staples, na qual colocou US$ 600 mil e hoje fatura US$ 18 bilhões.
Como este formidável DNA de administrador, Mitt foi chamado às pressas para salvar as Olimpíadas da Inverno de 2002, em Salt Lake City (reduto dos mórmons). Em 1999, durante os preparativos, os jogos estavam a perigo, com escândalos de corrupção e US$ 379 milhões de saldo negativo. O homem chegou, cortou custos, arranjou novos patrocinadores e, ao final da competição (“trabalhar lá era como enfrentar um final de uma copa do mundo 17 vezes em 17 dias”) ainda obteve um lucro de US$ 100 milhões.
Foi o passe para lançar seu nome nacionalmente. Em 1994, já tinha tentado arrancar o democrata Ted Kennedy a quase centenária invencibilidade como senador de Massachusetts, mas foi dizimado como uma saraivada de anúncios na TV afirmando que sua atuação na Bain Capital, comprando e vendendo empresas, levou à demissão de milhares de funcionários (e eleitores). Perdeu a eleição para o Senado, mas foi eleito governador do Estado de 2002 a 2006. Lá, virou a mesa transformando um déficit de US$ 3 bilhões num superávit de US$ 1 bilhão, criou seguro saúde universal que hoje é referência nos Estados Unidos e ainda um arrojado plano para proteger a ecologia. Tornou-se, também, presidente da Associação dos Governadores Republicanos, outra plataforma para chegar à Casa Branca.
Como empresário, o forte do candidato Mitt Romney (apenas 11% de preferência nas pesquisas) é obter dinheiro, mas muito dinheiro para eleger-se presidente dos Estados Unidos. É o candidato republicano que mais arrecadou (US$ 23 milhões), embora não tenha superado a favorita dos democratas, Hillary Clinton, que conseguiu, com o apoio do marido, o ex-presidente Bill Clinton, cerca de US$ 26 milhões. O que mais está surpreendendo os analistas é como Romney está conseguindo levantar dinheiro através de pequenas doações no seu site na internet.
Romney poderia ser católico, protestante, judeu, muçulmano ou ateu, mas o fato de ser mórmon o joga numa zona de incerteza pelo próprio desconhecimento que a maioria das pessoas tem da igreja fundada nos Estados Unidos pelo visionário Joseph Smith em 1830 e que hoje conta com mais de 13 milhões de adeptos só nos Estados Unidos. Como é comum não gostarmos daquilo que não conhecemos, por insegurança ou medo, fica difícil saber o que um mórmon vai fazer na Casa Branca.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Como demitir controladores de vôo

Há exatos 26 anos, o então presidente Ronald Reagan desceu aos jardins da Casa Branca para bater o martelo: se cerca de 13 mil dos 17,5 mil controladores de vôo do Professional Air Traffic Controllers Organization (PATCO) não voltassem ao trabalho em 48 horas, seriam demitidos sumariamente e expulsos para sempre do serviço público.
Dois dias depois, os controladores esperaram que o velho cowboy piscasse, mas o que ocorreu foi surpreendente. Reagan demitiu, com uma só canetada, todos os controladores grevistas e mudou para sempre a história da aviação comercial e do movimento sindical nos Estados Unidos.
O presidente, que segundo se dizia à época não conseguia mascar chiclete e andar ao mesmo tempo, mas tinha consciência de seu poder e sabia utilizá-lo, aproveitou-se de uma lei de 1955 que proibia greves entre funcionários públicos federais, sob pena de multa e um ano de cadeia, para fazer o que fez.
Muitos funcionários de outros setores, como carteiros, já haviam parado. Mas num setor estratégico, responsável pela segurança de milhões de passageiros lá no céu, não se concebia uma paralisação.
Sob a alegação de que seu trabalho é muito estressante, os controlares desde o início de 1981 pediam aumento de US$ 10 mil anuais, redução para quatro dias de trabalho por semana e aposentadoria integral depois de 20 anos de trabalho. Ao todo, suas reivindicações custariam aos cofres do governo cerca de US$ 770 milhões.
A FFA – Federal Aviation Administration contra-ofertou com um pacote de cerca de US$ 40 milhões, que incluía uma semana de trabalho mais curta e 10% de aumento para controladores que trabalham durante a noite, extensivo aos instrutores. Depois de quase sete meses de negociações, 95% deles rejeitaram a contra oferta. Foi o sinal amarelo para que o governo começasse a esboçar um plano de ação.
Apesar dos controladores terem escolhido o período de verão para cruzar os braços, provocando prejuízos de mais de US$ 30 milhões diários a empresas como Braniff, Eastern, American e TWA, que juntas faziam 14 mil vôos comerciais diários carregando mais de 800 mil passageiros – 60% deles em viagens de negócios – e ainda 10 mil toneladas de carga, o plano da FFA funcionou tranquilamente.
Aproximadamente três mil supervisores se juntaram a dois mil fura-greves e cerca de novecentos militares para controlar os principais aeroportos norte-americanos. A Agência também ordenou que as companhias aéreas reduzissem em 50% os vôos durante os horários de pico nos principais aeroportos por questões de segurança. Aproximadamente 60 torres de controle foram programadas para sair do ar até segunda ordem. Mais de 45 mil pessoas registraram-se para ser treinadas e, assim, substituir os grevistas demitidos.
Naturalmente, houve problemas numa situação emergencial como esta. Muita gente perdeu negócios, produtos perecíveis – como, por exemplo, órgãos para transplantes - se estragaram – e as locadoras de automóveis e ferrovias ficaram apinhadas de gente querendo ir de um ponto A para um ponto B.
Os grevistas, através do PATCO, foram à imprensa para falar que, sem eles, os passageiros e todo o sistema aéreo estariam em perigo, mas pouca coisa de ruim aconteceu depois que o tráfego foi reduzido, o monitoramento aumentado e os 33 mil pilotos redobraram a atenção para evitar “chuveiradas de alumínio”, como os controlares chamam os desastres aéreos.
Em pouco tempo, mais de 80% dos vôos estavam operando normalmente, enquanto os vôos de carga permaneceram virtualmente inalterados.
Mesmo vitorioso, o governo, que tinha a população a seu lado, não parou por aí. Pôs muitos grevistas na cadeia e indiciou 75 deles, ao mesmo tempo em que juízes federais impuseram uma multa de US$ 1 milhão por dia ao sindicato grevista, que quase foi varrido do mapa depois de perder a certificação do Federal Labor Relations Authority.
O governo ainda descobriu que poderia controlar os céus com 20% a menos de controladores. Dois anos depois, o setor, que movimentava cerca de US$ 30 bilhões e empregava cerca de 340 mil pessoas já naquela época, tinha aumentado em 6% o movimento de aeronaves.
Reagan hoje deve estar no céu, descansando em paz, com a sensação do dever cumprido depois de ter sido eleito presidente para proteger os cidadãos que, vez por outra, passeiam pelos céus.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Meu nome é Forest Gump

A vida imita a arte, e é por este motivo que o grupo Viacom está celebrando uma década de lucros com uma idéia nascida em um dos mais formidáveis filmes de todos os tempos: Forest Gump, ganhador de seis Oscars, inclusive de melhor ator para Tom Hanks.
Para quem não se lembra, Forest vai à guerra do Vietnã e faz de
Benjamin Buford "Bubba" (Mykelti Williamson), um negro que conhecia tudo sobre camarões e só falava sobre camarões, seu melhor amigo.
Bubba, que tinha um QI tão baixo quanto Gump, morre numa emboscada vietnamita. Forest volta como herói, fica famoso e cria a Bubba Gump Shrimp Co., entre outros projetos de sucesso que coincidem com os principais marcos da história recente dos Estados Unidos.
A Paramount, que distribui o filme e hoje pertence à Viacom , já ganhou quase um bilhão de dólares apenas como a exibição de Forest, depois de ter investido míseros US$ 58 milhões. Mas, embalada pelo sucesso do filme entre uma legião de adoradores, criou no final de 1996 a rede temática de restaurantes que transformou-se uma máquina de ganhar dinheiro.
Freqüentar o Bumba Gump, que além dos Estados Unidos também tem diversas filiais aqui no México e na Ásia, é como mergulhar no set do filme. Obviamente, tudo gira em torno de camarões, que Bumba chamava insistentemente de “a fruta do mar”: fritos, salgados, assados, doces, à La Creole, sopas, coquetéis, churrascos, pipocados, com limão, coco, pimenta, abacaxi, em saladas, em sanduíches – é difícil escolher.
O filme é passado em telões e, como em todos os filmes geniais, não dá para tirar o olho enquanto se come camarões, preferencialmente com morritos, a bebida cubana. O cardápio é uma raquete de pingue-pongue (Forest foi campeão mundial e, através deste esporte, “responsável” pela reabertura do diálogo entre China e Estados Unidos na década de 70). Antes de chegar às mesas, passa-se por uma pequena loja onde se podem comprar camisetas, bonés e souvenires do filme.
Nas paredes, estão afixados os ditados maternos (cujo papel é representado pela excelente Sally Field) sempre repetidos por Gump, como “a vida é uma caixa de chocolates – você nunca sabe o que você vai pegar”, e, numa tradução livre, “não existem pessoas burras – apenas burrices”. Se você quiser chamar o garçom, levante uma placa azul que diz “Corra, Gump”, a frase que o tornou “campeão” de futebol americano e, já na década de 70, “precursor” do jogging.
Os restaurantes são caros para uma rede temática (pense entre 50 a 100 dólares por pessoa), e depois desta overdose de Forest Gump é difícil querer voltar e passar pela experiência novamente. Mas sempre permanece a idéia de que a história é feita por pessoas comuns, descompromissadas econômica e politicamente, que transformam o mundo porque apenas fizeram o que se esperava que fizessem quando, por uma obra do destino, estão nas horas e nos lugares certos.
Assim é Forest Gump. Limítrofe, aleijado na infância, arranjadinho, bom moço, motivo de chacota dos colegas e do desprezo dos mais velhos, Gump é o centro de eventos notáveis, como o surgimento de Elvis Presley, a revelação de Watergate e o nascimento da Apple. No filme, ele também aparece como co-autor de Imagine, a música-hino de John Lennon.
Gump, também através de efeitos especiais, graças ao trabalho de Ken Ralston (pelo qual ganhou um Oscar) participa do episódio da entrada de alunos negros (pela primeira vez) na Universidade do Alabama, e visita os ex-presidentes John F. Kennedy, Lyndon Johnson e Richard Nixon na Casa Branca, por motivos diversos e sempre fazendo alguma coisa ridícula – e televisionada em branco e preto para todo o país.
O filme, que ainda ganhou mais de 24 diferentes prêmios e é motivo de culto até hoje, é um retrato da América, do herói que contra tudo e contra todos (inclusive ele mesmo, devido à sua limitada inteligência) veio, viu e venceu, como faziam os romanos. É um dos 100 melhores filmes de todos os tempos, segundo o ranking do American Film Institute.
É, também, motivo de polarização entre os críticos, um debate semelhante a quem assistiu, durante a ditadura militar no Brasil, ao embate entre A Banda, de Chico Buarque, e Disparada, de Geraldo Vandré. A metade acha que trata-se de um melodrama pop, enquanto a outra metade diz que o filme é tão doce quanto uma caixa de chocolates. Ou mesmo um delicioso coquetel de camarão.

