sexta-feira, 11 de abril de 2008

VOANDO COM RICHARD BRANSON

San Francisco – Sou um dos felizes passageiros (poltrona 23B) da mais nova (e surpreendente) companhia aérea norte-americana, a Virgin America, que acaba de inaugurar o vôo entre Seattle e San Francisco, sobrevoando a maravilhosa Costa Oeste dos Estados Unidos.  Seu dono, o bilionário britânico Richard Branson, um louco que semana passada deu entrevista sentado na privada de sua mansão numa ilha do Pacífico, não estava à bordo – mas tudo aqui em cima, como de resto em todos os seus negócios, faz lembrar o homem que, por onde passou, revolucionou o mundo empresarial.

            Para começar, Sir Branson, hoje o 236º  homem mais rico do mundo, com quase US$ 7,9 bilhões no bolso, criou uma linha aérea num país onde é vetada aos estrangeiros a propriedade de linhas aéreas. Enfrentou reguladores, bateu de frente com os sindicatos, defendeu-se do lobby das concorrentes, criou uma intrincada estrutura societária, ganhou o apoio do governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, e... pimba: eis que a Virgin America está competindo com a Delta, America, Jet Blue, United e está ganhando. Por quê? A razão é simples: com o capitalismo de cabeça para baixo, não existem mais monstros sagrados. “Qualquer um pode colocar um avião no ar”,  reflete Samantha, a aeromoça da Virgin, “o que faz a diferença é oferecer um serviço melhor, mais bonito e barato”

            Os aviões Airbus 320 da Virgin têm asas pintadas com a bandeira americana (suprema humilhação para os gringos), os pilotos se vestem de preto e as aeromoças, de vermelho, são prá lá de charmosas. As luzes da cabine lembram as luminárias roxas e azuis das discotecas da década de 70, mas causam uma incrível sensação de paz e conforto. O sistema de som é tão bom que dá para entender o inglês do piloto. As poltronas são de couro e há espaço para as pernas e para os cotovelos. As mesinhas de trás das cadeiras são de acrílico, possuem um compartimento só para copos e têm espaço suficiente para um laptop (com tomada e tudo) e o pratinho de tira-gostos.

            Mas o surpreendente mesmo é a TV. Existem canais ao vivo para todos os gostos (pelo menos 25 filmes), ao lado de um detalhado mapa fornecido pela Google (via satélite), trezentas músicas em MP3, e um sistema de compras onde você insere o cartão de crédito (e de débito) e a aeromoça parece adivinhar seu pedido segundos depois. Ali, você pode escolher uma formidável seleção de vinhos, comidas exóticas de vários países, refrigerantes para os abstêmios, snacks, doces, chicles e muita coisa mais. De graça, só água. Por isto uma passagem entre Seattle e San Francisco custa somente cerca de 200 dólares.

            A aviação, como se diz aqui, é o negócio mais sexy já inventado pelo homem, mas não se sabe porque é tão mal administrada, complicada e cheia de coisas sem sentido, congestionando aeroportos, cometendo erros grosseiros, gerando prejuízos em série e torturando a vida daqueles que ainda não tiveram sorte de ir de business ou de primeira classe. Branson, que ficou rico vendendo discos de vinil na década de 70, sabe disto e não se conformou. Invadiu o país na inovação com um serviço inovador, metade marketing metade eficiência, que ainda vai dar muito trabalho para quem está sentado nos louros.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

O BRASIL QUE COMPRAR A AMÉRICA (A COMEÇAR PELOS BRASILEIROS)

Seattle – Sabe-se que desde que Carmem Miranda, a pequena notável, aportou em Hollywood, os brasileiros tentam ganhar a América. Muita gente se deu bem, outros nem tanto, mas todos têm a certeza de que, por pior que seja os Estados Unidos, aqui existem inigualáveis condições para que você trabalhe, ganhe dinheiro, compre uma casa no subúrbio, um carrão na garagem e, o principal, proporcione aos filhos educação.

            A novidade é que esta população de quase 1,2 milhões de habitantes está sendo alvo, agora, da cobiça de empresas brasileiras. Instituições financeiras, como o Banco do Brasil, fizeram pesquisas para conhecer os brazucas. Resultado: criaram um banco só para esta população. A Brex  estudou também onde eles estão aqui e vende Bis, guaraná e outras delícias no chamado mercado étnico. A exemplo de outros países, que estão se aproveitando do dólar baixo e a crise financeira deste império de 14 trilhões de dólares de PIB, o Brasil também está comprando os Estados Unidos, a começar pelos brasileiros.

            A Embaixada aqui, como toda a rede de consulados, já detecta uma elevação da renda deles, bem como uma melhora na auto-estima, mesmo entre os "indocumentados, um eufemismo diplomático para os ilegais (afinal, eles não violaram lei brasileira alguma). Os brazucas não chegam apenas fugindo dos coiotes no deserto do Arizona, mas aportam com visto de entrada, cabeça erguida, para estudar ou trabalhar, e depois vão ficando. Se a imigração pega, não deixam nem recuperar a escova de dentes. Ficam até três meses detidos e depois são expelidos para o Brasil, com passagem paga pelo governo americano.

            Não existem mais pólos migratórios tradicionais, como Governador Valadares na região de Boston. Agora chega gente de Rondônia e Paraná (Ohio) Goiás (Seattle),  e Vale do Paraíba (Utah). A maioria é gente jovem, bem disposta (a quase tudo), sem curso universitário, que enchem as construções, os restaurantes, os salões de beleza, os serviços de acompanhantes ou a velha e tradicional faxina caseira (uma faxina boa mesmo está custando US$ 300,00 por dia). O mais interessante é que, quanto mais ilegal, maior é a vontade de ter filhos. É uma forma dizer “daqui não saio, daqui ninguém me tira”.

            O maior interesse do empresário brasileiro é nas remessas para o Brasil. Outro interesse é no poder empreendedor dos brazucas aqui, que fluentes na língua e adequados à realidade norte-americana, servem de ponte para as empresas brasileiras expandirem negócios. Outro ainda é o mercado com o belo poder aquisitivo que eles representam.  Se ganham pelo menos R$ 4 mil mensais, já estão chegando perto da classe A/B brasileira. Já imaginou isto multiplicado por quase 1,2 milhão de habitantes?

            Por isto é torna-se necessária uma pesquisa sobre os imigrantes brasileiros nos Estados Unidos. Estes dados são preciosos, não só em termos de políticas públicas, através da Embaixada e de outras redes de apoio, mas também para ganhar dinheiro, a saudável prática onde os americanos são imbatíveis.

            Os jornais dizem que muita gente está voltando para o Brasil, desesperançada com a queda do dólar e as condições aqui. Mas sabe-se que os brasileiros ainda chegam aos borbotões, comprando a Direct TV para assistir a Rede Globo, mandando Skypes 24 horas por dia, fazendo churrasco e batucada domingo e, mais do que tudo, sentindo saudades do melhor país do mundo.

 

quarta-feira, 2 de abril de 2008

ENSINANDO A PESCAR

Seattle – Para o bilionário Ewing Marion Kauffman, morto em 1993 depois de fazer fortuna com a empresa que hoje faz parte do conglomerado farmacêutico Aventis, dar dinheiro para os necessitados assemelha-se, na maioria das vezes e infelizmente, a enxugar gelo. Antes de partir para o outro mundo depois de uma vida de sucesso em Kansas City, Missouri, fundou a Kauffman Foundation, que hoje não só patrocina os principais programas da PBS, a TV pública americana, como também distribui milhões de dólares para uma raça diferente que habita o planeta, os empreendedores.

            A Kauffman Fountation, com seus US$ 2 bilhões de dólares (hoje a 30a maior fundação nos Estados Unidos) mergulha profundamente nas origens, na realidade e nas tendências do empreendorismo norte-americano. Na semana passada, lançou o resultado de uma pesquisa que abrangeu cerca de cinco mil empreendedores nos Estados Unidos desde 2004. A conclusão, como era de se esperar, é que não existem negócios sem, parafraseando o ex-primeiro ministro britânico Winston Churchill, “sangue, suor e lágrimas”, mas as recompensas são inigualáveis, para o bem (quando dá certo), ou para o mal (quando dá errado, como na maior parte das vezes).

            Além da maioria dos novos empresários não contar com a ajuda de nenhum empregado no primeiro ano, pelo menos um terço deles chega ao Natal sem faturar absolutamente nada. A metade consegue faturar algum, mas não mais do que US$ 100 mil nos 12 primeiros meses. O interessante, no entanto, é que pouca gente cria um negócio do nada. Cerca de 80% dos entrevistados investiram dinheiro do próprio bolso ou receberam financiamento no primeiro ano. Perto de 10% investiram cerca de US$ 100 mil, enquanto o restante nem isto. Cerca de 30% destes “loucos” começou a aventura com menos de US$ 5 mil.

            O dado que mais chama a atenção na pesquisa é como o empreendorismo ainda é coisa de macho , branco e anglo-saxão. Eles formam 70% da base de novos empreendedores aqui. Os negros são responsáveis por apenas 9% dos novos negócios, os asiáticos 4%, enquanto o restante é formado por índios (native americans), habitantes das ilhas do Pacífico e outros grupos étnicos. Só 6.6% dos novos negócios são iniciados por gente como nós, os latinos.

            Ao contrário da crença comum, de que a maioria dos empreendedores são como espermatozóides que morrem antes de chegar à praia, somente 9% das empresas abarcadas nas pesquisas fecharam as portas antes do primeiro ano. Entre os homens empreendedores a taxa de sucesso é de 92%, enquanto a de mulheres empreendedoras a taxa é de 89%.

            Seja como for, estes cinco mil entrevistados eram gente comum, que vivia atrás de uma mesa de um escritório qualquer, fazendo a riqueza de outro patrão qualquer, esperando um aumento qualquer ou uma aposentadoria qualquer. Levantaram da cadeira, rasparam as economias e se lançaram neste mundo fantástico, onde não existe dia igual ao outro, onde você e seus fantasmas são colocados à prova 24 horas por dia, sete dias por semana. Quando adolescente, disse ao meu pai que queria ser jornalista. E ele, empreendedor de sucesso, respondeu: “Mas por que você não se torna dono de um jornal?”.

