Finalmente surge uma luz na sonolenta, previsível e amontoada corrida presidencial nos Estados Unidos. O ex-vice-presidente norte-americano Albert "Al" Gore Jr., o homem que construiu a internet e há cinco anos percorre o planeta alertando para o derretimento das calotas globais, pode ser o próximo - e imbatível - candidato do Partido Democrata à Presidência, se depender de boa parte do eleitorado, das estrelas de Hollywood e de ícones da tecnologia, como Steve Jobs, dono da Apple. Gore, que sofreu uma roubada da história quando perdeu no Colégio Eleitoral a eleição para George W. Bush em 2000 - fato que até agora não engoliu - é hoje o que se chama de unanimidade nacional, um sentimento que não aparece aqui desde John F. Kennedy e Martin Luther King. Sua apresentação em powerpoint, Uma verdade inconveniente, com a qual ganhou o Oscar de melhor documentário este ano, elevou-o ao favoritimismo para ganhar o Prêmio Nobel da Paz de 2007. Menestrel do aquecimento global, Gore acaba de ser capa da revista Time ("A Última Tentação de Gore") pelo lançamento de seu novo livro, O assalto à razão. Só não assume a candidatura porque está faltando o voto de um eleitor: ele mesmo. A eleição de Gore, que é bom de voto (antes de tornar-se vice-presidente foi deputado federal e senador pelo Tennessee), é importante porque pode mudar o destino dos Estados Unidos, o maior poluidor da Terra, e por conseqüência, de todo o mundo. Sentado no Salão Oval da Casa Branca, Gore significaria a retirada imediata das tropas no Iraque, o fim da dependência do petróleo, seguro saúde universal para os americanos, impulso à internet como arma para a educação e redução da pobreza, a volta dos superávits orçamentários e uma série de quebra de paradigmas que apaixona os progressistas do país. Mais ainda, o mundo voltaria a respirar com a saída da direita religiosa que se apoderou da Casa Branca e que, embora tenha sido eleita duas vezes por metade dos 300 milhões de norte-americanos (ou de seus representantes), torna-se a cada dia mais impopular no país e fora dele. Além de simpático, bem nascido, elegante e ético, Gore é ecológico de carteirinha, a ponto de levar sua cesta para o supermercado e evitar os sacos plásticos poluentes. Formado por Haward em Letras, ex-correspondente de guerra (embora se opusesse ao conflito do Vietnã, foi convocado e serviu como fotógrafo de uma revista especializada, Army Flier), é casado com Tipper Gore, pai de quatro filhos e está ficando rico não só com as centenas de palestras que dá anualmente, mas também com a administração de um fundo de investimentos "verde", que aplica em projetos sustentáveis, Generation Investment Management. Acaba de comprar uma mansão de 1910 em Nashville (capital da música country), Tennessee, de onde escreve seus artigos e comanda o esforço global rumo ao esfriamento do planeta. É membro do board da Apple e do Google, de onde empurra estas empresas para seu movimento ecológico. Diz-se que a derrota política é a pior dor que um homem pode experimentar, e evitá-la novamente é principal motivo que faz com que Gore não caia na vala política e se candidate pela terceira vez à Casa Branca. O político democrata, que atualmente diz não morrer de amores pela política, não foi posto à prova em nenhum cargo público executivo, embora como vice-presidente tenha lançado as bases do que é hoje a Internet. Ao mesmo tempo, não se sabe como Gore reagiria às demandas atuais, como o terrorismo. O que ele faria nos dias seguintes a 11 de setembro de 2001, quando as Torres Gêmeas e parte do Pentágono foram destruídas por Osama Bin Laden? O Iraque teria sido invadido durante sua presidência? O clima na Terra estaria melhor caso ele tivesse ganho a eleição para a presidência no início do século? Em termos históricos perguntas como estas são despropositadas, mas Gore tem um grande eleitor do outro lado, o presidente George W. Bush. O homem é atordoado todas as noites com a possibilidade de novos ataques aos Estados Unidos e, por causa disto, acorda diariamente tropeçando no front externo e interno. Embora com boas intenções (que presidente não tem boas intenções?), está na hora de Bush passar o chapéu para o sucessor e se livrar da enrascada que meteu seu país nos últimos oito anos.
Notas, impressões, informações, dicas, tendências e análises sobre os Estados Unidos a partir de Seattle, na Costa Oeste norte-americana.
segunda-feira, 4 de junho de 2007
segunda-feira, 28 de maio de 2007
O homem que matou o facínora
John Wayne, o cowboy valentão que o mundo aprendeu a respeitar em mais de 250 faroestes e filmes de guerra, faria cem anos neste final de semana. O ator, que morreu em 1979 de câncer no pulmão (chegou a fumar cinco maços de cigarro por dia), é lembrado até hoje. Sem dotes artísticos, parecia fazer o mesmo personagem em todos os seus longas-metragens. Mergulhou na extrema direita antes de morrer, numa época em que ser de direita, como se diz, pegava mal. Nascemos e crescemos assistindo ao canastrão Wayne, com uma mão nas rédeas e outro no rifle, atirar nos bandidos, beijar as mocinhas e redimir as injustiças do Velho Oeste, período entre 1865 e 1890 onde os aventureiros, respaldados pela Cavalaria, liquidaram os índios e tomaram conta das terras que chegavam até o Pacífico. Para os críticos, e para o próprio Wayne, Stagecoach, ou No tempo das Diligências, dirigido por John Ford (seu descobridor, professor, amigo e diretor) tornou-se seu melhor filme, o trampolim que o lançaria ao sucesso, a ponto de, no final dos anos 50, ser o ator melhor pago em Hollywood, espécie de Tom Cruise com 1,94 de altura e mais de 120 quilos, só que ganhando apenas US$ 600 mil por atuação. Para os aficionados, no entanto, Wayne fez apenas uma obra- prima. É The Man who Shot Liberty Valance, ou O Homem que Matou o Facínora, de 1962, do próprio John Ford, onde interpreta um cowboy, Tom Doniphon, que ama perdida e platonicamente Hallie (Vera Miles), dona de restaurante. Um dia, chega à cidade de Shinbone, no Arizona, um advogado idealista chamado Ransom Stoddard, interpretado pelo ator favorito dos Estados Unidos, James Stewart. Encantada com a beleza, a energia e o idealismo do recém-chegado, que não usava armas e ainda acreditava em soluções negociadas, Hallie se apaixona por Stewart, fato que deixa Wayne abalado, triste e resignado numa choupana de seu rancho nas montanhas. O destino, como muita gente já adivinhou, é muitas vezes cruel, mas ficaria mais cruel ainda quando começam os rumores que chegaria à pacata Shinbone um criminoso barbudo, olhos vermelhos, cheirando a whiskey e temido em todo o Oeste: Liberty Valance, interpretado por Lee Marvin. Como todo bandido do Velho Oeste, Liberty causa problemas por onde passa. Primeiro foi na estrebaria, depois no saloon, até que, numa noite, humilha Stoddart (Stewart) na frente de Hallie em seu restaurante. Indignado, Stewart se rende aos costumes da época, esquece seus princípios (como tem gente que esquece...) e vai para o meio da rua duelar com o facínora. Para surpresa de todos, o mocinho pacifista mata o sanguinário criminoso com um tiro certeiro, e assim fica famoso, torna-se deputado, governador e senador - e, para desespero de Wayne, casa-se com Hallie e vivem felizes para sempre. Num dia, Stewart, já velho e cheio de histórias para contar, volta a Shinbone em companhia da esposa. Ainda na estação de trem, são entrevistados por um jornal local, quando revelam que estavam ali para acompanhar o enterro de um velho cowboy, Wayne. É aí que história dá uma reviravolta. Mesmo com ciúmes de Stewart, que lhe roubara a namorada e sua futura mulher, Wayne, na verdade, foi o homem que, escondido atrás de um poste perto do saloon, descarregou sua Winchester e realmente matou o facínora. Poucas pessoas sabiam desta verdade, a não ser Stewart, sua mulher e o falecido herói. No final do filme, e depois de contar a verdade, Stewart se levanta, agradece a entrevista e pergunta quando o jornalista vai publicar a história. O repórter põe o chapéu na cabeça, guarda no bolso o bloco de anotações, levanta-se e diz que não vai sair nada no jornal. "Senhor, aqui é o Oeste", diz ele. "Quando uma lenda torna-se um fato, publicamos a lenda." A cena, que encerra o filme, mostra a eterna briga jornalística (e histórica) entre o fato e a versão. Wayne, o cowboy arrogante e valentão, mostra-se humilde, puro e injustiçado, vive o resto da sua vida na miséria, sozinho, sem o amor de Harrie. Stewart, que se apresenta como pacifista, idealista e sonhador, é na verdade o facínora que encobriu a verdade durante toda a vida para ficar famoso e conquistar os eleitores. Você, como se diz, já deve ter visto este filme.
segunda-feira, 21 de maio de 2007
Para que servem as tragédias
Todo negócio tem seu risco, mas quando um Boeing 737, de 70 toneladas, irrompe pela janela como uma bola de fogo matando 66 de um total de 171 funcionários, você só pode lamentar as perdas, emitir um comunicado ao mercado e recolher-se à tristeza de ver sua empresa ser varrida do mapa em questão de segundos. Na manhã de 11 de setembro de 2001, Jimmy Dunne III, então com 45 anos, um dos sócios da Sandler O'Neill & Partners, estava participando de um torneio de golfe para amadores quando soube da tragédia ocorrida no escritório no 104º andar do World Trade Center, que também matou seus outros dois sócios. Embora poucos acreditassem que Jimmy faria qualquer coisa a não ser encaçapar mais uma bola de golfe, o sócio remanescente nem esperou a fumaça se dissipar para avisar às famílias das vítimas que a firma de investimentos, criada em 1988, iria cuidar de todos eles, de uma forma ou de outra e para sempre. Ele não só continuou a pagar salários, bônus e comissões como se eles estivessem vivos, como ainda criou uma fundação, a SandlerO'Neill Family, para pagar pela educação de todos os filhos dos empregados mortos no WTC. Mais ainda, conseguiu assistência psicológica para todos os familiares dos mortos. Quando viram a generosidade da Sandler O'Neill, antigos e novos clientes despejaram novos negócios na firma. Mesmo a concorrência deu uma mãozinha. Os empregados (inclusive os 17 que conseguiram escapar pelas escadas do prédio) se sentiram energizados e motivados. Hoje, a firma de investimentos está fazendo mais sucesso do que nunca. A história de Jimmy Dunne III é um dos exemplos de liderança citados pelo ítalo-americano Lee Iacocca, o homem que lançou o Ford Mustang, salvou a Chrysler, reformou a Estátua da Liberdade e hoje, com seus milhões de dólares, tenta descobrir a cura do diabetes. Iacocca, um dos maiores ícones empresariais americanos, octogenário e fumante de charutos cubanos, novamente está provocando polêmica com Where Have All The Leaders Gone, hoje na lista dos mais vendidos do The New York Times. O livro, que a exemplo de sua biografia (sete milhões de exemplares vendidos) é simples, direto e gostoso de ler, não é nada mais do que a indagação para onde foram todos os líderes. Fica difícil concluir, como na história do ovo e da galinha, se líderes são forjados na adversidade ou se nascem por aí num belo dia de sol, quando tudo parece torcer para que a gente faça sucesso. O próprio Iacocca é tido como o homem que recuperou a indústria automobilística norte-americana ante a ameaça dos carros japoneses na década de 80, fato que agora parece se repetir como a Toyota passando a General Motors como maior fabricante de automóveis do mundo. Seu amigo Rudy Giuliani, que estava mal nas pesquisas de opinião quando entregou a prefeitura de Nova York ao também republicano Michael Bloomberg, tornou-se um dos líderes mais populares dos Estados Unidos quando chamou a si a responsabilidade pela reconstrução da cidade, a ponto de torná-lo o principal candidato republicano à sucessão de George W. Bush. Em seu primeiro mandato, Bush chegou a improváveis 94% de aprovação nos dias que se seguiram aos 11 de Setembro, tornando-se depois um homem angustiado e obcecado pela defesa do país contra novos ataques terroristas, inventando guerras e rasgando a Constituição, especialmente na proteção da privacidade dos cidadãos. Como o povo tem memória curta, sua popularidade hoje é a menor que um presidente norte-americano obteve no pós-guerra, só inferior ao humilhado democrata Jimmy Carter ao final do seu governo no início dos anos 80. O livro de Iacocca é um convite à reação, mas quando a economia norte-americana bate recordes sucessivos de expansão, apesar da dívida de US$ 8,8 trilhões e dos empregos estarem migrando para a China, Vietnã e Índia, fica difícil sair da zona de conforto, tornar-se um líder e ir à luta. É próprio do ser humano. Infelizmente, e na maioria das vezes, é preciso de uma tragédia para detonar o espírito de liderança que existe em cada um de nós.
Para que servem as tragédias
Todo negócio tem seu risco, mas quando um Boeing 737, de 70 toneladas, irrompe pela janela como uma bola de fogo matando 66 de um total de 171 funcionários, você só pode lamentar as perdas, emitir um comunicado ao mercado e recolher-se à tristeza de ver sua empresa ser varrida do mapa em questão de segundos. Na manhã de 11 de setembro de 2001, Jimmy Dunne III, então com 45 anos, um dos sócios da Sandler O'Neill & Partners, estava participando de um torneio de golfe para amadores quando soube da tragédia ocorrida no escritório no 104º andar do World Trade Center, que também matou seus outros dois sócios. Embora poucos acreditassem que Jimmy faria qualquer coisa a não ser encaçapar mais uma bola de golfe, o sócio remanescente nem esperou a fumaça se dissipar para avisar às famílias das vítimas que a firma de investimentos, criada em 1988, iria cuidar de todos eles, de uma forma ou de outra e para sempre. Ele não só continuou a pagar salários, bônus e comissões como se eles estivessem vivos, como ainda criou uma fundação, a SandlerO'Neill Family, para pagar pela educação de todos os filhos dos empregados mortos no WTC. Mais ainda, conseguiu assistência psicológica para todos os familiares dos mortos. Quando viram a generosidade da Sandler O'Neill, antigos e novos clientes despejaram novos negócios na firma. Mesmo a concorrência deu uma mãozinha. Os empregados (inclusive os 17 que conseguiram escapar pelas escadas do prédio) se sentiram energizados e motivados. Hoje, a firma de investimentos está fazendo mais sucesso do que nunca. A história de Jimmy Dunne III é um dos exemplos de liderança citados pelo ítalo-americano Lee Iacocca, o homem que lançou o Ford Mustang, salvou a Chrysler, reformou a Estátua da Liberdade e hoje, com seus milhões de dólares, tenta descobrir a cura do diabetes. Iacocca, um dos maiores ícones empresariais americanos, octogenário e fumante de charutos cubanos, novamente está provocando polêmica com Where Have All The Leaders Gone, hoje na lista dos mais vendidos do The New York Times. O livro, que a exemplo de sua biografia (sete milhões de exemplares vendidos) é simples, direto e gostoso de ler, não é nada mais do que a indagação para onde foram todos os líderes. Fica difícil concluir, como na história do ovo e da galinha, se líderes são forjados na adversidade ou se nascem por aí num belo dia de sol, quando tudo parece torcer para que a gente faça sucesso. O próprio Iacocca é tido como o homem que recuperou a indústria automobilística norte-americana ante a ameaça dos carros japoneses na década de 80, fato que agora parece se repetir como a Toyota passando a General Motors como maior fabricante de automóveis do mundo. Seu amigo Rudy Giuliani, que estava mal nas pesquisas de opinião quando entregou a prefeitura de Nova York ao também republicano Michael Bloomberg, tornou-se um dos líderes mais populares dos Estados Unidos quando chamou a si a responsabilidade pela reconstrução da cidade, a ponto de torná-lo o principal candidato republicano à sucessão de George W. Bush. Em seu primeiro mandato, Bush chegou a improváveis 94% de aprovação nos dias que se seguiram aos 11 de Setembro, tornando-se depois um homem angustiado e obcecado pela defesa do país contra novos ataques terroristas, inventando guerras e rasgando a Constituição, especialmente na proteção da privacidade dos cidadãos. Como o povo tem memória curta, sua popularidade hoje é a menor que um presidente norte-americano obteve no pós-guerra, só inferior ao humilhado democrata Jimmy Carter ao final do seu governo no início dos anos 80. O livro de Iacocca é um convite à reação, mas quando a economia norte-americana bate recordes sucessivos de expansão, apesar da dívida de US$ 8,8 trilhões e dos empregos estarem migrando para a China, Vietnã e Índia, fica difícil sair da zona de conforto, tornar-se um líder e ir à luta. É próprio do ser humano. Infelizmente, e na maioria das vezes, é preciso de uma tragédia para detonar o espírito de liderança que existe em cada um de nós.