segunda-feira, 16 de julho de 2007

México: decifra-me ou te devoro

Atravessar a fronteira do Rio Grande e chegar ao México é como entrar, aos poucos, num filme de Zorro. Não temos mais Don Diego de La Vega se travestindo de cavaleiro vingador e tantos outros personagens que revelavam, ainda no século 19, uma Alta Califórnia quente, modorrenta, desértica, cristã e ao mesmo tempo cheia de injustiças – algo que os ricos irmãos de norte utilizavam como antítese do que não queriam ser - tanto que acabaram incorporando à força este território aos Estados Unidos.
O México continua sendo pobre por estar tão perto dos Estados Unidos e tão longe de Deus, como diz a lenda, mas o que o país está fazendo, mesmo sendo viciado em petróleo, turismo e remessas dos emigrantes mexicanos que pularam a cerca e foram morar acima do Rio Grande – itens que perfazem mais de 60% da renda nacional– é de dar inveja a países que competem com a maior nação de língua espanhola do mundo no comércio internacional.
Mesmo mergulhado na corrupção, num sistema político arcaico, frágil e ineficiente e nas origens do seu povo (a maioria da população é mestiça entre os usurpadores espanhóis e os resignados índios), o PIB chegou a US$ 1,1 trilhão ano passado (12º no mundo em poder de compra), a renda per capta a US$ 11,2 mil (duas vezes a brasileira), e seus habitantes (109 milhões no último senso) vivem, segundo a ONU, um pouquinho pior do que nós no índice de desenvolvimento humano.
A música é, na maioria das vezes, insuportável (uma espécie de torneio de cornetas histriônicas), a comida é uma mistura de qualquer coisa com tortilhas e pimenta, e a área de serviços não tem pressa nenhuma em atender os fregueses, algo muito parecido com os nossos baianos, que segundo se diz só entram em pânico no dia seguinte.
É um povo melancólico, acomodado, de pouco riso, que só demonstra o orgulho nacional quando a seleção, que não fez feio na Copa América, está jogando. Mas, em compensação, tirando a máfia do narcotráfico e os coiotes da fronteira, não é violento, não seqüestra os filhos da classe média e trata bem o turista, pelo menos os estrangeiros.
O México faliu em 1994 (como o Brasil, foi socorrido na última hora por então presidente americano Bill Clinton), e por isto mesmo foi obrigado a fazer a lição de casa. Hoje, é uma economia moderna e diversificada que fez o óbvio para estar onde está: abriu os portos a mais de 40 nações, principalmente com os Estados Unidos e Canadá (destino de 90% do seu comércio), Europa, Japão, Israel e países vizinhos da América Central. Praticamente todo o seu comércio externo se faz debaixo do guarda-chuva de acordos internacionais.
Ao abrir os portos, reduziu a chamada pobreza extrema de 24,2% para 17,6% de 2000 a 2004, cresceu a uma taxa média de 5,1% de 1995 a 2002 e, como nós, manteve a inflação em níveis civilizados, algo em torno de 3,3%, reduzindo o débito externo a 20% do PIB. Hoje, o México divide com o Chile a melhor classificação de crédito entre todos os países da América Latina.
Mas o que impressiona mesmo é o desempenho do presidente Felipe Calderón. Quase impossibilitado de assumir o poder exatamente há um ano diante dos protestos do candidato de esquerda, Andrés Manuel López Obrador, Calderón aproveita sua popularidade (65%) para trabalhar: em apenas duas semanas, conseguiu a aprovação da reforma da previdência do país e agora aprovará a reforma fiscal, fazendo com que os mexicanos que trabalham debaixo do pano venham à luz. Calcula-se que a reforma vai aumentar a coleta dos impostos em pelo menos 3% do Produto Interno Bruto.
Calderón fez da guerra contra o crime e o tráfego de drogas o centro da sua administração. Logo que assumiu o poder mandou 24 mil soldados para as regiões produtoras de drogas para manter a paz. A tacada tornou-se bastante popular, o que lhe possibilitou limpar a polícia federal mexicana e dar cursos de treinamento para mais de 1 mil oficiais. O que fez mais sucesso, no entanto, foi a obrigação de revistar as mochilas dos alunos quando entram e saem das escolas.
O México descobriu há tempo que o comércio internacional é uma espécie de panacéia para os males que afligiram esta nação desde que foi fundada. Modesta e consistentemente, sem falso nacionalismo, xenofobia ou as chamadas perdas internacionais (como dizia Leonel Brizola), está trabalhando para conquistar seu lugar ao sol.

terça-feira, 10 de julho de 2007

Enfim , o sonho da casa própria

Se você quer morar nos Estados Unidos, adora o clima das montanhas e tem dinheiro sobrando no bolso, aqui vai uma oportunidade única: o corretor Joshua Saslove acaba de colocar à venda o que vem a ser casa mais cara do mundo, em Aspen, Colorado, por US$ 135 milhões, sem descontos.
A mansão de 17 mil metros quadrados, um pouco maior que a Casa Branca, tem 15 quartos, 16 banheiros, salão de beleza (ao lado da suíte máster) e, segundo mediu o The New York Times, espaço suficiente para uma festa de 450 pessoas. São necessários 12 empregados para cuidar do bangalô.
O rancho Hala, que significa bem-vindo em árabe, pertence ao polêmico príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Bandar bin Sultan bin Adul Al Saud, ex-embaixador nos Estados Unidos de 1983 a 2005 e hoje secretário geral do Conselho de Segurança Nacional. Ele é filho bastardo do prínce Sultan bin Abdul Aziz e amigo íntimo dos Bush, pai e filho.
Bandar, que tem oito filhos, fez o seu refúgio de 39 hectares em Aspen com o dinheiro de sua herança e, mais ainda, com os lucros que obteve intermediando compras de armas britânicas pela Arábia Saudita nos valor de US$ 80 bilhões, incluindo mais de 100 caças. O dinheiro ajuda a pagar pela gasolina do seu jato Airbus A 340.
Mais de mil pessoas, muitos deles pertencentes ao grupo de 943 bilionários existentes hoje no mundo, segundo a revista Forbes, já se inscreveram para visitar a mansão, mas somente 11 o fizeram até agora. Se você estiver interessado em vê-la, mas não tem tempo de ir a Aspen, há fotos disponíveis no site
www.christiesgreatestates.com/properties/view_13243/ . Segundo Joshua, seu trabalho básico é dizer “não” aos pretendentes que não têm tanto dinheiro assim para comprar a mansão.
Hala é o ponto máximo da chamada “bolha” habitacional que vem elevando os preços das casas nos Estados Unidos a níveis exponenciais desde o estouro de outra “bolha”, a da Internet, em 2001, quando os investidores ficaram mais ariscos e resolveram se salvaguardar comprando residências com juros de pai para filho, de 1 a 6% ao ano, sob as bênçãos do presidente do Banco Central americano da época, Alan Greenspan.
A mania de comprar casas, que as pessoas acreditam ser um bom investimento (e é, mas somente pela especulação dos preços), faz com que atualmente, segundo o governo norte-americano, cerca 70% da população seja dona de residências, com pagamentos mensais médios de US$ 1.687, cerca de duas vezes mais o preço médio dos aluguéis no país: US$ 868 por mês.
O preço médio de uma casa nos Estados Unidos, segundo a Associação Nacional dos Corretores, está em US$ 206 mil, um aumento médio de 15% sobre o ano passado e 55% sobre os últimos cinco anos. Se você comprou aqui uma casa em 2002, provavelmente obteve 275% de retorno no seu investimento, o que deixa as bolsas de valores no chinelo.
Por isto boa parte dos proprietários entra na onda de refinanciar suas casas. Somente em 2004, fizeram mais de US$ 139 bilhões com estes refinanciamentos. 35% do dinheiro foi para fazer melhorias nas próprias casas, 16% em compras diversas e 26% para pagar antigos débitos, principalmente de cartão de crédito, como revelou a revista Time.
Na opinião de muitos economistas, o mercado residencial foi e é a salvação da lavoura para os Estados Unidos depois do estouro da bolha ponto com. Desde o início deste século é uma espécie de corrida do ouro onde todo mundo pode ficar rico se tiver um pouco de dinheiro (pelo menos 10 mil dólares) e espírito empresarial. É difícil encontrar alguém que não esteja envolvido com o setor, que não seja construtor, agente, corretor, financiador, remodelador etc.
Todo mundo adverte que a bolha vai estourar a qualquer momento. E que, com os preços das casas voltando aos patamares civilizados, pessoas que contraíram empréstimos para comprá-las, mesmo sem garantias reais, como no chamado mercado secundário, estarão de uma hora para outra com débitos que não poderão ser honrados. A bola de neve, segundo os economistas, pode causar um estrago de proporções astronômicas no país.