*Dirige a The Information Company nos Estados Unidos (pedro@theinformationcompany.net)

segunda-feira, 24 de março de 2008

Carl Icahn, o Robin Hood de Nova York

Se você anda desanimado com a vida, pensando que não nasceu para o mundo dos negócios ou para ficar rico, assista ao bilionário norte-americano Carl Icahn sendo entrevistado por Lesley Stahl no programa 60 Minutes, da CBS, (www.cbsnews.com/stories/2008/03/06/60minutes/main3915473.shtml), agora já disponível na internet.
O judeu nova-iorquino, hoje considerado o 46º homem mais rico do mundo, com US$ 14 bilhões no bolso (e nas bolsas) e um estonteante escritório com vista para o Central Park, em Nova York, está se tornando um Robin Hood dos pequenos acionistas insatisfeitos com as empresas nas quais depositaram suas poupanças.
Icahn vai lá, compra a empresa, ou parte dela, faz o pessoal levantar o traseiro da cadeira, acordar cedo, dormir tarde e, melhor ainda, gerar lucros. Depois, vende e embolsa a diferença. Na venda da BEA para a Oracle, levou US$ 300 milhões. Para os acionistas, US$ 3 bilhões.
“Vou ser direto: estou aqui para ganhar dinheiro – é o que eu gosto de fazer”, confessa ele, sem mudar o semblante, ao 60 Minutes. Obsessivo, viciado em trabalho, cabelo tapando a careca, Icahn tem uma equipe de 40 pessoas que, para não dizer o tempo todo, passam boa parte do dia e da noite pensando em empresas-alvo para seus negócios.
Geralmente são algumas jóias da coroa, como a Motorola, ou o conglomerado Time Warner, ou a Blockbuster, que têm CEOs bonzinhos, que agradam a todo o mundo, e pensam nos negócios de uma forma, digamos, holística, familiar, sustentável e outras ondas do momento, mas que geralmente não conseguem fazer dinheiro. Icahn costuma chamá-los de morons, que significa pessoa idiota, estúpida, cujo retardo mensal equivale a uma criança de 8 a 12 anos.
Icahn aprendeu a ser cruel com o próprio pai, que não via nenhum futuro nele e o desprezava. Por exemplo, sem apoio algum, pagou seus estudos em Princenton (uma das melhores e mais caras universidades do mundo) com seu próprio dinheiro, proveniente em grande parte das rodadas de pôquer no campus.
Numa história pessoal única, só possível nos Estados Unidos, Icahn faz mais pelos acionistas (e são milhões deles aqui) do que muitos Bill Gates da vida já fizeram pelos necessitados. No entanto, muita gente, especialmente os CEOs e milhares de empregados demitidos em suas “faxinas” empresariais, o odeiam.
Na tarde em que deu entrevista para o 60 Minutes, os mercados financeiros estavam, como quase sempre nos últimos meses, derretendo. Icahn perdeu Us$ 150 milhões naquela tarde. No dia seguinte, recuperou tudo e ganhou mais um pouco.
No programa, o bilionário confessou possuir iates e casas que raramente usa. Seu maior divertimento é chacoalhar as empresas e dar uma injeção de ânimo no capitalismo americano.
Carl Icahn é também um dos maiores filantropistas do país, um construtor serial de escolas para os habitantes pobres de Nova York, cidade onde nasceu há 72 anos e fez sua fortuna. O trabalho assistencial é feito por sua segunda e atual mulher, bem mais nova que ele. Por sinal, sua ex-assistente pessoal.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Ser rico, aqui, está ficando constrangedor

Estréia esta semana nos Estados Unidos o segundo – e mais polêmico ainda – documentário de Jamie Johnson, 29 anos, o premiado herdeiro da Johnson & Johnson que está fazendo da sua vida uma luta para denunciar a única coisa que tanto os ricos quanto os pobres gostam: dinheiro.
“The One Percent”, apresentado sob aplausos no TriBeCa Film Festival, é um documentário de 80 minutos sobre os desafios que os Estados Unidos enfrentam ao ter apenas um por cento da sua população controlando a metade da riqueza nacional.
O filme apresenta o comentarista Robert Reich, Bill Gates Sr., Milton Friedman (que acusou Johnson de socialista e abandonou as filmagens) e alguns bilionários, contrabalanceando com cenas que mostram efeito do furacão Katrina sobre a população pobre do Sul dos Estados Unidos.
Em 2003, Jamie, uma espécie de Michael Moore dos ricos, já tinha irritado seus amigos (e a própria família) ao lançar Born Rich, transmitido pela rede HBO. Na apresentação, frisou-se que documentário era “sobre os filhos dos ricos e dirigido por um deles”.
O herdeiro entrevista seus amigos e conhecidos sobre a experiência de viver sem restrições financeiras de nenhuma espécie. Fez tanto sucesso com a iniciativa que ganhou dois prêmios Emmy, incluindo melhor direção para não ficção, e uma aparição no programa de Oprah Winfrey na TV, onde foi entrevistado ao lado da neta do bilionário Warren Buffet, hoje o homem mais rico do mundo.
Depois de lançar “The One Percent”, Jamie sofreu ainda mais ameaças e acusações dos entrevistados e citados, inclusive da J&J e de seu pai James Loring Johnson, que o acusaram de tê-los retratado injustamente. O cineasta, no entanto, descobriu, durante as filmagens, que seu pai tinha ajudado a custear um documentário sobre o apartheid e outras injustiças na África do Sul. À época, a reprimenda da família foi tão forte que seu pai jamais voltou a fazer filmes, preferindo pintar paisagens e ler o dia inteiro.
Numa entrevista ontem na NPR, Jamie Johnson revelou que o dinheiro, ou o excesso dele, sempre foi um tabu nas reuniões familiares. Seu pai costumava dizer: “Porque você está falando sobre dinheiro? Se alguém te perguntar sobre isto, diga que não é verdade, diga que não temos parentesco com a família que fundou a Johnson & Johnson”.
Pessoas ricas, diz Jamie na NPR, geralmente relutam em falar sobre dinheiro, particularmente antigos milionários, aqui chamados Old Money, e WASPs (abreviatura em inglês para branco, anglo saxão e protestante). Mesmo assim, ele diz que este tabu nunca o intimidou.
“A fortuna da minha família está aumentado mais rápido do que nunca – somos parte de um pequeno número de famílias que tem a maioria da riqueza nacional -, mas ter-se tanto na mão de tão poucos não pode ser bom para a América”, diz.
O documentário contrapõe cenas de country clubes, seminários para se evitar a alta taxação do governo ou cursos de como ter acesso a presidentes da República, e cenas de deprivação, como Nova Orleans sendo inundada durante o furacão katrina.
Uma das melhores cenas é Jamie, com um microfone escondido, perseguindo seu pai num country clube e perguntando sobre o que ele achava da riqueza. Ele, perdendo a paciência, responde: “Eu não posso te dar todas as soluções para os problemas do mundo”.

Por que a mulher deve comandar o mundo

Com a vitória da senadora Hillary Clinton nas primárias do Texas e de Ohio, renovam-se as esperanças de que a primeira candidata à Presidente da história dos Estados Unidos dê a volta por cima e vença Barack Obama na indicação do Partido Democrata para a Casa Branca.
Hillary, 60 anos, milionária e esposa do homem mais influente do mundo segundo a revista Time, Bill Clinton, está sofrendo o maior revés de sua vida – talvez pior do que o escândalo da estagiária Monica Lewinsky- ao se deparar, no próprio seio democrata, com o candidato Obama, uma espécie de Moisés moderno liderando as massas cansadas do desastre republicano.
Mas Hillary, embora não bata este martelo – “não acho justo inserir a questão de gênero sexual nesta campanha”- é mulher. E, como tal, é um ser mais completo para gerir o destino da nação mais potente da Terra e, conseqüentemente, do mundo. Não que as mulheres sejam melhores que os homens, explica a jornalista Dee Dee Myers no livro “Por que as Mulheres Deveriam Mandar no Mundo”, mais um best seller que está dando o que falar aqui. “Mas com uma mulher no comando tudo poderia mudar”, alfineta.
Poderia mesmo? “A política, por exemplo, seria mais colegiada. As empresas seriam mais produtivas. As comunidades seriam mais saudáveis”, continua. “Dar mais poder as mulheres faria do mundo um lugar melhor para se viver, não porque as mulheres se igualam os homens, mas justamente porque elas são diferentes”.
Em seu livro, a ex-assessora de imprensa do Bill Clinton, que ficou famosa não só por causa do seu interessante apelido, mas também por se tornar a primeira – e mais nova – porta voz da Casa Branca, numa época em defender o ex-presidente era semelhante a defender um porco chovinista incapaz de controlar seus instintos sexuais, defende como ninguém Hillary na Presidência.
Dee Dee hoje é uma bem sucedida mãe de família que faz questão de dizer que adora os homens (“até meu pai era um homem”, brinca ela) e divide seu tempo como editora contribuinte da revista Vanity Fair e comentarista política das redes NBC e MSNBC. Na entrevista que deu semana passada ao melhor jornalista americano da atualidade, Tim Russert, do programa Meet the Press, Dee Dee diz que “as mulheres tendem a ser melhor comunicadoras, melhores ouvintes e melhores para formar consensos”.
Dee Dee, eu também sou fã das mulheres.

Para Buckley, ser de direita não era pecado

Tem gente que acha que, depois da queda do Muro de Berlim, ser de direita ou de esquerda perdeu relevância no mundo. Mas não para William F. Buckley Jr., o jornalista, empresário, pintor, escritor, tocador de espineta, velejador, ou, na falta de outros adjetivos, padrinho do novo conservadorismo americano. Este polêmico (e bem nascido) renascentista foi encontrado morto em seu escritório semana passada, em Connecticut, vítima de complicações com enfisema e diabetes, aos 82 anos.
Buckley tinha muitos defeitos, menos o medo de ser de direita. À frente da National Review, a revista fundada em 1951 e favorita dos republicanos, especialmente do ex-presidente Ronald Reagan, o jornalista, que assinava WFB ao final dos artigos, tornou-se uma espécie de reserva moral, ideólogo e porta voz dos conservadores, um tipo de gente discreta e abastada que prefere o silêncio dos subúrbios às luzes da mídia.
Ele não só defendia os pilares republicanos, como a responsabilidade fiscal, o respeito à propriedade privada, o império da lei e o respeito às tradições, mas também ultrapassou as barricadas e começou a atacar a esquerda, ou os liberais, como se diz por aqui, segundo ele um bando de indulgentes preguiçosos que sofrem de uma disjunção histórica.
Filho de um barão do petróleo, Buckley revelou outros defeitos ao longo de seus artigos, 55 livros e dezenas de novelas de espionagem, entre eles um incompreensível anti-semitismo e uma recomendação para que os aidéticos fossem tatuados a fim de que fossem reconhecidos e não transmitissem o vírus a pessoas sãs. Escrevia de maneira complicada, cheio de hipérboles e palavras que ninguém conhece, e falava sempre em tom ácido, aristocrático, com algum sotaque britânico – só para irritar a audiência.
Ou não só a audiência: durante um debate transmitido pela TV em 1968, durante a convenção do Partido Democrata, em Chicago, o escritor Gore Vidal o chamou de “pro-crypto nazista”, no que Buckley revidou: “escute, seu veado, pare de me chamar de crypto-nazista ou eu vou te dar uma porrada na cara”. Tempos depois, na Esquire Magazine, ambos trocaram artigos sobre a briga. O de Buckley se chamava “Experimentando Gore Vidal”, enquanto o de Gore Vidal era “Um Encontro Detestável com Willian Buckley Jr.”.
A julgar pela cobertura da imprensa durante sua morte, páginas inteiras no The New York Times e no The Wall Street Journal, bem como reportagens nas grandes redes de TV, Buckley ficou famoso por levar o conservadorismo às massas através dos programas de entrevistas que participou, Firing Line, transmitido pela PBS. Mostrava-se impecavelmente de terno e gravada, com fleuma, erudição, reunidos num conservadorismo inteligente que às vezes caía para o lado do fino humor. Mesmo sem entender muitas das palavras, o publico gostava de ver suas expressões faciais, gestos e perguntas indiscretas aos entrevistados. Chegou a bater o Ibope do 60 Minutes, uma espécie de Fantástico aqui.
Com sua morte, os conservadores, já debilitados pelo desastre do governo George W. Bush, ficam ainda mais desamparados. John Mccain, o herói do Vietnã candidato presidencial dos republicanos, não passa em nenhum teste para testar seu alegado DNA da direta.

Voar é mesmo com os pássaros?