segunda-feira, 14 de maio de 2007
Oshow do dinheiro
Que os americanos sabem ganhar dinheiro como ninguém já se sabe. O que impressiona, no entanto, é que eles fazem isto sorrindo, se divertindo, batendo boca e gritando, no melhor estilo italiano. Basta assistir a um dos canais à cabo de maior sucesso nos Estados Unidos, a CNBC, da rede NBC, uma espécie de GloboNews misturada com Bloomberg TV cheia de gente bonita, atraente, de bem com a vida, mas que só fala em dinheiro, muito dinheiro. A rede, que tem alguns programas exibidos no Brasil, detém quase 80% do mercado televisivo dedicado aos negócios, especialmente nas TVs que ficam ligadas nos mesões das corretoras e dos bancos. Reconhecida por passar incessantemente as cotaçõesdas ações no rodapé, os chamados tickers, a CNBC furou a imprensa de todo o mundo semana passada quando descobriu que Rupert Murdoch, o empresário australiano dono da Fox, fez uma oferta hostil para comprar o The Wall Street Journal por US$ 5 bilhões. A CNBC foi criada em 1989 sob o sugestivo nome de Consumer News and Business Channel, em Nova Jersey, perto de Nova York, e hoje tem como atração principal um doido varrido chamado Jim Cramer, que faz sucesso atirando objetos na câmera, xingando a mãe dos telespectadores e se esgoelando para dar dicas de empresas e ações - comportamento que ele chama de "educação do investidor". Mas a CNBC tem um personagem central em torno da qual todo o mundo financeiro gravita, e ela é Maria Bartiromo, uma ítalo-americana de 39 anos, sósia da atriz Claudia Cardinale, que domina o imaginário do mundo financeiro "fazendo perguntas difíceis de uma maneira civilizada" em seus programas Closing Bell e The Wall Street Journal Report. Ela ficou famosa não só pela sua competência - com mestrado em economia, se dá bem com os intrincados caminhos do mercado financeiro -, mas por aceitar, mesmo sendo casada, viajar sozinha no jatinho do Citigroup em companhia do chefe da divisão Todd Thompson, que dispensou seus colegas numa viagem de retorno da China. Thompson foi demitido, enquanto Maria foi não só mantida no cargo, como também elogiada pelo seu profissionalismo. "Faz parte de seu trabalho", defenderam seus chefes. Fora o noticiário pesado, em torno de ações, bônus, derivativos, etc. - assistir à CNBC é como ligar seu corpo numa tomada de 220V -, a rede começou a inovar a mídia especializada quando adicionou à sua programação atrações de entrevistas, como Big Idea, onde o publicitário Donny Deutsch chama CEOs (Bill Gates e Warren Buffet, por exemplo) para fazer perguntas inusitadas (quantos dólares você carrega na sua carteira?), ou Deal or No Deal, estrelado pelo ator-comediante canadense Howie Mandel, hoje na sua quarta temporada. Deal or No Deal testa a capacidade das pessoas de ficarem satisfeitas com o que ganharam - às vezes US$ 100 mil, US$ 200 mil - ou insistir em ganhar mais apostando na abertura de pequenas maletas carregadas por 26 modelos quase idênticas, um dilema semelhante ao dia-a-dia dos negócios que dão certo. O show está fazendo sucesso - esta semana seu apresentandor foi convidado para ir ao programa de entrevistas de Larry King, da CNN - porque, como era de se esperar, a maioria não se contenta com o que já ganhou e, ao final, perde tudo. A exemplo de seus entrevistados, a CNBC, que também pertence à General Electric, é extremamente lucrativa. Ano passado faturou US$ 510 milhões e teve um lucro de US$ 250 milhões. Embora sua audiência não possa ser comparada aos canais à cabo CNN e Fox, por se tratar de mídia especializada, depende do humor do mercado acionário. No ano 2000, por exemplo, antes do estouro das empresas de internet nas bolsas, chegou a ser líder de audiência, mas com o mercado à deriva nos anos seguintes tem tido dificuldades para ganhar mais audiência. Com o passar dos anos, a CNBC foi se replicando em todo mundo. Foram criados canais no Oriente Médio, na Ásia e na Europa, nesta última numa joint venture com o The Wall Street Journal. Se as bolsas voltarem a ser a atração do mundo dos negócios, como já se prenuncia, sua audiência vai crescer cada vez mais.
segunda-feira, 7 de maio de 2007
Salvando o The New York Times
Para gente bem informada, como você, caro leitor, um dos maiores prazeres de morar nos Estados Unidos é ter o The New York Times, o melhor jornal norte-americano (ou do mundo, segundo defendem os mais radicais) na soleira da sua porta, todos os dias, por volta das 5h da manhã. É um prazer inigualável, pois o que você lerá naquela manhã, entre uma xícara de caffé latte, ovos e bacon, bem ao estilo americano, é uma antecipação dos assuntos que serão notícia nos telejornais, rádios e agências de notícias de todo o mundo. Aqui, só o The Wall Street Journal, com dois milhões de exemplares, e que vem sendo assediado por Robert Murdoch, da News Corporation, numa aquisição hostil de US$ 5 bilhões, é páreo para o NYT. Graças a uma inexequível equação, que reúne mais de 1,2 mil jornalistas espalhados pelo mundo e com faturamento (e lucro) decrescentes pelo advento da internet, o NYT dita o tom da imprensa em tudo aquilo que ela é, por natureza, contra: governo (ou qualquer poder), ladroagem, injustiças, abusos, etc. O grande debate que ocorre nos Estados Unidos é como o NYT manterá sua integridade num momento em que os acionistas minoritários, mas nem por isto menos poderosos, querem derrubar a família Ochs-Sulzberger da administração, considerada pouco profissional, leniente com os jornalistas e paralisada ante o avanço da concorrência eletrônica. Em outros palavras, o NYT está rendendo pouco. Na semana passada, Arthur Sulzberger Jr., o advogado de 55 anos que está no poder mais por hereditariedade do que por capacidade (sua família é equiparada aos Kennedy quando se elegem os clãs da realeza norte-americana), postou-se com seus parentes na sua retaguarda durante a reunião anual dos acionistas. Proprietários de 70% das ações com direito a voto, os Sulzberger rejeitaram qualquer mudança na administração, afinal, dizem eles, apoiados em editoriais pelas famílias que controlam o The Wall Street Journal e o The Washington Post o poder familiar é a muralha chinesa que impede que o jornal fique à mercê dos interesses econômico-financeiros. Em outras palavras, que Wall Street assuma o jornal e provoque demissões, queda de qualidade, comoditização do noticiário, redução do espaço editorial e, o pior, que se fique sujeito aos interesses de determinado grupo econômico ou partido político. Quem está liderando a campanha pela mudança na administração do jornal é um sobrevivente de Wall Street, Hassan Elmasry, do Mongan Stanley Investment Management. Basicamente, ele quer que o The New York Times unifique a estrutura acionária, de dois tipos de ações que, em outras palavras, mantém o poder da família no conselho de administração. A família, no entanto, está sensível às reclamações dos acionistas. Vem investindo fortemente em produtos eletrônicos, como o Times Reader, um software que faz com que o leitor folheie o jornal na tela do computador. Mais ainda, iniciou uma política agressiva de distribuição de dividendos. O The New York Times é um negócio como outro qualquer, mas a legião de leitores - gente que manda na economia, nas artes e na política norte-americana - quer tirá-lo desta vala comum e elegê-lo como o bastião do povo contra tudo aquilo que está errado, publicando todas as notícias que merecem ser impressas, como lembra o slogan do jornal. Apesar de herdeiro, Arthur é adorado pelos jornalistas da casa por sempre defendê-los, especialmente no episódio da perseguição do governo do presidente George W. Bush aos repórteres para que eles revelassem as fontes de notícias polêmicas, como, por exemplo, a denúncia de que o Iraque não tinha armas químicas, o que invalida qualquer argumento para a guerra que já dura mais de cinco anos. Você, paciente leitor, deve estar adivinhando o final desta história. O dinheiro falará mais alto, o NYT vai ser comprado por um fundo de private equity, que recentemente se apaixonou pelo meio jornalístico e, desta forma, a mais bonita, interessante e emocionante profissão deste mundo, o jornalismo, nem sequer pode prever o que acontecerá com ela daqui para a frente.
quarta-feira, 2 de maio de 2007
O primeiro bilhão não se esquece
O mundo já sabe que quem vai mandar são os hedge funds, fundos de investimentos que ganham dinheiro (muito dinheiro) quando o mercado sobe, desce, fica à deriva ou permanece inalterado. Para eles, perder não é uma alternativa. Como um tsunami dos negócios, e com um patrimônio que somado chega a estonteantes US$ 2 trilhões, ou quatro vezes o PIB brasileiro, eles compram tudo que vêem, de montadoras a cadeias de supermercados, de petrolíferas a aéreas. O que poucos sabem é quanto de dinheiro os administradores destes fundos, fechados aos simples mortais, pouco regulados pelas autoridades e geralmente com endereços nas Ilhas Cayman ou nas Bahamas, ganham ao final de cada ano. A publicação Alpha Magazine encarregou-se de revelar os números: James Simons, do Renaissance Technologies, fundo de US$ 12 bilhões fechado a novos investidores há 14 anos, ganhou US$ 1,7 bilhão em 2006. Não precisa ser gênio para deduzir que Simons, recluso e misterioso septuagenário popular no meio acadêmico por ser criptoanalista, físico, matemático e filantropista, ganha cerca de US$ 12 mil por hora trabalhada, quando o salário mínimo por aqui não passa de US$ 5. De acordo com o Institutional Investor, James ganhou um pouco menos em 2005, só US$ 1,5 bilhão e, pior ainda, US$ 670 milhões em 2004. Os proventos fazem dele o 64.° homem mais rico dos EUA na mensuração da Forbes. Desde 1989 faz a alegria de seus investidores com retornos acima de 35% ao ano, colocando competidores, inclusive o lendário George Soros, no chinelo. James cobra as taxas de mercado para administrar o fundo (cerca de 5%), mas cobra taxa de sucesso de 44%, o que manda seu salário para níveis estratosférios. Fumando, com olhar de quem não precisa agradar a ninguém (já perdeu dois filhos e tem um autista), deu sua primeira entrevista em dez anos ao canal CNBC, e pareceu não muito preocupado em mostrar as intricadas fórmulas matemáticas que, com a ajuda de computadores e especialistas, usa para se enriquecer com os mercados futuros, swaps e derivativos em posições altamente alavancadas. "O que tenho é muita sorte", resumiu ele. James Simons não está sozinho na explosão salarial dos administradores de fundos de hedge. Segundo o Alpha Magazine, há outros. Ken Griffin (38 anos), da Cidadel Investments, com US$ 1,4 bilhão; Edward Lambert (você vai ouvir muito este nome), da ESL Investiment, que ganhou US$ 1,3 bilhão, boa parte transformando a Sears, da qual é chairman, em decadente loja de departamentos, mas fonte inesgotável de lucros. Há ainda o polêmico George Soros, ex-patrão de Armínio Fraga e inimigo número 1 de George W. Bush (é um dos grandes financiadores do Partido Democrata), que ganhou US$ 950 milhões; Steven Cohen, da SAC Capital (US$ 900 milhões) e Carl Icahn (US$ 600 milhões), que volta e meia aparece nas reuniões de diretoria das grandes empresas exigindo melhor administração e mais lucros, à custa de demissões. Todos os administradores, mesmo os mais pobrezinhos, defendem as lucrativas taxas de performance porque ficam "alinhados com os interesses dos investidores". Mas estas taxas, que fazem dos fundos de hedge aquilo que o capitalismo tem de mais selvagem, são criticadas por gente como Warren Buffet, o segundo homem mais rico do mundo, que as considera um empurrão para os altos riscos, em detrimento de uma estratégia de longo prazo. Mas o que fazem estes administradores com tanto dinheiro? Segundo o The Wall Street Journal, o patrimônio médio dos gestores é de US$ 61 milhões. São homens, em sua maioria, com menos dos 55 anos (mulher quase não entra). Gastam em obras de arte, iates, jóias, hotéis e resorts, relógios, roupas, spas, eletrônicos, amigos e vinhos da melhor qualidade. Afinal, como se diz, a vida é muito curta para se tomar vinho ruim.
segunda-feira, 23 de abril de 2007
O perdão que entrou para a história
Leslie Lynch King Jr, ou Gerald Rudolf Ford, o 38º presidente norte-americano morto semana passada aos 93 anos, não entrou para a história por ser um homem incapaz de “mascar chicletes e andar ao mesmo tempo”, como se dizia à época.
Ford, o único residente não eleito até hoje na história americana, surpreendeu o mundo ao perdoar, contra tudo e contra todos, o antecessor Richard Nixon (que renunciou após ser pego no escândalo Watergate) por todos os crimes que cometeu – “e eventualmente possa ter cometido” – contra os EUA. Por este perdão, anunciado em cadeia nacional um mês após a renúncia de Nixon, em 9 de agosto de 1974, Ford foi bombardeado pela esquerda e pela direita, dentro e fora do país. Pior ainda, foi fragorosamente derrotado na eleição de 1977 pelo democrata Jimmy Carter, um produtor de amendoins da Geórgia que só provou seu valor após deixar a presidência e ganhar o Prêmio Nobel da Paz.
“É uma tragédia americana”, defendeu-se ele na ocasião, “na qual todos nós tivemos a nossa parte”. “Eu poderia ir à frente, mas sou o único que pode dar um basta nesta história toda – e se eu posso, eu devo”, disse.
Ford, um advogado de Michigan e ex-campeão de futebol americano, que se vangloriava de ser escoteiro e cujo papo dava sono nos interlocutores, se refugiou numa bucólica região do Califórnia e passou o resto da vida jogando golfe. “Ele assumiu (a Presidência) em um período de grande divisão e turbulência” disse o atual presidente do EUA, George W. Bush, “mas para uma nação que precisava de cura e de um cargo que necessitava de calma e determinação, Ford apareceu quando mais precisávamos dele”, resumiu.
Foi um período em que os EUA, ao mesmo tempo, perderam a Guerra do Vietnã e assistiram, boquiabertos, à renúncia do presidente Nixon, embora ele tenha feito coisas notáveis, como a aproximação com a China.
Timoneiro de uma presidência tranqüila, quase apática, embora tenha sido vítima de duas tentativas de assassinato, Ford perdoou os americanos que se recusaram a ir à Guerra do Vietnã, e ainda referendou o Tratado de Helsinque, criticado à época, mas reconhecido depois como o início do fim da Guerra Fria e, em seguida, da União Soviética. Numa época de declínio econômico, inflação alta e descrédito no país – e fora dele – Ford também tentou de toda sas formas cortar o dispêndio público – vetou diversos projetos de aumento dos gastos até não resistir à maioria democrata no Congresso, que sucessivamente derrubou os vetos presidenciais.
Veterano da Marinha da Segunda Grande Guerra, Ford enfrentou uma de suas mais duras batalhas na fronte interna. A dependência de drogas e depois o alcoolismo da ex-primeira dama, Betty Ford, que apareceu na TV trôpega, mas altiva, durante o funeral do marido no Congresso americano. Confrontada pela família, Betty não só reconheceu a dependência como também criou, no início da década de 80, o Betty Ford Center for Drug and Alcohol Rehabilitation em Rancho Mirage, na Califórnia. Ford foi um homem simples, probo e correto, uma espécie de interventor que o destino escolheu para acalmar os ânimos e colocar o país nos trilhos. Depois dele, apesar de ter sido sucedido por um presidente claudicante como Jimmy Carter, os EUA redescobriram-se, derrotaram a União Soviética e promoveram décadas de exuberante crescimento econômico, jamais visto na história da humanidade.
Ford, o único residente não eleito até hoje na história americana, surpreendeu o mundo ao perdoar, contra tudo e contra todos, o antecessor Richard Nixon (que renunciou após ser pego no escândalo Watergate) por todos os crimes que cometeu – “e eventualmente possa ter cometido” – contra os EUA. Por este perdão, anunciado em cadeia nacional um mês após a renúncia de Nixon, em 9 de agosto de 1974, Ford foi bombardeado pela esquerda e pela direita, dentro e fora do país. Pior ainda, foi fragorosamente derrotado na eleição de 1977 pelo democrata Jimmy Carter, um produtor de amendoins da Geórgia que só provou seu valor após deixar a presidência e ganhar o Prêmio Nobel da Paz.
“É uma tragédia americana”, defendeu-se ele na ocasião, “na qual todos nós tivemos a nossa parte”. “Eu poderia ir à frente, mas sou o único que pode dar um basta nesta história toda – e se eu posso, eu devo”, disse.
Ford, um advogado de Michigan e ex-campeão de futebol americano, que se vangloriava de ser escoteiro e cujo papo dava sono nos interlocutores, se refugiou numa bucólica região do Califórnia e passou o resto da vida jogando golfe. “Ele assumiu (a Presidência) em um período de grande divisão e turbulência” disse o atual presidente do EUA, George W. Bush, “mas para uma nação que precisava de cura e de um cargo que necessitava de calma e determinação, Ford apareceu quando mais precisávamos dele”, resumiu.
Foi um período em que os EUA, ao mesmo tempo, perderam a Guerra do Vietnã e assistiram, boquiabertos, à renúncia do presidente Nixon, embora ele tenha feito coisas notáveis, como a aproximação com a China.
Timoneiro de uma presidência tranqüila, quase apática, embora tenha sido vítima de duas tentativas de assassinato, Ford perdoou os americanos que se recusaram a ir à Guerra do Vietnã, e ainda referendou o Tratado de Helsinque, criticado à época, mas reconhecido depois como o início do fim da Guerra Fria e, em seguida, da União Soviética. Numa época de declínio econômico, inflação alta e descrédito no país – e fora dele – Ford também tentou de toda sas formas cortar o dispêndio público – vetou diversos projetos de aumento dos gastos até não resistir à maioria democrata no Congresso, que sucessivamente derrubou os vetos presidenciais.
Veterano da Marinha da Segunda Grande Guerra, Ford enfrentou uma de suas mais duras batalhas na fronte interna. A dependência de drogas e depois o alcoolismo da ex-primeira dama, Betty Ford, que apareceu na TV trôpega, mas altiva, durante o funeral do marido no Congresso americano. Confrontada pela família, Betty não só reconheceu a dependência como também criou, no início da década de 80, o Betty Ford Center for Drug and Alcohol Rehabilitation em Rancho Mirage, na Califórnia. Ford foi um homem simples, probo e correto, uma espécie de interventor que o destino escolheu para acalmar os ânimos e colocar o país nos trilhos. Depois dele, apesar de ter sido sucedido por um presidente claudicante como Jimmy Carter, os EUA redescobriram-se, derrotaram a União Soviética e promoveram décadas de exuberante crescimento econômico, jamais visto na história da humanidade.