terça-feira, 3 de julho de 2007

Todos somos imigrantes

A não ser pelo homem de Neanderthal, que deve ter vivido e morrido sem abandonar as proximidades da caverna em que nasceu, todos nós somos imigrantes. Nossos antepassados (ou nós mesmos) singraram mares, cruzaram territórios no dorso de mulas ou foram para o aeroporto e pegaram o avião para um novo país, em busca do que todo mundo quer: segurança, dinheiro e felicidade, não necessariamente nesta ordem.
Nos Estados Unidos, o problema é que quem chegou antes – descendentes de ingleses, alemães e holandeses – está achando que os quase 20 milhões de imigrantes ilegais que aportaram aqui nos últimos anos são uma ameaça ao estilo de vida norte-americano e, particularmente, ao inglês como linguagem comum. Esquecem que, como na história do ovo e da galinha, o país só ainda cresce porque tem gente disposta a trabalhar por cinco dólares a hora – o que, em bom economês, significa ganhos de produtividade.
Morar aqui é ter um vizinho de Taiwan, um encanador da Ucrânia, um taxista do Punjabi, uma babá do Camboja, um garçom mexicano e um xerife da Etiópia. Todos tentam falar a língua de Shakespeare com exóticos sotaques, mas, ao mesmo tempo, celebram o Quatro de Julho, Dia da Independência, hasteando a bandeira nas janelas de suas casas. Sem eles, diz o vinicultor Terry Harrison, proprietário da vinícola Steppe Cellars aqui no deserto de Washington, “eu não poderia vender este Chardonnay a menos de 10 dólares a garrafa”.
É com este espírito que o presidente George W. Bush está empurrando goela abaixo dos congressistas novo pacote para os imigrantes, que os legaliza desde que entrem, novamente, mas pela porta da frente: documentados, com dinheiro, dentro dos prazos e trâmites legais. O povo está contra: acha que o pacote, que voltou a renascer semana passada no Congresso, sob o alento do democrata Bob Kennedy, premia quem atravessou ilegalmente a fronteira do Rio Grande fugindo dos coiotes e das milícias.
Bush está com uma batata quente nas mãos. Rodeado por babás e serviçais mexicanos desde a infância no Texas, o presidente sabe da importância imigrantes do México nos Estados Unidos. Iletrados, cheios de filhos que às vezes só falam espanhol e obrigam o sistema educacional público a ser bilíngüe, brotam aqui (já são oito milhões de mexicanos ilegais) para dar uma banana à história e recuperar um território – o sudoeste dos Estados Unidos – tomado deles em diferentes guerras.
Embora a imagem dos Estados Unidos não esteja lá estas coisas hoje em dia, todo mundo quer vir para cá. Por vontade própria ou refugiando-se das guerras ao redor do globo. Só em 2006, o país aceitou mais imigrantes como residentes permanentes do que todos os outros países do mundo combinados. Ao mesmo tempo, mesmo construindo um muro de duas mil milhas na fronteira com o México ou criando programas de trabalhadores temporários, não consegue deter a leva de ilegais que chega a quase um milhão de pessoas por ano.
Receber este povo, que pouco depois que chegam aqui arranjam emprego, casa própria, escola para os filhos e carro na garagem – coisas que muitos deles não tiveram em seus países– gera controvérsia em torno de racismo, etnia, benefícios econômicos, criminalidade, valores morais e até hábitos de trabalho. Programas jornalísticos da TV, como o de Lou Dubbs na CNN, só tratam deste tema, e na maioria das vezes com raiva.
A Califórnia, que tem um governador austríaco,
Arnold Schwarzenegger, e um prefeito de Los Angeles descendente de mexicanos, Antonio Villaraigosa, já tem 65% de sua população latina. Um dos candidatos democratas à presidência, Bill Richardson, tem mãe mexicana. Os latinos estão caminhando para se tornar maioria no Texas, Arizona, Flórida e outros estados do Sul. Dados do Censo demonstram que estão invadindo os estados centrais à procura de trabalho que os americanos não querem mais fazer.
Vendo o copo metade cheio, ou invés de metade vazio, como é comum, a forma mais apropriada de enxergar os Estados Unidos não é considerá-lo, como se supõe, um país ameaçado pelos estrangeiros. Ao contrário, seu território virou uma imensa ONU com gente de todo o mundo que celebra, aqui, a antes improvável convivência de praticamente todas as raças da Terra.
A ironia desta história é que justamente esta fusão é que faz a grandeza o país.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Cansado dos políticos? Eleja um empresário

Muitos políticos roubam, deixam roubar ou fazem as duas coisas juntas porque, além da cara-de-pau, fazem parte de um jogo inventado na antiga Grécia, a democracia, no qual eram eleitos pelas idéias, não pelo dinheiro. Ainda não tinham nascido os outdoors, os santinhos ou a televisão. Exigir bons modos desta raça é hipocrisia. É como pedir à raposa comedimento no trato com as colegas do galinheiro. Como neste caso a raposa é quem faz a lei no galinheiro, é difícil que as regras sejam mudadas. Mas como ainda não descobriram um sistema melhor do que a democracia, como dizia Winston Churchill, aqui vai o exemplo do prefeito de Nova York, Michael Bloomberg. O empresário, que ficou rico com um sistema de informações com o seu sobrenome que hoje vale mais de US$ 20 bilhões, não precisa roubar, nem para si nem para seus asseclas — que também são bilionários. Não tem cabo eleitoral, empreiteira pagando contas, lobistas batendo a sua porta, agência de publicidade para lavar dinheiro ou dívidas de campanha. Pagou do próprio bolso ambas as campanhas, em 2001 e 2005. E, na semana passada, ao anunciar que vai deixar o Partido Republicano e se tornar independente, com vistas à sucessão presidencial ano que vem, aventou a possibilidade de abrir o bolso novamente: meio bilhão de dólares para chegar à Casa Branca. Fosse pobre ou classe média, Bloomberg teria que angariar correligionários, criar comitês, passar a mão na cabeça de gente importante e ficar à mercê de interesses muitas vezes não tão republicanos, como a direita religiosa, os banqueiros de Wall Street, o completo industrial-militar ou as celebridades de Hollywood. Ele não é bonito, não faz discursos eloqüentes e ninguém sabe o que se passa na sua cabeça. O empresário de 65 anos faz o que bem quer, mas, astuto, trata Nova York como uma empresa de 18,9 milhões de acionistas. Quem vota é sempre um cliente. Seu primeiro ato frente à Prefeitura foi criar um imenso mesão de corretora onde todos trabalham juntos - e rápido. Se você, por exemplo, viu um muro pichado na Quinta Avenida, ligue 311 e dentro de poucas horas o muro voltará a ficar branco. Depois de cinco anos e meio como prefeito, tem a aprovação de 70% dos habitantes. Nascido democrata, tornado republicado e agora independente, Bloomberg é o oposto da turma que está em Washington. É a favor do casamento gay, do direito ao aborto, do controle de armas e das pesquisas de célula-tronco, bandeiras de uma cidade que lança as tendências de todo o mundo. Também proibiu o fumo e gordura trans em todos os restaurantes. Herdou uma metrópole traumatizada — e com um rombo de US$ 6 bilhões — pelos ataques de 11 de setembro de 2001. Mesmo assim, fez o contrário do que todo mundo aconselha: aumentou os impostos, o que gerou mais US$ 3 bilhões anuais no caixa. Conseguiu dinheiro para seguir sua idéia fixa de tratar a cidade com uma marca e fixar, como meta, 50 milhões de visitantes/ano. Para tanto, julgou ser indispensável diminuir o crime, oferecer bom transporte público (ele vai de metrô trabalhar todos os dias) e manter a cidade limpa. E, também, contratar um diretor de Marketing com um orçamento de US$ 22 milhões anuais. O resultado está aí: a cidade recebeu 40 milhões de visitantes já no ano passado. Trabalhar com Bloomberg, que é fixado em metas (e cobranças diárias), mais se parece com o inferno em plena Terra, a exemplo de certas empresas da iniciativa privada. Como não tem rabo preso com ninguém, não precisou, nem precisa, contratar cabos eleitorais ou seus indicados. Só gente boa, selecionada a dedo e, de preferência, com MBA nas costas. O prefeito, que também tem um MBA por Haward, será lembrado, no entanto, pela mudança radical que operou no sistema de ensino da cidade. Combateu os sindicatos, proibiu celulares em sala de aula, pagou decentemente os professores e, em maio deste ano, anunciou que a taxa de graduação do nível médio chegou a 60%, a maior marca desde 1986. Bloomberg, que vem se tornando capa das revistas de negócios dos Estados Unidos por aplicar a Bíblia empresarial à prefeitura de Nova York, parece ser, como disse a Business Week, a mistura certa de gerenciamento, risco e habilidade política que pode definir um novo modelo de serviço público, inclusive em nível nacional - objetivo que o prefeito não assume em público. Mas que está bem perto da Casa Branca, isto está.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Paris Hilton faz dinheiro até no xadrez