Voar é com os pássaros, era o título do filme de Robert Altman em 1970, mas de uns tempos para cá cada vez mais seres humanos infestam os céus. Segundo a IATA, a associação que monitora e regula o setor, cerca de 4,7 bilhões de passageiros deverão voar até o final de 2008, formando uma indústria que gera cerca de meio trilhão de dólares em faturamento e, melhor ainda, 31,9 milhões de empregos.
Além do mau tempo, do congestionamento dos aeroportos, dos preços dos combustíveis (que engolem cerca de US$ 150 bilhões das empresas aéreas) e das rígidas imposições da segurança, apenas um porém ainda amarra o desenvolvimento desta indústria: governo demais, regulamentos demais e outras mazelas oriundas da época da Segunda Grande Guerra. Obviamente, a título de proteger as chamadas empresas nacionais.
Por isto que a luta agora é por uma injeção de capitalismo no setor, o que geraria mais 24 milhões de empregos e um aumento do Produto Interno Bruto dos países em cerca de US$ 490 bilhões, algo semelhante a tudo que o Brazil produz. Conclusão: há uma intensa (e benéfica) relação entre a liberalização do tráfego aéreo e os benefícios para a economia, como defende o estudo da consultoria Intervistas, um catatau de dezenas de páginas patrocinado pela Boeing, a GE e outras organizações que formam a liderança do setor e que já está disponível na internet (
http://www.iata.org/whatwedo/economics/liberalization-study.htm).
Uma vez liberado, o tráfego tente a aumentar em até 100% em alguns países, promovendo uma reação em cadeia que beneficia toda a população, e não só um bando de executivos cujas empresas pagam pelo transporte aéreo, como era de se supor.
Mesmo à custa do nosso conforto (e dos nossos joelhos), atrasos e cancelamentos muitas vezes sem nenhuma explicação, as 2.092 companhias aéreas já fizeram seu dever de casa: aumentaram a taxa média de ocupação dos assentos para 76%, estão utilizando aeronaves mais eficientes, emitindo bilhetes eletrônicos e cobrando até por café e água lá em cima, o que vem gerando uma economia de US$ 6 bilhões anuais, segundo o que chefão da IATA, Giovanni Bisignani, disse através da PrNewswire.
Mesmo assim, a indústria continua vulnerável, disse ele. “Estamos obtendo um lucro de US$ 5 bilhões este ano, mas ainda carregamos mais de US$ 150 bilhões em débitos, o que significa mais vulnerabilidade do que em 2001, depois do ataque às Torres Gêmeas”. Segundo ele, a aviação comercial já saiu da UTI, mas ainda está doente.
Agora que a economia americana está dando uma freada, Bisgnani está mais preocupado, já que o bem-estar da aviação comercial é apenas um reflexo das economias ao redor do mundo. Daí a nova onda de fusão entre as companhias aéreas, como a provável união entre a Delta (quem já passou pelo aeroporto de Atlanta, na Geórgia, o maior do mundo, tem uma idéia do tamanho desta empresa) e a Northwest.
O setor aeroespacial é o mais atrativo que existe, ou como se diz aqui, é o mais “sexy”, mas esta indústria, que por décadas ficou estacionada em monopólios protegidos por governos, ainda não se acostumou aos ares da livre concorrência. Já não é sem tempo.

Um homem, duas, três, ou mais esposas

Espremidos entre a crise econômica e as eleições presidenciais, os americanos estão vidrados num documentário de quatro horas produzido pela PBS, a TV pública, sobre os Mórmons. Suave, elegante, imparcial e extremamente bem feito, o programa conta a história da religião fundada pelo profeta Joseph Smith Jr. em 1830 numa fazenda de Nova York, mostra os trabalho dos missionários (aqueles rapazes de gravata em camisas de mangas curtas que vagam pelas cidades), dá voz aos dissidentes, lembra seu poderio político (como, por exemplo, o ex-candidato presidencial republicano Mitt Romney), mas capta a atenção do público pela poligamia, justamente o assunto pelo qual eles não querem ser conhecidos – e nem lembrados.
Os adeptos da Igreja dos Santos dos Últimos Dias, a religião que mais cresce no mundo, hoje com 13 milhões de seguidores, abdicaram da poligamia – ter duas, três, ou sabe-se lá quantas esposas – em troca da liberdade de credo já em 1890, quase 60 anos depois da sua fundação. Quando a praticaram, seguindo os preceitos de Joseph Smith Jr., foram mortos, humilhados, perseguidos, roubados, presos e tiveram que fazer uma façanha de proporções literalmente bíblicas: atravessar em carroças, enfrentando a neve, a fome e os índios, os milhares de quilômetros que separam Illinois, à beira dos Grandes Lagos, até a desértica Utah, no Oeste americano, onde fundaram Salt Lake City. Desde lá, seus dirigentes engolfam-se numa monótona panfletagem de relações públicas para separar o joio do trigo, no caso, a poligamia do mormonismo, sem sucesso.
No documentário, a poligamia (ainda praticada por uma minoria de mórmons fundamentalistas, não oficialmente reconhecida como mórmons), é atribuída, entre outras explicações, ao próprio Joseph Smith Jr. (32 esposas), que a criou para satisfazer seus próprios instintos sexuais, inclusive em relação às esposas dos irmãos de fé.
Brigham Young (52 esposas), seguidor de Joseph e tido como o gênio estrategista que liderou a travessia até Utah, era contra no início, mas, mesmo a contragosto, acabou adequando-se à norma.
Mas o que surpreende é a versão das historiadoras convidadas para debulhar o sentido da poligamia no programa. Segundo elas, o fato de um homem ter várias mulheres servia também como diferenciação entre os mórmons e não mórmons – especialmente os protestantes. Na medida de suas possibilidades financeiras, os mórmons, que fazem da família (e da obediência) a mola mestra do seu culto, abrigaram em suas casas mulheres que, em outros cultos ou fora deles, teriam se perdido na prostituição, no abandono ou simplesmente na solidão depois de verem seus maridos morrerem, principalmente em guerras.
Seja para satisfazer Joseph Smith Jr., seja para seguir os exemplos do Velho Testamento, “onde Abraão e outros personagens tiveram muitas esposas por mandamentos de Deus”, a poligamia está tão associada ao mormonismo como o radicalismo ao islamismo. Ela incendeia o imaginário coletivo, faz repensar os conceitos civilizatórios, a instituição do casamento e a relação entre os homens e as mulheres. Por mais que se digam coisas boas a respeito dos mórmons – e existem milhares delas, como em qualquer religião – as imagens que a mídia mostra – geralmente um homem mais velho, de chapéu e barbudo, ao lado de diferentes mulheres, de diferentes idades, carregando bebes em profusão– formam a percepção retida em nossas memórias.

Só o capitalismo acaba com a pobreza?

Para quem, como boa parte dos norte-americanos, acredita que o capitalismo é a solução para tudo, mas tudo mesmo, um livro está provocando no berço do livre mercado a ira da esquerda e até dos próprios capitalistas. A começar pelo mais ilustre deles, Bill Gates, um dos maiores filantropos de todos os tempos, que está distribuindo sua fortuna de mão em mão em remotas aldeias africanas.
Willian R. Easterly, um ex-funcionário do Banco Mundial, defende que os 2,7 trilhões de dólares destinados à caridade pelo mundo ocidental nos últimos cinqüenta anos tiveram um efeito semelhante a, digamos, enxugar gelo. O ato de tirar de quem tem e doar a quem não tem “é fantástico, mas os pobres não são pobres por falta de caridade”, diz ele em seu livro “Why the West’s Efforts to Aid the Rest Have Done So Much Ill and So Little Good”
A pobreza existe por “falta de capitalismo”, defende ele. Será? Caso recebessem injeções de livre mercado, não existiriam, segundo o autor, mais de três bilhões de seres humanos que vivem com menos de dois dólares por dia. Um bilhão deles sem ter o suficiente para comer.
Easterly, numa visão completamente oposta à de Gates e à do vocalista da banda U2, Bono, (que faturou mais de 22 milhões de dólares com sua linha de produtos “Red”, que destina porcentagem dos ganhos para programas sociais) está reinventando o preceito bíblico “ao invés de dar o peixe, ensine o homem a pescar”.
Pelas propostas de seu livro, todo o Terceiro Setor – incluindo aí Banco Mundial e outros organismos que tentam mitigar as injustiças globais – iria para o espaço diante dos irrefutáveis argumentos da própria história. Para começar, a explosão do capitalismo desde 1950 fez com que a renda média anual das pessoas subisse de US$ 2 mil para US$ 7 mil. “Ao contrário do senso comum, países pobres cresceram à mesma taxa que os ricos – e este crescimento salvou bilhões de habitantes da miséria”.
Para Easterly, o capitalismo adapta-se como água morro abaixo, descobrindo seus próprios – e imponderáveis – caminhos. Quem diria que a onipresente China se tornaria a fábrica do mundo, competindo pela supremacia com os Estados Unidos, depois de lançar seus habitantes às garras do capitalismo? Pois é, lá quase meio bilhão de chineses saíram da pobreza para a classe média, coisa que deve fazer Karl Marx revirar-se no túmulo.
Num artigo recente no conservador The Wall Street Journal, ele aponta outros fatos que, à revelia de qualquer previsão dos economistas ou planejadores de plantão, também surpreenderam: o Egito é responsável hoje por 94% das importações italianas de cerâmica. A Índia, embora semi-alfabetizada e adormecida por milênios, é hoje a grande fonte mundial de terceirização de tecnologia. O Quênia domina o mercado de flores na Europa, enquanto Lesoto tornou-se o maior exportador de têxteis para os Estados Unidos. Sem falar nas Filipinas, responsável por 72% do mercado mundial de circuitos eletrônicos.
E o Brasil?

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Rudy Giuliani, a próxima vítima

Amanhã, quando forem abertas as urnas das eleições primárias da Flórida - um estado que até hoje está com a barra suja por ter dado a vitória a George W. Bush há sete anos - o ex-prefeito de Nova York Rudolph William Louis "Rudy" Giuliani estará com o coração na mão.
O ex-manda-chuva da maior cidade americana, que montou a estratégia para tornar-se o candidato republicano em 2008 em cima das cinzas do ataque terrorista de 11 de setembro, jogou boa parte do dinheiro de campanha, em torno de 47 milhões de dólares, no estado favorito dos brasileiros, onde floresce Miami, a capital da América Latina.
Por que Giuliani, um ex-promotor público sobrevivente a um câncer de próstata e especializado em prender mafiosos na fria Nova York, deixou de investir em Iowa, New Hampshire ou na Carolina do Sul para ganhar os votos republicanos num estado tropical, sulista e cheio de imigrantes ilegais?
Por uma simples razão: a Flórida é onde boa parte dos endinheirados nova-iorquinos vai se aposentar. Aos 64 anos, e sempre martelando a necessidade de ter um líder experiente para enfrentar crises, o que soa como mel no mamão para os idosos, Giuliani acredita que irá fazer sucesso lá.
Ledo engano. As últimas pesquisas lhe dão um humilde terceiro lugar nas preferências dos republicanos na Flórida, atrás de John Mccain, o senador por Arizona torturado durante cinco anos no Vietnã, e Mitt Romney, o empresário mórmon que salvou as Olimpíadas de Salt Lake City do fracasso e tem 250 milhões de dólares no bolso.
Saltar algumas primárias é uma prática comum entre os candidatos presidenciais norte-americanos, mas Giuliani comete três erros que, provavelmente, e se nenhum fato novo acontecer (e como acontece...) vão enterrá-lo politicamente.
Tirar proveito da desgraça. Giuliani tornou-se o homem do ano de 2001 depois que, no apagar das luzes como prefeito de Nova York, liderou o atendimento de milhares de vítimas do ataque terrorista às Torres Gêmeas. Mas agora, depois de quase sete anos do ocorrido, o que muitos norte-americanos querem é esquecer as imagens mais tristes que o país registrou em dois séculos de existência. Ficar lembrando os aviões espatifando-se nos arranha céus não é muito atrativo para o eleitorado.
Nova York, afinal, não é os Estados Unidos. A cidade de 19 milhões de habitantes, considerada a capital do mundo, não reflete nem de longe a realidade norte-americana. É como tomar o pulso do eleitorado brasileiro pelos cariocas. Tabus como homossexualidade, divórcio, aborto e drogas são vistos como uma certa complacência pelos nova-iorquinos. Basta dar uma volta em Times Square.
Republicanos são conservadores. Não adianta Giuliani ser republicano de carteirinha quando casou três vezes, foi morar com um casal gay quando se divorciou a última vez e é tão liberal em relação ao aborto como uma feminista democrata. A onda conservadora nos Estados Unidos, agora que o país está se derretendo economicamente, continua firme e forte.
Como se não bastasse, ainda existe um fantasma que povoa os sonhos de Giuliani. Vira e mexe, seu sucessor como prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, é citado para concorrer à presidência dos Estados Unidos como candidato independente. A política, seja em qualquer lugar, é uma atividade traiçoeira, mas está sendo impiedosa com Rudy
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segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Homem não chora, mulher pode?