Tão americana feito a calça jeans e os óculos ray-ban, a Coca-Cola, este líquido insípido e inodoro que até hoje ninguém descobriu porque faz tanto sucesso entre mais de 200 países e bilhões de consumidores, voltou nesta semana a fazer a alegria dos acionistas, depois de quase uma década de letargia. Para desespero de seus adoradores, a empresa chegou até a valer menos que a arqui-rival Pepsi. Suas ações, reconhecidas pelas letras KO, foram negociadas na Bolsa de Nova York a US$ 51 cada, elevando o valor da empresa para US$ 119 bilhões, ainda longe (mas um pouco mais perto) do pique daquele 1998, quando chegou a US$ 88. Esta reviravolta, capa da seção de investimentos do The Wall Street Journal, está fazendo revolver o túmulo do cubano- americano Roberto Goizueta, o lendário ex-CEO responsável pelo que a Coca é hoje. O motivo não é a diversificação de bebidas que a Coca mergulhou-se nos últimos anos, com águas engarrafadas, sucos e energizantes, mas sim a velha e querida bebida cinza-preta, embora sem qualquer adição de açúcar (ou nenhuma caloria), a Coke Zero. Introduzida há dois anos, ela é resultado de uma fórmula secreta (também guardada no SunTrust Bank, em Atlanta, Georgia, sede da empresa) que combina vários adoçantes, mas sem aquele gosto que fica grudado na boca. A Coke Zero é a alegria dos diabéticos, dos gordinhos e das beldades que não querem ter os desconfortáveis quilinhos a mais e são fiéis ao sabor original da Coca, inventada em 1885 por John S. Pemberton para curar uma miríade de problemas de saúde, como indigestão, "fraqueza nervosa", dores-de-cabeça e até impotência, embora muita gente também use para desentupir pias ou abrilhantar espetáculos pirotécnicos, como o show de fontes luminosas visto no programa de David Letterman, o Jô Soares magro daqui. Desde que foi lançada a nova bebida já vendeu mais de 100 milhões de caixas (caixa de 24 garrafas é a referência deste setor). Embora a Zero tenha conquistado apenas uma fração do mercado da velha Coca, está sendo considerada pela empresa como "o lançamento de maior sucesso de qualquer marca nos últimos 20 anos". Até para os brasileiros que querem investir em ações nos Estados Unidos (sites como o www.etrade.com estão aceitando investimentos de estrangeiros), a ação da Coca tem futuro. Analistas da Reuters, Standard & Poor's, Rochdale e Sabriet não só recomendam segurá-las agora, mas consideram que seu preço ainda está abaixo do que ela virá a valer. A Coca, que tem US$ 2,3 bilhões em ações nas mãos dos investidores, ressurgiu das cinzas esta semana quando E. Neville Isdell, atual chairman e CEO, revelou os números do primeiro trimestre do ano: um aumento de 14% no rendimento líquido, superando as expectativas de Wall Street pelo décimo-sexto período consecutivo. A exemplo de outras empresas norte-americanas, a estratégia vencedora de Neville tem endereço certo: o mercado externo. Países como China, Rússia, África do Sul, Nigéria e Europa Oriental estão bebendo mais Coca-Coca, enquanto as vendas da Coke Zero estão estourando na França, Holanda, Argentina, Irlanda e, como não poderia deixar de ser, nos Estados Unidos. Aqui, segundo quem acompanha de perto a indústria, as vendas não estão lá estas coisas porque os baby boomers, gente que nasceu depois da Segunda Grande Guerra, estão ficando velhos e optando, ou precisando mesmo, de bebidas mais saudáveis, que não desçam pelo esôfago e caiam como uma bomba no estômago. Em uma conferência on-line para investidores, a gigante de Atlanta, que detém marcas como Sprite, Minute Maid e Dasani, reportou lucros de US$ 1,26 bilhão, ou 54 centavos de dólar por ação. A reação da Coca passa também pelo aumento de sua participação no mercado com o lançamento da Diet Coke Plus, com vitaminas e minerais. Segundo chefe de Operações, Muhtar Kent, a empresa também espera aumentar as vendas de bebidas com base em frutas, chás e cafés depois de ter comprado a Fuze Beverage. A Coca equipara-se à bandeira americana porque é o símbolo da influência dos Estados Unidos nos rincões mais distantes do universo. Pode ser bebida no Himalaia ou na Sibéria, na Terra do Fogo ou nas Ilhas Fiji - invariavelmente com o mesmo e desbotado sabor. É também a melhor representação da capacidade do país de se reinventar e manter a hegemonia de seus produtos em todo o mundo.
sexta-feira, 20 de abril de 2007
Tanto céu para quê?
Sentado na praia de Copacabana, diante de um mar azul e cristalino, sob um sol de 40 graus, rodeado por muita gente bonita e feliz, numa democracia racial e econômica sem paralelo em qualquer lugar do mundo, fica fácil entender porque o Brasil se fechou em copas e, como um Gulag às avessas, fica neste vai-não-vai na hora de participar do mundo globalizado.
Depois de um longo e tenebroso inverno no Hemisfério Norte, esbarra-se em notícias de balas perdidas, assaltos e seqüestros, adicionada a um governo inepto que incita ao ócio milhões de brasileiros através do Bolsa Família. Mesmo assim, para quem conta hoje com um olhar distante, continuamos deitados em berço esplêndido. E com uma certa razão.
Não precisamos ir à luta – temos etanol à vontade, o oxigênio da Amazônia, 40% do território de terras férteis e virgens, frutas e verduras em profusão, empresários ecléticos (graças aos anos de inflação e instabilidade), as mulheres mais lindas do universo e uma música que nos orgulha em qualquer esquina do mundo.
Arroubos de integração mundial, especialmente com o “Império do mal”, chamado de Estados Unidos, são tidos com desconfiança, menosprezo, não-me-toques, passeatas e cassetetes. O diálogo Sul-Sul, ao contrário do que dizem os impolutos integrantes do Itamaraty, é algo semelhante a trabalhar para pobre (e haja país pobre neste mundo), uma opção que como reza o ditado significa pedir esmola para dois.
O carioca, um povo prosaico, feliz e virador que a exemplo dos portugueses tem saudade de coisas que não aconteceram, argumenta que a violência no Rio é fabricada pela Rede Globo, cujo sargento Jornal Nacional dá Ibope glorificando a bandidagem. Que, diga-se de passagem, “é bem menor que a de São Paulo”.
Tirando boa parte dos empresários e centenas de suados brasileiros que inundam as filas do consulado americano em busca dos vistos, falar mal dos Estados Unidos é quase uma unanimidade, palavra que o inesquecível Nelson Rodrigues comparava à burrice. “Não sei como você agüenta”, “que povo arrogante...” são comentários recorrentes.
É o mesmo que mineiro falando de paulista, de são-paulinos insultando corintianos, de cliente falando mal de banco porque estourou o cheque especial. Na nossa terra, enaltecer os defeitos e encobrir as qualidades é sinal de sapiência, de tomada de posição, de cabeça pensante, algo que deve ter começado coma resistência aos portugueses que vinham até aqui surrupiar nossas riquezas.
Tome-se o caso do etanol. O presidente Bush toma a iniciativa de deixar a Casa Branca, pegar o Air Force One, e viajar nove horas até São Paulo só para falar com Lula que deseja comprar o álcool brasileiro. Como lembrou o leitor Mauro V. de Chermont, num indignado email, trata-se da mais importante visita de um presidente norte-americano nos últimos 40 anos.
“Se não metermos os pés pelas mãos e perdermos o bonde da história, com fizemos tantas vezes”, diz ele, “tenho certeza de que o Brasil assumirá um importante papel no cenário global, deixando para trás nossa imagem, os famosos cinco ‘S’: Sun, Sea, Sex, Samba and Soccer (hoje seriam seis, acrescentando-se Scandals).
Pois bem, senhor Chermont, o Brasil corre o risco de meter os pés pelas mãos e perder este chamado norte-americano, um povo tão viciado em combustíveis quanto o Brasil em profusão.
O governo Lula pode chegar à conclusão, depois de meses e meses examinando o convite de Bush, de que as extensas plantações de cana-de-açúcar, hoje mecanizadas, não trazem benefícios sociais pois não empregam trabalhadores e, assim, não ajudam a pagar a “tremenda dívida social deste país”.
Dívida social, como qualquer dívida, se paga ganhando mais, e não dividindo o que não se tem. É fazer com que os empresários possam trabalhar (e criar empregos), que os portos se abram ao comércio exterior, que o ambiente seja favorável aos negócios, e que o governo não seja o terceiro (e invisível) sócio das empresas através da escorchante (e nunca satisfeita) sanha tributária.
A saída para este recorrente dia-a-dia, onde se vende o almoço para comprar o jantar, é o comércio internacional, a troca de mercadorias e serviços entre as nações, algo que o comilão e preguiçoso D. João de Orléans e Bragança faz há centenas de anos neste mesmo Rio, algo que os países asiáticos fazem com maestria desde o século passado e que o Brasil, por ter nascido em berço esplêndido, fica em dúvida se precisa fazer.
Afinal, com tudo que temos em casa, para quê céu?
Depois de um longo e tenebroso inverno no Hemisfério Norte, esbarra-se em notícias de balas perdidas, assaltos e seqüestros, adicionada a um governo inepto que incita ao ócio milhões de brasileiros através do Bolsa Família. Mesmo assim, para quem conta hoje com um olhar distante, continuamos deitados em berço esplêndido. E com uma certa razão.
Não precisamos ir à luta – temos etanol à vontade, o oxigênio da Amazônia, 40% do território de terras férteis e virgens, frutas e verduras em profusão, empresários ecléticos (graças aos anos de inflação e instabilidade), as mulheres mais lindas do universo e uma música que nos orgulha em qualquer esquina do mundo.
Arroubos de integração mundial, especialmente com o “Império do mal”, chamado de Estados Unidos, são tidos com desconfiança, menosprezo, não-me-toques, passeatas e cassetetes. O diálogo Sul-Sul, ao contrário do que dizem os impolutos integrantes do Itamaraty, é algo semelhante a trabalhar para pobre (e haja país pobre neste mundo), uma opção que como reza o ditado significa pedir esmola para dois.
O carioca, um povo prosaico, feliz e virador que a exemplo dos portugueses tem saudade de coisas que não aconteceram, argumenta que a violência no Rio é fabricada pela Rede Globo, cujo sargento Jornal Nacional dá Ibope glorificando a bandidagem. Que, diga-se de passagem, “é bem menor que a de São Paulo”.
Tirando boa parte dos empresários e centenas de suados brasileiros que inundam as filas do consulado americano em busca dos vistos, falar mal dos Estados Unidos é quase uma unanimidade, palavra que o inesquecível Nelson Rodrigues comparava à burrice. “Não sei como você agüenta”, “que povo arrogante...” são comentários recorrentes.
É o mesmo que mineiro falando de paulista, de são-paulinos insultando corintianos, de cliente falando mal de banco porque estourou o cheque especial. Na nossa terra, enaltecer os defeitos e encobrir as qualidades é sinal de sapiência, de tomada de posição, de cabeça pensante, algo que deve ter começado coma resistência aos portugueses que vinham até aqui surrupiar nossas riquezas.
Tome-se o caso do etanol. O presidente Bush toma a iniciativa de deixar a Casa Branca, pegar o Air Force One, e viajar nove horas até São Paulo só para falar com Lula que deseja comprar o álcool brasileiro. Como lembrou o leitor Mauro V. de Chermont, num indignado email, trata-se da mais importante visita de um presidente norte-americano nos últimos 40 anos.
“Se não metermos os pés pelas mãos e perdermos o bonde da história, com fizemos tantas vezes”, diz ele, “tenho certeza de que o Brasil assumirá um importante papel no cenário global, deixando para trás nossa imagem, os famosos cinco ‘S’: Sun, Sea, Sex, Samba and Soccer (hoje seriam seis, acrescentando-se Scandals).
Pois bem, senhor Chermont, o Brasil corre o risco de meter os pés pelas mãos e perder este chamado norte-americano, um povo tão viciado em combustíveis quanto o Brasil em profusão.
O governo Lula pode chegar à conclusão, depois de meses e meses examinando o convite de Bush, de que as extensas plantações de cana-de-açúcar, hoje mecanizadas, não trazem benefícios sociais pois não empregam trabalhadores e, assim, não ajudam a pagar a “tremenda dívida social deste país”.
Dívida social, como qualquer dívida, se paga ganhando mais, e não dividindo o que não se tem. É fazer com que os empresários possam trabalhar (e criar empregos), que os portos se abram ao comércio exterior, que o ambiente seja favorável aos negócios, e que o governo não seja o terceiro (e invisível) sócio das empresas através da escorchante (e nunca satisfeita) sanha tributária.
A saída para este recorrente dia-a-dia, onde se vende o almoço para comprar o jantar, é o comércio internacional, a troca de mercadorias e serviços entre as nações, algo que o comilão e preguiçoso D. João de Orléans e Bragança faz há centenas de anos neste mesmo Rio, algo que os países asiáticos fazem com maestria desde o século passado e que o Brasil, por ter nascido em berço esplêndido, fica em dúvida se precisa fazer.
Afinal, com tudo que temos em casa, para quê céu?
terça-feira, 17 de abril de 2007
Em busca da terra prometida
A exemplo de todos nós, não se sabe quando o comandante Fidel Alejandro Castro Ruz partirá desta para melhor, mas se um dia ele vier a faltar, como gostava de ameaçar o saudoso Roberto Marinho à equipe, prevê-se tragédia de proporções maremóticas nas 90 milhas infestadas de tubarões que separam a ilha comunista de Cuba e as reacionárias praias de Miami.
Fidel está negociando com a morte e está se saindo bem. Mesmo assim, a guarda costeira dos Estados Unidos voltou a promover na semana passada a operação coordenada pelo Homeland Security Department, com 325 agentes em treinamento para eventual fuga em massa da ilha. Algo em torno de meio milhão de cubanos, estimam.
Pouca gente se dá conta de que, com a regularidade das ondas, ainda aportam nas praias de Miami homens, mulheres, crianças cubanas, os balseros, tema do documentário homônimo que faz sucesso nos EUA sobre a fuga de mais de 50 mil cubanos em meados da década passada, o que obrigou o então presidente Clinton a devolvê-los à terra natal pela Base de Guantánamo, território norte-americano no outro extremo da ilha.
Nada que se equipare à diáspora de quase 124 mil hermanos que fugiram em 1980 pelo Porto de Mariel (homenagem à neta do escritor Ernest Hemingway, ex-morador) em improvisadas barcaças feitas de restos de madeira, painéis de zinco, câmaras pneumáticas e lençóis no papel de velas, muitos deles devorados por tubarões.
Tudo isso não aconteceria caso o governo americano, rendido pelos votos da comunidade cubana da Flórida, suspendesse o embargo econômico e financeiro imposto à ilha desde 1962 para forçar a volta da democracia a um país com um PIB de US$ 40 bilhões, tão vital para o comércio internacional como o Largo da Batata em São Paulo o é para o Cone Sul.
Bastasse que os empresários norte-americanos fossem liberados para instalar milhares de McDonald’s, Starbucks e Citibanks em Cuba, irrigando as veias da economia, que a modorrenta ditadura castrista iria para os ares transformando a ilha em um dos principais destinos de turismo do mundo, em especial o crescente turismo de negócios.
No entanto, como se a paciência dos cubanos fosse infinita, com suas filhas PHD mergulhando na prostituição e os filhos dourando-se em Engenharia Naval num país com muito mar mas sem navios, ficam Fidel Castro, de um lado, e sucessivos americanos, de outro, esquentando o que sobrou da Guerra Fria.
Castro, figura de museu que já passou por dez presidentes norte-americanos e que nos seus melhores anos tentou mudar o dia do Natal para não atrapalhar a safra de cana, viveu até agora levantando seu povo contra uma ameaça que não existe mais – o imperialismo norte-americano, figura de linguagem que esconde o senso comum: lutar por uma vida melhor que inclua, como dizem os balseros no documentário, um carro, uma casa e uma boa mulher.
Outros ditadores, como o filhinho-de-papai Kim Jong-il da Coréia do Norte, ou o sóbrio persa Ahmadinejad, do Irã, ou este inexplicável e fora de moda furacão venezuelano Hugo Chaves escolhem o imperialismo americano como inimigo público número um, e unem seu povo e se perpetuam no poder contra uma pretensa ameaça externa.
É por isto que Estados Unidos e Cuba, como irmãos que brigam há mais de 40 anos e jamais voltaram a se falar, vivem inalterados em suas posições, pois assim Fidel (ou seu irmão Raúl) se inoculam no poder e a comunidade da Flórida tem alguém com quem brigar. Afinal, a pior coisa que pode acontecer com os cubanos-americanos é terem de abandonar os EUA e voltar a uma ilha destruída por quase meio século de comunismo.
Assistindo ao documentário Balseros, vêm à tona milhares de histórias de famílias partidas, amores desfeitos, bens desapropriados, um turbilhão de desagregação social com pitadas de salsa, rumba, e muito charuto. Imagens da opulência norte-americana, país “demasiado perfeito” para os latinos, entremeadas com as favelas de Cuba, carros caindo aos pedaços, gente descalça morena, quase sem roupa, mas, como no Brasil, sorridente e feliz.
Fidel está negociando com a morte e está se saindo bem. Mesmo assim, a guarda costeira dos Estados Unidos voltou a promover na semana passada a operação coordenada pelo Homeland Security Department, com 325 agentes em treinamento para eventual fuga em massa da ilha. Algo em torno de meio milhão de cubanos, estimam.
Pouca gente se dá conta de que, com a regularidade das ondas, ainda aportam nas praias de Miami homens, mulheres, crianças cubanas, os balseros, tema do documentário homônimo que faz sucesso nos EUA sobre a fuga de mais de 50 mil cubanos em meados da década passada, o que obrigou o então presidente Clinton a devolvê-los à terra natal pela Base de Guantánamo, território norte-americano no outro extremo da ilha.
Nada que se equipare à diáspora de quase 124 mil hermanos que fugiram em 1980 pelo Porto de Mariel (homenagem à neta do escritor Ernest Hemingway, ex-morador) em improvisadas barcaças feitas de restos de madeira, painéis de zinco, câmaras pneumáticas e lençóis no papel de velas, muitos deles devorados por tubarões.
Tudo isso não aconteceria caso o governo americano, rendido pelos votos da comunidade cubana da Flórida, suspendesse o embargo econômico e financeiro imposto à ilha desde 1962 para forçar a volta da democracia a um país com um PIB de US$ 40 bilhões, tão vital para o comércio internacional como o Largo da Batata em São Paulo o é para o Cone Sul.
Bastasse que os empresários norte-americanos fossem liberados para instalar milhares de McDonald’s, Starbucks e Citibanks em Cuba, irrigando as veias da economia, que a modorrenta ditadura castrista iria para os ares transformando a ilha em um dos principais destinos de turismo do mundo, em especial o crescente turismo de negócios.
No entanto, como se a paciência dos cubanos fosse infinita, com suas filhas PHD mergulhando na prostituição e os filhos dourando-se em Engenharia Naval num país com muito mar mas sem navios, ficam Fidel Castro, de um lado, e sucessivos americanos, de outro, esquentando o que sobrou da Guerra Fria.