Os Estados Unidos pararam na semana passada para assistir, impávidos, à herdeira dos Hotéis Hilton, Paris Hilton, 26 anos, voltar para uma minúscula cela na prisão feminina de Los Angeles, na Califórnia, onde cumprirá pena de 45 dias por dirigir bêbada. Paris já tinha sido encarcerada, mas ganhou prisão domiciliar (e coleira eletrônica) depois de se recusar a comer e entrar em depressão. Voltou para as grades chorando e gritando pela mãe. Mais uma vez, Paris demonstrou sua capacidade para gerar mídia, como se ela e os paparazzi tivessem nascidos um para o outro. Todas as redes de TV - inclusive a cabo - colocaram helicópteros durante horas para filmar sua volta à prisão - e, novamente, provocar o debate sobre esta celebridade que se tornou famosa, em 2003 por fazer sexo com o namorado num vídeo distribuído à exaustão pelo Youtube. A moça, que se não trabalhasse teria direito a US$ 1 bilhão de herança dos hotéis e da fortuna do pai, que é corretor de imóveis em West Hollywood, é uma máquina de fazer dinheiro: girou quase US$ 260 milhões em diferentes empreendimentos em 2006 e colocou no bolso cerca de US$ 7 milhões, tornando-se uma das pessoas do show business que mais faturou no ano passado. Paris é tudo que um pai não deseja numa filha ou, em termos históricos, é um monumento ao nada. Faz sexo para milhões de internautas (interrompeu o ato para atender um celular), fala palavrões em público (TVs estão sendo penalizadas por mantê-la no ar vomitando impropérios), trata os pobres, negros e latinos como porcos e sua ausência, como se brinca no Brasil, preenche uma lacuna: a herdeira não contribui em nada para o bem da humanidade, a ponto de ser eleita numa pesquisa da Associated Press como o pior modelo de celebridade de 2006 e, pelo Guinness, o livro dos recordes, como a personalidade mais exagerada de todos os tempos. Da solidão da prisão de 2 x 3 metros, disse que recebeu um chamado de Deus e fará de tudo para se comportar daqui em diante. Atriz, modelo, empresária, cantora, designer, socialite e agora escritora, pois acaba de lançar sua autobiografia, Paris sabe, como poucos, chamar atenção e encher os bolsos. Por exemplo, ganhou US$ 400 mil do ex-namorado na Justiça pela não-autorizada distribuição de sua pornochanchada na internet. Seu livro, pelo qual ganhou US$ 100 mil de adiantamento e ainda carinhoso depoimento de Donald Trump, esteve durante semanas na lista dos mais vendidos do jornal The New York Times. Ajudou a desenhar uma coleção de pulseiras Samantha Thavasa, uma linha de jóias para a Amazon, e ainda um perfume para a marca Parlux Fragrances em sua homenagem (nomes: Paris Hilton, Paris Hilton for Women, Paris Hilton for Men, Just Me Paris Hilton, Paris Hilton: Heiress and Paris Hilton: Heir). Paris também emprestou seu nome para uma rede de casas noturnas e, justamente por fazer o contrário do que qualquer herdeira faria, mobiliza a audiência Internacional. Loira, cara de boneca e magrela, Paris tem tanto poder na mídia que até os âncoras Don Rather e Brian Willians já pediram desculpas em pleno ar por serem obrigados a noticiar seus passos em direção à prisão - ou simplesmente qualquer respiro seu. É um reconhecimento sobre o que a mídia, hoje, é obrigada a relatar, especialmente para não perder a audiência de crianças e adolescentes. A empresária, que controla a empresa Paris, Inc. com a ajuda da família e se considera uma mescla de "mulher de negócios e uma marca", já recebeu elogios do avô, Barron Hilton ("você trabalha mais do que todos os meus executivos e de qualquer pessoa que conheço"). Paris, no entanto, não precisa dos elogios do avô. "Acho que toda década tem um ícone loiro, como Marylin Monroe ou a princesa Diana, e agora, sou eu este ícone", diz. Como apontou na semana passada o escritor Khaled Housseini, do livro Caçador de Pipas, na rádio pública PBS, histórias como a de Paris Hilton - e em outras épocas Branca de Neve, Gata Borralheira etc - sempre fazem sucesso por comparar ricos e pobres, bem e mal-nascidos, maus e bons, ódio e amor, brancos e não tão brancos, a mídia, apenas, reproduz o desejo humano de idolatrar estes contos-de-fada. No caso de Paris Hilton, é preciso trocar o sótão de um castelo medieval pelo xadrez de Los Angeles.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

História de um rato que ruge

Seu país está em crise, precisa de dinheiro, a popularidade está em baixa e seu poder está em jogo? Ameace os Estados Unidos ou Israel, seu histórico aliado. E não se esqueça de chamar a mídia e fazer barulho, muito barulho. É o que fazem a Coréia do Norte, o Irã, a Venezuela e agora, revolvendo a extinta Guerra Fria, o presidente russo Vladimir Putin. Como menino mimado, e às vésperas da reunião do G8 na semana passada na Alemanha, Putin ameaçou apontar seus mísseis para o "mundo livre", como eram chamados os países ocidentais no passado, caso os Estados Unidos insistam em instalar mísseis na Europa Oriental para evitar um possível ataque nuclear do Irã ou de qualquer país do Eixo do Mal (ou fora dele). Com uma guerra de palavras, que dominou as manchetes de todo o mundo por uma semana, Putin colocou a Rússia, que hoje não passa de um elefante sentado em imensas reservas de petróleo, no radar dos acontecimentos. Do jeito que se gabava o Kremlin quando a União Soviética ainda existia. Como a história é cíclica, e como os Estados Unidos serão os xerifes do mundo por muitos anos ainda, veremos cada vez mais os americanos como uma mescla de dominadores e reféns de países que, política ou economicamente, precisam deles para sobreviver. Não fazem nada contra a China, que rouba os empregos americanos e do mundo com pirataria e câmbio desvalorizado, porque os chineses detêm boa parte da dívida externa dos Estados Unidos. Não fazem nada contra o México, que despeja aqui milhões de trabalhadores ilegais, pois a economia americana cresce porque, entre outros fatores, conta com mão-de-obra barata, iletrada, ilegal e estrangeira. Não fazem nada contra a Rússia, seu histórico inimigo por mais de meio século, porque precisam de seu petróleo e podem ser alcançados pelas armas nucleares que foram concebidas e construídas, justamente, para acabar com os Estados Unidos. A teoria é esta. Ameace os Estados Unidos, chame a atenção para o seu país, que mais ou cedo ou mais tarde chegarão bilhões de dólares que o complexo industrial militar norte-americano precisa dar vazão anualmente. Com um PIB de US$ 13 trilhões (22% da economia mundial), boa parte deles queimados na manutenção da maior força armada do mundo (US$ 350 bilhões só no Iraque até agora), os Estados Unidos precisam encontrar encrenca (e resolvê-la) e aceitar provocações onde for para manterem esta máquina funcionando - seja em nome da democracia, da geopolítica, do petróleo, da religião ou de outro argumento qualquer. Foi o que o que captou o escritor irlandês Leonard Webberley, que já em 1955 criou uma série de livros satíricos baseados no Ducado de Grande Fenwick, começando com O rato que ruge. No livro, que depois virou filme com o ator inglês Peter Sellers, este fictício Ducado, incrustado nos Alpes Suíços, se vê ameaçado quando um americano resolve criar um vinho que competiria com seu principal e único produto de exportação, um pinot noir tão "saboroso" que só deixa ressacas como lembrança. Com a ameaça de perder a galinha dos ovos de ouro e de ser varrido do mapa para sempre, o Ducado, por obra de seu primeiro-ministro, resolve declarar guerra aos Estados Unidos. Atravessam o Atlântico numa antiquada nau, chegam à Nova York num dia em que a cidade estava deserta, seqüestram o cientista que estava fazendo a bomba "Q", conseguem de um general um atestado de que tinham vencido a guerra e voltam para o Ducado com todos no navio, inclusiva a bomba. É aí que surge uma das cenas mais engraçadas da história do cinema. O almirante do Condado, que sofria de enjôos toda vez que entrava em qualquer embarcação, chega aos pés da rainha e anuncia que tinha ganhado a guerra contra os Estados Unidos, para desespero de todo o mundo. A rainha quase tem uma síncope. O que os grupos insurgentes no Iraque não perceberam até hoje é que, se os Estados Unidos ganharem a guerra, se tornariam uma potência no Oriente Médio. Teriam de dar um basta ao radicalismo islâmico, engolir os sanduíches do McDonalds e o café do Starbucks. Mesmo assim, seriam uma potência. É o que a história, até hoje, provou.

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Al Gore, presidente dos Estados Unidos?