Depois de levar a primeira surra de sua vida, chegando em terceiro lugar no caucus de Iowa, a senadora Hillary Rodham Clinton, 60 anos, reuniu outras madames num café em New Hampshire e, entre cappuccinos e croissants, assustou a audiência quando, com voz embargada, quase chorou. De mulher para mulher, e de frente para as câmeras, desabou diante do cansaço, da pressão e da solidão da agitada campanha presidencial norte-americana.
Não deu outra. A esposa de Bill Clinton, favorita nacionalmente, mas ainda rejeitada por metade dos americanos, mostrou seu lado mulher (coisa que se recusava a fazer na campanha) e, assim, reverteu o quadro, qanhando de virada as primárias do Estado, à frente dos outros democratas Barack Obama e John Edwards. O choro ganhou um editorial no The New York Times assinado pela feminista Gloria Steinem.
Até hoje, depois de mais de dois séculos de independência, nenhuma mulher chegou perto de ocupar o Salão Oval da Casa Branca. A cadeira de presidente, como todos sabem, é quente: dá dores de cabeça, noites mal dormidas, pressões de todos os lados e muitas rugas. Repare nas fotos dos presidentes no decorrer dos mandatos. O tempo não faz bem a eles.
Hillary, se chegar lá, vai ter de provar que uma mulher sabe governar os Estados Unidos, pois, como diz Steinem, aqui o racismo de gênero sexual é maior do que o racial. Ou seja, terá de ser um boa presidente, “apesar de ser mulher”.
Hillary (ou qualquer outro candidato) vai encontrar um governo decadente, as finanças em frangalhos, uma guerra impopular e um partido Democrata dividido, embora (ainda) tenha maioria no Congresso. Vai ter que capturar Osama Bin Laden, fazer o papel de xerife do mundo, viver sob proteção do serviço secreto 24 horas por dia e, mesmo assim, estar bem vestida, maquiada e com o cabelo armado.
Ter receio de uma presidente mulher soa estranho num país onde as mulheres simplesmente mandam. Independentes, já são maioria da força de trabalho, ganham mais do que os homens, invadem as universidades e têm vida econômica própria, sem ter que depender de qualquer outra figura masculina.
Mas o fato é que os Estados Unidos (e a maioria dos países) nunca tiveram uma presidente mulher. Ao ver Hillary à beira de um ataque de nervos na TV, os americanos temeram que, ante outros aborrecimentos (e como presidentes os têm), qual seria sua reação? Reagir? Acomodar-se? Rir? Chorar? Afinal, diz Freud, o que se passa na cabeça de uma mulher?
Hillary ainda tem 48 Estados (onde serão realizadas primárias) para testar suas emoções. Ela tem o maior caixa de campanha (quase US$ 100 milhões), uma estrutura espetacularmente profissional, o apoio do chamado establishment, a força dos eleitores de Nova York, onde já é senadora por dois mandatos, e o ombro do melhor e maior cabo eleitoral que se pode ter, o ex-presidente Bill Clinton, popular e querido não só nos Estados Unidos como em praticamente em todo o mundo.
Hillary é inteligente, rica, bem sucedida como advogada, experiente na Casa Branca, onde passou oito anos ao lado do marido, um potencial de abrir uma nova frente para as mulheres a partir de seu exemplo e, como escreveu Gloria Steinem, ainda leva uma vantagem: não precisará provar sua masculinidade. E poderá, se quiser, chorar.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

O incrível "Dr. Não", sempre candidato

O fenômeno do Dr. Não, como é mais conhecido Ronald Ernest "Ron" Paul, um médico republicano do Texas, está desafiando os jornalistas, os assessores políticos e, principalmente, seus concorrentes à Presidência dos Estados Unidos. Cara de bonachão, o cordato velhinho (parece bem mais idoso que seus 72 anos) é um tremendo sucesso na Internet, graças a um bando de infomaníacos que, 24 horas por dia, sete dias por semana, faz parte do chamado marketing virtual: infiltram-se em blogs, enviam vídeos para o YouTube e disseminam spans pela rede. Resultado: semana passada, e pela segunda vez nesta campanha, Paul arrecadou quase 10 milhões de dólares em um só dia. Um recorde em toda a história política norte-americana.
A exemplo das cabeças dos juízes, ninguém sabe ao certo o que sai da mente do obstetra que participou da Guerra do Vietnã. Libertário, segue o mantra “você é o dono do seu próprio nariz”, mas, inexplicavelmente, é contra o aborto. Também é contra qualquer tipo de guerra, controle de armas e o aumento de impostos. Aliás, quer acabar com o imposto de renda e, de quebra, com o próprio Banco Central norte-americano, pois acha que os países, assim como as pessoas, devem viver dentro das suas possibilidades, e não “rodar a maquininha” de fazer dinheiro ou endividar-se no cartão de crédito, como boa parte da população faz. Não intervencionista, quer que os soldados americanos voltem para casa e que os Estados Unidos utilizem forças especiais, como a CIA, para combater seus inimigos. Ou seja, um samba do crioulo doido.
O incrível, no entanto, é que Ron Paul aparece em primeiro lugar na preferência do eleitorado em várias pesquisas de araque, principalmente aquelas realizadas entre os internautas. Lidera, por exemplo, o ranking de palavras-chave nos mecanismos de busca da Internet, liderança que pode ser espontânea, como Paris Hilton ou George Bush, ou forçada, que geralmente é resultado de manipulações técnicas de gente especializada no assunto. Como disse a rede ABC, “os simpatizantes de Ron Paul tem um grande habilidade na arte do marketing viral, usando especialistas e postagens de blogs para criar uma percepção de momento de sua candidatura. O USAToday, o jornal de maior circulação dos Estados Unidos, concluiu: “Ele é naturalmente on line, porque, entre outras razoes, libertários amam da rede mundial de computadores”. O problema, no entanto, é que nas pesquisas reais, feitas por gente profissional com parâmetros profissionais, Ron Paul aparece nos últimos lugares, perdendo feio para gente como Rudy Giuliani, o ex-prefeito de Nova York, o ex-governador de Massachusetts, Mitt Romney, e até para o ator grandalhão de voz cavernosa Fred Thompson.
Ron Paul já está em seu terceiro mandato no Congresso norte-americano e, vez por outra, arrisca-se com uma candidatura à Presidência. Já poderia ter se aposentado na companhia dos cinco filhos, 18 netos e um bisneto. No entanto, a paixão política o leva a candidatar-se mais uma vez, mostrar idéias estranhas ao eleitorado (coisas que, na Presidência, jamais faria) e, principalmente, fazer sucesso entre os eleitores virtuais.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Greenspan, biografia é o livro do ano

A correspondente da rede NBC em Washington, Andrea Mitchell, só percebeu que o sisudo Alan Greenspan estava lhe pedindo em casamento na terceira tentativa. O então presidente do Federal Reserve, o Banco Central norte-americano, o homem que com apenas uma ferramenta – a taxa de juros – governou os Estados Unidos (e por tabela o mundo) durante duas décadas, falava por hipérboles, metáforas e analogias difíceis de decifrar, um hábito dos tempos em que dava recados aos mercados sem deixá-los em pânico ou, como gostava de comparar, mandava cortar a bebida alcoólica quando a festa começava a esquentar.
Andrea se casou com Alan e foram felizes para sempre. A esposa está sempre presente em sua autobiografia, um catatau de 520 páginas chamado “A Era da Turbulência – Aventuras Em Um Novo Mundo –, que pode ser considerado o livro do ano de 2007 por uma razão: é um dos melhores livros de história escritos até hoje. Sob a batuta deste maestro, que com uma incrível capacidade de sobrevivência atravessou os governos Ford, Carter, Reagan, Bush, Clinton e Bush filho, o mundo assistiu a choques de petróleo, à queda do Muro de Berlim, ao fenômeno da Internet, a sucessivas falências de países (inclusive o Brasil) e, finalmente, ao ataque terrorista aos Estados Unidos em Setembro de 2001.
O judeu nova-iorquino nascido em 1926 em Manhattan, cuja vocação inicial era ser saxofonista na banda de Glenn Miller, é nada mais que um amante de dados, planilhas, tabelas, relatórios ou tudo que contenha números. Tira as conclusões, de preferência, dentro da banheira, todos os dias de madrugada, o que provoca a ira dos assessores que lêem seus manuscritos borrados. Sua conclusão mais famosa é o da “exuberância irracional”, uma advertência sobre a bolha de ações da Internet que começou no dia 9 de agosto de 1995, quando foram lançadas as ações da Netscape, deixando seus donos milionários, e explodiu na virada do século. Greenspan tem uma posição dúbia a respeito do fenômeno pontocom: ao mesmo tempo em que criticava a irracionalidade do mercado, creditava a resiliência da economia norte-americana aos ganhos de produtividade promovidos pela tecnologia – comunicações e computadores invadindo as empresas.
Este é aspecto mais interessante da biografia de Greenspan. Como pode a maior potência industrial e econômica do mundo, os Estados Unidos, exportar praticamente todos os empregos para a China e outros países de mão de obra barata e, assim mesmo, manter uma economia de pleno emprego? “Hoje”, escreve o economista que se tornou milionário fazendo previsões econômicas para a indústria siderúrgica na década de 50, “os americanos mudam de emprego em escala verdadeiramente estupenda”. E é mesmo. Numa força de trabalho de quase 150 milhões de pessoas, um milhão muda de emprego a cada semana – cerca de 600 mil por vontade própria, enquanto cerca de 400 mil são demitidos, quase sempre quando suas empresas são adquiridas ou reduzem o efetivo de pessoal. Ao mesmo tempo, um milhão de trabalhadores são contratados por outras empresas também a cada semana, à medida que se expandem os novos setores e se criam novos negócios.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Deixe o diretor do marketing morrer