Castro, figura de museu que já passou por dez presidentes norte-americanos e que nos seus melhores anos tentou mudar o dia do Natal para não atrapalhar a safra de cana, viveu até agora levantando seu povo contra uma ameaça que não existe mais – o imperialismo norte-americano, figura de linguagem que esconde o senso comum: lutar por uma vida melhor que inclua, como dizem os balseros no documentário, um carro, uma casa e uma boa mulher.
Outros ditadores, como o filhinho-de-papai Kim Jong-il da Coréia do Norte, ou o sóbrio persa Ahmadinejad, do Irã, ou este inexplicável e fora de moda furacão venezuelano Hugo Chaves escolhem o imperialismo americano como inimigo público número um, e unem seu povo e se perpetuam no poder contra uma pretensa ameaça externa.
É por isto que Estados Unidos e Cuba, como irmãos que brigam há mais de 40 anos e jamais voltaram a se falar, vivem inalterados em suas posições, pois assim Fidel (ou seu irmão Raúl) se inoculam no poder e a comunidade da Flórida tem alguém com quem brigar. Afinal, a pior coisa que pode acontecer com os cubanos-americanos é terem de abandonar os EUA e voltar a uma ilha destruída por quase meio século de comunismo.
Assistindo ao documentário Balseros, vêm à tona milhares de histórias de famílias partidas, amores desfeitos, bens desapropriados, um turbilhão de desagregação social com pitadas de salsa, rumba, e muito charuto. Imagens da opulência norte-americana, país “demasiado perfeito” para os latinos, entremeadas com as favelas de Cuba, carros caindo aos pedaços, gente descalça morena, quase sem roupa, mas, como no Brasil, sorridente e feliz.
Você quer dinheiro?
Na onda de matança serial dos intermediários, sejam eles corretores, varejistas, publicitários (e até nós, jornalistas), internet e seus 1,1 bilhão de usuários preparam-se agora para atacar o sistema bancário, começando pelos Estados Unidos.
Como se sabe, banco é um negócio simples, inventado no século 18 a.C. na antiga Babilônia, para unir quem empresta dinheiro e quem quer dinheiro, pagando-se por isto uns tostões a mais a título de juros. O sistema foi aprimorado, milênios depois, pelos brasileiros, que inventaram os juros compostos, ou juro sobre juro, capazes, realmente, de levar para o espaço qualquer conta do cheque especial.
Vejam o exemplo do www.prosper.com, um site norte-americano que, ao invés de namorados, tribos ou torcidas, une aplicadores e tomadores, como nos tempos babilônicos. A exemplo do www.zopa.com (este de origem britânica), o Prosper faz sucesso pela simplicidade: exige apenas a carteira de motorista, o número de seu seguro social e o endereço residencial para que você empreste ou tome emprestado.
Os juros são exorbitantes para os países civilizados (em média 7% ao ano – isto mesmo, ao ano), mas na selvageria monetária brasileira soam como aqueles empréstimos de pai para filho.
Os banqueiros já estão de cabelo em pé com estes sites, já que eles revolucionam um antigo (e ultrapassado) modelo de negócio que, só nos Estados Unidos, movimenta mais de US$ 60,5 trilhões em ativos, financiando principalmente a gastança dos governadores – sejam eles republicanos ou democratas. Bem parecido com o Brasil.
Quando falam sobre estes sites, banqueiros e bancários soltam impropérios sobre (1) a falta de segurança nas transações, (2) risco de crédito nas operações e (3) “nada melhor do que o olho-no-olho na hora de emprestar dinheiro”. Mas como quem xinga ou grita na verdade está com medo, deduz-se que estes sites tendem não a dominar, mas incomodar muito este sistema. E em curtíssimo prazo.
O pulo do gato está naquilo que os banqueiros acham que são melhores que o restante da humanidade: a arte de concessão de crédito. Tanto a Prosper quanto o Zopa baseiam-se no fantástico Grameen, o banco dos pobres inventado pelo bangladeshiano Muhammad Yunus em1972 em sua terra natal (depois de formar-se nos Estados Unidos).
O Grameen só empresta pequenas quantias para mulheres, e principalmente mulheres em associações ou grupos. Por que? Porque mulher não gasta dinheiro no boteco na volta de casa e, unidas, cobram (ou ajudam) umas às outras o pagamento destes empréstimos. Os sites também partem do mesmo princípio, só que homem lá também tem vez.
Em poucos minutos, você consegue até US$ 5 mil, desde que preencha os requisitos básicos. Um deles é ter um bom nível de crédito, o chamado credit score, um índice que, aqui, separa os norte-americanos entre bons e maus pagadores. Pode tornar sua vida um céu ou um inferno em plena Terra.
O outro – e talvez o mais importante de tudo – é que você tem de inventar um grupo, uma banda, uma associação, uma trupe para obter o rico dinheirinho, e ainda se responsabilizar pelo pagamento. Aproveita-se, aí, do chamado “fator vergonha”. Se um brother (ou na maioria das vezes, uma sister) não paga a conta, fica malvisto na parada.
Enfim, estamos falando de um mundo novo, sem gerentes, agências suntuosas, taxas bancárias, estouros do cheque especial e toda esta relação (muitas vezes conflituosa) que temos com o dinheiro ou com quem o guarda ou empresta – os bancos.
Durante milênios, eles fizeram um papel fundamental para a sociedade, especialmente quando eram apenas indutores do desenvolvimento financiando os empreendedores, este sim o coração e a alma do capitalismo.
Hoje, porém, informação virou commodity. Qualquer pessoa pode fazer um raio-X econômico, financeiro e moral no próximo (vejam o site privateye.com) antes mesmo que qualquer departamento de crédito o faça. Pode saber se a pessoa (ou empresa) paga suas contas em dia, tem passado na polícia ou na Justiça, se tem currículo vitae ou folha corrida.
Ou seja, se é um bom cliente. Simples, não é?
Como se sabe, banco é um negócio simples, inventado no século 18 a.C. na antiga Babilônia, para unir quem empresta dinheiro e quem quer dinheiro, pagando-se por isto uns tostões a mais a título de juros. O sistema foi aprimorado, milênios depois, pelos brasileiros, que inventaram os juros compostos, ou juro sobre juro, capazes, realmente, de levar para o espaço qualquer conta do cheque especial.
Vejam o exemplo do www.prosper.com, um site norte-americano que, ao invés de namorados, tribos ou torcidas, une aplicadores e tomadores, como nos tempos babilônicos. A exemplo do www.zopa.com (este de origem britânica), o Prosper faz sucesso pela simplicidade: exige apenas a carteira de motorista, o número de seu seguro social e o endereço residencial para que você empreste ou tome emprestado.
Os juros são exorbitantes para os países civilizados (em média 7% ao ano – isto mesmo, ao ano), mas na selvageria monetária brasileira soam como aqueles empréstimos de pai para filho.
Os banqueiros já estão de cabelo em pé com estes sites, já que eles revolucionam um antigo (e ultrapassado) modelo de negócio que, só nos Estados Unidos, movimenta mais de US$ 60,5 trilhões em ativos, financiando principalmente a gastança dos governadores – sejam eles republicanos ou democratas. Bem parecido com o Brasil.
Quando falam sobre estes sites, banqueiros e bancários soltam impropérios sobre (1) a falta de segurança nas transações, (2) risco de crédito nas operações e (3) “nada melhor do que o olho-no-olho na hora de emprestar dinheiro”. Mas como quem xinga ou grita na verdade está com medo, deduz-se que estes sites tendem não a dominar, mas incomodar muito este sistema. E em curtíssimo prazo.
O pulo do gato está naquilo que os banqueiros acham que são melhores que o restante da humanidade: a arte de concessão de crédito. Tanto a Prosper quanto o Zopa baseiam-se no fantástico Grameen, o banco dos pobres inventado pelo bangladeshiano Muhammad Yunus em1972 em sua terra natal (depois de formar-se nos Estados Unidos).
O Grameen só empresta pequenas quantias para mulheres, e principalmente mulheres em associações ou grupos. Por que? Porque mulher não gasta dinheiro no boteco na volta de casa e, unidas, cobram (ou ajudam) umas às outras o pagamento destes empréstimos. Os sites também partem do mesmo princípio, só que homem lá também tem vez.
Em poucos minutos, você consegue até US$ 5 mil, desde que preencha os requisitos básicos. Um deles é ter um bom nível de crédito, o chamado credit score, um índice que, aqui, separa os norte-americanos entre bons e maus pagadores. Pode tornar sua vida um céu ou um inferno em plena Terra.
O outro – e talvez o mais importante de tudo – é que você tem de inventar um grupo, uma banda, uma associação, uma trupe para obter o rico dinheirinho, e ainda se responsabilizar pelo pagamento. Aproveita-se, aí, do chamado “fator vergonha”. Se um brother (ou na maioria das vezes, uma sister) não paga a conta, fica malvisto na parada.
Enfim, estamos falando de um mundo novo, sem gerentes, agências suntuosas, taxas bancárias, estouros do cheque especial e toda esta relação (muitas vezes conflituosa) que temos com o dinheiro ou com quem o guarda ou empresta – os bancos.
Durante milênios, eles fizeram um papel fundamental para a sociedade, especialmente quando eram apenas indutores do desenvolvimento financiando os empreendedores, este sim o coração e a alma do capitalismo.
Hoje, porém, informação virou commodity. Qualquer pessoa pode fazer um raio-X econômico, financeiro e moral no próximo (vejam o site privateye.com) antes mesmo que qualquer departamento de crédito o faça. Pode saber se a pessoa (ou empresa) paga suas contas em dia, tem passado na polícia ou na Justiça, se tem currículo vitae ou folha corrida.
Ou seja, se é um bom cliente. Simples, não é?
Não é Deus, mas está quase lá
Não existe marca mais poderosa no mundo do que a presidência dos Estados Unidos. Embora o ex-presidente Bill Clinton comparasse o cargo a um cemitério (“você dá ordens e ninguém ouve”), comandar o país mais poderoso do mundo significa ter influência sobre o destino de bilhões de pessoas, o meio ambiente, a economia global e o futuro do mundo. O presidente não é um Deus, como Antônio Carlos Magalhães na Bahia, mas está quase lá.
Esta marca é tratada com imenso carinho e referência pelos americanos, não importa quem esteja no cargo. O que pouca gente leva em conta é que, por trás deste culto à Presidência, existe um fantástico sistema de marketing que só o dinheiro e o poder podem comprar, uma verdadeira máquina de propaganda descrita no livro “All The President’s Spin”, recém-lançado nos Estados Unidos.
O presidente não dá um passo, não aparece em público ou fala uma frase sequer sem o apoio de um exército de assessores de imprensa, pesquisadores de opinião, assessores políticos, gente de cerimonial e seguranças, o chamado Serviço Secreto.
Mas a história parece ser ingrata. Por mais que tentem mudar o mundo quando estão no poder, quando deixam o cargo são lembrados apenas por frases que disseram, sejam boas ou más. Como Kennedy, (“não pergunte o que seu país pode fazer por você, mas o que você pode fazer pelo seu país”), Nixon (“eu não sou um escroque”), Reagan (“derrubem o Muro de Berlim”) ou Clinton (“nunca tive relações sexuais com esta senhora”) referindo-se à estagiária Monica Lewinsky.
O presidente ganha US$ 400 mil por ano, com todas as despesas pagas. É o salário mais alto de um funcionário público nos Estados Unidos. É um trabalho difícil, arriscado (até hoje quatro presidentes já foram assassinados, quatro morreram durante o mandato de causas naturais, um renunciou e dois sofreram processos de impeachment) e estressante. O nível de pressão a que é submetido um presidente pode ser visualizado ano a ano pelos fotos publicadas nos jornais.
Para ser eleito, o candidato precisa ter nascido nos Estados Unidos (o que impediria uma eventual eleição de Arnold Schwarzenegger, governador da Califórnia) e ter mais de 35 anos. As mordomias incluem morar num endereço exclusivo de Washington e glamurosos deslocamentos. Não há nada que signifique mais poder do que voar no Air Force One (um Jumbo 747 de onde pode exerce a Presidência de qualquer ponto da Terra) ou no Marine One (um super-helicóptero).
Mas como o ex-presidente Fernando Henrique gosta de lembrar, bom mesmo é ser ex-presidente. Jimmy Carter (81 anos) já ganhou o Prêmio Nobel da Paz, escreveu 12 livros e dirige uma bem-sucedida fundação de direitos humanos. Gerald Ford (92), um antigo jogador de futebol americano e único presidente até hoje não eleito (foi indicado pelo Congresso com a renúncia do vice-presidente de Nixon), joga golfe diariamente. George Bush, o pai, é o que mais viaja. Gastou US$ 54 mil em passagens de primeira classe no ano passado – todo ex-presidente tem direito, também, a US$ 96 mil por ano para pagar assessores.
Bill Clinton é o que mais gasta. O Governo paga US$ 460 mil de aluguel da sua mansão perto de Nova York, US$ 54 mil de contas telefônicas e US$ 146 mil na rubrica e “outras despesas”. O que ele ganha com conferências dá inveja em Fernando Henrique (ambos têm os mesmos agentes): US$ 850 mil por ano, fora o adiantamento de US$ 10 milhões para escrever sua biografia publicada no ano passado, talvez o livro mais chato que já existiu sobre a face da Terra.
Mas uma das histórias mais fantásticas da vida pós-presidência é de Theodore Roosevelt, que construiu o Canal do Panamá. Depois de deixar a Casa Branca, fez sucesso escrevendo livros e aventurou-se numa expedição à Amazônia onde descobriu um rio chamado de, coincidentemente, Roosevelt. Tentou eleger-se novamente, era o candidato favorito, mas morreu pouco antes da eleição. Uma história parecida comum caso de um recente presidente brasileiro que iria inaugurar um novo período democrático no País.
Esta marca é tratada com imenso carinho e referência pelos americanos, não importa quem esteja no cargo. O que pouca gente leva em conta é que, por trás deste culto à Presidência, existe um fantástico sistema de marketing que só o dinheiro e o poder podem comprar, uma verdadeira máquina de propaganda descrita no livro “All The President’s Spin”, recém-lançado nos Estados Unidos.
O presidente não dá um passo, não aparece em público ou fala uma frase sequer sem o apoio de um exército de assessores de imprensa, pesquisadores de opinião, assessores políticos, gente de cerimonial e seguranças, o chamado Serviço Secreto.
Mas a história parece ser ingrata. Por mais que tentem mudar o mundo quando estão no poder, quando deixam o cargo são lembrados apenas por frases que disseram, sejam boas ou más. Como Kennedy, (“não pergunte o que seu país pode fazer por você, mas o que você pode fazer pelo seu país”), Nixon (“eu não sou um escroque”), Reagan (“derrubem o Muro de Berlim”) ou Clinton (“nunca tive relações sexuais com esta senhora”) referindo-se à estagiária Monica Lewinsky.
O presidente ganha US$ 400 mil por ano, com todas as despesas pagas. É o salário mais alto de um funcionário público nos Estados Unidos. É um trabalho difícil, arriscado (até hoje quatro presidentes já foram assassinados, quatro morreram durante o mandato de causas naturais, um renunciou e dois sofreram processos de impeachment) e estressante. O nível de pressão a que é submetido um presidente pode ser visualizado ano a ano pelos fotos publicadas nos jornais.
Para ser eleito, o candidato precisa ter nascido nos Estados Unidos (o que impediria uma eventual eleição de Arnold Schwarzenegger, governador da Califórnia) e ter mais de 35 anos. As mordomias incluem morar num endereço exclusivo de Washington e glamurosos deslocamentos. Não há nada que signifique mais poder do que voar no Air Force One (um Jumbo 747 de onde pode exerce a Presidência de qualquer ponto da Terra) ou no Marine One (um super-helicóptero).
Mas como o ex-presidente Fernando Henrique gosta de lembrar, bom mesmo é ser ex-presidente. Jimmy Carter (81 anos) já ganhou o Prêmio Nobel da Paz, escreveu 12 livros e dirige uma bem-sucedida fundação de direitos humanos. Gerald Ford (92), um antigo jogador de futebol americano e único presidente até hoje não eleito (foi indicado pelo Congresso com a renúncia do vice-presidente de Nixon), joga golfe diariamente. George Bush, o pai, é o que mais viaja. Gastou US$ 54 mil em passagens de primeira classe no ano passado – todo ex-presidente tem direito, também, a US$ 96 mil por ano para pagar assessores.
Bill Clinton é o que mais gasta. O Governo paga US$ 460 mil de aluguel da sua mansão perto de Nova York, US$ 54 mil de contas telefônicas e US$ 146 mil na rubrica e “outras despesas”. O que ele ganha com conferências dá inveja em Fernando Henrique (ambos têm os mesmos agentes): US$ 850 mil por ano, fora o adiantamento de US$ 10 milhões para escrever sua biografia publicada no ano passado, talvez o livro mais chato que já existiu sobre a face da Terra.
Mas uma das histórias mais fantásticas da vida pós-presidência é de Theodore Roosevelt, que construiu o Canal do Panamá. Depois de deixar a Casa Branca, fez sucesso escrevendo livros e aventurou-se numa expedição à Amazônia onde descobriu um rio chamado de, coincidentemente, Roosevelt. Tentou eleger-se novamente, era o candidato favorito, mas morreu pouco antes da eleição. Uma história parecida comum caso de um recente presidente brasileiro que iria inaugurar um novo período democrático no País.
segunda-feira, 16 de abril de 2007
O americano que batia um bolão
Em uma jogada de mestre, em plena Copa do Mundo, a Miramax lança na próxima Sexta-feira, em Nova York, o documentário Uma vez na vida: a extraordinária história do New York Cosmos, o time norte-americano de estrelas estrangeiras que, embalado por muito sexo e rock and roll, mudaria em 1977 o negócio do futebol em todo o mundo a partir – quem diria – dos Estados Unidos.
Antes da contratação do já aposentado Pelé por R$ 4,5 milhões, que naquele tempo era um dinheirão, o futebol mundial não conhecia salários astronômicos, cheerleaders fazendo gracinhas no gramado, cobertura maciça da imprensa e, principalmente, o envolvimento da TV como gigantesca ferramenta de marketing.
Até então, o futebol era uma mistura de inocência, representada por Garrincha, cartolagem explícita (a lembrança maior é o treinador Vicente Feola domindo enquanto o Brasil ganhava a Copa de 58) e de muita pelada, num total desprezo pelas regras do show business.
