terça-feira, 27 de março de 2007

Cartão de crédito é dinheiro?

“Tenho um grande respeito pela realidade, mas jamais permito que ela intefira em minha vida”, dizia o poeta.
Cartões de crédito (ou de débito), os plásticos que engordam nossas carteiras, parecem ser a chave eletrônica que separa a realidade da ficção, a prudência da autoindulgência, a espera (que refina o caráter) e o efêmero prazer dos desejos prontamente realizados.
Às vésperas de comemorar 120 anos, desde que um tal de Edward Bellamy o concebeu num romance utópico “Olhando para trás”, o cartão é, no entanto, a verdadeira ameaça à paz das famílias americanas – e de todo o mundo. O problema não é somente aquele frio na barriga quando se abre a conta que chegou do correio. O estrago é bem maior.
O último relatório do Government Accountability Office, uma espécie de ouvidor geral do país, dá conta que os americanos possuem 691 milhões de cartões de crédito, devendo mais de US$ 1,838 trilhões em compras (quase duas vezes o PIB brasileiro), pagamentos de seguro saúde e até impostos, numa média de 2,3 bilhões de transações mensais.
O debate agora não é mais se os consumidores vão conseguir pagar as faturas mensais, mas como a indústria do dinheiro de plástico está se aproveitando das dificuldades de alguns para aumentar os juros e cobrar taxas por atrasos e por estouro de limites, que afligem quase a metade dos 144 milhões de portadores do cartões, segundo o Cardweb, site especializado no setor.
Em média, uma família americana utiliza oito cartões, carregando US$ 9,1 mil. Somente 55 milhões pagam os cartões integralmente, enquanto 35 milhões pagam somente o mínimo requerido.
Se a pessoa tem dificuldades para pagar qualquer conta, e não necessariamente os cartões de crédito esta informação é transmitida aos três mais importantes bureaus de crédito do país, Equifax, Expedian e Transunion.
Ou seja, o nome fica sujo. Imediatamente os cartões de crédito aumentam as taxas de juros e as penalidades para os maus pagadores. Reclamações? Estava tudo acertado no detalhado contrato de letras minúsculas que você assinou.
A situação ideal para a indústria dos cartões, como se sabe, é o consumidor que se endivida de forma que possa pagar, pelo menos, o mínimo da conta mensal. Este grupo é o favorito da indústria, segundo o documentário FrontLine, exibido pela rede pública de tv norte-americana, a PBS. Gente que paga o cartão integralmente é chamada de caloteira, porque vai contra a corrente e rouba os lucros dos cartões.
Depois do lançamento em 1950, quando executivos tiveram dificuldades para pagar uma conta de restaurante e lançaram o Diners, a maior revolução no setor foi quando o consultor financeiro Andrew Kahr sugeriu que o pagamento mínimo fosse diminuído de 5 para 2% do total da conta. De repente, o céu tornou-se o limite para o endividamento. Com estas facilidades, milhões de consumidores mergulharam para valer nas facilidades do crédito fácil, diz o documentário da PBS. Somando-se os cartões de crédito (US$ 1,838 trilhão), os cartões de débito (US$ 817 bilhões), os cartões de varejo, incluindo postos de gasolina (US$ 140 bilhões), chega-se à cifra de US$ 2,7 bilhões que os consumidores devem aos cartões aqui. Média de juros anuais (e não mensais)? 14,55%.
Diante destas ofertas, as pessoas são tentadas a consumir, acreditando que nunca terão problemas como desemprego, divórcio ou pagamentos de tratamentos de saúde – ou simplesmente que terão condições de saldar o débito total algum dia. “Pessoas acreditam no que eles querem acreditar”, pontifica o consultor. Ou seja, como Oscar Wilde, às vezes não permitem que a realidade interfira em suas vidas.
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