Vamos poupá-lo de mais sofrimento, diz o recente editorial da Advertising Age. Nos Estados Unidos, como em todo o mundo, este cargo está se tornando uma cadeira quente. De um lado os acionistas estão contando centavos e exigindo explicação para qualquer despesa. Do outro, um mundo em revolução. Bem diferente do passado, ninguém sabe mais quem é o cliente, onde ele está e, se ele existe mesmo, como podemos acessá-lo pelo menor custo/benefício e, de preferência, “prá ontem”.
Se você é diretor de Marketing do Google, por exemplo, está com um emprego garantido: basta sentar e ouvir os elogios, enquanto recusa propostas dos publicitários para fazer “aquele anúncio de 30 segundos em rede nacional para vai mudar a sua vida”. Agora, se você é diretor de Marketing da maioria das empresas que não tem um produto ou serviço tão fantástico quanto o Google, está em maus lençóis. Sugere uma campanha da TV, enquanto o consumidor recebe notícias no celular. Faz planos para uma campanha virtual, quando o contato do consumidor com a mídia é o outdoor que ele vê quando vai para o trabalho.
Os papas do setor argumentam que marketing é um trabalho difícil, demorado, multifacetário, que precisa estar à frente de um produto ou serviço legal. É uma espécie de pedido de prazo até que o dono da empresa descubra que o esforço de marketing não deu certo. Raramente acontece o contrário. A pesquisa da Spencer Stuart, divulgada na Business Week, diz que os diretores de Marketing permanecem no cargo, em média, cerca de 26 semanas. Já os diretores de Informática (36) e de Finanças (39) ficam um pouco mais. O último a cair é o comandante do barco, o CEO, com apenas 44 semanas, ou apenas 11 meses.
Já se foi o tempo em que a diretoria de Marketing era um cargo reservado à filha do dono ou ao genro “que a gente não sabia aonde pôr”. Hoje, as empresas reconhecem sua importância, mas a tendência é que este cargo não esteja na mão de uma só pessoa, mas de todo o mundo. A idéia é que todos dividam esta responsabilidade, a começar pelo contínuo. Se você visitar o campus da Microsoft perto de Seattle, descobrirá que metade dos 60 mil funcionários está fazendo software, enquanto a outra metade marketing. No Google é a mesma coisa. E na Apple também. O resto é resto.
Para evitar o destino da maioria dos diretores de Marketing, a demissão, os marqueteiros agora estão propondo novas formas de sobrevivência nas empresas. Quando deixou a Toyota para ocupar o mesmo cargo na Ford, o CMO (chief marketing officer) James Farney descobriu que teria vida curta caso não vinculasse seus resultados com as vendas mensais, o parâmetro de sucesso da indústria automobilística. Propôs ao CEO Alan Mulally, que veio da Boeing, que ficasse responsável também pelas vendas do mercado mais problemático da Ford, os Estados Unidos. Assim, explicou, estaria na mesma panela de pressão dos colegas. Mulally aceitou e Farney manteve o emprego. Nas reuniões mensais de estratégia, não pode mais dourar a pílula com apresentações em power point ou recitar os mantras dos marqueteiros. O resultado do seu trabalho está ali, frente a frente com a realidade.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Nem sexo, nem drogas, sé rock and roll

O pastor batista Mike Huckabee, 51 anos, um “ex-viciado em comida” que perdeu 50 quilos em 60 dias e virou um menestrel das dietas, poderá ser o próximo presidente dos Estados Unidos. Ex-governador do Arkansas que nasceu na mesma cidade de Bill Clinton, Hope, Huckabee teve uma ascensão meteórica nas pesquisas de opinião nos últimos dias, batendo todos os outros candidatos à indicação do Partido Republicano para concorrer à presidência.
Os jornais atribuem a virada à religiosidade de Huckabee, o que cai como uma luva nos eleitores que, em matéria de política, preferem à Bíblia à Constituição. O homem é contra o aborto, o casamento homossexual e pesquisas com embriões humanos, embora não repita estes mantras da direita nos discursos e entrevistas. Ao contrário, ele parece um livro de auto-ajuda que se abre a cada questionamento dos eleitores ou dos jornalistas. Olhos nos olhos, voz firme, postura de vencedor, Huckabee prefere falar, por exemplo, do direito do cidadão em portar armas.
- A violência diminui quando o criminoso sabe que vai encontrar na próxima esquina um cidadão armado disposto a matá-lo, caso seja necessário, disparou ele outro dia.
Huckabee nunca fumou ou bebeu. Depois de ter sido diagnosticado com diabetes em 2003 e ter sido avisado por seus médicos de que morreria no máximo dentro de 10 anos, fez regime, correu maratonas como de Nova York e, ainda, elegeu o perigo da obesidade como tema de seus dois governos no Arkansas. Lá, traindo outro mantra republicano, elevou os impostos e é criticado até hoje por isto. Como o ex-presidente e conterrâneo Bill Clinton, que pensava tocar saxofone, ele arranha uma guitarra em concertos de rock and roll.
O ex-governador do Arkansas estava, até um mês atrás, na lanterna das pesquisas de opinião, o que o deixava à míngua na arrecadação de recursos para a campanha. Gastou só passagem de avião para conquistar eleitores de Iowa, o Estado que hospedará o cáucus no dia 3 de janeiro e que é a porta de entrada para medir a preferência do eleitorado. Lá, seu oponente mais próximo no Partido Republicano, Mitt Romney, o ex-governador de Massachusetts que é mórmon e milionário, já gastou mais de US$ 10 milhões do próprio bolso para ganhar a simpatia dos eleitores conservadores. Em termos nacionais, o ex-prefeito de Nova York, Rudy Giulianni, é o preferido dos Republicanos, enquanto Hillary Clinton ainda lidera entre os democratas.
Huckabee é pós-graduado no seminário batista, mas resolveu entrar para a política quando ouviu um discurso do pai de todos os republicanos, Ronald Reagan, em agosto de 1980, num estádio de Dallas, Texas, ao lado de 15 mil evangélicos. “Todas as complexas e horrendas questões que confrontamos hoje em casa e no mundo tem as respostas em um simples livro”, disse o cowboy. Ali, segundo Huckabee, estava a gênese de todo o movimento cristão e conservador. Que, há mais de 20 anos, invadiu a política nos Estados Unidos.
Por esta e por outras a eleição presidencial norte americana vem sendo considerada uma das mais interessantes e importantes da história recente. Com base nas atuais pesquisas de opinião, poderemos ter uma mulher, um negro ou um pastor na Casa Branca. Já pensou como será o mundo a partir daí?

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Já Escolheu o homem (ou a mulher) do ano?

Desde 1927, a história se repete: a revista Time, a mais influente do mundo, escolhe o homem (ou a mulher do ano). A tradição nasceu do acaso. Em 1927, como em todos os anos, havia falta de notícias entre o Natal e ano-novo. Parece que o mundo descansa nesta época. Sem assunto, e para remediar o fato de não terem colocado na capa o herói daquele ano, o aviador Charles Lindbergh, o primeiro homem a cruzar o Atlântico de teco-teco, a premiação começou.
Os editores da revista recusam-se a considerar a capa do Homem do Ano um prêmio. O perfil é do homem, ou mulher, ou casal, ou grupo, ou idéia, ou lugar, ou máquina que, para !mlehor ou pior modificou os eventos de determinado ano". Hilter ganhou em 1939, como você, isto mesmo, você, ganhou no ano passado por mudar o mundo através da internet. Há uns tempos, pode votar eletronicamente, mas quem dá a palavra final são os editores.
Em 2007, os candidatos são J.K Rowwling (primeiro lugar), autora do Harry Potter, seguida pelo Prêmio Nobel da Paz, Al Gore, o candidato negro a Presidência Brack Obama, a secretária de Estado Condoleeza Rice e o encrenqueiro Ahmadinejad, prediedente do Irã. Você ainda pode votas no site ww.time.com em Steve Jobs, da apple, no general David Petraeus (milagrosamente está diminuindo a violência no Iraque), Hillary Clinton (imbatível nas preferências dos democratas para suceder Bush), e Vladimir Putin, o manda-chuva da Rússia.
A capa do Homem do Ano parece um agradecimento da humanidade à pessoa que mudou odestno da Terra nos 365 dias anteriores. Ou nos últimos cem anos, como Albert Einstein, já escolhido como Homem do Século. Como tudo nos Estados Unidos, sempre foi motivo de controvérsia. A tendência é obter a simpatia do eleitor elegendo gente que faz o bem. Bin Laden mudou o mundo para pior foi desprezado em 2001. Contraditoriamente, o Ayatollah Khomeini, salvador para os islâmicos, foi eleito em 1979.
O evento tem seus demônios. Na votação via internet em 2006, Hugo Chavéz ganhou, seguido por Nacy Pelosi, a falante presidente do Congresso norte-americano. Para esquentar o debate, que tal votar em George W. Bush, que já ganhou em 2004? A teimosia do homem que, contra a vontade de 6 bilhões de habitantes da Terra, manteve (e mantém) uma guerra fraticida, impopular. Ele ainda não anunciou, mas tudo indica que o homem vai ganhar a Guerra no Iarque.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Obama e Huckabee viram a mesa

Virada na eleição presidencial norte-americana esta semana. Barack Obama, 46 anos, negro, havaiano criado na Indonésia, um conciliador que faria inveja a Tancredo Neves, superou Hillary Clinton e agora é o democrata favorito (30% das preferências) no cáucus de Iowa no início de janeiro, a “porta de entrada” para a Casa Branca. Do lado republicano, o pastor batista Mike Huckabee, 52 anos, ex-governador do Arkansas, que é contra o aborto, o casamento homossexual e pesquisas com embriões humanos, saiu de 8% para 24% nas pesquisas, podendo superar o também extrema-direita Mitt Romney, até agora o favorito no Estado.
A virada de Huckabee, anunciada às vésperas do feriado de ação de Graças, foi atribuída ao conservadorismo dos eleitores religiosos de Iowa. Já a ascensão de Obama decorre, principalmente, do cansaço do eleitorado com os “dois países” que se formaram depois da eleição de George W. Bush: as costas Leste e Oeste, progressistas, e os estados centrais, conservadores. Em termos nacionais, a ex-primeira dama Hillary Clinton, cuja plataforma está centrada na reforma do sistema de saúde, ainda domina a preferência dos democratas, ao passo que o ex-governador de Nova York, Rudy Giuliani, que se auto proclama o salvador da cidade depois de 11 de setembro, é o favorito entre os republicanos com o seu discurso antiterrorismo.
Embora os candidatos ainda tenham de passar por primárias importantes, como New Hampshire e Carolina do Sul, está cada vez mais clara a divisão do eleitorado. O advogado Obama repete a história do pastor Martin Luther King, Jr. saindo da obscuridade com apenas um – e grandioso – discurso, durante a convenção democrata de 2004, quando fez uma apologia do nome do país, Estados Unidos da América, que segundo ele sugere a união de todas as raças, credos e nacionalidades. O discurso entrou na galeria dos grandes momentos do Partido Democrata e fez com que ele se tornasse, dois anos depois, o primeiro candidato a receber proteção integral do Serviço Secreto.
Já Huckabee parece ter nascido de um livro de auto-ajuda. Gaba-se de ter perdido cerca de 50 quilos em três meses, e acha que a criminalidade diminui através do medo dos bandidos diante de “cidadãos armados”. Recentemente, anunciou a adesão à sua campanha de atores de filmes violentos ou lutadores de luta livre. É favor da pena de morte e da guerra no Iraque.
Huckabee nunca fumou ou bebeu. Depois de ter sido diagnosticado com diabetes em 2003 e ter sido avisado por seus médicos de que morreria no máximo dentro de 10 anos, fez regime, correu maratonas como de Nova York e, ainda, elegeu o perigo da obesidade como tema central de seus dois governos no Arkansas. Lá, traindo o mantra republicano, elevou os impostos e é criticado até hoje por isto. Obama, por outro lado, ainda fuma escondido dos eleitores e, no passado, experimentou maconha e cheirou cocaína. Desde pequeno, segundo sua autobiografia, publicada quando ainda estava na casa dos 30 anos, embala o sonho de ser presidente. Filho de pai queniano e mãe do Kansas, divorciados quando ele tinha dois anos, viveu a infância em Jacarta, Indonésia (o namorado de sua mãe é de lá) formou-se por Harvard e, depois do John F. Kennedy, é o político mais novo a ingressar no Senado norte-americano. Sua plataforma, embora conservadora sobre vários aspectos, traz elementos novos, como um provável diálogo com o Irã e Síria, caso seja eleito presidente
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Afinal, o que há de errado com o Citi?