O time dos sonhos, como era chamado na época, entrou com tudo em campo: todo o planejamento de marketing foi feito a partir da TV, os jogadores começaram a ser tratado como estrelas hollywoodianas e os patrocinadores, principalmente empresas de bebidas e artigos esportivos, pularam de cabeça no negócio. Um ensaio do que aconteceria décadas depois. “Trabalhar com o time do Cosmos”, resume um antigo colaborador no documentário, “era como acompanhar uma turnê mundial dos Rolling Stones”.
Os sonhos, no entanto, viraram pesadelos. Por erros da cartolagem (vocês já viram este filme antes...), o time acabou falindo e o negócio quase terminou em pancadaria. O pior de tudo é que o maior objetivo – fazer nascer o futebol nos Estados Unidos – não foi obtido.
Futebol aqui não pega, não dá liga, faz a bola parecer quadrada e os jogadores, pernas-de-pau. O esporte, digamos, está para os americanos assim como o beisebol está para os brasileiros. Os gringos acham o jogo chato, maçante e demorado, e como se não bastasse, pode resultar em 0 a 0. Ninguém se importa, pára de trabalhar ou vai para o boteco comemorar.
Extremamente competitivos, os americanos não entendem com a potência econômica tem de se curvar a um país miserável como, por exemplo, Gana. Quando em todas as Olimpíadas reinaram sem opositores de peso. Mas, como a Copa rende bilhões de telespectadores (e dólares), sempre ficam com a pulga atrás da orelha, como se o Tio Sam tivesse de mandar neste assunto também.
Tudo começou em 1950, quando nossos vizinhos do Norte bateram a armada inglesa em pleno Estádio Independência, em Belo Horizonte, durante aquela trágica Copa do Mundo, um fato tão inusitado que até hoje ninguém entendeu direito.
Desde lá, criou-se uma história recorrente de que os Estados Unidos entendem de futebol – ou soccer, como eles dizem. A partir daí, de décadas em décadas, aparece um aventureiro no ramo. O desbravador foi Steve Ross, da Warner Communications, com o próprio Cosmos. O primeiro jogo, em 1971, contou com apenas 3.746 fãs na torcida. Em 1972, o escrete já ganharia o primeiro campeonato americano.
O mundo ficou embasbacado quando se anunciou que o Cosmos contrataria Pelé, “o mais amado jogador de futebol de todos os tempos” para jogar durante três anos por uma fortuna. Depois de uma noite de farra no Club 21, Pelé foi apresentado a 22.500 fãs que foram ver o Cosmos bater o Toronto por 2 x 0.
No ano de 1977, não se falava em outra coisa a não ser no Cosmos de Nova York ou o “milagre” do futebol nos Estados Unidos. Pelé, que se recusou a ser entrevistado para este documentário, disse recentemente que sua ida para este time fez com que ele ficasse mais de 20 anos por aqui, tornando o futebol “uma realidade no país”.
Pelé pode ser mesmo bom de previsões, como a de que o Brasil não ganharia esta Copa – fato que ficará para a história, assim como aquela frase de que “o brasileiro não sabe votar”. No entanto, no caso do futebol nos Estados Unidos, infelizmente, ele errou feio.
Futebol é uma atividade marginal nos Estados Unidos, nas mãos da criançada e de alguns inocentes fãs que fazem do soccer uma confraria do outro mundo. Não daqui.
Antes da contratação do já aposentado Pelé por R$ 4,5 milhões, que naquele tempo era um dinheirão, o futebol mundial não conhecia salários astronômicos, cheerleaders fazendo gracinhas no gramado, cobertura maciça da imprensa e, principalmente, o envolvimento da TV como gigantesca ferramenta de marketing.
Até então, o futebol era uma mistura de inocência, representada por Garrincha, cartolagem explícita (a lembrança maior é o treinador Vicente Feola domindo enquanto o Brasil ganhava a Copa de 58) e de muita pelada, num total desprezo pelas regras do show business.
O time dos sonhos, como era chamado na época, entrou com tudo em campo: todo o planejamento de marketing foi feito a partir da TV, os jogadores começaram a ser tratado como estrelas hollywoodianas e os patrocinadores, principalmente empresas de bebidas e artigos esportivos, pularam de cabeça no negócio. Um ensaio do que aconteceria décadas depois. “Trabalhar com o time do Cosmos”, resume um antigo colaborador no documentário, “era como acompanhar uma turnê mundial dos Rolling Stones”.
Os sonhos, no entanto, viraram pesadelos. Por erros da cartolagem (vocês já viram este filme antes...), o time acabou falindo e o negócio quase terminou em pancadaria. O pior de tudo é que o maior objetivo – fazer nascer o futebol nos Estados Unidos – não foi obtido.
Futebol aqui não pega, não dá liga, faz a bola parecer quadrada e os jogadores, pernas-de-pau. O esporte, digamos, está para os americanos assim como o beisebol está para os brasileiros. Os gringos acham o jogo chato, maçante e demorado, e como se não bastasse, pode resultar em 0 a 0. Ninguém se importa, pára de trabalhar ou vai para o boteco comemorar.
Extremamente competitivos, os americanos não entendem com a potência econômica tem de se curvar a um país miserável como, por exemplo, Gana. Quando em todas as Olimpíadas reinaram sem opositores de peso. Mas, como a Copa rende bilhões de telespectadores (e dólares), sempre ficam com a pulga atrás da orelha, como se o Tio Sam tivesse de mandar neste assunto também.
Tudo começou em 1950, quando nossos vizinhos do Norte bateram a armada inglesa em pleno Estádio Independência, em Belo Horizonte, durante aquela trágica Copa do Mundo, um fato tão inusitado que até hoje ninguém entendeu direito.
Desde lá, criou-se uma história recorrente de que os Estados Unidos entendem de futebol – ou soccer, como eles dizem. A partir daí, de décadas em décadas, aparece um aventureiro no ramo. O desbravador foi Steve Ross, da Warner Communications, com o próprio Cosmos. O primeiro jogo, em 1971, contou com apenas 3.746 fãs na torcida. Em 1972, o escrete já ganharia o primeiro campeonato americano.
O mundo ficou embasbacado quando se anunciou que o Cosmos contrataria Pelé, “o mais amado jogador de futebol de todos os tempos” para jogar durante três anos por uma fortuna. Depois de uma noite de farra no Club 21, Pelé foi apresentado a 22.500 fãs que foram ver o Cosmos bater o Toronto por 2 x 0.
No ano de 1977, não se falava em outra coisa a não ser no Cosmos de Nova York ou o “milagre” do futebol nos Estados Unidos. Pelé, que se recusou a ser entrevistado para este documentário, disse recentemente que sua ida para este time fez com que ele ficasse mais de 20 anos por aqui, tornando o futebol “uma realidade no país”.
Pelé pode ser mesmo bom de previsões, como a de que o Brasil não ganharia esta Copa – fato que ficará para a história, assim como aquela frase de que “o brasileiro não sabe votar”. No entanto, no caso do futebol nos Estados Unidos, infelizmente, ele errou feio.
Futebol é uma atividade marginal nos Estados Unidos, nas mãos da criançada e de alguns inocentes fãs que fazem do soccer uma confraria do outro mundo. Não daqui.
Guerra ao racismo
Diz-se que o homem, como o peixe, morre pela boca. É o que está acontecendo com o locutor Don Imus, da CBS, demitido na semana passada depois que chamou as jogadoras de basquete do Rutgers, uma universidade pública de New Jersey, na Costa Leste, de prostitutas de cabelo encarapinhado (Nappy-headed ho's).Imus, que assim encerrauma carreira de mais de 41 anos no rádio (seu programa também era transmitido ao vivo de madrugada pelo canal a cabo MSNBC) foi asfixiado não só pela reação em cadeia de candidatos presidenciais, jogadoras, bloguistas e pelos revanchistas de plantão, gente que pega este ato isolado e quer lixar a raça branca por séculos de opressão contra negros. O que pesou mesmo foram os principais patrocinadores, gente como Procter & Gamble, General Motors, Staples e Sprint, cancelarem o patrocínio de US$ 25 milhões para o programa distribuído em mais de 70 rádios norte-americanas. Como o dinheiro fala mais alto, a reação inicial do pessoal de TV e rádio foi suspender Imus, um caubói californiano e branquelo com sotaque sulista, por duas semanas. Mas depois, com a repercussão aumentando como uma bola de neve, a CBS decidiu simplesmente demiti-lo. Imus é reincidente em tratar negros, latinos, índios e outras minorias nos Estados Unidos com palavras de baixo calão, ou no mínimo discriminatórias. Ex-alcóolatra e dadivoso filantropista, já foi acusado(e processado) de racismo, misogenia e homofobia, não só por celebridades, mas até por colegas de trabalho. Seu principal alvo, no entanto, são as mulheres negras, embora já tenha chamado o ex-secretário de Estado americano Colin Powell de "doninha ressonante" e o governador do Novo México de "bicha gorda". Mas agora a paciência estourou. A gota d'água foi o discurso da técnica do Rutgers, C. Vivian Stringer, durante entrevista coletiva do time após o incidente. Ela chamou a atenção para o efeito perverso que as palavras de Imus provocaram nas meninas do basquete, a maior parte delas pós-adolescente. O time - composto de oito negras e duas brancas -, disse que voltou para suas casas no feriado de Páscoa e, ao invés de celebrar o reencontro com a família, só ouviram lamentações e rancores dos pais e amigos contra Imus. O radialista, um mestre na arte da fala, bateu de frente com todo o mundo, pediu desculpas diversas vezes ("sou um homem bom que fez uma coisa ruim"), propôs um pedido de desculpas frente a frente e convidou representantes da raça negra para debaterem a questão no seu programa. Só piorou a situação. Embora seja o maior caldeirão de raças que até hoje se encontraram num só espaço geográfico, os Estados Unidos está pronto para explodir a qualquer momento. O racismo é aberto, declarado, cheio de não-me-toques e do não-se-meta-comigo. Daí o imperdoável perdão judicial ao jogador de futebol americano O. J. Simpson, depois dele ter matado a esposa Nicole e seu namorado Ronald Goldman em 1994. Ou da imediata punição aos agentes que bateram no motorista de táxi Rodney Glen King em 1991, que provocou uma nunca vista guerra racial na parte mais pobre de Los Angeles, como diversos motoristas brancos sendo filmados pelas câmeras em cenas grotescas - arrancados dos carros e apanhando no meio da rua. Mas agora, passado os horrores do racismo - desde a escravatura, a Ku Klux Klan, e o assassinato do pastor Martin Luther King, Jr. em Memphis, Tennessee, em 1968, a discussão entre brancos e negros se dá, principalmente, pela mídia, que arregimenta as melhores cabeças pensantes para debater durante horas as injustiças da sociedade. O fantástico de toda esta história é o fato de os Estados Unidos terem a capacidade de errar, de aprender com os erros e de, como sempre, tirar lições deles. Ninguém fica parado na história regurgitando erros comezinhos e as armadilhas do destino. Errar é humano, como se sabe, mas a capacidade de reconhecer o erro rapidamente e corrigi-lo é que faz a diferença. Como disse Chidimma Acholonu, presidente da Associação Nacional para o Avanço das Pessoas de Cor, "esta não é uma batalha contra um homem. É uma batalha contra uma forma de pensamento". Sexta-feira, em entrevista à rede NBC, a técnica C. Vivian Stringer completou: "Se este episódio contribuir para que isto jamais aconteça de novo, eu trocaria tudo isto por todo o campeonato nacional. Estas meninas, como todos nós, são representantes de Deus".
sexta-feira, 13 de abril de 2007
Cabeça, vazia, oficina do diabo
Aposentado não é vagabundo, ao contrário do que disse o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, ele mesmo um aposentado que junta seu polpudo salário com palestras de mais de 50 mil dólares. Mas o exemplo do maior repórter norte-americano, Mike Wallace, do 60 Minutes, 88 anos dia nove de maio último, é surpreendente ? e exemplar. Ele, literalmente, não se aposentou do programa de maior audiência nos Estados Unidos, uma espécie de Fantástico da Rede Globo, mas sem sexo, violência e banalidades que costumam deprimir os brasileiros nas noites de domingo. Às vésperas de entrar na décima década da sua vida e usufruir de seus milhões de dólares numa praia deserta, apenas anunciou que vai reduzir sua carga de trabalho. Por quê? Para ele, cabeça vazia é a oficina do diabo. Ou melhor, seu nome é trabalho, seu sobrenome é muito.Para compensar esta perda parcial, que poderia fazer estrago na audiência depois de 37 anos, a CBS anunciou que vai juntar ao time do 60 Minutes nada menos que Anderson Cooper, da CNN, o repórter mais famoso dos Estados Unidos hoje (graças do furacão Katrina) e a simpática Katie Couric, que junto a Matt Lauer apresentou o Today (nosso Bom Dia, também da Globo) durante décadas.Mesmo nesta idade provecta, Mike Wallace não perde o vigor e a simpatia. Casou-se inúmeras vezes, perdeu um filho (Peter) num acidente nas montanhas, foi acusado de montar armadilhas, ou pegadinhas, para os entrevistados e ? o mais grave - sofreu durante muito tempo de depressão, causada, entre outros motivos, pelos inúmeros processos judiciais que enfrentou durante a vida. ?Primeiro eu não conseguia dormir, depois eu não conseguia comer. Sentia-me sem esperança ou com a mínima vontade de lutar?, diz Mike, um judeu filho de imigrantes russos. ?Foi aí que eu perdi toda a perspectiva das coisas. Você fica louco. Eu tinha feito uma história para os 60 Minutes sobre depressão, mas eu não tinha idéia de eu experimentaria esta doença. Finalmente, tive um colapso e fiquei de cama?. Mais tarde Mike confessou que tentou se suicidar.Tamanhos altos e baixos confirmam o dito mineiro ?você vê as pingas que eu tomo mas não vê os tombos que eu levo?. Nenhum repórter em todo o mundo entrevistou (e irritou) tanta gente importante, entre ditadores, atletas, artistas, reis e rainhas. Mike esteve com Deng Xiaoping, Ayatollah Khomeini, Yasser Arafat, Martin Luther King, Anwar Sadat, boa parte da família real americana (os Kennedy) e Manuel Noriega, o ex-ditador panamenho que o considerou um ícone do jornalismo de sabotagem.Wallace teve dois momentos decisivos na sua carreira. Teve de se retratar quando o general William Westmoreland, comandante das tropas americanas no Vietnã, acusou e processou-o e seus produtores de não usar ?próprios padrões de imparcialidade?, durante um documentário em 1985.Depois, no rumoroso caso que envolveu uma ação judicial de US$ 246 bilhões movida por 50 estados americanos contra a indústria do tabaco. Para quem se lembra, Mike foi representando pelo ator Christopher Plummer no filme O Informante. A CBS grava uma entrevista de Jeffrey Wigand (Russell Crowe), cientista e principal testemunha contra a indústria, com conteúdo devastador. A CBS teve de voltar atrás na apresentação da entrevista. O filme é baseado no artigo da revista ?Vanity Fair? intitulado ?O Homem Que Sabia Demais?. Considerado um ícone do jornalismo norte-americano, ao lado de Edward R. Murrow (Boa Noite, Boa Sorte) e Walter Cronkite (?O presidente John Kennedy acaba de ser assassinado em Dallas, Texas?), o? ?correspondente emérito? Wallace fez mais de 20 reportagens na última série do 60 Minutes, e ainda mais seis na atual série, incluindo uma entrevista com o ator Morgan Freeman e uma reportagem sobre veteranos do Iraque que perderam membros do corpo. Quando perguntado sobre seu amor ao jornalismo, ele responde. ?Eu não saberia fazer outra coisa?. E sobre seu merecido descanso, ele alfineta; ?Só vou me aposentar quando bater as botas?. Longa vida, Mike Wallace.
Um cafezinho de R$ 10,86
Você pagaria R$ 10,86 pelo cafezinho? Claro que não. É um absurdo. Mas na maior e mais famosa rede de cafeterias do mundo, a Starbucks, que tem o nome baseado naquele personagem do livro de Moby Dick que bebe café sem parar, isto é possível. É um preço justo, que ninguém reclama. Pelo contrário, aplaude.A Starbucks é obra de um homem chamado Howard Schultz, que em 1982 tomou um delicioso, cremoso e encorpado café na Starbucks do Pike Place Market, em Seattle, Noroeste dos Estados Unidos, uma cidade-antena que detecta tendências de consumo para todo o mundo. Ficou impressionado com a atração que aquela loja pioneira despertava em clientes fiéis, com um fervor quase religioso, sensação semelhante ao que sanduíches do trailer dos irmãos McDonalds provocaram no empreendedor Ray Kroc. Schultz, nascido pobre em Nova York, viu o que pouca gente via naqueles saudosos anos 80: os americanos não fugiam mais do café como o Diabo da cruz, como também começavam a amar aquela bebida nascida na Etiópia, descoberta graças a um pastor que notou a mudança no comportamento de suas cabras após comerem as frutinhas vermelhas.Boa parte dos 290 milhões de americanos estavam cheios de tomar bebidas sem gosto, sem autenticidade e, pior, de pouca qualidade. Exatamente como o site iconoculture.com, a bíblia dos marqueteiros da atualidade, detectou não só em relação ao café, mas a todas as bebidas: o mundo quer sabor, autenticidade e, se possível, produção artesanal, sem processos industriais.Schultz, como descreve em sua biografia Pour Your Heart into It: How Starbucks Built a Company One Cup at a Time, criou um modelo que juntava a experiência do Starbucks aos antigos bares italianos que vendem Expresso. Em pouquíssimo tempo, transformou aquela pequena cafeteria em um negócio de US$ 5 bilhões, com mais de 10 mil pontos em todo o mundo. O homem vende café do mundo inteiro, embalados em saquinhos desenhados rusticamente, com uma infinidade de nomes e sabores, geralmente exóticos, como americano gosta. Menos café do Brasil, porque aqui, acredita ele, não se faz uma bebida de qualidade. Se você nunca entrou numa loja Starbucks, ainda não sentiu o que entrar na porta do Céu. Trata-se de um refúgio seguro e silencioso da violência (e do tempo ruim) das grandes cidades americanas (ou nos 34 países onde já está). O ambiente não só cheira a café (como não poderia deixar de ser) mas exala calma, tranqüilidade, introspecção e felicidade. O Starbucks um dos melhores lugares do mundo para se trabalhar, segundo a Revista Fortune. Dá seguro saúde para todos os funcionários, que parecem se divertir o tempo todo. E é também uma das companhias multinacionais que mais trabalha a responsabilidade social e a sustentabilidade, especialmente na proteção de quem trabalha na roça de café.Lá dentro, parece que todo mundo está em transe, na chamada "experiência" de tomar café. Há conexões wi-fi de internet para todos, o jornal The New York Times à disposição, guloseimas, chocolates, acessórios (xícaras estilizadas, moedores, torradores etc.) e mais de 30 tipos de bebidas que usam como matéria prima o café.Mas se nós brasileiros produzimos quase metade da produção mundial do café, se tomamos café há 500 anos, se vendemos café até na Rússia desde a década de 70, o que fizemos de errado para cobrarmos um cafezinho a R$ 1 na padaria da esquina?Howard Schultz nasceu nos Estados Unidos, um país onde o sucesso é reverenciado, como todos sabem. Levantou capital, criou padrões, derrubou barreiras, transformou paradigmas e, sem publicidade, apenas no boca-a-boca e em relações públicas, criou um gigante que provê uma experiência única a quem o toca. Enquanto isto, nós brasileiros não investíamos na qualidade do nosso café, acabávamos com o Instituto Brasileiro do Café, nossos cafezais eram dizimados pelas cigarras (e pelas geadas), o governo não se entendia sobre os apoios aos produtores e, pior ainda, ninguém fazia, por exemplo, o que a Colômbia faz há décadas: investe religiosos US$ 50 milhões anuais em marketing. Como a velha do futebol, "quem não faz gol leva", a Starbucks ocupou espaços e fez sucesso. Investiu pesado em relações públicas, brochuras, sites na Internet etc. para ensinar a população a tomar café, ou melhor, "a viver a experiência única de tomar café".Assim, um norte-americano paga R$ 10,86 por um cafezinho de 50 mililitros cada, ou exatos R$156,3 mil (isto mesmo, centro e cinqüenta e seis mil reais e trinta centavos) pela saca que o cafeicultor brasileiro heroicamente produz (uma saca dá para fazer 14 mil e 400 cafezinhos) .A Starbucks fez do ato de tomar café nos Estados Unidos uma celebração espiritual. Em muitas casas, presencia-se cada vez mais um ritual demorado, que deixaria raivoso um monge zen-budista. Algo semelhante a estes vinhochatos que antes de beber falam horas sobre cor, aroma, robustez etc. Você, produtor, quer ganhar R$ 156,3 mil por saca? Claro que não. Mas antes que a Starbucks chegue, o que vai balançar os mercados dos Franz Cafés, Suplicys e Cafeeiras, é bom pensarmos no que estamos fazendo com o nosso café, hoje a commodity mais comercializada no mundo depois da água.