Finalmente surge uma luz na sonolenta, previsível e amontoada corrida presidencial nos Estados Unidos. O ex-vice-presidente norte-americano Albert "Al" Gore Jr., o homem que construiu a internet e há cinco anos percorre o planeta alertando para o derretimento das calotas globais, pode ser o próximo - e imbatível - candidato do Partido Democrata à Presidência, se depender de boa parte do eleitorado, das estrelas de Hollywood e de ícones da tecnologia, como Steve Jobs, dono da Apple. Gore, que sofreu uma roubada da história quando perdeu no Colégio Eleitoral a eleição para George W. Bush em 2000 - fato que até agora não engoliu - é hoje o que se chama de unanimidade nacional, um sentimento que não aparece aqui desde John F. Kennedy e Martin Luther King. Sua apresentação em powerpoint, Uma verdade inconveniente, com a qual ganhou o Oscar de melhor documentário este ano, elevou-o ao favoritimismo para ganhar o Prêmio Nobel da Paz de 2007. Menestrel do aquecimento global, Gore acaba de ser capa da revista Time ("A Última Tentação de Gore") pelo lançamento de seu novo livro, O assalto à razão. Só não assume a candidatura porque está faltando o voto de um eleitor: ele mesmo. A eleição de Gore, que é bom de voto (antes de tornar-se vice-presidente foi deputado federal e senador pelo Tennessee), é importante porque pode mudar o destino dos Estados Unidos, o maior poluidor da Terra, e por conseqüência, de todo o mundo. Sentado no Salão Oval da Casa Branca, Gore significaria a retirada imediata das tropas no Iraque, o fim da dependência do petróleo, seguro saúde universal para os americanos, impulso à internet como arma para a educação e redução da pobreza, a volta dos superávits orçamentários e uma série de quebra de paradigmas que apaixona os progressistas do país. Mais ainda, o mundo voltaria a respirar com a saída da direita religiosa que se apoderou da Casa Branca e que, embora tenha sido eleita duas vezes por metade dos 300 milhões de norte-americanos (ou de seus representantes), torna-se a cada dia mais impopular no país e fora dele. Além de simpático, bem nascido, elegante e ético, Gore é ecológico de carteirinha, a ponto de levar sua cesta para o supermercado e evitar os sacos plásticos poluentes. Formado por Haward em Letras, ex-correspondente de guerra (embora se opusesse ao conflito do Vietnã, foi convocado e serviu como fotógrafo de uma revista especializada, Army Flier), é casado com Tipper Gore, pai de quatro filhos e está ficando rico não só com as centenas de palestras que dá anualmente, mas também com a administração de um fundo de investimentos "verde", que aplica em projetos sustentáveis, Generation Investment Management. Acaba de comprar uma mansão de 1910 em Nashville (capital da música country), Tennessee, de onde escreve seus artigos e comanda o esforço global rumo ao esfriamento do planeta. É membro do board da Apple e do Google, de onde empurra estas empresas para seu movimento ecológico. Diz-se que a derrota política é a pior dor que um homem pode experimentar, e evitá-la novamente é principal motivo que faz com que Gore não caia na vala política e se candidate pela terceira vez à Casa Branca. O político democrata, que atualmente diz não morrer de amores pela política, não foi posto à prova em nenhum cargo público executivo, embora como vice-presidente tenha lançado as bases do que é hoje a Internet. Ao mesmo tempo, não se sabe como Gore reagiria às demandas atuais, como o terrorismo. O que ele faria nos dias seguintes a 11 de setembro de 2001, quando as Torres Gêmeas e parte do Pentágono foram destruídas por Osama Bin Laden? O Iraque teria sido invadido durante sua presidência? O clima na Terra estaria melhor caso ele tivesse ganho a eleição para a presidência no início do século? Em termos históricos perguntas como estas são despropositadas, mas Gore tem um grande eleitor do outro lado, o presidente George W. Bush. O homem é atordoado todas as noites com a possibilidade de novos ataques aos Estados Unidos e, por causa disto, acorda diariamente tropeçando no front externo e interno. Embora com boas intenções (que presidente não tem boas intenções?), está na hora de Bush passar o chapéu para o sucessor e se livrar da enrascada que meteu seu país nos últimos oito anos.

Al Gore, presidente dos Estados Unidos?

Finalmente surge uma luz na sonolenta, previsível e amontoada corrida presidencial nos Estados Unidos. O ex-vice-presidente norte-americano Albert "Al" Gore Jr., o homem que construiu a internet e há cinco anos percorre o planeta alertando para o derretimento das calotas globais, pode ser o próximo - e imbatível - candidato do Partido Democrata à Presidência, se depender de boa parte do eleitorado, das estrelas de Hollywood e de ícones da tecnologia, como Steve Jobs, dono da Apple. Gore, que sofreu uma roubada da história quando perdeu no Colégio Eleitoral a eleição para George W. Bush em 2000 - fato que até agora não engoliu - é hoje o que se chama de unanimidade nacional, um sentimento que não aparece aqui desde John F. Kennedy e Martin Luther King. Sua apresentação em powerpoint, Uma verdade inconveniente, com a qual ganhou o Oscar de melhor documentário este ano, elevou-o ao favoritimismo para ganhar o Prêmio Nobel da Paz de 2007. Menestrel do aquecimento global, Gore acaba de ser capa da revista Time ("A Última Tentação de Gore") pelo lançamento de seu novo livro, O assalto à razão. Só não assume a candidatura porque está faltando o voto de um eleitor: ele mesmo. A eleição de Gore, que é bom de voto (antes de tornar-se vice-presidente foi deputado federal e senador pelo Tennessee), é importante porque pode mudar o destino dos Estados Unidos, o maior poluidor da Terra, e por conseqüência, de todo o mundo. Sentado no Salão Oval da Casa Branca, Gore significaria a retirada imediata das tropas no Iraque, o fim da dependência do petróleo, seguro saúde universal para os americanos, impulso à internet como arma para a educação e redução da pobreza, a volta dos superávits orçamentários e uma série de quebra de paradigmas que apaixona os progressistas do país. Mais ainda, o mundo voltaria a respirar com a saída da direita religiosa que se apoderou da Casa Branca e que, embora tenha sido eleita duas vezes por metade dos 300 milhões de norte-americanos (ou de seus representantes), torna-se a cada dia mais impopular no país e fora dele. Além de simpático, bem nascido, elegante e ético, Gore é ecológico de carteirinha, a ponto de levar sua cesta para o supermercado e evitar os sacos plásticos poluentes. Formado por Haward em Letras, ex-correspondente de guerra (embora se opusesse ao conflito do Vietnã, foi convocado e serviu como fotógrafo de uma revista especializada, Army Flier), é casado com Tipper Gore, pai de quatro filhos e está ficando rico não só com as centenas de palestras que dá anualmente, mas também com a administração de um fundo de investimentos "verde", que aplica em projetos sustentáveis, Generation Investment Management. Acaba de comprar uma mansão de 1910 em Nashville (capital da música country), Tennessee, de onde escreve seus artigos e comanda o esforço global rumo ao esfriamento do planeta. É membro do board da Apple e do Google, de onde empurra estas empresas para seu movimento ecológico. Diz-se que a derrota política é a pior dor que um homem pode experimentar, e evitá-la novamente é principal motivo que faz com que Gore não caia na vala política e se candidate pela terceira vez à Casa Branca. O político democrata, que atualmente diz não morrer de amores pela política, não foi posto à prova em nenhum cargo público executivo, embora como vice-presidente tenha lançado as bases do que é hoje a Internet. Ao mesmo tempo, não se sabe como Gore reagiria às demandas atuais, como o terrorismo. O que ele faria nos dias seguintes a 11 de setembro de 2001, quando as Torres Gêmeas e parte do Pentágono foram destruídas por Osama Bin Laden? O Iraque teria sido invadido durante sua presidência? O clima na Terra estaria melhor caso ele tivesse ganho a eleição para a presidência no início do século? Em termos históricos perguntas como estas são despropositadas, mas Gore tem um grande eleitor do outro lado, o presidente George W. Bush. O homem é atordoado todas as noites com a possibilidade de novos ataques aos Estados Unidos e, por causa disto, acorda diariamente tropeçando no front externo e interno. Embora com boas intenções (que presidente não tem boas intenções?), está na hora de Bush passar o chapéu para o sucessor e se livrar da enrascada que meteu seu país nos últimos oito anos.

segunda-feira, 28 de maio de 2007

O homem que matou o facínora

John Wayne, o cowboy valentão que o mundo aprendeu a respeitar em mais de 250 faroestes e filmes de guerra, faria cem anos neste final de semana. O ator, que morreu em 1979 de câncer no pulmão (chegou a fumar cinco maços de cigarro por dia), é lembrado até hoje. Sem dotes artísticos, parecia fazer o mesmo personagem em todos os seus longas-metragens. Mergulhou na extrema direita antes de morrer, numa época em que ser de direita, como se diz, pegava mal. Nascemos e crescemos assistindo ao canastrão Wayne, com uma mão nas rédeas e outro no rifle, atirar nos bandidos, beijar as mocinhas e redimir as injustiças do Velho Oeste, período entre 1865 e 1890 onde os aventureiros, respaldados pela Cavalaria, liquidaram os índios e tomaram conta das terras que chegavam até o Pacífico. Para os críticos, e para o próprio Wayne, Stagecoach, ou No tempo das Diligências, dirigido por John Ford (seu descobridor, professor, amigo e diretor) tornou-se seu melhor filme, o trampolim que o lançaria ao sucesso, a ponto de, no final dos anos 50, ser o ator melhor pago em Hollywood, espécie de Tom Cruise com 1,94 de altura e mais de 120 quilos, só que ganhando apenas US$ 600 mil por atuação. Para os aficionados, no entanto, Wayne fez apenas uma obra- prima. É The Man who Shot Liberty Valance, ou O Homem que Matou o Facínora, de 1962, do próprio John Ford, onde interpreta um cowboy, Tom Doniphon, que ama perdida e platonicamente Hallie (Vera Miles), dona de restaurante. Um dia, chega à cidade de Shinbone, no Arizona, um advogado idealista chamado Ransom Stoddard, interpretado pelo ator favorito dos Estados Unidos, James Stewart. Encantada com a beleza, a energia e o idealismo do recém-chegado, que não usava armas e ainda acreditava em soluções negociadas, Hallie se apaixona por Stewart, fato que deixa Wayne abalado, triste e resignado numa choupana de seu rancho nas montanhas. O destino, como muita gente já adivinhou, é muitas vezes cruel, mas ficaria mais cruel ainda quando começam os rumores que chegaria à pacata Shinbone um criminoso barbudo, olhos vermelhos, cheirando a whiskey e temido em todo o Oeste: Liberty Valance, interpretado por Lee Marvin. Como todo bandido do Velho Oeste, Liberty causa problemas por onde passa. Primeiro foi na estrebaria, depois no saloon, até que, numa noite, humilha Stoddart (Stewart) na frente de Hallie em seu restaurante. Indignado, Stewart se rende aos costumes da época, esquece seus princípios (como tem gente que esquece...) e vai para o meio da rua duelar com o facínora. Para surpresa de todos, o mocinho pacifista mata o sanguinário criminoso com um tiro certeiro, e assim fica famoso, torna-se deputado, governador e senador - e, para desespero de Wayne, casa-se com Hallie e vivem felizes para sempre. Num dia, Stewart, já velho e cheio de histórias para contar, volta a Shinbone em companhia da esposa. Ainda na estação de trem, são entrevistados por um jornal local, quando revelam que estavam ali para acompanhar o enterro de um velho cowboy, Wayne. É aí que história dá uma reviravolta. Mesmo com ciúmes de Stewart, que lhe roubara a namorada e sua futura mulher, Wayne, na verdade, foi o homem que, escondido atrás de um poste perto do saloon, descarregou sua Winchester e realmente matou o facínora. Poucas pessoas sabiam desta verdade, a não ser Stewart, sua mulher e o falecido herói. No final do filme, e depois de contar a verdade, Stewart se levanta, agradece a entrevista e pergunta quando o jornalista vai publicar a história. O repórter põe o chapéu na cabeça, guarda no bolso o bloco de anotações, levanta-se e diz que não vai sair nada no jornal. "Senhor, aqui é o Oeste", diz ele. "Quando uma lenda torna-se um fato, publicamos a lenda." A cena, que encerra o filme, mostra a eterna briga jornalística (e histórica) entre o fato e a versão. Wayne, o cowboy arrogante e valentão, mostra-se humilde, puro e injustiçado, vive o resto da sua vida na miséria, sozinho, sem o amor de Harrie. Stewart, que se apresenta como pacifista, idealista e sonhador, é na verdade o facínora que encobriu a verdade durante toda a vida para ficar famoso e conquistar os eleitores. Você, como se diz, já deve ter visto este filme.