A história do Citigroup, um conglomerado financeiro nascido em 1812 em Nova York, é uma sucessão de escândalos de tráfico de influência e brigas de diretores, mas nada calou mais fundo entre os acionistas do que o prejuízo de US$ 11 bilhões no terceiro quadrimestre deste ano, resultado não só da crise das hipotecas nos Estados Unidos, mas também da pura – e grandiosa – incompetência da sua direção.
O grupo, uma espécie de quartel general do capitalismo, é a maior empresa em ativos do mundo (quase US$ 2 trilhões), ostentando em seu currículo a popularização dos caixas eletrônicos e a introdução do conceito full service financeiro. Agora vem se juntar ao clube dos sem-lucro de Wall Street: Bear Stearns (prejuízo de US$ 450 milhões), Morgan Stanley (US$ 3,7 bilhões) e Merrill Lynch (US$ 7,9 bilhões).
Desconta-se que o Citi é uma colcha de retalhos resultante de aquisições desde a sua criação. O que, por si só, representa um transatlântico ingovernável. Mas o que estava fazendo o CEO Charles Prince quando a crise das hipotecas pegou fogo em 2006 e foi derreter-se no verão norte-americano em meados deste ano? O homem ganhava quase US$ 30 milhões, opções de ações, prêmios semestrais, gratificações, clube de golfe, cartão de crédito, jatinhos e o beija-mão de toda a comunidade empresarial... e mesmo assim não fez nada?
Diz-se que os problemas encontrados nas grandes empresas são os mesmos que você enfrenta aí no dia a dia da sua firma. A diferença são os números. E foram justamente os números que derrubaram o Citigroup, em fórmulas do que eles chamam de colaterização de débitos hipotecários, uma coisa tão difícil de entender que, como diz o ditado, dá para desconfiar. Na hora do “vamos ver”, as explicações foram mais complicadas ainda. Enquanto todo mundo estava ganhando dinheiro tudo bem, mas agora que a ficha caiu, só Prince foi mandado para a casa.
Desde que ele foi defenestrado do cargo, o conselho de diretores está, agora, à procura de um comandante. Paga-se bem, mas o problema é que o cargo é uma cadeira quente: o novo CEO terá de manejar um barco de 332 mil funcionários e 200 milhões de contas correntes em cerca de 100 países. Cada canetada sua pode balançar os Estados Unidos, a começar pela Bolsa de Nova York, cujo índice Dow Jones o Citi compõe e influencia.
Na última semana, um atento analista recomendou vender as ações do Citi, já que a exposição do conglomerado aos mercados de crédito continua sendo preocupante, especialmente para o seu maior acionista individual, o príncipe Al-Walid Saud, o 13º homem mais rico do mundo e proprietário de 10 bilhões em ações, ou 4% do total.
A crise é de liderança, concluiu o The Wall Street Journal esta semana. Por isto o conselho de diretores está se reunindo para avaliar os sucessores de Prince, “que agora deve ser um rei”, brinca o jornal. O conselho conta com nomes influentes, como Richard Parsons, CEO da Time Warner, Franklin Thomas, ex-Ford Foundation, o ex-secretário do Tesouro de Bill Clinton, Robert Rubin, que foi nomeado chairman depois que Prince foi convidado a se retirar, e o brasileiro Alain Belda, da Alcoa.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Onda verde aquece negócios de Al Gore

Prêmio Nobel da Paz de 2007 e “ex-futuro-presidente dos Estados Unidos”, como chama a si mesmo, o democrata Al Gore enterrou de vez esta semana os sonhos dos fãs que esperavam sua candidatura à sucessão de George W. Bush: será sócio de uma das maiores empresas de capital de risco do mundo, a Kleiner Perkins Caufield & Byers (KPCB) que, após o advento da era da informação, agora investirá em negócios sustentáveis, especialmente na área de energia. O setor vislumbra um mercado potencial de US$ 6 trilhões nos próximos anos.
Como empresário – além de dono da Current TV, um canal a cabo para jovens, faz parte dos conselhos da Apple e da Google e ainda ganha dinheiro com livros e o documentário Verdade Inconveniente, ganhador do Oscar - Gore já é milionário (cobra US$ 100 mil por palestra) e poderia se aposentar na sua mansão em Nashville, Tennessee. Mas agora, diante da urgência de um desastre planetário com a elevação da temperatura, já existe o consenso de que quem vai salvar a Terra é a iniciativa privada, muito mais do que governos e tratados internacionais.
“Trata-se da combinação do Plano Marshall e dos Projetos Manhattan e Apolo ao mesmo tempo”, comparou o ex-vice-presidente que hoje, segundo pesquisas, é a personalidade mais popular nos Estados Unidos. Há três anos Gore fundou um fundo de investimentos sustentáveis, o
Generation Investment Management, mas agora virou sócio de uma empresa referência na Sand Hill, a rua do Vale do Silício que é o coração do venture capitalism no mundo. Seu papel será uma espécie de radar para novos negócios no setor.
A KPCB está para o capitalismo de risco assim como Steve Jobs, da Apple, está para o computador pessoal. Foi de lá que saíram investimentos iniciais para empresas como Google, Amazon, Sun e Netscape. Até 2009 a firma investirá pelo menos US$ 600 milhões em negócios que produzam tecnologias que reduzam a emissão de dióxido de carbono. Desde o ano passado foram investidos US$ 270 milhões em 26 empresas que fazem desde micróbios que destroem manchas de óleo até carros elétricos. 12 dos seus 22 sócios gastam a maioria do tempo em projetos “verdes”. “Estamos no início de uma nova revolução industrial, e significativamente maior e mais rápida”, disse Gore.
Na onda de Gore e seus sócios, grandes empresas americanas estão mergulhando no mundo da sustentabilidade. O Wal Mart, por exemplo, a maior empresa do mundo, acaba de fazer um evento para os seus 65 mil fornecedores em Bentonville, Arkansas, anunciando a construção de lojas ecológicas e, melhor ainda, redução no empacotamento de produtos. A Coca Cola já está investindo na substituição de seus nove milhões de refrigeradores e vending machines para reduzir e emissão de dióxido de carbono.
Embalado nesta virada da América Corporativa, Al Gore poderá, na iniciativa privada, realizar sonhos que talvez não pudesse realizar caso fosse presidente dos Estados Unidos. O também ex-senador e deputado federal é formado por Harvard em Letras, foi correspondente de guerra (embora se opusesse ao conflito do Vietnã, foi convocado e serviu como fotógrafo de uma revista especializada, Army Flier) e é uma espécie de reserva moral dos Estados Unidos.


. Acima de qualquer suspeita

Políticos são cobrados por roubalheiras ou escândalos sexuais, mas Al Gore, 59 anos, é questionado por coisas aparentemente inofensivas, com o rastro de carbono que provoca quando viaja de avião ou quando liga as luzes de sua mansão de US$ 2,3 milhões.
Para se defender, e não deixar nenhuma dúvida quanto aos seus propósitos, Gore paga pelo carbono emitido pelos aviões que utiliza através de websites como o
http://www.terrapass.com/. Acaba de instalar 30 painéis solares na sua casa e só utiliza carros híbridos como Prius, da Toyota.
Depois de um dos maiores revezes políticos da história, perder a eleição de 2000 para George W. Bush no Colégio Eleitoral mas ganhar no voto popular, Gore é o centro de uma revolução empresarial sem precedentes. Seu poder de mobilizar recursos políticos e financeiros para as chamadas empresas-verdes é inigualável no cenário de negócios nos Estados Unidos.
Na Kleiner Perkins Caufield & Byers, ele vai trabalhar pelo menos cinco dias por mês – até já comprou um apartamento em San Francisco, perto da sede da empresa – e vai dividir com os outros 22 sócios uma taxa de 2% de administração e cerca de 20% do dinheiro ganho com a venda ou abertura de capital das novas empresas de tecnologias limpas, como são chamadas.
Ao contrário dos investimentos na tecnologia da informação, até agora pouca gente ganhou dinheiro com empreendimentos que fazem painéis solares, aproveitam a energia das marés ou do hidrogênio a preços competitivos. Mas, com o petróleo beirando a US$ 100 o barril e o governo dando incentivos com programas e redução de impostos, a nova corrida do ouro já está em marcha.
Gore, até a década de 80 um político interiorano sem expressão nacional, transformou-se quando quase perdeu seu filho, Al Gore III, então com seis anos, num desastre de carro em 1989 em Baltimore, Maryland. Durante o longo período de restabelecimento, Gore escolheu ficar no hospital ao lado do filho, deixando em segundo plano da candidatura à presidência dos Estados Unidos em 1992.
Foi neste tempo que escreveu o livro “Terra em Equilibro”, uma reflexão que o levaria a tornar-se, uma década depois, um fenômeno respeitado internacionalmente. Ele fala sobre o assunto no documentário Verdade Inconveniente, ganhador do Oscar de Melhor Documentário em 2006, mas segundo os críticos “a mais famosa apresentação em PowerPoint da história”.
Seu filho foi preso em julho deste ano por posse de maconha e barbitúricos em Laguna Hills , na Califórnia, depois de atingir 100 milhas por hora em seu Toyota Prius. A imprensa americana correu atrás de Gore pedindo entrevistas. Ele atendeu a todos dizendo que se tratava de uma questão privada e, como tal, não falaria sobre o assunto.