50 anos: e uma pergunta no ar
Larry King, nascido Lawrance Harvey Zeiger, o entrevistador-mor dos Estados Unidos, líder de audiência da CNN, com milhões de espectadores diários em todo o mundo, vai fazer 50 anos de entrevistas (cerca de 40 mil, segundo suas estimativas) em abril.
Nesta semana, em sua mansão em Pasadena, na Califórnia, ele disse que celebrará este meio século de perguntas com uma “big” programação na emissora, fundada pelo lendário Ted Turner: uma semana de entrevistas com Bill Clinton, Ophra Winfrey, Angelina Jolie e, como atração principal, ele mesmo. Será colocado na parede por Katie Couric, a âncora do CBS, a maior estrela da TV americana.
King, um homem que fumava três maços de cigarro por dia, teve um ataque cardíaco e hoje dirige uma fundação que socorre gente com problemas no coração, comanda o mais antigo programa de entrevistas que se tem notícia. Começou na CNN em 1987, mas vive de perguntas desde maio de 1957, quando largou a vassoura de uma rádio de Miami (ele era uma mistura de faxineiro e auxiliar de serviços gerais) e foi colocado no ar.
Pouco atraente, voz estridente e costumeiros deslizes gramaticais, o ex-entregador da UPS faz sucesso há cinco décadas fazendo perguntas. Só isso. Com óculos de fundo de garrafa, cotovelos na mesa e suspensórios vermelhos, ele não opina, não conversa ficado, não bate-boca e, o que deveria ser óbvio para todos os jornalistas, deixa o entrevistado falar. Faz perguntas instantâneas, à queima roupa, que apenas funcionam como fio condutor da conversa.
“O segredo de minha longevidade no ar é guardar para mim minhas opiniões e meu temperamento”, diz King, que vai fazer 74 anos. Ele já pensa antecipadamente em renovar o contrato com a CNN, que vence em 2009. Raramente vê TV, não usa internet e, todos os dias, leva seus filhos à escola (King foi casado oito vezes e tem seis filhos), na Califórnia, para onde se mudou para ficar mais perto das celebridades, que inundam seu programa.
Outro segredo de Larry é mais óbvio ainda: colocar o telespectador no centro do espetáculo. Todas as noites (o programa é transmitido às 9 horas na Costa Leste) dá espaço para perguntas via telefone ou email. Em seu website, Larry já deixa preparado um lugar para que a audiência lhe envie perguntas, nem sempre agradáveis aos entrevistados. No site também pode-se obter as transcrições de todas as entrevistas feitas.
Uma das atrações do programa é o trailler antes e depois de cada intervalo comercial. Pode ser o trecho de um filme, cenas de um show ou um discurso. Este expediente faz com que o telespectador se insira no contexto da conversa e se familiarize com o entrevistado. O nome do entrevistado e suas declarações mais polêmicas aparecem no letreiro durante todo o programa.
Foi por estes letreiros que King foi processado diversas vezes, pois muitos deles trazem pontos de vista ou opiniões preconceituosas a respeito do convidado ou da convidada.
Larry sempre foi absolvido com base na Primeira Emenda da Constituição norte-americana (Liberdade de Expressão), o que lhe dá o privilégio de editar as entrevistas como bem quiser.
Durante estes 50 anos, King teve a oportunidade de conviver, mesmo que por rápidos momentos, com celebridades de dois séculos, desde Eleonor Roosevelt e John Kennedy, até Tony Blair, Jerry Steinfield ou Monica Lewinsky. Já emprestou sua voz (e às vezes sua imagem) a mais de 20 filmes e desenho animados. Recentemente, gravou sua participação em Sherek 3.
Filho de judeus que emigraram do leste europeu, ele é, de tempos em tempos, ridicularizado pelos concorrentes ou pelos humorísticos por sua avançada idade à frente do programa. Um de seus maiores concorrentes, David Letterman, já colocou vídeos no ar mostrando King se transformar numa múmia, ou às vezes no esqueleto.
Na entrevista que deu a um jornal canadense, o Toronto Sun, King revelou quais celebridades ainda quer entrevistar. O Papa Bento XVI e Fidel Castro (antes que ele saia desta para uma melhor, segundo ele). O que você perguntaria a Fidel, indagou o repórter: “o que falhou, o que deu errado, por que o comunismo acabou”, sugeriu. King não perde uma chance. Há sempre uma pergunta no ar.
Nesta semana, em sua mansão em Pasadena, na Califórnia, ele disse que celebrará este meio século de perguntas com uma “big” programação na emissora, fundada pelo lendário Ted Turner: uma semana de entrevistas com Bill Clinton, Ophra Winfrey, Angelina Jolie e, como atração principal, ele mesmo. Será colocado na parede por Katie Couric, a âncora do CBS, a maior estrela da TV americana.
King, um homem que fumava três maços de cigarro por dia, teve um ataque cardíaco e hoje dirige uma fundação que socorre gente com problemas no coração, comanda o mais antigo programa de entrevistas que se tem notícia. Começou na CNN em 1987, mas vive de perguntas desde maio de 1957, quando largou a vassoura de uma rádio de Miami (ele era uma mistura de faxineiro e auxiliar de serviços gerais) e foi colocado no ar.
Pouco atraente, voz estridente e costumeiros deslizes gramaticais, o ex-entregador da UPS faz sucesso há cinco décadas fazendo perguntas. Só isso. Com óculos de fundo de garrafa, cotovelos na mesa e suspensórios vermelhos, ele não opina, não conversa ficado, não bate-boca e, o que deveria ser óbvio para todos os jornalistas, deixa o entrevistado falar. Faz perguntas instantâneas, à queima roupa, que apenas funcionam como fio condutor da conversa.
“O segredo de minha longevidade no ar é guardar para mim minhas opiniões e meu temperamento”, diz King, que vai fazer 74 anos. Ele já pensa antecipadamente em renovar o contrato com a CNN, que vence em 2009. Raramente vê TV, não usa internet e, todos os dias, leva seus filhos à escola (King foi casado oito vezes e tem seis filhos), na Califórnia, para onde se mudou para ficar mais perto das celebridades, que inundam seu programa.
Outro segredo de Larry é mais óbvio ainda: colocar o telespectador no centro do espetáculo. Todas as noites (o programa é transmitido às 9 horas na Costa Leste) dá espaço para perguntas via telefone ou email. Em seu website, Larry já deixa preparado um lugar para que a audiência lhe envie perguntas, nem sempre agradáveis aos entrevistados. No site também pode-se obter as transcrições de todas as entrevistas feitas.
Uma das atrações do programa é o trailler antes e depois de cada intervalo comercial. Pode ser o trecho de um filme, cenas de um show ou um discurso. Este expediente faz com que o telespectador se insira no contexto da conversa e se familiarize com o entrevistado. O nome do entrevistado e suas declarações mais polêmicas aparecem no letreiro durante todo o programa.
Foi por estes letreiros que King foi processado diversas vezes, pois muitos deles trazem pontos de vista ou opiniões preconceituosas a respeito do convidado ou da convidada.
Larry sempre foi absolvido com base na Primeira Emenda da Constituição norte-americana (Liberdade de Expressão), o que lhe dá o privilégio de editar as entrevistas como bem quiser.
Durante estes 50 anos, King teve a oportunidade de conviver, mesmo que por rápidos momentos, com celebridades de dois séculos, desde Eleonor Roosevelt e John Kennedy, até Tony Blair, Jerry Steinfield ou Monica Lewinsky. Já emprestou sua voz (e às vezes sua imagem) a mais de 20 filmes e desenho animados. Recentemente, gravou sua participação em Sherek 3.
Filho de judeus que emigraram do leste europeu, ele é, de tempos em tempos, ridicularizado pelos concorrentes ou pelos humorísticos por sua avançada idade à frente do programa. Um de seus maiores concorrentes, David Letterman, já colocou vídeos no ar mostrando King se transformar numa múmia, ou às vezes no esqueleto.
Na entrevista que deu a um jornal canadense, o Toronto Sun, King revelou quais celebridades ainda quer entrevistar. O Papa Bento XVI e Fidel Castro (antes que ele saia desta para uma melhor, segundo ele). O que você perguntaria a Fidel, indagou o repórter: “o que falhou, o que deu errado, por que o comunismo acabou”, sugeriu. King não perde uma chance. Há sempre uma pergunta no ar.
terça-feira, 10 de abril de 2007
De assustar a concorrência
Em uma bela tarde de sol de 1996, o analista de softwares Reed Hastings, que já tinha ficado rico com a bolha da internet, entrou numa loja da Blockbuster, em San Jose, Califórnia, para devolver o vídeo Apolo 13, com Tom Hanks. Ficou uma fera quando lhe entregaram uma conta de US$ 40 pelo atraso na devolução.
Foi aí que nasceu a Netflix (www.netflix.com), o maior serviço de aluguel de filmes de todo o mundo, já chamada de “a Starbucks da indústria cinematográfica”, que tem 6,3 milhões de usuários, 1,7 mil funcionários, 41 centros de distribuição, 70 mil títulos, e vale hoje, segundo o site da Nasdaq, mais de US$ 1,6 bilhão. A Netflix sozinha é responsável por 12% do mercado de aluguel de DVD nos Estados Unidos, o que significa cerca de US$ 8,4 bilhões.
O problema é que a empresa, desafiando todas as previsões do mercado, se recusa a morrer. É uma espécie de fantasma que, volta e meia, aterroriza a concorrência. A idéia - pague uma mensalidade e assista a quantos filmes quiser – é tão simples que desafiam todos os manuais de negócios e as complicadas teorias vigentes no capitalismo americano.
Primeiro, bate de cara com gigantes já estabelecidos e recheados de dinheiro, como a Blockbuster. Segundo, é uma empresa de tijolos, quando tudo que se vê hoje em dia é o advento dos downloads de filmes via internet. Enfim, a Nestflix nunca correu o perigo de dar certo, mas deu. E muito.
O cliente opta pelo plano de US$ 5,99 até US$ 47,99 mensais; escolhe o filme (há disponíveis 42 milhões de cópias) pelo website; e recebem via correio (em não mais de 24 horas) um envelope com o DVD, que ele devolve pelo correio mesmo (aqui eles recolhem correspondências nas casas gratuitamente) sem pagar a postagem. Quanto mais ele devolve, mais recebe filmes. Multas de atraso, desnecessário dizer, não existem. E nem existirão.
Com um alto índice de satisfação dos usuários – ganhou três prêmios nos últimos anos – o site da Nestflix despacha 1,4 milhão de DVDs todos os dias. Junto com a Ebay, é um dos maiores clientes do correio americano (e sua salvação, depois do advento do e-mail), desembolsando mais de US$ 300 milhões de selos anualmente.
Caso não existisse e os clientes tivessem que ir de carro a Blockbuster, consumiriam mais de 800 mil galões de gasolina e despejariam na atmosfera cerca de 8,8 toneladas de dióxido de carbono diariamente. É um serviço de aluguéis de filmes que se orgulha de ser amigo do Planeta Terra.
Desde 1997, quando foi criado, o site só deu prejuízo. O dinheiro só começou a sorrir para Reed Hastings em 2003, quando teve o primeiro lucro, US$ 6,5 milhões, sobre um faturamento de US$ 272 milhões. Por isso mesmo o Nestflix é considerado hoje um dos raros casos de sucesso que substituíram à bolha da internet, inspirando companhias tradicionais, com a Wal-Mart, e empresas on-line, como Amazon, Apple, Movelink, CinemaNow e outras a investirem no setor.
A Nestflix faz a festa dos investidores. Em seis anos de operações, seu faturamento cresceu de US$ 5 milhões para US$ 682 milhões (dezembro de 2005). “Experiência e escala estão resultando no aumento da retenção de clientes e em maiores margens brutas do que as apresentadas pelos competidores”, frisa seu relatório financeiro. Nesse período, saiu do zero para quase 7 milhões de assinantes. O potencial do mercado, no entanto, pode chegar a 20 milhões de assinantes nos próximos cinco ou sete anos, segundo prevê o Adams Media Research. E olhe que os clientes da Nestflix estão crescendo a uma média anual de 84%, e o faturamento 127%. Em 2006, prevê-se um lucro de mais de US$ 44 milhões. Na semana passada, como no filme A noite dos mortos-vivos, um ícone do cinema trash de terror da década de 80, a Nestflix voltou a assustar a concorrência. Hastings reuniu a imprensa em Los Gatos para anunciar que vai oferecer downloads de filmes a partir de meados deste ano. Baseado num sistema Microsoft, o cliente escolhe o título, dá um enter e tem a satisfação imediata de ver o filme que deseja.
Foi aí que nasceu a Netflix (www.netflix.com), o maior serviço de aluguel de filmes de todo o mundo, já chamada de “a Starbucks da indústria cinematográfica”, que tem 6,3 milhões de usuários, 1,7 mil funcionários, 41 centros de distribuição, 70 mil títulos, e vale hoje, segundo o site da Nasdaq, mais de US$ 1,6 bilhão. A Netflix sozinha é responsável por 12% do mercado de aluguel de DVD nos Estados Unidos, o que significa cerca de US$ 8,4 bilhões.
O problema é que a empresa, desafiando todas as previsões do mercado, se recusa a morrer. É uma espécie de fantasma que, volta e meia, aterroriza a concorrência. A idéia - pague uma mensalidade e assista a quantos filmes quiser – é tão simples que desafiam todos os manuais de negócios e as complicadas teorias vigentes no capitalismo americano.
Primeiro, bate de cara com gigantes já estabelecidos e recheados de dinheiro, como a Blockbuster. Segundo, é uma empresa de tijolos, quando tudo que se vê hoje em dia é o advento dos downloads de filmes via internet. Enfim, a Nestflix nunca correu o perigo de dar certo, mas deu. E muito.
O cliente opta pelo plano de US$ 5,99 até US$ 47,99 mensais; escolhe o filme (há disponíveis 42 milhões de cópias) pelo website; e recebem via correio (em não mais de 24 horas) um envelope com o DVD, que ele devolve pelo correio mesmo (aqui eles recolhem correspondências nas casas gratuitamente) sem pagar a postagem. Quanto mais ele devolve, mais recebe filmes. Multas de atraso, desnecessário dizer, não existem. E nem existirão.
Com um alto índice de satisfação dos usuários – ganhou três prêmios nos últimos anos – o site da Nestflix despacha 1,4 milhão de DVDs todos os dias. Junto com a Ebay, é um dos maiores clientes do correio americano (e sua salvação, depois do advento do e-mail), desembolsando mais de US$ 300 milhões de selos anualmente.
Caso não existisse e os clientes tivessem que ir de carro a Blockbuster, consumiriam mais de 800 mil galões de gasolina e despejariam na atmosfera cerca de 8,8 toneladas de dióxido de carbono diariamente. É um serviço de aluguéis de filmes que se orgulha de ser amigo do Planeta Terra.
Desde 1997, quando foi criado, o site só deu prejuízo. O dinheiro só começou a sorrir para Reed Hastings em 2003, quando teve o primeiro lucro, US$ 6,5 milhões, sobre um faturamento de US$ 272 milhões. Por isso mesmo o Nestflix é considerado hoje um dos raros casos de sucesso que substituíram à bolha da internet, inspirando companhias tradicionais, com a Wal-Mart, e empresas on-line, como Amazon, Apple, Movelink, CinemaNow e outras a investirem no setor.