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Para que servem as tragédias

Todo negócio tem seu risco, mas quando um Boeing 737, de 70 toneladas, irrompe pela janela como uma bola de fogo matando 66 de um total de 171 funcionários, você só pode lamentar as perdas, emitir um comunicado ao mercado e recolher-se à tristeza de ver sua empresa ser varrida do mapa em questão de segundos. Na manhã de 11 de setembro de 2001, Jimmy Dunne III, então com 45 anos, um dos sócios da Sandler O'Neill & Partners, estava participando de um torneio de golfe para amadores quando soube da tragédia ocorrida no escritório no 104º andar do World Trade Center, que também matou seus outros dois sócios. Embora poucos acreditassem que Jimmy faria qualquer coisa a não ser encaçapar mais uma bola de golfe, o sócio remanescente nem esperou a fumaça se dissipar para avisar às famílias das vítimas que a firma de investimentos, criada em 1988, iria cuidar de todos eles, de uma forma ou de outra e para sempre. Ele não só continuou a pagar salários, bônus e comissões como se eles estivessem vivos, como ainda criou uma fundação, a SandlerO'Neill Family, para pagar pela educação de todos os filhos dos empregados mortos no WTC. Mais ainda, conseguiu assistência psicológica para todos os familiares dos mortos. Quando viram a generosidade da Sandler O'Neill, antigos e novos clientes despejaram novos negócios na firma. Mesmo a concorrência deu uma mãozinha. Os empregados (inclusive os 17 que conseguiram escapar pelas escadas do prédio) se sentiram energizados e motivados. Hoje, a firma de investimentos está fazendo mais sucesso do que nunca. A história de Jimmy Dunne III é um dos exemplos de liderança citados pelo ítalo-americano Lee Iacocca, o homem que lançou o Ford Mustang, salvou a Chrysler, reformou a Estátua da Liberdade e hoje, com seus milhões de dólares, tenta descobrir a cura do diabetes. Iacocca, um dos maiores ícones empresariais americanos, octogenário e fumante de charutos cubanos, novamente está provocando polêmica com Where Have All The Leaders Gone, hoje na lista dos mais vendidos do The New York Times. O livro, que a exemplo de sua biografia (sete milhões de exemplares vendidos) é simples, direto e gostoso de ler, não é nada mais do que a indagação para onde foram todos os líderes. Fica difícil concluir, como na história do ovo e da galinha, se líderes são forjados na adversidade ou se nascem por aí num belo dia de sol, quando tudo parece torcer para que a gente faça sucesso. O próprio Iacocca é tido como o homem que recuperou a indústria automobilística norte-americana ante a ameaça dos carros japoneses na década de 80, fato que agora parece se repetir como a Toyota passando a General Motors como maior fabricante de automóveis do mundo. Seu amigo Rudy Giuliani, que estava mal nas pesquisas de opinião quando entregou a prefeitura de Nova York ao também republicano Michael Bloomberg, tornou-se um dos líderes mais populares dos Estados Unidos quando chamou a si a responsabilidade pela reconstrução da cidade, a ponto de torná-lo o principal candidato republicano à sucessão de George W. Bush. Em seu primeiro mandato, Bush chegou a improváveis 94% de aprovação nos dias que se seguiram aos 11 de Setembro, tornando-se depois um homem angustiado e obcecado pela defesa do país contra novos ataques terroristas, inventando guerras e rasgando a Constituição, especialmente na proteção da privacidade dos cidadãos. Como o povo tem memória curta, sua popularidade hoje é a menor que um presidente norte-americano obteve no pós-guerra, só inferior ao humilhado democrata Jimmy Carter ao final do seu governo no início dos anos 80. O livro de Iacocca é um convite à reação, mas quando a economia norte-americana bate recordes sucessivos de expansão, apesar da dívida de US$ 8,8 trilhões e dos empregos estarem migrando para a China, Vietnã e Índia, fica difícil sair da zona de conforto, tornar-se um líder e ir à luta. É próprio do ser humano. Infelizmente, e na maioria das vezes, é preciso de uma tragédia para detonar o espírito de liderança que existe em cada um de nós.

Para que servem as tragédias

Todo negócio tem seu risco, mas quando um Boeing 737, de 70 toneladas, irrompe pela janela como uma bola de fogo matando 66 de um total de 171 funcionários, você só pode lamentar as perdas, emitir um comunicado ao mercado e recolher-se à tristeza de ver sua empresa ser varrida do mapa em questão de segundos. Na manhã de 11 de setembro de 2001, Jimmy Dunne III, então com 45 anos, um dos sócios da Sandler O'Neill & Partners, estava participando de um torneio de golfe para amadores quando soube da tragédia ocorrida no escritório no 104º andar do World Trade Center, que também matou seus outros dois sócios. Embora poucos acreditassem que Jimmy faria qualquer coisa a não ser encaçapar mais uma bola de golfe, o sócio remanescente nem esperou a fumaça se dissipar para avisar às famílias das vítimas que a firma de investimentos, criada em 1988, iria cuidar de todos eles, de uma forma ou de outra e para sempre. Ele não só continuou a pagar salários, bônus e comissões como se eles estivessem vivos, como ainda criou uma fundação, a SandlerO'Neill Family, para pagar pela educação de todos os filhos dos empregados mortos no WTC. Mais ainda, conseguiu assistência psicológica para todos os familiares dos mortos. Quando viram a generosidade da Sandler O'Neill, antigos e novos clientes despejaram novos negócios na firma. Mesmo a concorrência deu uma mãozinha. Os empregados (inclusive os 17 que conseguiram escapar pelas escadas do prédio) se sentiram energizados e motivados. Hoje, a firma de investimentos está fazendo mais sucesso do que nunca. A história de Jimmy Dunne III é um dos exemplos de liderança citados pelo ítalo-americano Lee Iacocca, o homem que lançou o Ford Mustang, salvou a Chrysler, reformou a Estátua da Liberdade e hoje, com seus milhões de dólares, tenta descobrir a cura do diabetes. Iacocca, um dos maiores ícones empresariais americanos, octogenário e fumante de charutos cubanos, novamente está provocando polêmica com Where Have All The Leaders Gone, hoje na lista dos mais vendidos do The New York Times. O livro, que a exemplo de sua biografia (sete milhões de exemplares vendidos) é simples, direto e gostoso de ler, não é nada mais do que a indagação para onde foram todos os líderes. Fica difícil concluir, como na história do ovo e da galinha, se líderes são forjados na adversidade ou se nascem por aí num belo dia de sol, quando tudo parece torcer para que a gente faça sucesso. O próprio Iacocca é tido como o homem que recuperou a indústria automobilística norte-americana ante a ameaça dos carros japoneses na década de 80, fato que agora parece se repetir como a Toyota passando a General Motors como maior fabricante de automóveis do mundo. Seu amigo Rudy Giuliani, que estava mal nas pesquisas de opinião quando entregou a prefeitura de Nova York ao também republicano Michael Bloomberg, tornou-se um dos líderes mais populares dos Estados Unidos quando chamou a si a responsabilidade pela reconstrução da cidade, a ponto de torná-lo o principal candidato republicano à sucessão de George W. Bush. Em seu primeiro mandato, Bush chegou a improváveis 94% de aprovação nos dias que se seguiram aos 11 de Setembro, tornando-se depois um homem angustiado e obcecado pela defesa do país contra novos ataques terroristas, inventando guerras e rasgando a Constituição, especialmente na proteção da privacidade dos cidadãos. Como o povo tem memória curta, sua popularidade hoje é a menor que um presidente norte-americano obteve no pós-guerra, só inferior ao humilhado democrata Jimmy Carter ao final do seu governo no início dos anos 80. O livro de Iacocca é um convite à reação, mas quando a economia norte-americana bate recordes sucessivos de expansão, apesar da dívida de US$ 8,8 trilhões e dos empregos estarem migrando para a China, Vietnã e Índia, fica difícil sair da zona de conforto, tornar-se um líder e ir à luta. É próprio do ser humano. Infelizmente, e na maioria das vezes, é preciso de uma tragédia para detonar o espírito de liderança que existe em cada um de nós.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Oshow do dinheiro