Microtendências, ou Deus está nos detalhes

Você sabia que, cada vez mais, jovens norte-americanos estão fazendo crochê? Que o judaísmo é a religião mais querida aqui? Que está havendo uma explosão de nascimento de pessoas canhotas? Que a população de solteironas nos Estados Unidos quase dobrou de 1970 a 2005? Que existem cerca de 30 milhões de pessoas tatuadas? Ou que um milhão de homens norte-americanos fizeram operação plástica em 2006? É um punhado de informação (ou cultura inútil) que a gente vê aqui e ali, e que até hoje não sabia que se tratava de uma microtendência, um termo inventado recentemente que está dando o que falar nos Estados Unidos.
Tudo começou quando o especialista em pesquisas Mark J. Penn, hoje CEO da Burson-Marsteller, uma das maiores empresas de relações públicas do mundo, trabalhava para o então presidente Bill Clinton na Casa Branca, em 1996. Ele começou a perceber um fenômeno: mulheres brancas, casadas, moradoras dos afluentes subúrbios norte-americanos, devotadas aos filhos, estavam se tornando, muito mais do que os maridos, uma força política expressiva. Um detalhe que passava desapercebido nas pesquisas.
Penn as apelidou de “soccer moms”, não no sentido literal de mães de futebol, mas aquele tipo de mulher atribulada que leva os filhos de atividade em atividade, em carrões espaçosos, e que até então, pensava-se, estavam indefinidas politicamente. Clinton entendeu a mensagem, levou o assunto a sério e prometeu medidas que lhes agradavam, como coibir o tabaco entre os adolescentes, obrigar escolas a fazer testes de detecção de drogas e leis que limitam a violência na TV. Acabou se reelegendo com a ajuda delas.
Penn escreveu um livro sobre estes pequenos e intensos grupos que têm suas próprias necessidades e raramente aparecem no radar de marqueteiros, varejistas, publicitários, jornalistas ou quem quer influenciar os hábitos da sociedade. Junto com E. Kinney Zalesne, que também serviu na Casa Branca, lançou Microtendências –As Pequenas Forças por Detrás das Grandes Mudanças do Amanhã –, que não sai da lista dos mais vendidos do The New York Times desde setembro.
O livro reúne 75 microtendências em assuntos tão díspares quando amor, trabalho, religião, saúde, vida familiar, política, dinheiro, educação, lazer, moda e dietas. São coisas que gente, por assim dizer, não sabia que sabia. Por exemplo, que embora nasçam mais meninos que meninas, há falta de homem no mundo. Adolescentes machos morrem mais do que adolescentes fêmeas, enquanto que a população de gays homens é o dobro de mulheres lésbicas, pelo menos nos Estados Unidos. Ou que está explodindo o número de aposentados que, por terem uma vida mais longa ou por não gostarem de ficar em casa, continuam trabalhando. Ou ainda que está aumentando o número de pais-avós, que têm filhos depois de fazer o 55º aniversário.
A conclusão é que hoje em dia o mundo não age monoliticamente, mas é uma coleção de pequenos pontos que precisam ser juntados, e examinados, um a um. O mundo virou um grande Starbucks, onde cada um dos milhões de clientes que entra em suas 13 mil lojas é tratado pelo nome e pode escolher uma das 11.735 mil variedades de café, chá ou outra bebida qualquer. Cada um é cada um ou, como se diz, cada caso é um caso. Deus está nos detalhes.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Rei do xadrez quer ser presidente

Os Estados Unidos assistiram na semana passada à genialidade de Garry Kasparov, 44 anos, o maior enxadrista de todos os tempos, o russo-armênio-judeu nascido no Azerbaijão que derrotou com mão de ferro seus adversários e que agora encabeça a oposição ao presidente Vladimir Putin para a eleição de 2008.
Kasparov, que chegou a vencer por duas vezes o Deep Blue, o computador da IBM construído para derrotá-lo, encantou a platéia americana em programas de TV como o 60 Minutes (CBS), Bill Maher (HBO) e Stephen Colbert (Comedy Central) com sua inteligência, perspicácia e inglês shakespeariano. Saiu aplaudido em todas as ocasiões. Pena que o eleitorado esteja a mais de 7 mil quilômetros de distância e não entenda inglês.
Até Kasparov aparecer nos Estados Unidos a pretexto de lançar seu 22º livro, Como a vida imita o xadrez, acreditava-se que os gênios do jogo inventando pelos persas no século 12 fossem geniais apenas para jogar xadrez. Mas ele, que lidera a coalizão "A Outra Rússia", onde coabitam diversas correntes políticas, inclusive a extrema direta, está mostrando o contrário. Sobressai-se com respostas que deixam os jornalistas desarmados. Exemplo:
- Como o senhor quer ganhar a eleição contra um presidente (Vladimir Putin) que tem 80% da preferência da opinião pública? - indagou Maher.
- Se George Bush controlasse a imprensa e os institutos de pesquisa ele teria um índice de aprovação de 90% - respondeu o enxadrista.
Kasparov foi preso, multado e investigado pela polícia russa. Milionário e famoso - é um herói nacional - anda com guarda-costas, varia seus trajetos diariamente e manda a família com freqüência ao exterior. Sua luta é para trazer de volta a democracia à Rússia, que desde o advento de Putin, há sete anos, "estabeleceu censura à imprensa, cancelou eleições, entregou as empresas e recursos naturais aos seus aliados e parece não ter muita vontade de entregar o cargo", diz.
- É uma ameaça não só ao futuro do meu país, como à estabilidade de todo o mundo - completa.
Kasparov reconhece que está diante da maior jogada da sua vida. Pelo menos três opositores de Putin já se deram mal. A repórter investigativa Anna Politkovskaya foi morta em seu prédio, em Moscou. O ex-agente da KGB Alexander Litvinenko foi envenenado em Londres com polônio. E Mikhail Khodorkovsky, um dos bilionários russos depois do fim da União Soviética, está preso na Sibéria. Não há evidência de que Putin esteja por trás destes atos, mas há consenso de que coisas ruins acontecem a pessoas que desafiam sua autoridade. Kasparov sabe que poderá figurar nesta lista:
- Faço uma política de redução de riscos, embora ninguém esteja seguro na Rússia de Putin - afirma.
Vladimir Posner, apresentador de um programa de entrevistas, diz que Kasparov é um brilhante jogador de xadrez, mas hoje, em termos políticos, uma figura decorativa.
- Ele não seria eleito nem para ser o dono da carrocinha de cachorros da cidade - brinca.
Para Vyacheslav Nikonov, assessor do Kremlin, Kasparov representa "apenas 3% ou 4% do eleitorado liberal que não está satisfeito com Putin".
- Nas pesquisas de opinião, você não vê a democracia entre os 30 principais itens que preocupam os russos. À frente, queremos empregos, o fim da corrupção, do crime e a volta da assistência governamental - sustenta o especialista.
É o que Putin está fazendo.

Macaco, Tião, Cacareco e Cia

Aos ilustres nomes do título acima adiciona-se, agora, o de Stephen Colbert, o maior humorista americano da atualidade, que semana passada anunciou ser candidato à Presidência dos Estados Unidos por ambos os maiores partidos, Republicano e Democrata. Colbert registrou-se quarta-feira pela Carolina do Norte, o Estado onde foi criado, e com sua força – seu programa The Colbert Report é um dos mais vistos na TV americana – é capaz de atrapalhar o caminho de muita gente, da mesma forma que advogado dos consumidores Ralph Nader roubou votos do democrata Al Gore e deu a presidência americana ao republicano George W. Bush em 2000.
Tião era um macaco, Cacareco um rinoceronte, mas Colbert é diferente. Ao lado de Jon Stuart, do The Daily Show, representa uma incrível tendência na política americana: os eleitores preferem se informar sobre política em programas que ridicularizam os políticos. A política tradicional, aquela que os gregos elegeram como a atividade mais importante do ser humano, ficou restrita aos sonolentos debates da TV e nas mãos de poucos eleitores (30% da população) que ainda se dispõem a sair de casa e votar.
Em seu programa de meia hora no final da noite no Comedy Central, Colbert desdenha de todo mundo, especialmente dele mesmo. Ele era um obscuro ator quando começou a trabalhar para o The Daily Show, onde fez sucesso como correspondente sênior na Casa Branca entre 1997 a 2005. A receptividade foi tão grande que o próprio Jon Stuart convidou (e produziu) um programa para ele, o The Colbert Report, uma paródia ao programa do porta-voz da direita, Bill O’Reilly, do The O’Reilly Factor, na Fox News.
` Colbert começou a chamar atenção dos políticos quando iniciou uma série de entrevistas com boa parte dos congressistas americanos no Capitólio, e freqüentemente parecia dormir à frente dos deputados ou fazer perguntas sem nexo que deixavam os parlamentares perplexos. Os próprios deputados e senadores se ofereciam para aparecer no programa, confiando na alta audiência. Mas a coisa ficou tão ridícula que a liderança do Partido Democrata recomendou que os deputados evitassem o programa para não ridicularizar o Parlamento.
O sucesso do comediante só aconteceu entre o grande publico quando, no tradicional jantar da Associação dos Correspondentes da Casa Branca, chocou o presidente Bush com piadas desrespeitosas para um chefe de Estado, seja ele qualquer. De repente, sua audiência subiu cerca de 30% no Comedy Central. Afinal, Colbert não tem compromisso com ninguém, nem com ele mesmo. Se autodescreve como “bem intencionado, pouco informado...um idiota de alto nível”, ao mesmo tempo “egomaníaco, xenófobo e anti intelectual”.
Uma pesquisa da Public Opinion Strategies mês passou descobriu que Colbert receberia 2.3% dos votos democratas, mais do que Bill Richardson, Christopher Dodd, Dennis Kucinich e Mike Gravel, que disputam com Hillary Clinton e Barack Obama a indicação do partido para a presidência dos Estados Unidos. Ele receberia 13% se sua candidatura fosse independente contra Rudy Giuliani, o favorito dos Republicanos, ou mesmo contra Hillary Clinton.
Os resultados são especialmente contundentes entre jovens de 18 a 29 anos, onde Colbert tem 28% da preferência do eleitorado. Um comentarista de TV chegou a dizer que ele estaria à frente dos todos os demais candidatos agora em meados de novembro. No Facebook, o site de relacionamento mais famoso do mundo, ele tem um fã clube de mais um milhão de jovens, e é considerado o grupo que mais cresce em toda a história do site – 83 pessoas por minuto.
Colbert diz já ter 15 milhões de dólares no caixa de campanha, através de doações do Doritos, a fritura vendida pela Pepsi. Já disse que, se eleito, “será tão bom para o país quando Doritos é para o seu corpo”. Os aspectos legais da campanha – se ele pode ou não ser candidato, principalmente- já dividem democratas e republicanos. Muitos blogueiros o chamam de “O Retrocesso Colbert”, por invadir o território político cruzando a linha da sátira e, assim, bagunçando todo o processo.
Colbert presidente pode ser uma sátira exagerada, como no filme “O Homem do Ano”, com Rob Willians. Mas ele já foi eleito pela revista Time uma das celebridades mais influentes de 2006, enquanto o New York Magazine o escolheu como uma das mais influentes personalidades da mídia. Em 2007, foi eleito pelo U.S. Comedy Arts Festival como A Personalidade do Ano e Um dos mais sexy homens vivos, entre outros prêmios. A coisa ainda está na brincadeira, mas como na história do bode na sala, está começando a incomodar. Seriamente.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