A Nestflix faz a festa dos investidores. Em seis anos de operações, seu faturamento cresceu de US$ 5 milhões para US$ 682 milhões (dezembro de 2005). “Experiência e escala estão resultando no aumento da retenção de clientes e em maiores margens brutas do que as apresentadas pelos competidores”, frisa seu relatório financeiro. Nesse período, saiu do zero para quase 7 milhões de assinantes. O potencial do mercado, no entanto, pode chegar a 20 milhões de assinantes nos próximos cinco ou sete anos, segundo prevê o Adams Media Research. E olhe que os clientes da Nestflix estão crescendo a uma média anual de 84%, e o faturamento 127%. Em 2006, prevê-se um lucro de mais de US$ 44 milhões. Na semana passada, como no filme A noite dos mortos-vivos, um ícone do cinema trash de terror da década de 80, a Nestflix voltou a assustar a concorrência. Hastings reuniu a imprensa em Los Gatos para anunciar que vai oferecer downloads de filmes a partir de meados deste ano. Baseado num sistema Microsoft, o cliente escolhe o título, dá um enter e tem a satisfação imediata de ver o filme que deseja.
segunda-feira, 9 de abril de 2007
Falem mal ou bem, mas falem de mim
José Aparecido, o lendário político mineiro, às vezes encontra um amigo na rua e diz: “Que coincidência, acabei de conversar sobre você com fulano há poucos minutos ali atrás”. Para depois, sorrateiramente, disparar: “Eu te defendi”. Mineirices à parte, a irrefreável arte de falar mal (ou bem) dos outros – compreende-se aí produtos, serviços, e, principalmente, marcas – está dominando a vida dos marqueteiros americanos. Depois de torrarem até US$ 2 milhões em apenas 30 segundos no SuperBowl, a grande final do futebol americano (o comercial mais caro do mundo), os gurus renderam-se o poder do boca-a-boca por um simples fator. Descobriram, conforme atesta um estudo da Universidade de NorthEastern, que uma pessoa interage com outras, em média, 14 vezes por semana, e que em 25% destas vezes fala sobre produtos, serviços e marcas. Na maioria das vezes (86%), on-line.
É aquilo que você já conhece desde que nasceu, ou que a gente jura que não faz, mas que todo mundo faz: diz-que-me-diz-que, fofoca, fuxico, mexerico, rádio-peão etc. É o esporte favorito da humanidade desde que Adão conheceu Eva no paraíso.
Um menino prodígio de Boston, Dave Balter, descobriu esta obviedade quando viu pela TV a apresentadora Ophra Winfrey, a Hebe Camargo dos Estados Unidos, presentear 276 Pontiac G6 a cada uma de suas colegas de trabalho em 2004. Isso mesmo: exatos 276 carros de luxo.
Foi uma comoção nacional. Tudo pago, obviamente, pela General Motors, ao custo de R$ 8 milhões. Depois de alguns dias de bafafá, as vendas do Pontiac despencaram. Por quê? Porque a GM, apesar da brilhante idéia, tratou os consumidores como alvo, e não com colegas de trabalho, segundo o guru da fofoca.
Mas o que mudou mesmo a percepção de Balter foi a leitura do best-seller “Ponto de Desequilíbrio” (The Tipping Point), em que o jornalista canadense Malcolm Gladwell descreve o poder da mudança que um simples comentário provoca no mundo. Uma fofoca bem feita aqui pode singrar os mares e chegar a lugares nunca dantes navegados. A palavra de ordem é interatividade, convidar o consumidor para fazer parte da festa.
Lembram-se, por exemplo, daquele Rolls Royce que quebrou no meio da estrada, foi socorrido por um reluzente helicóptero da própria Rolls Royce em segundos e tudo saiu de graça pois, como todo mundo sabe, um Rolls Royce nunca quebra? Histórias como essa enriquecem o mundo do boca-a-boca.
Num rompante de independência, Dave largou um confortável emprego numa agência de promoções e, com apenas R$ 30 mil, criou a BzzAgent (www.bzzagent.com) uma agência de word-of-mouth, como se diz por aqui, fez um enorme sucesso para seus clientes e, como não poderia deixar de ser, escreveu o livro “Grapevine” (videira, para os enólogos, e o boato, para os marqueteiros).
Mas como difundir um boato (de preferência positivo) sobre uma marca, um produto ou um serviço? Balter, obviamente, escolheu a Internet. A pessoa vai no site, registra-se como um buzzaggent e, em troca de espalhar comentários para o seu círculo de relacionamentos (sem forçar a barra, por favor), participa de um programa de recompensas parecido com as milhagens de cartões de crédito: ganha os próprios produtos ou outros prêmios. Às vezes, nem isso. “Elas gostam mesmo é de falar sobre os produtos e serviços para o seu círculo de conexões, seja on-line ou off-line”, diz ele.
Por quê? As pessoas ficam orgulhosas ao demonstrar conhecimento e ajudar o próximo (na maioria das vezes). Falar de produtos, marcas e serviços é uma boa forma de puxar uma conversa, de validar o seu próprio conceito, ou simplesmente dividir uma opinião com alguém.
Um exemplo fantástico: quem não se lembra do documentário “A Bruxa de Blair”? Três estudantes gastaram US$ 30 mil para fazer um documentário sobre rapto de crianças numa floresta de Maryland e nunca voltaram. Verdade, mentira? Caso real ou embuste? Uma onda de suposições, críticas, comentários etc. foi criada on-line. Resultado: o filme faturou mais de R$ 250 milhões e tornou-se cult do cinema moderno.
Segundo a consultoria Mckinsey, dois terços das atividades econômicas em todo o mundo são influenciadas pela indústria do boca-a-boca. Mas atenção: não se trata de marketing viral ou epidêmico (vá até o site www.boreme.com) ou de shill marketing, pessoas pagas para falar bem dos produtos em locais públicos. O marketing boca-a-boca está tão forte que até já foi criada uma entidade, a World of Mouth Marketing Association, que tem mais de 11 membros, entre eles pesos-pesados como a Kraft Foods, Dell e Motorola. Este grupo, segundo a revista Business 2.0, está firmemente envolvido em fazer desta indústria parte integral dos planejamentos estratégicos de marketing do mundo corporativo.
Os clientes da BzzAgent são cobrados pelo número de agentes envolvidos e pela longevidade da campanha. Em média, US$ 100 mil por projeto, incluindo aí a concepção e a operação. Há também empresas com a Intelliseek, de Cincinatti, especializada em mensurar os resultados dessas campanhas.
É aquilo que você já conhece desde que nasceu, ou que a gente jura que não faz, mas que todo mundo faz: diz-que-me-diz-que, fofoca, fuxico, mexerico, rádio-peão etc. É o esporte favorito da humanidade desde que Adão conheceu Eva no paraíso.
Um menino prodígio de Boston, Dave Balter, descobriu esta obviedade quando viu pela TV a apresentadora Ophra Winfrey, a Hebe Camargo dos Estados Unidos, presentear 276 Pontiac G6 a cada uma de suas colegas de trabalho em 2004. Isso mesmo: exatos 276 carros de luxo.
Foi uma comoção nacional. Tudo pago, obviamente, pela General Motors, ao custo de R$ 8 milhões. Depois de alguns dias de bafafá, as vendas do Pontiac despencaram. Por quê? Porque a GM, apesar da brilhante idéia, tratou os consumidores como alvo, e não com colegas de trabalho, segundo o guru da fofoca.
Mas o que mudou mesmo a percepção de Balter foi a leitura do best-seller “Ponto de Desequilíbrio” (The Tipping Point), em que o jornalista canadense Malcolm Gladwell descreve o poder da mudança que um simples comentário provoca no mundo. Uma fofoca bem feita aqui pode singrar os mares e chegar a lugares nunca dantes navegados. A palavra de ordem é interatividade, convidar o consumidor para fazer parte da festa.
Lembram-se, por exemplo, daquele Rolls Royce que quebrou no meio da estrada, foi socorrido por um reluzente helicóptero da própria Rolls Royce em segundos e tudo saiu de graça pois, como todo mundo sabe, um Rolls Royce nunca quebra? Histórias como essa enriquecem o mundo do boca-a-boca.
Num rompante de independência, Dave largou um confortável emprego numa agência de promoções e, com apenas R$ 30 mil, criou a BzzAgent (www.bzzagent.com) uma agência de word-of-mouth, como se diz por aqui, fez um enorme sucesso para seus clientes e, como não poderia deixar de ser, escreveu o livro “Grapevine” (videira, para os enólogos, e o boato, para os marqueteiros).
Mas como difundir um boato (de preferência positivo) sobre uma marca, um produto ou um serviço? Balter, obviamente, escolheu a Internet. A pessoa vai no site, registra-se como um buzzaggent e, em troca de espalhar comentários para o seu círculo de relacionamentos (sem forçar a barra, por favor), participa de um programa de recompensas parecido com as milhagens de cartões de crédito: ganha os próprios produtos ou outros prêmios. Às vezes, nem isso. “Elas gostam mesmo é de falar sobre os produtos e serviços para o seu círculo de conexões, seja on-line ou off-line”, diz ele.
Por quê? As pessoas ficam orgulhosas ao demonstrar conhecimento e ajudar o próximo (na maioria das vezes). Falar de produtos, marcas e serviços é uma boa forma de puxar uma conversa, de validar o seu próprio conceito, ou simplesmente dividir uma opinião com alguém.
Um exemplo fantástico: quem não se lembra do documentário “A Bruxa de Blair”? Três estudantes gastaram US$ 30 mil para fazer um documentário sobre rapto de crianças numa floresta de Maryland e nunca voltaram. Verdade, mentira? Caso real ou embuste? Uma onda de suposições, críticas, comentários etc. foi criada on-line. Resultado: o filme faturou mais de R$ 250 milhões e tornou-se cult do cinema moderno.
Segundo a consultoria Mckinsey, dois terços das atividades econômicas em todo o mundo são influenciadas pela indústria do boca-a-boca. Mas atenção: não se trata de marketing viral ou epidêmico (vá até o site www.boreme.com) ou de shill marketing, pessoas pagas para falar bem dos produtos em locais públicos. O marketing boca-a-boca está tão forte que até já foi criada uma entidade, a World of Mouth Marketing Association, que tem mais de 11 membros, entre eles pesos-pesados como a Kraft Foods, Dell e Motorola. Este grupo, segundo a revista Business 2.0, está firmemente envolvido em fazer desta indústria parte integral dos planejamentos estratégicos de marketing do mundo corporativo.
Os clientes da BzzAgent são cobrados pelo número de agentes envolvidos e pela longevidade da campanha. Em média, US$ 100 mil por projeto, incluindo aí a concepção e a operação. Há também empresas com a Intelliseek, de Cincinatti, especializada em mensurar os resultados dessas campanhas.
Quando o auge chega aos 50
Para a geração baby-boomer – aquela que nasceu depois da Segunda Guerra Mundial, viu o homem chegar à Lua e cresceu ao som de Bob Dylan na vitrola – Steven Paul Jobs foi o melhor espécime que a raça humana já criou no mundo empresarial. O cinqüentão Jobs, que faz aniversário agora em fevereiro, mudou os rumos da humanidade pelo menos em cindo ocasiões: inventou o computador pessoal na garagem de sua casa em 1976, lançou as bases da Internet com uma empresa chamada Next há quase 30 anos, comprou a Pixar (Toy Story, Procurando Nemo) em 1986, lançou o iPod em 2002 e, na semana passada, passou a ser o maior acionista individual da Walt Disney Company, com US$ 7,4 bilhões em ações.
Como num conto de fadas, Jobs, filho adotivo, pai de quatro crianças e sobrevivente de um câncer de pâncreas, é um exemplo de como a vida dá voltas e não exige juventude para fazer sucesso. O homem nunca usou terno e gravata. Invariavelmente, surge de tênis new balance surrados, calça jeans, camisa preta de gola rolê e barba por fazer quando apresenta novos produtos da Apple, a empresa que criou, foi expulso pelo próprio board e voltou de forma triunfal na década de 1990. Quando sai das capas de revistas, é chamado de Mr. Future. Nos anúncios em outdoors, conclama o mundo a pensar de maneira diferente (think diferent). Para toda a indústria de tecnologia, é o enfant terrible que lança as flechas para o futuro.
A partir de agora, como sucessor de Walt Disney na maior fornecedora de entretenimento de computadores do mundo (a Apple superou a Dell em valor de mercado), Jobs tem o poder de controlar o conteúdo (filmes, músicas, parques temáticos, marcas, etc.) e a forma de distribuição que vai dominar o mercado, através do Ipods ou de computadores de mão, os chamados handhelds. Daqui a alguns anos os historiadores citarão Jobs como um homem que reuniu, a um só tempo, o poder de controlar o conteúdo que você vai assistir e, mais ainda, de que forma fazê-lo.
Como todo ser humano, no entanto, Jobs tem o seu lado, diríamos, excêntrico. Adepto de um estilo gerencial antigo (manda que pode, obedece quem tem juízo), trabalhar ao seu lado, segundo dizem, é a sensação mais próxima de viver o inferno na Terra. Mandão, arrogante, superdotado, Jobs dá de dez a zero em Bill Gates no papel mola propulsora dos negócios. Só que, ao invés do estilo nerd de Gates, Jobs faz o estilo criativo, estiloso, uma espécie de músico de Bremen que atrai fãs (e consumidores) dos quatros cantos do mundo. Não come nenhuma carne de mamíferos, só se alimenta de peixes de vegetais e é tido como um pai presente e atuante.
Sua vida particular é um mistério. Fala com a mídia apenas raramente, sobre o pressuposto de que seus produtos falam por si mesmo. Discreto, é rodeado por um time pensante 24 horas por dia. Descendente de sírios, namorou Joan Baez pelo simples fato de que Baez foi namorada de Bob Dylan. Comprou um apartamento no edifício San Remo, em Nova York, um dos endereços mais caros do mundo, redecorou-o por quase 10 anos e depois o vendeu para o superstar Bono. Mas nada que se equipare à mansão colonial em estilo espanhol de 14 quartos que comprou em Woodside, aqui na Costa Oeste. Deixou que a filha de Bill Clinton, Chelsea, ficasse lá até encontrar um lugar melhor perto de Stanford, onde estudou.
Seu maior triunfo é criar o tipo de produto que o consumidor ama, uma mistura irretocável de design e tecnologia. Foi assim com o Apple II, o Macintosh, o Ipod e, agora, com o Mickey Mouse e Pato Donald, como colaboradores. Salário? Esqueça. Ganhando US$ 1 anualmente na Apple, Steven Jobs é conhecido, segundo o Guiness Book, como o CEO mais mal pago em todo o mundo. Mas, de vez em quando, ganha presentes do board da Apple, como um jato GulfStream e milhões de dólares em opções de ações.
Obviamente Jobs não se tornou rico, famoso, criativo e legal do dia para noite. Segundo se atesta em boa parte de pelo menos seis biografias escritas, o homem deve grande parte de seu sucesso a um public relations, ou assessor de imprensa nos Estados Unidos, chamado Regis Mckenna. Ao ser contratado ainda em 1976 para ser o PR da Apple, Mckenna criou um ícone que iria tornar-se uma referência para todas as gerações de baby-boomers.
Como num conto de fadas, Jobs, filho adotivo, pai de quatro crianças e sobrevivente de um câncer de pâncreas, é um exemplo de como a vida dá voltas e não exige juventude para fazer sucesso. O homem nunca usou terno e gravata. Invariavelmente, surge de tênis new balance surrados, calça jeans, camisa preta de gola rolê e barba por fazer quando apresenta novos produtos da Apple, a empresa que criou, foi expulso pelo próprio board e voltou de forma triunfal na década de 1990. Quando sai das capas de revistas, é chamado de Mr. Future. Nos anúncios em outdoors, conclama o mundo a pensar de maneira diferente (think diferent). Para toda a indústria de tecnologia, é o enfant terrible que lança as flechas para o futuro.
A partir de agora, como sucessor de Walt Disney na maior fornecedora de entretenimento de computadores do mundo (a Apple superou a Dell em valor de mercado), Jobs tem o poder de controlar o conteúdo (filmes, músicas, parques temáticos, marcas, etc.) e a forma de distribuição que vai dominar o mercado, através do Ipods ou de computadores de mão, os chamados handhelds. Daqui a alguns anos os historiadores citarão Jobs como um homem que reuniu, a um só tempo, o poder de controlar o conteúdo que você vai assistir e, mais ainda, de que forma fazê-lo.
Como todo ser humano, no entanto, Jobs tem o seu lado, diríamos, excêntrico. Adepto de um estilo gerencial antigo (manda que pode, obedece quem tem juízo), trabalhar ao seu lado, segundo dizem, é a sensação mais próxima de viver o inferno na Terra. Mandão, arrogante, superdotado, Jobs dá de dez a zero em Bill Gates no papel mola propulsora dos negócios. Só que, ao invés do estilo nerd de Gates, Jobs faz o estilo criativo, estiloso, uma espécie de músico de Bremen que atrai fãs (e consumidores) dos quatros cantos do mundo. Não come nenhuma carne de mamíferos, só se alimenta de peixes de vegetais e é tido como um pai presente e atuante.
Sua vida particular é um mistério. Fala com a mídia apenas raramente, sobre o pressuposto de que seus produtos falam por si mesmo. Discreto, é rodeado por um time pensante 24 horas por dia. Descendente de sírios, namorou Joan Baez pelo simples fato de que Baez foi namorada de Bob Dylan. Comprou um apartamento no edifício San Remo, em Nova York, um dos endereços mais caros do mundo, redecorou-o por quase 10 anos e depois o vendeu para o superstar Bono. Mas nada que se equipare à mansão colonial em estilo espanhol de 14 quartos que comprou em Woodside, aqui na Costa Oeste. Deixou que a filha de Bill Clinton, Chelsea, ficasse lá até encontrar um lugar melhor perto de Stanford, onde estudou.
Seu maior triunfo é criar o tipo de produto que o consumidor ama, uma mistura irretocável de design e tecnologia. Foi assim com o Apple II, o Macintosh, o Ipod e, agora, com o Mickey Mouse e Pato Donald, como colaboradores. Salário? Esqueça. Ganhando US$ 1 anualmente na Apple, Steven Jobs é conhecido, segundo o Guiness Book, como o CEO mais mal pago em todo o mundo. Mas, de vez em quando, ganha presentes do board da Apple, como um jato GulfStream e milhões de dólares em opções de ações.
Obviamente Jobs não se tornou rico, famoso, criativo e legal do dia para noite. Segundo se atesta em boa parte de pelo menos seis biografias escritas, o homem deve grande parte de seu sucesso a um public relations, ou assessor de imprensa nos Estados Unidos, chamado Regis Mckenna. Ao ser contratado ainda em 1976 para ser o PR da Apple, Mckenna criou um ícone que iria tornar-se uma referência para todas as gerações de baby-boomers.