Que os americanos sabem ganhar dinheiro como ninguém já se sabe. O que impressiona, no entanto, é que eles fazem isto sorrindo, se divertindo, batendo boca e gritando, no melhor estilo italiano. Basta assistir a um dos canais à cabo de maior sucesso nos Estados Unidos, a CNBC, da rede NBC, uma espécie de GloboNews misturada com Bloomberg TV cheia de gente bonita, atraente, de bem com a vida, mas que só fala em dinheiro, muito dinheiro. A rede, que tem alguns programas exibidos no Brasil, detém quase 80% do mercado televisivo dedicado aos negócios, especialmente nas TVs que ficam ligadas nos mesões das corretoras e dos bancos. Reconhecida por passar incessantemente as cotaçõesdas ações no rodapé, os chamados tickers, a CNBC furou a imprensa de todo o mundo semana passada quando descobriu que Rupert Murdoch, o empresário australiano dono da Fox, fez uma oferta hostil para comprar o The Wall Street Journal por US$ 5 bilhões. A CNBC foi criada em 1989 sob o sugestivo nome de Consumer News and Business Channel, em Nova Jersey, perto de Nova York, e hoje tem como atração principal um doido varrido chamado Jim Cramer, que faz sucesso atirando objetos na câmera, xingando a mãe dos telespectadores e se esgoelando para dar dicas de empresas e ações - comportamento que ele chama de "educação do investidor". Mas a CNBC tem um personagem central em torno da qual todo o mundo financeiro gravita, e ela é Maria Bartiromo, uma ítalo-americana de 39 anos, sósia da atriz Claudia Cardinale, que domina o imaginário do mundo financeiro "fazendo perguntas difíceis de uma maneira civilizada" em seus programas Closing Bell e The Wall Street Journal Report. Ela ficou famosa não só pela sua competência - com mestrado em economia, se dá bem com os intrincados caminhos do mercado financeiro -, mas por aceitar, mesmo sendo casada, viajar sozinha no jatinho do Citigroup em companhia do chefe da divisão Todd Thompson, que dispensou seus colegas numa viagem de retorno da China. Thompson foi demitido, enquanto Maria foi não só mantida no cargo, como também elogiada pelo seu profissionalismo. "Faz parte de seu trabalho", defenderam seus chefes. Fora o noticiário pesado, em torno de ações, bônus, derivativos, etc. - assistir à CNBC é como ligar seu corpo numa tomada de 220V -, a rede começou a inovar a mídia especializada quando adicionou à sua programação atrações de entrevistas, como Big Idea, onde o publicitário Donny Deutsch chama CEOs (Bill Gates e Warren Buffet, por exemplo) para fazer perguntas inusitadas (quantos dólares você carrega na sua carteira?), ou Deal or No Deal, estrelado pelo ator-comediante canadense Howie Mandel, hoje na sua quarta temporada. Deal or No Deal testa a capacidade das pessoas de ficarem satisfeitas com o que ganharam - às vezes US$ 100 mil, US$ 200 mil - ou insistir em ganhar mais apostando na abertura de pequenas maletas carregadas por 26 modelos quase idênticas, um dilema semelhante ao dia-a-dia dos negócios que dão certo. O show está fazendo sucesso - esta semana seu apresentandor foi convidado para ir ao programa de entrevistas de Larry King, da CNN - porque, como era de se esperar, a maioria não se contenta com o que já ganhou e, ao final, perde tudo. A exemplo de seus entrevistados, a CNBC, que também pertence à General Electric, é extremamente lucrativa. Ano passado faturou US$ 510 milhões e teve um lucro de US$ 250 milhões. Embora sua audiência não possa ser comparada aos canais à cabo CNN e Fox, por se tratar de mídia especializada, depende do humor do mercado acionário. No ano 2000, por exemplo, antes do estouro das empresas de internet nas bolsas, chegou a ser líder de audiência, mas com o mercado à deriva nos anos seguintes tem tido dificuldades para ganhar mais audiência. Com o passar dos anos, a CNBC foi se replicando em todo mundo. Foram criados canais no Oriente Médio, na Ásia e na Europa, nesta última numa joint venture com o The Wall Street Journal. Se as bolsas voltarem a ser a atração do mundo dos negócios, como já se prenuncia, sua audiência vai crescer cada vez mais.

segunda-feira, 7 de maio de 2007

Salvando o The New York Times

Para gente bem informada, como você, caro leitor, um dos maiores prazeres de morar nos Estados Unidos é ter o The New York Times, o melhor jornal norte-americano (ou do mundo, segundo defendem os mais radicais) na soleira da sua porta, todos os dias, por volta das 5h da manhã. É um prazer inigualável, pois o que você lerá naquela manhã, entre uma xícara de caffé latte, ovos e bacon, bem ao estilo americano, é uma antecipação dos assuntos que serão notícia nos telejornais, rádios e agências de notícias de todo o mundo. Aqui, só o The Wall Street Journal, com dois milhões de exemplares, e que vem sendo assediado por Robert Murdoch, da News Corporation, numa aquisição hostil de US$ 5 bilhões, é páreo para o NYT. Graças a uma inexequível equação, que reúne mais de 1,2 mil jornalistas espalhados pelo mundo e com faturamento (e lucro) decrescentes pelo advento da internet, o NYT dita o tom da imprensa em tudo aquilo que ela é, por natureza, contra: governo (ou qualquer poder), ladroagem, injustiças, abusos, etc. O grande debate que ocorre nos Estados Unidos é como o NYT manterá sua integridade num momento em que os acionistas minoritários, mas nem por isto menos poderosos, querem derrubar a família Ochs-Sulzberger da administração, considerada pouco profissional, leniente com os jornalistas e paralisada ante o avanço da concorrência eletrônica. Em outros palavras, o NYT está rendendo pouco. Na semana passada, Arthur Sulzberger Jr., o advogado de 55 anos que está no poder mais por hereditariedade do que por capacidade (sua família é equiparada aos Kennedy quando se elegem os clãs da realeza norte-americana), postou-se com seus parentes na sua retaguarda durante a reunião anual dos acionistas. Proprietários de 70% das ações com direito a voto, os Sulzberger rejeitaram qualquer mudança na administração, afinal, dizem eles, apoiados em editoriais pelas famílias que controlam o The Wall Street Journal e o The Washington Post o poder familiar é a muralha chinesa que impede que o jornal fique à mercê dos interesses econômico-financeiros. Em outras palavras, que Wall Street assuma o jornal e provoque demissões, queda de qualidade, comoditização do noticiário, redução do espaço editorial e, o pior, que se fique sujeito aos interesses de determinado grupo econômico ou partido político. Quem está liderando a campanha pela mudança na administração do jornal é um sobrevivente de Wall Street, Hassan Elmasry, do Mongan Stanley Investment Management. Basicamente, ele quer que o The New York Times unifique a estrutura acionária, de dois tipos de ações que, em outras palavras, mantém o poder da família no conselho de administração. A família, no entanto, está sensível às reclamações dos acionistas. Vem investindo fortemente em produtos eletrônicos, como o Times Reader, um software que faz com que o leitor folheie o jornal na tela do computador. Mais ainda, iniciou uma política agressiva de distribuição de dividendos. O The New York Times é um negócio como outro qualquer, mas a legião de leitores - gente que manda na economia, nas artes e na política norte-americana - quer tirá-lo desta vala comum e elegê-lo como o bastião do povo contra tudo aquilo que está errado, publicando todas as notícias que merecem ser impressas, como lembra o slogan do jornal. Apesar de herdeiro, Arthur é adorado pelos jornalistas da casa por sempre defendê-los, especialmente no episódio da perseguição do governo do presidente George W. Bush aos repórteres para que eles revelassem as fontes de notícias polêmicas, como, por exemplo, a denúncia de que o Iraque não tinha armas químicas, o que invalida qualquer argumento para a guerra que já dura mais de cinco anos. Você, paciente leitor, deve estar adivinhando o final desta história. O dinheiro falará mais alto, o NYT vai ser comprado por um fundo de private equity, que recentemente se apaixonou pelo meio jornalístico e, desta forma, a mais bonita, interessante e emocionante profissão deste mundo, o jornalismo, nem sequer pode prever o que acontecerá com ela daqui para a frente.

quarta-feira, 2 de maio de 2007

O primeiro bilhão não se esquece

O mundo já sabe que quem vai mandar são os hedge funds, fundos de investimentos que ganham dinheiro (muito dinheiro) quando o mercado sobe, desce, fica à deriva ou permanece inalterado. Para eles, perder não é uma alternativa. Como um tsunami dos negócios, e com um patrimônio que somado chega a estonteantes US$ 2 trilhões, ou quatro vezes o PIB brasileiro, eles compram tudo que vêem, de montadoras a cadeias de supermercados, de petrolíferas a aéreas. O que poucos sabem é quanto de dinheiro os administradores destes fundos, fechados aos simples mortais, pouco regulados pelas autoridades e geralmente com endereços nas Ilhas Cayman ou nas Bahamas, ganham ao final de cada ano. A publicação Alpha Magazine encarregou-se de revelar os números: James Simons, do Renaissance Technologies, fundo de US$ 12 bilhões fechado a novos investidores há 14 anos, ganhou US$ 1,7 bilhão em 2006. Não precisa ser gênio para deduzir que Simons, recluso e misterioso septuagenário popular no meio acadêmico por ser criptoanalista, físico, matemático e filantropista, ganha cerca de US$ 12 mil por hora trabalhada, quando o salário mínimo por aqui não passa de US$ 5. De acordo com o Institutional Investor, James ganhou um pouco menos em 2005, só US$ 1,5 bilhão e, pior ainda, US$ 670 milhões em 2004. Os proventos fazem dele o 64.° homem mais rico dos EUA na mensuração da Forbes. Desde 1989 faz a alegria de seus investidores com retornos acima de 35% ao ano, colocando competidores, inclusive o lendário George Soros, no chinelo. James cobra as taxas de mercado para administrar o fundo (cerca de 5%), mas cobra taxa de sucesso de 44%, o que manda seu salário para níveis estratosférios. Fumando, com olhar de quem não precisa agradar a ninguém (já perdeu dois filhos e tem um autista), deu sua primeira entrevista em dez anos ao canal CNBC, e pareceu não muito preocupado em mostrar as intricadas fórmulas matemáticas que, com a ajuda de computadores e especialistas, usa para se enriquecer com os mercados futuros, swaps e derivativos em posições altamente alavancadas. "O que tenho é muita sorte", resumiu ele. James Simons não está sozinho na explosão salarial dos administradores de fundos de hedge. Segundo o Alpha Magazine, há outros. Ken Griffin (38 anos), da Cidadel Investments, com US$ 1,4 bilhão; Edward Lambert (você vai ouvir muito este nome), da ESL Investiment, que ganhou US$ 1,3 bilhão, boa parte transformando a Sears, da qual é chairman, em decadente loja de departamentos, mas fonte inesgotável de lucros. Há ainda o polêmico George Soros, ex-patrão de Armínio Fraga e inimigo número 1 de George W. Bush (é um dos grandes financiadores do Partido Democrata), que ganhou US$ 950 milhões; Steven Cohen, da SAC Capital (US$ 900 milhões) e Carl Icahn (US$ 600 milhões), que volta e meia aparece nas reuniões de diretoria das grandes empresas exigindo melhor administração e mais lucros, à custa de demissões. Todos os administradores, mesmo os mais pobrezinhos, defendem as lucrativas taxas de performance porque ficam "alinhados com os interesses dos investidores". Mas estas taxas, que fazem dos fundos de hedge aquilo que o capitalismo tem de mais selvagem, são criticadas por gente como Warren Buffet, o segundo homem mais rico do mundo, que as considera um empurrão para os altos riscos, em detrimento de uma estratégia de longo prazo. Mas o que fazem estes administradores com tanto dinheiro? Segundo o The Wall Street Journal, o patrimônio médio dos gestores é de US$ 61 milhões. São homens, em sua maioria, com menos dos 55 anos (mulher quase não entra). Gastam em obras de arte, iates, jóias, hotéis e resorts, relógios, roupas, spas, eletrônicos, amigos e vinhos da melhor qualidade. Afinal, como se diz, a vida é muito curta para se tomar vinho ruim.