A espiã traída pela Casa Branca

Depois de tomar café com os filhos, na manhã de 14 de julho de 2003 num subúrbio de Washington, a agente da CIA Valerie Plame Wilson lia o Washington Post quando levou o maior susto da sua vida. Um dos mais famosos colunistas da capital americana, o conservador Robert Novak, revelava que a espiã, há 18 anos trabalhando na agência, era a mulher do ex-embaixador Joseph C. Wilson IV.
Wilson, ex-diplomata com cara de galã, tinha chegado da África e revelado no New York Times que o enriquecimento de urânio em Níger para servir aos propósitos bélicos do ditador do Iraque, Saddam Hussein - principal razão alegada por George Bush para invadir o país - não passava de lorota.
Revelar a identidade de um agente secreto, segundo a lei americana, é crime que prevê multa de US$ 50 mil e 10 anos de cadeia. A agente deduziu que, a partir dali, seus filhos, seu marido e a sua rede de relações estavam em perigo. Tornavam-se alvos da Al Qaeda e de Osama bin Laden.
Até domingo passado, cinco anos depois, Valerie - uma loira estonteante nascida no Alasca em 1963 que poderia ser a versão feminina do 007 James Bond, filha e irmã de militares - foi obrigada, por força do cargo, a ficar calada. Qualquer manifestação poderia aguçar a ira da própria CIA.
A agente secreta, treinada para ser submetida a interrogatórios com torturas físicas e psicológicas, escolheu Katie Couric, do 60 Minutes, da CBS, para botar a boca no trombone. Mas o que se esperava ser uma cartada para desmascarar Bush virou blefe, conversa de madames em rede nacional.
Ela acabou de lançar sua biografia, Jogo justo - Minha vida como espiã, traída pela Casa Branca (Simon & Shuster), numa alusão ao ex-assessor político de Bush, Karl Rove, que considerou a revelação de sua identidade um jogo justo de retaliação contra seu marido.
Metade do livro foi rabiscada pelos seus ex-chefes, a pretexto de proteger a segurança nacional. E, assim, pela primeira vez na história, um livro de US$ 26 dólares foi publicado pela metade, o que gerou uma ação judicial contra a CIA. Numa entrevista do tipo "de mulher para mulher", Valerie revelou o que é ter uma vida tranqüila - mesmo como agente, trabalhava só meio expediente para cuidar dos filhos - e ser devassada para justificar uma guerra que ceifou a vida de 4 mil americanos e provocou gastos de quase US$ 1 trilhão.
A revelação da identidade de Valerie gerou pressões do Poder Judiciário, que quis saber de onde saiu a informação publicada nos jornais, traindo um preceito em voga desde que a imprensa existe: o direito de não revelar as fontes.
Robert Novak, que deu o furo no Washington Post, fez acordo com a Justiça e livrou-se da cadeia para não ter que revelar quem falou. Judith Miller, do NYT, passou 85 dias no xadrez por se recusar a fazer o mesmo. Os patrões dos jornalistas gastaram pelo menos US$ 5 milhões com advogados.
A exemplo do Watergate, revelou-se que a fonte da informação era a Casa Branca, do gabinete do vice-presidente Dick Cheney. Para proteger a instituição da Presidência, o assessor I.ewis "Scooter" Libby, pagou o pato.
Foi condenado a multa de US$ 250 mil e 30 meses de prisão, comutada pelo presidente Bush, em julho deste ano. Valerie, que se mudou para o Novo México, aposentou-se da CIA e hoje vive para o marido - que se tornou consultor internacional - e os filhos.
A maior vítima foi a verdade. Como não foi comprovado que Sadam tinha armas de destruição em massa em seu quintal, ou qualquer relação com o Al Qaeda, Bush e Cheney estão devendo explicação para a guerra, mais longa que a Segunda Guerra Mundial, e no meio de facções que duelam há séculos.

Brasil, atrção na terra de Clinton e Sam Walton

Distante, despovoado e empoeirado dos filmes de cowboy, o Estado de Arkansas, ao sul do rio Mississipi, no coração do chamado cinturão bíblico dos Estados Unidos, sempre foi conhecido como o reino dos frangos, porcos e bois por ser, há muitos anos, o maior fabricante de proteína animal no mundo.
Há um pouco mais duas décadas, no entanto, o Estado ganhou celebridade por abrigar a maior empresa mundial, o Wal Mart, criado por Sam Walton, de Bentonwille, e William Jefferson "Bill" Clinton, o 42º presidente norte-americano, da cidade de Hope. Clinton está tão onipresente no Arkansas quanto sua mulher, Hillary, está na liderança das pesquisas de opinião para a sucessão de George W. Bush.
O que pouca gente sabe é que o Brasil é a maior estrela no radar de negócios do Arkansas. Sentado em bilhões de dólares dos Rockfeller, que se mudaram para cá no século passado, ou na riqueza trazida por empresas como a Tyson Foods, processadora de carnes, ou da transportadora de caminhões J. B. Hunt, ambas gigantes globais, governo, universidade e a iniciativa privada se uniram para conquistar o Brasil.
Por quê? A primeira resposta é o etanol, mas a partir daí as possibilidades são infindáveis. “Por sermos uns dos estados mais centrais dos Estados Unidos, termos um eficiente sistema de transporte e estarmos próximos aos portos de Houston, no Texas, e Nova Orleans, na Louisiana, nos consideramos candidatos naturais para receber e distribuir o notável combustível brasileiro”, diz John Kadyszewski, da Winrock International, uma fundação mantida pelos Rockfeller e sediada no Estado.
Aqui vão algumas oportunidades para as empresas brasileiras no Arkansas (pronuncia-se arcanssá, com o “r” bem puxado, e significa na linguagem indígena “povo do rio abaixo”):
- Aeronáutica – O estado tem fábricas da francesa Dassault Falcon Jet e das americanas Lockheed Martin e Raytheon. A ênfase é na finalização da produção de aviões. Para quem produz ou transforma peças para a indústria aeroespacial, como o cluster de São José dos Campos ao redor da brasileira Embraer, é uma excelente oportunidade para diversificar o portfólio de clientes.
- Logística – Com 100 aeroportos, 26 ferrovias e recentes investimentos de US$ 1 bilhão em suas estradas, Arkansas não só tem as duas maiores empresas transportadoras do mundo, como a J. B. Hunt, mas também 2,4 mil quilômetros de rios que levam aos principais portos norte-americanos. Para o pessoal de logística no Brasil, um lugar na metade do caminho entre o México e o Canadá, ou entre as Carolinas e a Califórnia, é um paraíso ainda a ser explorado.
- Educação - Energizada como doações de bilhões de dólares dos acionistas da Wal Mart e da Tyson Foods, a Universidade do Arkansas é líder em setores tão díspares quanto realidade virtual e nanotecnologia. Com anuidades que não passam de US$ 5 mil dólares, ínfimas se comparadas a outras instituições norte-americanas, a instituição quer atrair suas congêneres brasileiras com programas de intercâmbio de estudantes e professores. Uma das grandes atrações da Universidade é o Clinton School of Public Service, que oferece MBA para líderes que queiram fazer o bem.
- Wal Mart – A maior empresa do mundo, com 1,9 de funcionários, vendas de US$ 349 bilhões e presente em 14 países, é um país em si. Tornar-se fornecedor do Wal Mart, embora tenha de se passar pelo calvário das negociações ditadas pelo mantra “economizando para os clientes, e assim melhorando suas vidas”, é um passaporte para o sucesso. Só nos arredores de Bentonville, cerca de 12.500 fornecedores disputam os espaços para ficar mais perto da maior compradora de produtos do mundo.
- Biotecnologia – Criada por incubar empresas de biotecnologia com o dinheiro das patentes científicas, a Bioventures já tem no currículo sucessos das descobertas no tratamento do mieloma (câncer no plasma sanguíneo), prolongamento da vida de pacientes com câncer, recuperação de tecidos e outras maravilhas da genética. Já criou 19 empresas e detém hoje 165 patentes.
“O Brasil é candidato natural a ser um dos nossos grandes parceiros”, diz W. Dan Hendrix, CEO do World Trade Center de Arkansas, o centro de uma máquina unida, abastada e eficiente que trabalha 24 horas por dia, sete dias por semana, para atrair investimentos e outros negócios para o Estado. Hendrix é também um fundraiser profissional. Já conseguiu um bilhão de dólares para a Universidade do Arkansas.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

A quem interessa o fim da imprensa?

Se a imprensa acabasse, ou perdesse sua independência, George Bush transformaria o mundo num quintal dos Estados Unidos, Lula e sua camarilha jamais sairiam do Palácio do Planalto e Hugo Chávez... bem, o ditador venezuelano já deu uma mostra do que seria o mundo sem jornais, TVs, rádios que exerçam a liberdade de expressão.
Desde a bolha da internet, o modelo de negócios da imprensa está a perigo porque os anunciantes dispõem de outras dezenas de meios para atingir seu público. Emails, outdoors, TVs, blogs e sites de relacionamento estão drenando o dinheiro que ia para os jornais. Assim, o jornalismo investigativo, o mesmo que extirpou Richard Nixon ou Fernando Collor da presidência, ou descobriu o roubo da Enron ou o escândalo do mensalão, está a perigo.
Mas a sociedade está reagindo. Nos Estados Unidos, anunciou-se na semana passada mais uma organização sem fins lucrativos que, fundada por doações milionárias, tentará suprir a partir de janeiro de 2008 a falta de recursos dos jornais para colocar repórteres nas ruas que descubram as malversações de dinheiro público ou privado.
A Pro Publica, com orçamento de US$ 10 milhões anuais, começará contratando 24 jornalistas em Nova York (e mais dezenas de administradores) para, através de matérias investigativas, distribuir gratuitamente o material entre os grandes jornais, como o The New York Times e o Los Angeles Times.
Depois do Center for Investigative Reporting em San Francisco, e do Pulitzer Center on Crisis Reporting em Washington, é a terceira organização do tipo nos Estados Unidos.
No caso do ProPublica, os financiadores são o casal Herbert M. e Marion O. Sandler, ex-executivos do Golden West Financial Corporation, baseados na Califórnia, que ficaram ricos vendendo o negócio de hipotecas para o Wachovia Corporation por US$ 26 bilhões recentemente. Ficaram com US$ 2.4 bilhões no bolso. Outras fundações também participam do projeto com doações menores.
O casal, já na casa dos 70 anos, é conhecido como os segundos maiores filantropistas dos Estados Unidos em 2006, doando cerca de 1,3 bilhão de dólares ao Sandler Family Suporting Foundation. No passado, eles financiaram pesquisas na área de asma e malária, bem como o tratamento da Doença de Chagas na América do Sul. Os Sandler também doaram recursos para grupos de diretos humanos como o American Civil Liberties Union e o Human Rights Watch.
Eles também são apoiadores do Partido Democrata, o que levanta suspeitas sobre a imparcialidade do novo serviço de notícias. “Mas a página editorial do The Wall Street Journal é também um porta voz da direita nos Estados Unidos”, disse o presidente e editor chefe do novo serviço, Paul E. Steiger, ele mesmo ex-editor do WSJ por dezesseis anos, onde fez a redação ganhar 16 prêmios Pulitzer, o Prêmio Esso dos norte-americanos.
Em entrevista à PBS, a rádio pública norte americana, Steiger adiantou que o sucesso do Pro Publica será medido pelo número de funcionários públicos defenestrados do poder ou de empresas privadas indo para o limbo por escolherem as chamadas práticas não republicanas. O conselho será ocupado por gente de peso, como Henry Louis Gates Jr., professor de Harvard especializada em estudos africanos, Alberto Ibarguen, ex-editor do the Miami Herald, James A. Leach, um ex-congressista do Iowa que dirige o Harvard’s Institute of Politics, e Rebecca Rimel, presidente do CEO do Pew Charitable Trust.
Estes serviços terão que se sobrepor a uma antiga prática dos grandes jornais, que é somente assinar serviços de agências de notícias, ou, nos Estados Unidos, trocar materiais especiais entre si. Mas os especialistas dizem que, com a crise financeira que assola os jornais, o serviço será benvindo.
“Eles estão de olho em alternativas de suporte para um jornalismo ambicioso”, disse Stephen b. Shepard, diretor da Escola de Jornalismo da City University, em Nova York, ao jornal The New York Times. “Paul E. Steiger tem a credibilidade e o discernimento para ter sucesso e, se eles fizerem um bom trabalho, obviamente os jornais aceitarão publicar as matérias”.
A situação ideal, no entanto, é que as três partes envolvidas nesta revolução que atinge a imprensa – público, mídia e anunciantes – cheguem a uma fórmula que garanta a perenidade dos jornais, que muito mais do que as outras mídias servem de fórum para a discussão de novas (e antigas) idéias, uma espécie de hiper ventilação dos canais democráticos que são a base das sociedades mais adiantadas em todo o mundo.