Pensar para sobreviver
A necessidade é mãe da invenção. O velho (e atual) ditado americano explica porque a revolução no mundo empresarial pressupõe o fim do mundo empresarial justamente tal como o conhecemos.
Em lugar de patrões, times trabalhando por conta própria. Em vez de chefes, pessoas que coordenam o conhecimento e o distribuem entre grupos. No lugar de punições, recompensas. Saem locais e horários fixos de trabalho, longas horas de trânsito e o cheque no final do mês. Entram o trabalho em casa, informações 24 horas por dia, sete dias por semana, a interação entre trabalhadores em diversas partes do mundo e em diversos fusos horários e, principalmente, o uso de uma faculdade que todo mundo tem, mas que exercita pouco: a criatividade.
Aí está o pulo do gato. Sobreviverá no mercado quem estiver plugado na rede e oferecendo produtos e serviços extremamente diferenciados. Exemplo: acabou de ser lançado aqui um serviço em que você fotografa com seu celular um prato de comida e, em segundos, recebe o número de calorias que vai ingerir. US$ 99/mês.
Gente que observa o mundo empresarial (aqueles que pagam seu salário, mas depois de contratar consultores não hesitam em substitui-lo por uma máquina ou mão-de-obra mais barata) está descobrindo, sem pudor, que pode fazer mais, por menos e melhor – só que sem você. Não porque queiram. É que todo mundo está fazendo o mesmo.
Foi o que disse Thomas Friedman, autor do livro “O mundo é plano”, em entrevista à Amazon.com: “Estava na Índia quando descobri gente escrevendo meu software, fazendo minha contabilidade, lendo meus raios-X e querendo desenhar meus desenhos da Disney e vi que alguma coisa grave estava acontecendo – o mundo tinha ficado plano”.
Friedman vai mais longe no que está sendo chamado de o planeta dos free lancers: “Quando era pequeno meus pais diziam: Tom, acabe seu jantar, pois pessoas da China e da Índia estão famintas”. Hoje, digo a minhas filhas: garotas, acabem o dever de casa, pessoas da China e da Índia estão famintas por trabalho”.
O que mudou foi que China e Índia não só roubam empregos do setor produtivo e de todo o mundo. Absorvem agora trabalhos que exigem o “pensar criativo”, pois eles podem ser acessados instantaneamente, a qualquer hora, por preço infinitamente menor. São países que investiram pesado em educação, tornaram-se inteligentes (e espertos) e estão prontos para dominar o mundo, como diz o estudo publicado na “Newsweek” sobre a revolução do conhecimento.
A queda do muro de Berlim, o sucesso da Internet, a difusão do Windows, a criação de uma rede global de fibra óptica e softwares que permitem o trabalho conjunto mudaram os paradigmas. Hoje há uma plataforma global onde gente pode colaborar e competir, dividir conhecimento e trabalho, coisa nunca vista na face da história, o que afeta países, empresas e pessoas.
É aterrorizante ou oportunidade única? Saiu da moda Ter emprego fixo, plano de carreira? Sim. Será que a dupla de criação da McCann Erikson precisava estar numa grande empresa e enfrentar o dia-a-dia com colegas para inventar a campanha “Não tem preço” da Mastercard, e arrancar da Visa a posição de líder mundial de cartões de crédito?
Boas idéias não têm preço. Mas agora elas estão no centro desta revolução nos negócios. Terão de ser medidas, estimuladas, planejadas de forma consistente e, principalmente, recompensadas. Nascem no cinema, na festa de aniversário do filho, na cama quando você acorda à noite. Pouquíssimo no local de trabalho. Aproveite e coloque um preço nelas. É o seu futuro.
Em lugar de patrões, times trabalhando por conta própria. Em vez de chefes, pessoas que coordenam o conhecimento e o distribuem entre grupos. No lugar de punições, recompensas. Saem locais e horários fixos de trabalho, longas horas de trânsito e o cheque no final do mês. Entram o trabalho em casa, informações 24 horas por dia, sete dias por semana, a interação entre trabalhadores em diversas partes do mundo e em diversos fusos horários e, principalmente, o uso de uma faculdade que todo mundo tem, mas que exercita pouco: a criatividade.
Aí está o pulo do gato. Sobreviverá no mercado quem estiver plugado na rede e oferecendo produtos e serviços extremamente diferenciados. Exemplo: acabou de ser lançado aqui um serviço em que você fotografa com seu celular um prato de comida e, em segundos, recebe o número de calorias que vai ingerir. US$ 99/mês.
Gente que observa o mundo empresarial (aqueles que pagam seu salário, mas depois de contratar consultores não hesitam em substitui-lo por uma máquina ou mão-de-obra mais barata) está descobrindo, sem pudor, que pode fazer mais, por menos e melhor – só que sem você. Não porque queiram. É que todo mundo está fazendo o mesmo.
Foi o que disse Thomas Friedman, autor do livro “O mundo é plano”, em entrevista à Amazon.com: “Estava na Índia quando descobri gente escrevendo meu software, fazendo minha contabilidade, lendo meus raios-X e querendo desenhar meus desenhos da Disney e vi que alguma coisa grave estava acontecendo – o mundo tinha ficado plano”.
Friedman vai mais longe no que está sendo chamado de o planeta dos free lancers: “Quando era pequeno meus pais diziam: Tom, acabe seu jantar, pois pessoas da China e da Índia estão famintas”. Hoje, digo a minhas filhas: garotas, acabem o dever de casa, pessoas da China e da Índia estão famintas por trabalho”.
O que mudou foi que China e Índia não só roubam empregos do setor produtivo e de todo o mundo. Absorvem agora trabalhos que exigem o “pensar criativo”, pois eles podem ser acessados instantaneamente, a qualquer hora, por preço infinitamente menor. São países que investiram pesado em educação, tornaram-se inteligentes (e espertos) e estão prontos para dominar o mundo, como diz o estudo publicado na “Newsweek” sobre a revolução do conhecimento.
A queda do muro de Berlim, o sucesso da Internet, a difusão do Windows, a criação de uma rede global de fibra óptica e softwares que permitem o trabalho conjunto mudaram os paradigmas. Hoje há uma plataforma global onde gente pode colaborar e competir, dividir conhecimento e trabalho, coisa nunca vista na face da história, o que afeta países, empresas e pessoas.
É aterrorizante ou oportunidade única? Saiu da moda Ter emprego fixo, plano de carreira? Sim. Será que a dupla de criação da McCann Erikson precisava estar numa grande empresa e enfrentar o dia-a-dia com colegas para inventar a campanha “Não tem preço” da Mastercard, e arrancar da Visa a posição de líder mundial de cartões de crédito?
Boas idéias não têm preço. Mas agora elas estão no centro desta revolução nos negócios. Terão de ser medidas, estimuladas, planejadas de forma consistente e, principalmente, recompensadas. Nascem no cinema, na festa de aniversário do filho, na cama quando você acorda à noite. Pouquíssimo no local de trabalho. Aproveite e coloque um preço nelas. É o seu futuro.
Negócios de outro mundo
Atenção, empresários brasileiros! Os Estados Unidos pretendem gastar US$ 1,3 trilhão (valor superior ao PIB brasileiro) nos próximos 20 anos para que a iniciativa privada da Terra construa hotéis espaciais, laboratórios orbitais e participe de projetos para exploração mineral de asteróides e da anunciada viagem a Marte (e além de Marte, se for possível). A maior potência do mundo quer também construir um elevador espacial terrestre de 62 milhas para baratear o trânsito de cargas e passageiros daqui para o espaço.
Os interessados devem procurar a Nasa, dar uma olhada em contratos de pesquisa e desenvolvimento (mínimo de US$ 600 mil cada), participar de competições para a descoberta de novas tecnologia (prêmios de até US$ 250 mil) ou tornarem-se parceiros de empresas que formam o Vale do Silício da corrida espacial, em Rocketville, incrustado no deserto de Mojave, na Califórnia.
Conversa de lunático? Pode ser. Mas desde que uns espertinhos começaram a vender terrenos na Lua na Praça da Sé, quando o astronauta Neil Armstrong pisou lá pela primeira vez em meados de 1969, não se via tamanho frisson pelas riquezas de espaço. Calcula-se que o empresário que chegar primeiro em 3554 Amnum, asteróide que passa pela órbita terrestre, colocará a mão numa reserva de US$ 8 trilhões de ferro e níquel, US$ 6 trilhões de cobalto e o mesmo valor em platina, Ou seja, ficará 450 vezes mais rico que Bill Gates, dono da Microsoft, já em 2020, para quando se espera este feito.
Gates ainda não entrou nesta, mas muitos bilionários, especialmente aqui em Seattle, já abriu a carteira. Paul Allen, seu sócio, tido como o sétimo homem mais rico da Terra, iniciou a moda investindo na Scaled Composites (“empreendimento que está para a Boeing como a Apple está para a IBM”), empresa que já fez um vôo orbital com a SpaceShip One ao custo de US$ 25 milhões, bem menos do que a Boeing ou a Lockheed cobram (US$ 120 milhões por um simples foguete).
Em seu encalço, Elon Musk (Paypal), Jeff Bezos (Amazon) e John Carmack (Id Software), de olho em lucros potenciais de US$ 115 bilhões. Todos nerds confessos que, pequenos, sonhavam em ser um Super-Homem voltando para Kripton, planeta de Clark Kent, com a secretária Louis Lane. Hoje, com dinheiro sobrando, podem realizar este sonho. E podem mesmo.
Segundo a última edição da revista “Business 2.0”, o que mudou após o Projeto Apolo (“o legal era chegar à União Soviética”) é que empreendedores espaciais estão tomando o lugar do paquidérmico Estado (leia-se Nasa), com o estímulo do próprio Estado. “A grande barreira para a abertura de mercados fora da Terra não é física ou tecnológica – é psicológica”, diz o editorial. “O automóvel, a aviação comercial, o PC, a Internet e o celular demoraram décadas para atingir potencial. Não existiriam não fosse um bando de empreendedores lunáticos que se recusaram a seguir a sabedoria convencional”.
Agora que o major Marcos César Pontes vai se tornar o primeiro brasileiro a ir para o espaço (ele vai embarcar no dia 30 numa espaçonave russa), o volume de recursos envolvidos nesta nova corrida não deixa de ser boa notícia para os brasileiros, já envolvidos com as oportunidades que caem do céu. “Quando as viagens espaciais se tornarem lucrativas”, disse Burt Rutan, criador do SpaceShipOne, ao programa de TV “60 Minutes”, “geração de energia, mineração e pesquisa médica vão florescer”. Segundo ele, em 300 anos, muita gente que for para outros planetas jamais vai retornar. “Ficarão lá, criarão suas famílias e vão assegurar a sobrevivência da nossa espécie”. Boa sorte!
Os interessados devem procurar a Nasa, dar uma olhada em contratos de pesquisa e desenvolvimento (mínimo de US$ 600 mil cada), participar de competições para a descoberta de novas tecnologia (prêmios de até US$ 250 mil) ou tornarem-se parceiros de empresas que formam o Vale do Silício da corrida espacial, em Rocketville, incrustado no deserto de Mojave, na Califórnia.
Conversa de lunático? Pode ser. Mas desde que uns espertinhos começaram a vender terrenos na Lua na Praça da Sé, quando o astronauta Neil Armstrong pisou lá pela primeira vez em meados de 1969, não se via tamanho frisson pelas riquezas de espaço. Calcula-se que o empresário que chegar primeiro em 3554 Amnum, asteróide que passa pela órbita terrestre, colocará a mão numa reserva de US$ 8 trilhões de ferro e níquel, US$ 6 trilhões de cobalto e o mesmo valor em platina, Ou seja, ficará 450 vezes mais rico que Bill Gates, dono da Microsoft, já em 2020, para quando se espera este feito.
Gates ainda não entrou nesta, mas muitos bilionários, especialmente aqui em Seattle, já abriu a carteira. Paul Allen, seu sócio, tido como o sétimo homem mais rico da Terra, iniciou a moda investindo na Scaled Composites (“empreendimento que está para a Boeing como a Apple está para a IBM”), empresa que já fez um vôo orbital com a SpaceShip One ao custo de US$ 25 milhões, bem menos do que a Boeing ou a Lockheed cobram (US$ 120 milhões por um simples foguete).
Em seu encalço, Elon Musk (Paypal), Jeff Bezos (Amazon) e John Carmack (Id Software), de olho em lucros potenciais de US$ 115 bilhões. Todos nerds confessos que, pequenos, sonhavam em ser um Super-Homem voltando para Kripton, planeta de Clark Kent, com a secretária Louis Lane. Hoje, com dinheiro sobrando, podem realizar este sonho. E podem mesmo.
Segundo a última edição da revista “Business 2.0”, o que mudou após o Projeto Apolo (“o legal era chegar à União Soviética”) é que empreendedores espaciais estão tomando o lugar do paquidérmico Estado (leia-se Nasa), com o estímulo do próprio Estado. “A grande barreira para a abertura de mercados fora da Terra não é física ou tecnológica – é psicológica”, diz o editorial. “O automóvel, a aviação comercial, o PC, a Internet e o celular demoraram décadas para atingir potencial. Não existiriam não fosse um bando de empreendedores lunáticos que se recusaram a seguir a sabedoria convencional”.
Agora que o major Marcos César Pontes vai se tornar o primeiro brasileiro a ir para o espaço (ele vai embarcar no dia 30 numa espaçonave russa), o volume de recursos envolvidos nesta nova corrida não deixa de ser boa notícia para os brasileiros, já envolvidos com as oportunidades que caem do céu. “Quando as viagens espaciais se tornarem lucrativas”, disse Burt Rutan, criador do SpaceShipOne, ao programa de TV “60 Minutes”, “geração de energia, mineração e pesquisa médica vão florescer”. Segundo ele, em 300 anos, muita gente que for para outros planetas jamais vai retornar. “Ficarão lá, criarão suas famílias e vão assegurar a sobrevivência da nossa espécie”. Boa sorte!
Tudo que é bom custa caro?
Lipitor, o remédio mais vendido em todo o mundo, com vendas de US$ 12,9 bilhões somente nos Estados Unidos em 2006, está sob o fogo cerrado das empresas de seguro saúde, como também de quem precisa abrir o bolso na hora de combater o colesterol alto. A estatina, um dos maiores sucessos da farmacologia desde Hipócrates na antiga Grécia, já salvou milhões de seres humanos de ataques cardíacos e de outros males decorrentes do entupimento das veias, embora a um preço pouco acessível à maioria dos consumidores. Lipitor está sendo vendido nas farmácias americanas, sempre sob estrito controle e com prescrição médica, o que no Brasil equivaleria à tarja preta, de US$ 109 a US$ 645, a caixa com 180 comprimidos. É muito dinheiro para quem precisa do Lipitor como do oxigênio para respirar: na maioria dos casos, pacientes com histórico familiar de alto colesterol, pessoas sedentárias que não fazem ginástica ou quem desconhece a diferença entre comer um toucinho e uma folha de alface. Essa turma começou a receber este ano cartas das empresas de seguro saúde dizendo que o campeão de vendas Lipitor não está mais na lista dos remédios preferenciais, o que significa dizer que os pacientes terão de pagar integralmente o valor da droga. Trata-se de uma reação mercadológica à gigante Pfizer, a maior farmacêutica do mundo, dona da patente do Lipitor até março de 2010. Do alto de sua majestade, e sempre alegando milhões de dólares em pesquisas e desenvolvimento que investiu até hoje, a empresa está fazendo justamente o contrário do que rezam os manuais das melhores práticas negociais. Ao invés de baixar o preço do produto para manter ou aumentar as vendas e enfrentar a concorrência, está gastando boa parte do seu orçamento de marketing, que vale US$ 3 bilhões, para comprar espaço publicitário nas grandes redes de TV e nos principais jornais americanos enaltecendo os milagres do Lipitor, que segundo ela reduz o colesterol em até 50%. Ao mesmo tempo, deslanchou esta semana uma campanha entre os médicos e farmacêuticos norte-americanos para demovê-los da idéia de receitar estatinas mais baratas (as chamadas genéricas), embora o Lipitor ainda responda por 43% das receitas médicas de estatinas, segundo o Public Citizen Health Research Group. Em outras palavras, a Pfizer receia perder dinheiro com este campeão de popularidade que empanturra o caixa da empresa desde a década de 80, quando o químico Bruce Roth sintetizou a estatina já tomada, hoje em dia, por mais de 50 milhões de pessoas em todo o mundo. Mas como não existe felicidade para sempre, em junho do ano passado um dos maiores concorrentes da Pfizer, a Merck, perdeu a patente de outra estatina, o Zocor, detonando uma reação em cadeia que iria deslanchar o sucesso dos chamados genéricos, que não têm a atratividade da marca, mas que, no fundo, fazem o mesmo efeito dos tradicionais. Não deu outra. A ação da Pfizer, geralmente um refúgio tranqüilo para investidores conservadores, caiu para US$ 22,41, para uma ação que já valeu quase US$ 50,00 no início desta década. Até hoje não se recuperou. Em janeiro deste ano, ferida também pela perda das patentes de outros remédios e por alguns revezes na descoberta de novos medicamentos, a empresa resolveu cortar mais de 7,8 mil empregados (10% da folha) fechando várias fábricas e centros de pesquisa, sob as ordens do novo executivo chefe, Jeffrey B. Kindler. A estratégia de Kindler de manter o preço do Lipitor se baseia na potência do medicamento - segundo pesquisas, nenhum outro é tão eficaz para determinados casos - como também no fato de que a Food and Drug Administration, o órgão do governo que está para a medicina assim como o Papa para os católicos, ter aprovado o medicamento para a redução de diversos problemas em pacientes com doenças do coração, incluindo hospitalizações por ataques cardíacos - o que vem sendo usado como um diferencial para combater a concorrência. A briga em torno do Lipitor está no meio de um intenso debate ético e mercadológico. Quem deve pagar pelos altos custos do desenvolvimento de drogas que salvam vidas em qualquer setor da medicina hoje em dia? Existem limites para empresa como a Pfizer ganhar bilhões de dólares em lucros durante sucessivos anos à custa dos doentes? As patentes devem ser respeitadas, mesmo que isto custe a morte de muita gente que não tem dinheiro para tomar esses remédios?
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