segunda-feira, 23 de abril de 2007

O perdão que entrou para a história

Leslie Lynch King Jr, ou Gerald Rudolf Ford, o 38º presidente norte-americano morto semana passada aos 93 anos, não entrou para a história por ser um homem incapaz de “mascar chicletes e andar ao mesmo tempo”, como se dizia à época.
Ford, o único residente não eleito até hoje na história americana, surpreendeu o mundo ao perdoar, contra tudo e contra todos, o antecessor Richard Nixon (que renunciou após ser pego no escândalo Watergate) por todos os crimes que cometeu – “e eventualmente possa ter cometido” – contra os EUA. Por este perdão, anunciado em cadeia nacional um mês após a renúncia de Nixon, em 9 de agosto de 1974, Ford foi bombardeado pela esquerda e pela direita, dentro e fora do país. Pior ainda, foi fragorosamente derrotado na eleição de 1977 pelo democrata Jimmy Carter, um produtor de amendoins da Geórgia que só provou seu valor após deixar a presidência e ganhar o Prêmio Nobel da Paz.
“É uma tragédia americana”, defendeu-se ele na ocasião, “na qual todos nós tivemos a nossa parte”. “Eu poderia ir à frente, mas sou o único que pode dar um basta nesta história toda – e se eu posso, eu devo”, disse.
Ford, um advogado de Michigan e ex-campeão de futebol americano, que se vangloriava de ser escoteiro e cujo papo dava sono nos interlocutores, se refugiou numa bucólica região do Califórnia e passou o resto da vida jogando golfe. “Ele assumiu (a Presidência) em um período de grande divisão e turbulência” disse o atual presidente do EUA, George W. Bush, “mas para uma nação que precisava de cura e de um cargo que necessitava de calma e determinação, Ford apareceu quando mais precisávamos dele”, resumiu.
Foi um período em que os EUA, ao mesmo tempo, perderam a Guerra do Vietnã e assistiram, boquiabertos, à renúncia do presidente Nixon, embora ele tenha feito coisas notáveis, como a aproximação com a China.
Timoneiro de uma presidência tranqüila, quase apática, embora tenha sido vítima de duas tentativas de assassinato, Ford perdoou os americanos que se recusaram a ir à Guerra do Vietnã, e ainda referendou o Tratado de Helsinque, criticado à época, mas reconhecido depois como o início do fim da Guerra Fria e, em seguida, da União Soviética. Numa época de declínio econômico, inflação alta e descrédito no país – e fora dele – Ford também tentou de toda sas formas cortar o dispêndio público – vetou diversos projetos de aumento dos gastos até não resistir à maioria democrata no Congresso, que sucessivamente derrubou os vetos presidenciais.
Veterano da Marinha da Segunda Grande Guerra, Ford enfrentou uma de suas mais duras batalhas na fronte interna. A dependência de drogas e depois o alcoolismo da ex-primeira dama, Betty Ford, que apareceu na TV trôpega, mas altiva, durante o funeral do marido no Congresso americano. Confrontada pela família, Betty não só reconheceu a dependência como também criou, no início da década de 80, o Betty Ford Center for Drug and Alcohol Rehabilitation em Rancho Mirage, na Califórnia. Ford foi um homem simples, probo e correto, uma espécie de interventor que o destino escolheu para acalmar os ânimos e colocar o país nos trilhos. Depois dele, apesar de ter sido sucedido por um presidente claudicante como Jimmy Carter, os EUA redescobriram-se, derrotaram a União Soviética e promoveram décadas de exuberante crescimento econômico, jamais visto na história da humanidade.
Tão americana feito a calça jeans e os óculos ray-ban, a Coca-Cola, este líquido insípido e inodoro que até hoje ninguém descobriu porque faz tanto sucesso entre mais de 200 países e bilhões de consumidores, voltou nesta semana a fazer a alegria dos acionistas, depois de quase uma década de letargia. Para desespero de seus adoradores, a empresa chegou até a valer menos que a arqui-rival Pepsi. Suas ações, reconhecidas pelas letras KO, foram negociadas na Bolsa de Nova York a US$ 51 cada, elevando o valor da empresa para US$ 119 bilhões, ainda longe (mas um pouco mais perto) do pique daquele 1998, quando chegou a US$ 88. Esta reviravolta, capa da seção de investimentos do The Wall Street Journal, está fazendo revolver o túmulo do cubano- americano Roberto Goizueta, o lendário ex-CEO responsável pelo que a Coca é hoje. O motivo não é a diversificação de bebidas que a Coca mergulhou-se nos últimos anos, com águas engarrafadas, sucos e energizantes, mas sim a velha e querida bebida cinza-preta, embora sem qualquer adição de açúcar (ou nenhuma caloria), a Coke Zero. Introduzida há dois anos, ela é resultado de uma fórmula secreta (também guardada no SunTrust Bank, em Atlanta, Georgia, sede da empresa) que combina vários adoçantes, mas sem aquele gosto que fica grudado na boca. A Coke Zero é a alegria dos diabéticos, dos gordinhos e das beldades que não querem ter os desconfortáveis quilinhos a mais e são fiéis ao sabor original da Coca, inventada em 1885 por John S. Pemberton para curar uma miríade de problemas de saúde, como indigestão, "fraqueza nervosa", dores-de-cabeça e até impotência, embora muita gente também use para desentupir pias ou abrilhantar espetáculos pirotécnicos, como o show de fontes luminosas visto no programa de David Letterman, o Jô Soares magro daqui. Desde que foi lançada a nova bebida já vendeu mais de 100 milhões de caixas (caixa de 24 garrafas é a referência deste setor). Embora a Zero tenha conquistado apenas uma fração do mercado da velha Coca, está sendo considerada pela empresa como "o lançamento de maior sucesso de qualquer marca nos últimos 20 anos". Até para os brasileiros que querem investir em ações nos Estados Unidos (sites como o www.etrade.com estão aceitando investimentos de estrangeiros), a ação da Coca tem futuro. Analistas da Reuters, Standard & Poor's, Rochdale e Sabriet não só recomendam segurá-las agora, mas consideram que seu preço ainda está abaixo do que ela virá a valer. A Coca, que tem US$ 2,3 bilhões em ações nas mãos dos investidores, ressurgiu das cinzas esta semana quando E. Neville Isdell, atual chairman e CEO, revelou os números do primeiro trimestre do ano: um aumento de 14% no rendimento líquido, superando as expectativas de Wall Street pelo décimo-sexto período consecutivo. A exemplo de outras empresas norte-americanas, a estratégia vencedora de Neville tem endereço certo: o mercado externo. Países como China, Rússia, África do Sul, Nigéria e Europa Oriental estão bebendo mais Coca-Coca, enquanto as vendas da Coke Zero estão estourando na França, Holanda, Argentina, Irlanda e, como não poderia deixar de ser, nos Estados Unidos. Aqui, segundo quem acompanha de perto a indústria, as vendas não estão lá estas coisas porque os baby boomers, gente que nasceu depois da Segunda Grande Guerra, estão ficando velhos e optando, ou precisando mesmo, de bebidas mais saudáveis, que não desçam pelo esôfago e caiam como uma bomba no estômago. Em uma conferência on-line para investidores, a gigante de Atlanta, que detém marcas como Sprite, Minute Maid e Dasani, reportou lucros de US$ 1,26 bilhão, ou 54 centavos de dólar por ação. A reação da Coca passa também pelo aumento de sua participação no mercado com o lançamento da Diet Coke Plus, com vitaminas e minerais. Segundo chefe de Operações, Muhtar Kent, a empresa também espera aumentar as vendas de bebidas com base em frutas, chás e cafés depois de ter comprado a Fuze Beverage. A Coca equipara-se à bandeira americana porque é o símbolo da influência dos Estados Unidos nos rincões mais distantes do universo. Pode ser bebida no Himalaia ou na Sibéria, na Terra do Fogo ou nas Ilhas Fiji - invariavelmente com o mesmo e desbotado sabor. É também a melhor representação da capacidade do país de se reinventar e manter a hegemonia de seus produtos em todo o mundo.